Old Feelings

13 Capítulo 12 - Desilusão


Notas iniciais
Olá, leitores! Bem, depois do capítulo anterior, eu achei que merecíamos algumas alegrias neste capítulo, o último. Falta muito pouco para a fanfic acabar, e ainda há muita coisa para acontecer, portanto, este capítulo é grande, o maior da fanfic, talvez. Boa leitura e nos vemos nas Notas Finais!

O mais terrível não é termos nosso coração partido (pois corações foram feitos para serem partidos), mas sim, transformar nossos corações em pedra.

– Oscar Wilde

Os noivos são primos!

A afirmação feita pelo tio Magnor causou um alvoroço tremendo dentro da capela. Eu me perguntava o que havia na cabeça dele para interromper meu casamento assim. Eu respeitava e admirava meu tio, e por isso sua atitude me deixou bastante confusa. Eu sabia que ele não diria uma coisa dessas sem provas, mas aquilo tudo me parecia bem impossível. Richard e eu primos? Como?

Richard disse que aquela era a coisa mais ridícula que já ouvira e acusou tio Magnor de ser louco. Ele replicou e disse que o nome de Richard na verdade era Edgar. Edgar Westerguard. Filho de Gardar e Lydia. Comecei a fraquejar e me apoie no altar. Tio Patrick e tio Magnor mostraram vários documentos e explicaram melhor a história. Concluíram dizendo que Smogdain não existia. Por fim, meu pai, irado, mandou os guardas revistarem o quarto de Richard e minha mãe cancelou o casamento. Meus pais foram junto com os guardas, e eu segui-os sem pensar duas vezes.

Queria não ter visto aquilo. Os guardas acharam o passaporte de Richard, provando que seu nome realmente era Edgar, não Richard, e cartas do pai. Meus pais não tocaram nas cartas, então eu discretamente as peguei e li. Eram horríveis. Nelas, Edgar e o pai discutiam sobre seus planos e como estavam enganando a mim e a minha família e distraindo tio Yran, que nem desconfiava que Gardar recebera visitas e cartas. Meu pai gritou para os guardas que trouxessem Edgar ali.

Ele sorriu maldosamente e contou calmamente como planejara e executara seu plano. Não parecia se importar e nem estar arrependido. Então ele virou-se para mim e disse, com um sorriso:

– Parece que este é o fim do nosso relacionamento, princesa.

Meu pai gritou com ele, lhe dizendo para não dirigir a palavra a mim. Edgar não se abalou e fez cara de tédio. Neste instante, percebi que ele era um psicopata. Droga, eu amava um psicopata que queria destruir minha família. Senti um aperto no peito e lágrimas nos olhos, ameaçando cair. Minha mãe fez menção de vir na minha direção, mas saí correndo antes disso. Eu não aguentava mais. Queria ficar sozinha e chorar.

Desci as escadas e corri para o pátio de entrada, ignorando os olhares curiosos ou espantados dos criados e convidados que estavam agora espalhados pelo castelo. Debrucei-me sobre um dos chafarizes e chorei. Chorei como se não houvesse amanhã. Pensei nas coisas que havia perdido. Meu primo, meu noivo, minha honra... Por que tudo tem que ser tão difícil para mim? Essas coisas só acontecem comigo! Por que não consigo ser feliz...?

Senti uma mão tocar meu ombro e me virei abruptamente. Gustav retirou a mão e sorriu. Ele estava muito bem vestido, e com o cabelo louro penteado para trás.

– Está tudo bem aí? – perguntou.

– Vai ficar – funguei. – Será que você...?

– Não. Desculpe, Alteza, mas me recuso a sair de perto de você agora. Acho que precisa de um ombro amigo. – Ele se agachou no chão coberto de neve. – Está bastante frio. Espero que volte para dentro logo.

– Eu... Eu voltarei. Só preciso...

– De um tempo sozinha para se acalmar. Eu sei. – Ele sorriu novamente. – Olha, Louise, eu só quero que saiba que eu estou profundamente triste pelo que aconteceu. E com muita raiva, também. Será que eu vou preso se quebrar a cara desse Edgar? Ouvi dizer que Nikolas já se encarregou disso, mas eu gostaria de tentar também.

Dei uma risada curta ao imaginar Nikolas esmurrando Edgar. Suspirei.

– Ah, Gustav... Dói tanto. Tanto. Eu amava Edgar, e ele me traiu friamente. Ele planejava me matar e matar minha família. Ele fingiu tudo. Cada palavra, cada carícia... Foi tudo dissimulação. Ele me magoou de uma maneira que eu pensava que nunca seria magoada. – Chorei novamente. – Eu não sei... Se vou conseguir confiar em alguém novamente.

Gustav me olhava de uma maneira triste e ao mesmo tempo carinhosa. Ele estendeu a mão e secou uma lágrima na minha bochecha com o polegar.

– Por favor, não chore. Eu faria de tudo para poupar suas lágrimas.

Eu lhe dei um sorriso infeliz.

– Você é o garoto que toda garota sonha em ter.

– Menos você.

Gustav apertou os lábios e respirou fundo.

– Quando eu disse que te amava, Louise... Eu fui completamente sincero. Eu te amo muito. Sou apaixonado por você. E dói na minha alma saber que a tenho tão perto... E ainda assim tão longe. – Ele suspirou. – Acho... Acho que por mais que um dia eu me apaixone por outra garota, vou continuar te amando. Mas eu não quero pressioná-la, de maneira alguma. Me considero um homem de sorte só por ser seu amigo.

Gustav me fitou por longos segundos. Em seus olhos, eu via sinceridade. Este era um dos grandes diferenciais entre “Richard” e Gustav. Enquanto Richard era misterioso, com o olhar indecifrável, Gustav era um livro aberto. Sempre honesto e sincero. Naquele momento, me senti mais próxima a Gustav do que nunca. Senti que havia uma conexão entre nós que nunca seria quebrada. Senti que ele estaria ali comigo para o que desse e viesse, não importando se seria minha paixão ou apenas meu amigo.

– Gustav, quero que saiba que eu já o amo como amigo, e que me apaixonar por você seria fácil. Mas agora... Eu não consigo seguir em frente tão rápido. Meu coração está despedaçado e eu preciso de tempo para pôr cada pedaço em seu devido lugar, e preciso de tempo para ter certeza de que posso confiar em você.

– Se você me disser que eu tenho uma chance... Por mínima que seja, eu irei esperar o tempo que for necessário. Um ano, uma década. Não importa para mim, desde que você me diga que eu tenho uma chance. Se disser isso, eu espero pacientemente.

– Você tem uma chance, Gustav. Mas eu sinceramente acredito que seria melhor para você se procurasse uma garota mais normal, menos... Problemática – aconselhei.

– Você não é problemática – ele sorriu. – Eu gosto de você, cabeça-de-fogo. Prefiro esperar. Não importa o que aconteça, estarei bem aqui, esperando por você.

– Obrigada...

– Olha só, vai começar a nevar. Vamos entrar? – Ele se levantou e me estendeu a mão.

– Vamos. – Aceitei sua mão e ele me puxou.

Gustav sorriu e tirou gentilmente a aliança do meu dedo anular esquerdo. Guardou-a no bolso do casaco e beijou minha mão.

– Vou mandar fazer um anel. Bem bonito. Vai lembrar você de um momento difícil que superou – disse ele.

Ele sorriu novamente e me acompanhou até o castelo.

______________

O resto do dia foi desgastante. Tio Patrick e tio Magnor voltaram para As Ilhas do Sul ao anoitecer, levando Edgar consigo. O castelo estava muito movimentado, com os criados andando de lá pra cá para desfazer a arrumação do casamento. De noite, quando eu lia – ou tentava ler – um livro no meu quarto, achei ter ouvido uma pedrinha acertar minha janela e fui verificar. Gustav estava parado debaixo da sacada, e me cumprimentou com um sorriso.

– Boa noite. Será que você pode descer aqui um instante?

Fiquei olhando para ele um pouco incrédula até ele insistir:

– Por favor, venha logo. Os mosquitos estão começando a incomodar.

Fiz a volta por dentro do castelo e fui até onde Gustav estava.

– Como é que você convenceu os guardas a o deixar entrar? – questionei.

– Eu disse que tinha um recado urgente para dar à princesa e eles abriram caminho.

– E que recado é esse?

Ele deu risada.

– Não tem recado nenhum. Na verdade eu queria convidá-la para olhar as estrelas, só achei que soaria meio estranho dizer isso para os guardas. Vamos? – Ele ofereceu o braço.

Segurei no braço de Gustav e caminhamos ao redor do castelo. Ele apontava algumas estrelas e constelações e fazia comentários, até que algo chamou mais a nossa atenção.

– Uma estrela cadente! – exclamou Gustav.

– Faça um desejo!

Vi Gustav fechar os olhos e fiz o mesmo. Pensei nas coisas que eu mais desejava. Paz de espírito? Felicidade? União? Não, havia algo que eu desejava mais do que isso. Desejo que Syver volte para casa. Gustav e eu trocamos um olhar e ele disse que ia me acompanhar de volta para o castelo.

______________

As semanas passaram rápido, o ano de 1841 chegou e o castelo parecia parado no tempo. Tudo estava num marasmo total. Gustav passara o Ano Novo conosco e agora vinha todo dia me visitar, fizesse chuva ou fizesse sol. Minha família gostava de Gustav, e ele parecia ser a única coisa que nos alertava de que ainda estávamos vivos. Certo dia, estávamos caminhando pela ponte que liga Arendelle ao reino, conversando e parando para olhar a paisagem.

– Seu anel ficou pronto – avisou Gustav. Ele pôs a mão no bolso e tirou um anel fino, enfeitado com arabescos e pequeninos rubis dali. – Sei que não ficou fabuloso, mas achei delicado. Lembra você.

Peguei o anel e o olhei de perto, admirada.

– Gustav... Essa é a mesma aliança que...?

– Sim, é sim – confirmou.

– Muito obrigada – agradeci.

– Disponha.

– Hoje faz um mês que Syver partiu – comentei, após uma pausa.

Gustav se debruçou sobre o muro da ponte e disse:

– Fico imaginando onde ele está. Como está vivendo, o que faz da vida agora...

– Tenho certeza de que se ele pudesse escolher seria vendedor de gelo.

– Nunca entendi esse gosto dele pelo gelo – Gustav riu. – Deve ser de família. – Ele fez uma pausa. – O cavalo de Syver não era negro?

– Era sim. Kaptein. Por quê?

– Aquele cavalo ali é muito parecido com ele.

Gustav e eu nos viramos na direção do reino, de onde vinha um cavalo negro. De longe, só podíamos ver o animal, mas à medida que ele foi se aproximando, percebemos o contorno de um cavaleiro.

– Não acredito – murmurei.

O cavalo se aproximou mais e eu enxerguei o rosto inconfundível de Syver.

– Meu Deus. Syver. Syver! – gritei.

Fui na direção do cavalo, que parou subitamente alguns metros à minha frente. O cavaleiro desceu e veio até mim. Sim, era ele! Seu cabelo estava um pouco maior e suas vestes eram as mais simples que eu já vira. Estava diferente, mas ainda assim, era ele. Os olhos, o sorriso... Eram os mesmos.

– Louise – ele deu um sorriso enorme e correu na minha direção, me abraçando forte.

– Pensei que nunca mais fosse vê-lo – sussurrei, derramando algumas lágrimas.

– Desculpe. Desculpe por fazê-la acreditar que havia a abandonado para sempre. Eu precisava de um tempo para mim, precisava ser livre, saber o que é viver... Agora eu estou aqui. E eu vou ficar para sempre, se me permitir.

Rompi o abraço e olhei fundo nos olhos marejados de Syver.

– Senti muitas saudades – confessou.

– Igualmente – sorri. – Syver... Tem tantas coisas que preciso lhe contar... Richard...

– Eu sei – ele me interrompeu. – Lamento muito por isso. Quando fiquei sabendo, decidi que era hora de voltar, peguei minhas coisas e tomei meu rumo imediatamente. – Ele secou uma lágrima minha. – Tudo vai ficar bem. É uma promessa. Agora... Gostaria que conhecesse uma pessoa.

– Quem?

Syver voltou até o cavalo e ajudou uma moça a descer. Até então, eu não havia a notado ali. Ela era morena, de olhos castanhos claros e bochechas rosadas. Ela sorriu para mim e fez uma reverência.

– Esta é Meredith, minha noiva – disse Syver, com o olhar apaixonado. – Meredith, esta é minha prima e melhor amiga, Louise.

– Muito prazer, Alteza.

– Por favor, me chame de Louise. – Abracei Meredith e sorri para ela. – Já a considero uma irmã.

Meredith olhou para baixo e sorriu.

– É uma honra, Alt... Louise.

Syver e Gustav se cumprimentaram com um aperto de mão forte e começaram a conversar em voz baixa.

– O que estão cochichando aí?

– Nada. Vamos voltar para o castelo, Louise? – desconversou Syver.

– Claro...

Syver e Meredith voltaram a pé de mãos dadas; ele puxando Kaptein pelas rédeas. Gustav e eu andávamos ao seu lado. Quando já estávamos a poucos metros dos portões de entrada, Syver estacou onde estava e disse:

– Acho melhor você ir na frente, Lou. Vai ser meio estranho se eu chegar assim.

Concordei com a cabeça e passei para frente de Syver. Havia alguns guardas fazendo a ronda pelo castelo, mas nenhum dos que nos viram disse nada. Gustav se apressou em abrir as portas do castelo para nós assim que chegamos.

– Kai? Gerda? – chamei.

Eles logo apareceram e Gerda conteve um grito de surpresa ao ver Syver. Ela correu para ele e o abraçou apertado. Deixei que eles matassem a saudade e pedi:

– Podem chamar todos aqui no salão? Acho que ficarão felizes de saber que Syver retornou.

Kai e Gerda assentiram e saíram para chamar os outros. Poucos minutos depois, tia Anna estava agarrada a Syver, chorando e pedindo desculpas. Depois que todos já haviam abraçado Syver, minha mãe exclamou:

– Isso merece uma comemoração! O reino todo vai ficar feliz com a sua volta, Syver. E, se quiserem, você e Meredith podem se casar amanhã.

– Sério? Isso é tudo o que queremos! Obrigado, tia Elsa – agradeceu Syver.

De fato, todos os cidadãos de Arendelle ficaram felizes com a volta do Príncipe Syver. A festa durou a noite inteira, com direito a bebida, música, dança e a presença do próprio Syver, que passou no reino para agradecer ao povo e celebrar também.

De manhã cedo, Syver e Meredith casaram-se na capela. Foi uma cerimônia simples e apenas para a família, – e Gustav, que era praticamente da família – como eles desejavam. O vestido de Meredith era simples, mas bonito. Renda branca, de mangas compridas; era da mãe dela.

Mais tarde, eles dançaram sua primeira valsa. Meus pais e meus tios se juntaram a dança, Gustav me convidou para participar e eu acabei aceitando.

– Eles parecem bem felizes – comentou Gustav.

Assenti.

– Syver disse que ela trabalhava num empório de roupas. O pai dela morreu há alguns anos e deixou o empório para ela. Syver e Meredith venderam-no antes de virem para Arendelle – contei.

– Sinceramente, eu nunca pensei que fosse ver Syver assim. Achei que ele fosse se casar com alguma megera e ser infeliz para o resto da vida.

– Bem, ele quase se casou. E agora, fico feliz por ele. Se fugir possibilitou-lhe livrar-se da Condessa e encontrar uma garota que ama de verdade, então está tudo bem.

– Tudo está bem quando acaba bem? – indagou Gustav, levantando uma sobrancelha.

– É, acho que sim. Embora as coisas não tenham acabado tão bem para mim. – Dei um sorriso sem graça e encolhi os ombros.

– Ainda vão acabar. Você vai ver, muitas portas ainda vão se abrir para você.

– Minha tia costumava dizer que o amor é uma porta aberta.

– É uma boa comparação. Às vezes você não gosta muito do que encontra na porta que abre, mas tentando é que se consegue. – Ele deu um sorriso encorajador e pôs no lugar um fio de cabelo meu.

– Vou me lembrar disso – sorri.

Ao final da dança, Gustav acariciou meu rosto e recitou:

– “Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.”.

Sorri.

– William Shakespeare.

– Exato – Gustav confirmou. – Eu tenho esperança de que tudo melhore. De que eu a veja feliz de novo, Louise, e de que um dia seu coração me pertença, assim como o meu lhe pertence.

Lentamente, Gustav aproximou seus lábios dos meus e me deu o mais delicado dos beijos. Então suspirou e me abraçou.

– Eu também tenho esperança, Gustav.

Notas finais
A frase do Gustav, ao dizer que estaria sempre ali, esperando pela Louise, é inspirada na música Right Here Waiting, de Richard Marx. Espero que tenham gostado, eu tentei compensar todo o tempo que a Louise passou com o Richard/Edgar da forma mais romântica possível com o Gustav. Enfim, nos vemos no epílogo! Bjs, e comentem!