Old Man
2 Old Man 2
Notas iniciais
Old Man #2
A forma pálida e magra foi arremessada para fora da luz turva e azulada, que se desfez logo em seguida. O barulho assemelhava-se ao de um saco de batatas sendo jogado no chão. A figura grisalha e barbuda se levantou lenta e dolorosamente, limpou a poeira de suas vestes, um poncho puído e roupas de cowboy. Tossiu um pouco, fez um pigarro e cuspiu saliva e tabaco no chão. Recuperou seu charuto e o repousou no canto de sua boca, ainda aceso, ele deu uma tragada.
— Ainda tenho que aprender a mexer com essa porra. –Disse ele guardando um objeto branco que parecia um controle de televisão, no bolso.
Soltou uma nuvem de fumaça, tal qual uma chaminé, fazendo-o tossir mais ainda. Ele podia sentir seus pulmões pegando fogo, chegando próximo de cuspir sangue junto com as tosses secas. O ambiente era de deserto, o solo arenoso, a secura do ar o faziam repensar o porquê de estar ali. Aliás, ele não tinha nem ideia de onde estava, só sabia que o portal que usara o mandou para ali por alguma razão, algo que tinha que fazer, e que seria pago. O calor era forte, mas não incomodava, pois ele estava protegido pelas vestes apropriadas. Ele andou por alguns quilômetros na terra rachada pela baixa umidade do ar, até encontrar algo no chão, era sangue, disso ele tinha certeza, mas estava seco como se tivesse evaporado, mas manchado o solo.
— Ah, droga. – Ele xingou. – Vou ter que matar mais gente. Não que fosse um problema, mas já cansei de seguir rastros de sangue. Só espero que eles tenham alguma bebida, e um fumo do bom, por que esse daqui está uma merda. –Disse ele puxando mais uma tragada do charuto, que já estava no fim.
Foi o que ele fez: seguiu o rastro de sangue seco do chão. Não demorou muito para ele encontrar o final da trilha. Era um casarão afastado da estrada que seguira. O rastro acabava ali. Ele andou cauteloso para perto do local. Era quase um cortiço, grande e com a estrutura frágil e seca, que poderia desabar a qualquer momento. Evitando qualquer objeto suspeito pelo caminho, ele progrediu devagar, por no máximo 2 minutos e meio, a partir daí ele apenas andou como se não se importasse com qualquer coisa.
— Ah, foda-se. Se eu tiver que morrer, pelo menos não quero morrer como uma bicha cautelosa. – Ele fez uma pausa. – Eu vou botar para foder.
Com esse monologo interior, ele seguiu até o casarão, desafiando quaisquer que sejam os seus alvos e suas armadilhas, se é que haviam armadilhas. Chegou na porta, ou melhor, o espaço onde deveria haver uma, entrou pisando sem o menor cuidado com o piso apodrecido, fazendo-o ranger a cada passo, sem preocupações.
— Fala aí cambada de filho da puta! – Exaltou ele esperando uma resposta. – Cheguei para foder com vocês! –Nenhuma resposta. A casa rangia como se um elefante a pisasse. A delicadeza do Velho era equiparada a de um rinoceronte alcoolizado.
Ele andou por todos os cômodos, entrou em todos os banheiros e procurou em todas as estantes. Nada. Nenhum rastro de sangue, nenhum indicio de passagem secreta, nenhum porão ou sequer sótão. A casa estava vazia, sem mobílias e sem janelas, só prateleiras juntas as paredes.
— Mas que porra está acontecendo aqui? – Xingou ele.
O velho foi até a sala e notou algo que não havia percebido antes. No canto do cômodo havia uma porta, entre duas prateleiras, uma porta suspeita. Ele então se aproximou sem se preocupar com qualquer coisa. Deu seis batidas leves na porta, fazendo um ritmo já conhecido e, ao dar a sétima batida chutou a porta de madeira, despedaçando-a em uma explosão de farpas e pedaços de madeira podre, que caíram por uma escada escura que ia para um andar de baixo.
— Ah ótimo, os caras que eu estou procurando são personagens clichês de filmes de terror. – Disse o velho virando os olhos em desprezo. – Olha tinha uma porta aqui, fico me perguntando aonde essa escada escura e secreta vai dar! – Zombou ele.
Os passos eram lentos, pois ele havia notado o chão escorregadio. Até a metade do segundo degrau ele tentou ser cauteloso, mas sua mente rude e impulsiva o impediram de prosseguir daquela maneira.
— Ora, que se fodam as precauções.
Ele deu um passo em falso e escorregou escada a baixo.
— Filha da...
Ele chegou até um salão já iluminado, onde duas figuras ainda não identificáveis, estavam abaixadas mexendo em algo, produzindo um som úmido e nojento
— Aí caralho, que dor nas costas. – Xingou o idoso, se levantando e pegando seu chapéu que havia caído junto com ele. – E ai galera! Estou procurando uns caras por aí e achei que vocês poderiam me ajudar, o que acham? –Disse o velho em tom alegre e despreocupado.
As incógnitas até então não tinham notado a presença do intruso. Até que o mesmo se levantou e entre uma pigarra e outra perguntou:
— Seus merdas, que tal me ajudarem aqui?
As duas figuras se viraram. Eram corpos moles, pele escura e gosmenta. Suas cabeças eram acopladas em seus troncos, sem pescoços. Seus braços eram longos e magrelos, o contrário de suas pernas que eram curtas porem musculosas. Seus corpos eram curvados, mostrando uma espinha ossuda como se fossem placas de ossos de dragões, não possuíam olhos, a apenas grandes e enrugados buracos escuros que cuspiam uma gosma verde avermelhada, devido ao sangue da vítima.
— Puta que pariu! – Recuou o Velho. – Vocês fedem pra caralho! Deus! Já pensaram em escovar essa boca de cu?
As duas criaturas se “olharam” e partiram para cima em uma investida rápida.
— Ah legal.... Vou ser devorado por cus andantes...
Ele sacou seu revolver e apontou para os agressores. Era uma arma de aparência velha, tal qual seu dono, porém, ao ser disparada liberou um raio vermelho em alta velocidade, acertando o que estava à esquerda. A rajada era potente o suficiente para atravessar o corpo mole e carnudo do monstro, queimando o interior do animal e explodindo na saída. Mais dois tiros acompanharam o primeiro, tendo certeza de que o primeiro animal estava morto, o velho mirou no segundo, mas já era tarde. O corpo derrubou o protagonista e se pôs acima dele, preparando sua boca gosmenta e banguela para o ataque final, soltando um rugido de triunfo.
— Caralho! Você fede muito!
Um chute no tórax do monstro o fez afrouxar as garras, dando espaço para um contra-ataque certeiro o velho. Uma grande quantidade de gosma e sangue explodiu na parede de concreto já úmida. A criatura grotesca não teve tempo de se virar, e levou mais três tiros do revolver lazer. O velho ajeitou o chapéu e fez questão de recarregar a arma para gastar mais seis tiros no corpo já morto.
— Morre filho da puta! Morre! Morre! Morre!
Ele se recompôs. Olhou para o corpo do sequestrado, seu alvo.
— Vamos Dr.Strobo, parece que eu nem precisei te matar. Ainda bem que só matei aqueles seres irracionais, não aguentaria te dar um tiro na cara. Deus te leve doutor.
Ele se sentou ao lado do corpo esquartejado e desfigurado, que ainda vestia um jaleco de laboratório. O odor era podre, mas as narinas do velho já não se incomodavam mais. Ele tirou seu chapéu, sua bandana, seus óculos, apoiou o rosto em seus braços, e pôs-se a chorar. Naquele momento todas as lembranças de sua vida martelaram em sua cabeça. As manchas de sangue no seu passado começaram a aparecer novamente. As vozes que clamavam por misericórdia gritavam em seus ouvidos, as vozes dos contratos, dos que ele precisou matar para garantir o jantar de seu filho. Por um momento ele apontou o revolver para sua boca e em meio a lagrimas, puxou o gatilho. Mas não havia munição.
As vozes pararam depois de um tempo, e tudo que restou foi um zumbido em sua mente. Ele se levantou, vestiu seus acessórios, recarregou a arma, guardou-a no coldre.
— Hoje não... Velha amiga.
Ignorou seu alvo e subiu as escadas.
Saiu pela “porta”, olhou para o céu, agora alaranjado, pelo pôr do Sol. Acendeu um charuto e tomou rumo pela estrada arenosa.
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