Old Man

5 Old Man 5


Notas iniciais
Não recomendado aos fanáticos religiosos.

Old Man #5

O salão era extenso, as janelas eram grandes e apresentavam uma espécie de triângulo formado por outros triângulos. Um símbolo que indicava superioridade e poder clerical. Os bancos eram perfeitamente arrumados e enfileirados. O altar de madeira situava-se sob um grande crucifixo, e mais adiante um membro da igreja, o próprio bispo. A igreja era simples, porém ainda assim mantinha uma certa quantidade de detalhes nas paredes, imagens de santos e outras idolatrias. No teto, uma enorme imagem pintada de alguma cena bíblica. Nos bancos, apenas duas pessoas, uma idosa e um mendigo, que dormia, talvez embriagado.

A luz que passava pelas vidraças era cinzenta e alguns raios que partiam o céu, também iluminavam o salão. O cheiro de incenso era forte e as inúmeras velas acesas já estavam derretendo. Era um ambiente de luz bruxuleante e atmosfera carregada de obscuridade e o cheiro característico de igreja. O bispo estava no meio da última missa do dia, em um eco penetrante e hipnótico. Em meio ao coro grave, do bispo, e a luz fraca das velas, as enormes portas de madeira pesadas rangeram por breves dois segundos e então bateram contra as paredes de mármore.

— A benção, bispo! – Disse a voz grossa e ríspida da figura que acabara de entrar. — Executarei neles grande vingança e os castigarei na minha ira. Então, quando eu me vingar deles, saberão que eu sou o Senhor. Assim disse Deus, meu caro bispo.

— Não entendo sua presença aqui, Velho, muito menos tal citação, com tom de escarnio. – Disse o bispo acendendo as velas que se apagaram, de costas para o salão. – Se veio aqui para insultar a igreja, sugiro que se retire, mas como sei que não veio para isso, assumo que também não veio não para confessar pecados, será que veio por causa de algum pecado que possa vir a cometer?

Os passos das botas de sola dura do velho ecoavam pela igreja, conforme ele avançava lentamente por entre os bancos. A senhora parou suas orações, o bêbado acordou, ambos se dirigiram para a saída, a senhora a passos curtos e rápidos, o bêbado cambaleando e soltando algumas ofensas a qualquer um que estivesse ouvindo. O Velho estava de cabeça baixa, com seu chapéu de cowboy cobrindo seus olhos, e um sorriso psicótico no rosto. O bispo se virou lentamente, revelando sua face.

Era um homem de mais ou menos cinquenta anos, vestia uma batina e possuía colares no pescoço, segurava um instrumento adornado, provavelmente para realizar algum tipo de ritual religioso, um aspersório. Ele usava um par de óculos redondo e um chapéu de algum grau um pouco mais alto na igreja.

— Sabe bispo, alguns se referem a mim como uma lenda. – Começou o Velho, praticamente ignorando o que o membro clerical acabara de dizer. – Já fui chamado de inúmeros nomes. “A morte vermelha”, “O mascarado”, mas meu favorito é “Velho”. Gosto dessas lendas sobre mim, me inflam o ego, me deixam mais confiante. Mas se tem uma coisa que eu odeio, é meu nome verdadeiro, tal como odeio os que sabem de sua existência.

— Aonde quer chegar com isso? – Disse o bispo, baixando sua cabeça, recobrindo seus olhos com as sombras, e baixando seu utensílio religioso.

— Que bom que perguntou, bispo. Como eu disse antes, sou conhecido por muitos nomes, mas não gosto que me chamem pelo meu nome de nascença. Acho que somos parecidos. – Disse o Velho com tom de provocação, enquanto dava mais um passo à frente.

O clérigo deu um sorriso, mas não era um sorriso de compreensão, muito menos de felicidade. Era um sorriso maléfico, mostrando os dentes, agora pontudos. Por outro lado, o cowboy também sorria, pois sabia o que estava prestes a acontecer. E ele gostava disso, dessa sensação de saber que estava indo como ele planejava. E que tudo estava para ficar insano. Caótico.

— Ainda não estou te entendendo, Velho. Aonde quer chegar?

— Vim apenas rever um amigo meu, “bispo” – Ele fez sinal de aspas com as mãos.

O sorriso do membro do clero se transformou em uma gargalhada, que ecoou pela igreja. Naquele momento, tudo pareceu ficar ainda mais escuro, e todas as figuras, ídolos e pinturas da igreja pareciam olhar o velho, que permanecia sorridente.

— Vamos logo com isso... – O cowboy fez uma pausa. – Lúcifer.

— Como se atreve e dizer este nome? – Cuspiu o bispo, agora se contorcendo em dor. –COMO SE ATREVE A DIZER ESSE NOME?! IMUNDO!

As paredes tremeram e algumas velas se apagaram. De um momento ao outro, todo o ar presente no cenário pareceu ficar mais pesado, e o bispo se debatia violentamente, contorcendo seus braços e costas, estralando cada osso, gritando e resmungando palavras que o Velho não podia compreender. O corpo esbelto do bispo começou a mudar, se tornando mais forte, com a pele rígida e escamosa, suas pernas foram tomando uma forma incomum e ficando peludas, e seus pês foram diminuindo e engrossando, até se tornarem cascos.

Após muitos resmungos, o que ficou foi apenas uma figura de mais ou menos um metro e noventa de altura com um torso nu, muito bem definido, braços fortes, pele avermelhada, chifres ondulados e pernas de caprinos. Era a própria forma popular do Diabo.

— Porra! – Disse a criatura em voz grossa, enquanto vestia um uma camisa e um paletó que simplesmente surgira de alguma chama originaria das próprias mãos do monstro. – Por que sempre que a gente se encontra você insiste em me transformar nessa merda dessa forma? É sempre uma desgraça, minhas costas doem, minha cabeça fica pesada e meus pés doem para caralho.

Em contraposição ao estado de raiva de Lúcifer, o Velho estava se contorcendo enquanto chorava de tanto rir.

— Ai, ai. É sempre engraçado. – Disse o cowboy. – Certo, certo, mas não vim até aqui para te ver fazer a sua performance, vim por causa do meu serviço. – Ele terminou a frase com a cabeça baixa.

— Afinal, veio me pedir ajuda? Não vá me dizer que não consegue concluir uma missão. Logo você, a lenda viva, A Morte Vermelha, o Velho? – Perguntou com escarnio, o Diabo. – Se veio até aqui me pedir um pacto, pode esquecer, o único que você fez deu merda, e você sabe muito bem disso.

— Sinto muito, meu caro amigo, não vim lhe pedir nada. – Disse o velho se aproximando e posicionando levemente a mão direita no coldre de seu revolver. – Vim apenas a trabalho.

O Diabo notou a ação sorrateira e mudou de atitude, transformando seu sorriso alegre em um sorriso nervoso, indicando um certo receio no que estava para acontecer. Ele deu um passo atrás, recuando em defesa, levantou seus braços para frente com as palmas das mãos abertas, sinalizando para que o Velho se afastasse.

— Ei cara, não vai me dizer que veio até aqui para isso. Por acaso cheirou cocaína de novo? – Disse Lúcifer substituído o sorriso receoso por uma expressão preocupada. – Você sabe as merdas que faz quando cheira.

— Você acha que eu quero? – Disse o velho, agora com um tom sério, como se estivesse em um enterro. – Acha mesmo que eu quero matar um amigo? Que eu quero matar um irmão? Acha que vim por que eu quero? Passamos por bons momentos, bebemos juntos, cantamos juntos, fomos para o inferno juntos, e voltamos de lá. Não vai ser fácil para mim sabe? É como se eu estivesse prestes a matar uma parte de mim mesmo.

O Diabo recuou ainda mais, seus olhos lacrimejaram por um instante. Todas as lembranças daquela amizade passaram diante de seus olhos demoníacos. Todos os bons momentos, as brigas, as férias que passaram no Rio Estige, nadando e surfando, torturando almas sem esperança, rindo e brincando.

— Cacete, que merda. Antes de mais nada, você sabe que eu não posso morrer né?

— Sim, eu sei, cara. Mas você vai ter que ficar preso lá, o que me atinge também, por que eu vou ter que ir até a Venezuela para te encontrar. Você sabe que eu amo o inferno, sabe muito bem o quanto eu amo lá, mas eu não posso mais pisar na porra da Venezuela. Você viu aquela porra daquele lugar? Está pior que a visão que a bíblia tem da sua casa. Fora que... eu fui proibido de ir para lá por ordem da ONU.

— Ué? Como então você colou lá no natal?

— Sabe o Gonzáles?

— Bigode ralo?

— É.

— Meio gordinho?

— Esse mesmo.

— Sei

— Ele sabe trabalhar.

— Saquei. Porra, que merda hein?

— Pois é. – Disse o Velho com pesar. – Mas enfim, vamos logo com isso. Só vai doer pra caralho.

O cowboy sacou o revólver e começo a carregar o capacitor de fluxo. Porem antes que pudesse puxar o gatilho até o final, foi interrompido pela voz grave e profunda de Lúcifer.

— Espera, espera, espera! – Ele balançou as mãos em sinal de alerta. – Calma lá, porra!

— Você quer fazer isso, que já está uma merda, virar uma banheira de bosta? Vamo logo com isso, não quero nem olhar. – O mercenário carregou o capacitor novamente.

— Ei, ei, ei, ei! – Interrompeu novamente o sátiro demoníaco. – É sério, você cheirou coca?

— Um pouco.

— Ta bom. Só me escuta e responde, pra eu ir pra casa com ódio no coração. Quem foi o cuzão que te mandou aqui pra me prender? – Perguntou com sinceridade o Diabo. – Eu te juro que se foi o Miguel ou o Pedro eu subo até aquela porra daquele escritório de merda e começo um barraco!

-Não, não foram eles, nem nenhum dos office-boys angelicais – Disse o Velho com pesar nos olhos – Foi Deus.

— O que? Aquele filho de uma cadela suja? – Cuspiu Lúcifer, batendo uma mão na outra. – Não consegue me banir, não consegue me prender, e agora pede para o meu melhor amigo fazê-lo. Que pau no cu de merda. Fica lá, so fumando maconha na porra da sala VIP do escritoriozinho chato dele e não tem um pingo de coragem de vir bater um papo comigo. Mas paga uma quantidade exorbitante para alguém vir e fazer isso no lugar dele. Sabe o que é isso né? Deus é corrupto, cara – Lúcifer disse enraivecido.

— Ei. Calma, meu bom. Relaxa esse cu aí. São só algumas décadas.

— Não estou bravo com você, você fez o que precisava. Eu entendo sua ética de caçador de recompensa de não negar um contrato contanto que seja uma criança ou mulher, não concordo, mas respeito. Estou puto é com esse bosta. — Continuou ele, se virando e abrindo as asas negras e escamosas. — Não precisa me matar, posso ir de bom grado para o exilio. Eu realmente não entendi por que ele te mandou aqui, a humanidade já está uma merda por ela mesma, meu trabalho terminou há muito tempo, eu só faço o que faço por diversão.

— Assombrar o pessoal?

— Não, torturar as almas que pecaram, lá em casa.

— Pensava que você vinha pra tentar a galera.

— Nem. Eu deixo isso pra um pessoal que curte essas coisas, que alias não me atraem nem um pouco. Puta cuzisse sair por ai fazendo as pessoas se foderem. Elas que se fodam sozinhas.

— Saquei.

— Só me promete uma coisa? – Disse o demônio se virando.

— Fala mano. – Respondeu o Velho, guardando novamente o revolver no coldre.

— Se quiser tomar uma cerveja, fumar um charuto, ou conversar, estarei no Sétimo ciclo. Por favor, não me deixa com os caras lá de baixo, você sabe como o Belz pode ficar chato pra caralho.

— Pó, claro. Eu passo lá no feriado. – Disse o cowboy ajeitando o chapéu.

— Por isso que eu te amo, seu filho da puta. – Se despediu Lúcifer, entrando pelo portal infernal que se abrira na parede da igreja. — Bom, falou, até a próxima.

— Até. – Disse o mercenário com peso no coração. – Só manda um sinal lá pra firma, pra eu não perder a viagem!

— Podeixar! – Respondeu a voz demoníaca em meio aos lamentos que vinham do portal ainda aberto.

O Velho olhou com pesar para a fenda infernal que se fechava aos poucos.

Notas finais
Começamos bem.