Old Man
4 Old Man 4
Notas iniciais
Old Man #4
— Por que? Por que tinha que ser justo você, Xing?! – A voz desgastada dividia espaço com os ecos da sola dura do mercenário vestido de cowboy.
O lugar era como se fosse a base de operações de um bunker, aliás, era exatamente onde os dois personagens estavam. Um bunker altamente tecnológico, construído no subsolo de um enorme palácio tradicional chinês. Um local respeitado e honrado naquela cidade. A localização não era nada conhecida, pois estavam na Terra 3, onde o alvo era um dos governadores da cidade da mais alta tecnologia bélica daquela Terra, daquela dimensão. Xing, um homem chinês, alto e magro. Usava um bigode simétrico, não muito volumoso, porem pontudo, com alguns pelos grisalhos, assim como os de seu cavanhaque, triangular. Seu cabelo estava sempre bem arrumado e pintado, levando a coloração que lhe foi arrancada pela idade.
— Cacete, éramos quase irmãos! – Disse o Velho, para seu alvo, parando a sua frente. – Sinceramente, velho amigo, você era a última pessoa que eu esperava matar, ainda mais por causa do trabalho.
— De fato, Velho. De fato. Não imaginava, também, que fosse você quem iria me matar, estava pensando na EOG, ou até mesmo algum membro da Yakuza, mas nunca pensei que fosse você. –Disse Xing, sem desfocar sua visão do chão, a sua frente. – Quanta desonra hein cowboy? Você invadir a minha cidade, minha casa, meu bunker pessoal. Me questiono quantos de meus aliados você matou, simplesmente para chegar até mim.
— Se algum aliado seu estava na frente de alguma porta ou painel de controle, bem, considere-o morto. Além do mais, você, melhor do que ninguém, sabe que eu não me importo com números.
— Engraçado. Se me lembro bem, não era assim que você se portava quando o conheci.
— Eu era novo na época, mal sabia pegar numa arma direito.
— Mas sabia exatamente onde estava o lenço de papel, não?
O clima ficou pesado de um segundo ao outro. Como se estivessem 50 metros abaixo da superfície oceânica, com 5 atmosferas a mais no bunker. Uma verdadeira panela de pressão, prestes a soltar fumaça e a apitar. Os olhos idosos do Velho foram, de simplesmente raivosos, para uma coloração de puro ódio fumegante. Eram verdadeiras brasas acesas que fitavam o chinês em pé ali com ele.
— Como você...?
— Acha que eu não ouvia seus lamentos, Velho? Acha que eu não ouvia seus soluços de arrependimento? Mesmo naquelas malditas trincheiras, nos cantos mais escondidos onde um soldado poderia ter um momento para si, entre os pensamentos sobre a morte, acha que ninguém ouvia suas ladainhas? Sei que se lembra dos rostos das pessoas que matou naqueles dias. Sei que ainda te doem as faces dos inocentes os quais essa exata arma queimou. Sei, também, que desde aquela época, garrafa de whisky alguma conseguiu queimar mais sua garganta que as mortes que causou e as famílias que destruiu, seu filho da puta! E agora me diz que não se importa com números?!
— Cala a porra da sua boca, seu cachorro abortado!
— O que? Acha ninguém sabia das suas choradeiras noturnas? Você é fraco!
— Vou te mostrar quem é o fraco, comedor de cachorro!
O cowboy saltou na direção de Xing, com um soco poderoso em seu maxilar inferior, jogando o corpo do chinês para a parede de aço, como se fosse um boneco de pano, amassando a estrutura blindada. Sem tempo para sequer respirar, o homem foi atingido por um chute na lateral do corpo, sentindo os ossos racharem. Um segundo chute e as costelas estilhaçaram como vidro. Os olhos de Xing se fecharam com força, por causa da dor. Ele tentou se levantar, apoiando seu peso no joelho direito e nos braços, mas eles cederam por um momento, retomando a força logo em seguida.
O Velho deu um passo atrás, dando espaço para Xing se levantar, ou tentar. Sem grande sucesso, o chinês tossiu, e cuspiu sangue no chão cromado. Seus membros que apoiavam seu corpo cederam algumas vezes e tremeram, mas ele conseguiu se pôr de pé. De sua boca escorria sangue e seu maxilar estava torto para a direita.
— Anda, faça o que veio fazer! – As palavras saíram com dificuldade da boca torta de Xing, que abriu os braços. – Atire na única pessoa que você pôde confiar, seu merda! Vai, atira, seu desgraçado, na pessoa que te salvou a vida nas trincheiras! No cara que foi no hospital quando sua filha nasceu, e que te consolou quando ela morreu! Vai, atira!
— Cala a boca!!
O revolver foi engatilhado e o estampido elétrico da arma fez o trabalhou de avisar ao mundo que mais um homem havia morrido por aquele artefato. O corpo morto de Xing caiu no chão ainda com os olhos abertos. O Velho se aproximou do cadáver, vagarosamente e o virou. Os olhos de descendência asiática, agora sem vida, fitaram o assassino, que os fechou com os dedos.
Um som eletrônico em seu pulso informava que a quantia prometida pelo alvo fora depositada em sua conta. Um segundo “bip” anunciava uma mensagem de um outro contratante.
— De novo esse merda me chamando. Pensava que ele era onipotente.
O cowboy abriu o arquivo de contrato no relógio futurístico. O holograma mostrava um texto digitado, descrevendo a situação, com a foto do alvo e a quantia prometida. Era bem alta. O mercenário levantou o pano vermelho que carregava no pescoço até que cobrisse seu rosto um pouco acima do nariz, dando espaço para os olhos, onde ele vestiu os óculos escuros redondos.
— Matar mais um amigo. – Disse ele, sacando um dispositivo metálico, parecido com um controle de AppleTV. Ele apontou controle para frente e apertou o botão central. – Merda! – Ele entrou na luz azul.
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