Old Feelings
14 Epílogo
Notas iniciais
Um ano e seis meses depois...
— Hans, se você continuar fazendo isso, eu não vou conseguir me arrumar – eu ri, enquanto tentava fazer minha trança na frente do espelho.
— Arrumar-se para quê, minha querida? Por mim, nós poderíamos passar o dia inteiro aqui – respondeu ele, me abraçando por trás e beijando meu pescoço.
— Acontece que eu sou a rainha. Não posso deixar o reino de lado um dia que seja.
Hans me virou de frente para si e me examinou por alguns segundos com um sorriso maroto. Mordi o lábio inferior, tentando não sorrir.
— Mas hoje é um dia especial – replicou.
— Eu sei que é especial. É o dia do nosso aniversário de casamento. E eu adoraria ficar com você, mas ainda precisamos nos arrumar.
— Não podemos ficar mais um pouco aqui? – insistiu Hans.
— Não, nem mais um minuto, meu amor. – Eu abotoei seu colete e lhe dei um beijo rápido. – Vai logo.
Ele suspirou e olhou pela janela.
— Louise e Gustav parecem estar se divertindo.
— É mesmo? – Eu me aproximei da janela e olhei para o pátio lá fora. Louise e Gustav estavam sentados muito próximos no chafariz e pareciam estar dando um “amasso”.
— Não gosto da ideia da nossa filha se enroscando num homem desse jeito, mas ainda prefiro o Gustav ao Edgar – disse Hans. – Ele é neto do Almirante, é um bom rapaz.
Dei risada.
— Em primeiro lugar, Louise não está “se enroscando” com ninguém. Ela está só namorando, o que é um direito dela. E além do mais, eles já estão noivos.
Hans franziu a sobrancelha.
— Eu não te agarrava desse jeito antes de nos casarmos.
— Tem certeza? – questionei.
— Bem, não em público.
— Não importa, já estamos atrasados.
— Antes, vem aqui um minuto.
Eu me aproximei de Hans e coloquei as mãos em seus ombros. Ele segurou minha cintura e acariciou meu rosto, puxando-me para um beijo caloroso.
— Feliz aniversário de casamento, Elsa – sussurrou.
— Feliz aniversário de casamento.
Afastei uns fios de cabelo da frente de seu rosto e perguntei com a voz suave:
— Vamos?
— Espera. – Hans pegou as luvas e as calçou. – Vamos.
Segurei seu braço e descemos para tomar o café. Sentadas à mesa na sala de jantar estavam Lynae, que escrevia uma carta – provavelmente para Isaac –, e Meredith, que fazia seu desjejum. Num sofá mais afastado estavam Syver, Kristoff e Anna, que tinha nos braços o pequeno Cesar, filho de Syver Meredith, com apenas três meses. Os três sorriam e brincavam com o bebê. Hans e eu desejamos bom-dia a todos e sentamos para tomar o café da manhã. Gustav e Louise chegaram logo depois, de mãos dadas, seguidos por Nikolas e Daven.
— Feliz aniversário de casamento – desejou Louise, beijando minha bochecha e a de Hans.
— Você lembrou?
— Eu nunca esqueceria, mãe.
Ela sorriu e se sentou ao lado de Gustav, brincando também com Cesar. Olhei para Nikolas e imaginei que havia algo de diferente nele. Observei-o por um tempo e notei.
— Sem as luvas hoje, filho? – perguntei com um sorriso.
— Estou experimentando ver se controlo os poderes sem as luvas. Até agora não aconteceu nada, e eu estou gostando dessa sensação de liberdade – ele sorriu.
— Que bom, Nikolas! – exclamou Louise.
— É uma ótima notícia – comentei.
Ele sorriu e se se encostou à parede, observando Anna falar com Cesar. Daven abriu uma folha cheia de desenhos, números e riscos em cima da mesa e começou a fazer anotações num caderno. Agora ele tinha colocado na cabeça que seria inventor, e que começaria criando uma máquina de escrever.
— Ah, veja, Syver! Ele tem os seus olhos – disse Anna alegremente.
— E o nariz da mãe – acrescentou Syver, dirigindo um sorriso emocionado para Meredith.
— Espero que isso seja uma coisa boa – respondeu ela, segurando uma risada de bochechas coradas.
— É claro que é.
Ele deu um beijo na mão da esposa voltou as atenções a Cesar que, segundo disse Gustav, tinha acabado agarrar seu dedo.
Conversamos e rimos o restante da manhã. Hans e eu trabalhamos durante a tarde e ao pôr do sol ele me levou para caminhar ao longo da ponte do reino.
— Então... Quem diria, já faz mais de 20 anos que nos casamos – disse Hans, casualmente.
— 22 anos – corrigi, pensativa.
— Nossos filhos já estão crescidos... Eu estou ve...
— Não diga isso! – eu o interrompi. – Não diga.
— Tudo bem, eu não vou dizer que estou velho.
— Muito engraçado – revirei os olhos. – A idade verdadeira é a idade da alma.
Hans respirou fundo e então pegou minha mão, dizendo:
— Elsa, eu não sei quanto tempo me resta com você. Pode ser muito, pode ser pouco. Só quero que saiba que cada dia que passo com você é uma bênção. Sempre que me sinto perdido, desorientado, olho para você e lembro que você é pra mim terra firme e céu ao mesmo tempo. Você desperta o melhor de mim, e eu agradeço. Não é todo mundo que tem a chance de se arrepender de um erro e ser perdoado. – Ele fez uma pausa e acrescentou, com um sorriso: – Eu amo você. Da mesma forma que amava duas décadas atrás.
— Eu nem sei o que dizer... – gaguejei. – Eu te amo. Amo nossos filhos, amo a vida que temos. E o passado...
— Está no passado – ele completou. – Mas é o passado que faz o presente.
— Certo, e por que está falando tudo isso?
— Porque o amanhã é incerto... E eu achei um fio de cabelo branco, olha só.
— Onde?! – perguntei, assustada.
Hans caiu na gargalhada.
— Era brincadeira. Meus cabelos continuam vermelhos como fogo. Mas eu realmente achei que tinha visto um fio branco, e fiquei pensando no que diria a você. Felizmente era só talco.
Balancei a cabeça negativamente.
— Só você, mesmo.
Hans sorriu e me puxou para um beijo ali mesmo.
— Hum... Esses momentos poderiam durar para sempre, não acha? – disse ele em voz baixa.
— É, mas não duram, então aproveite enquanto pode – eu ri.
— Não precisa pedir duas vezes.
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P.D.V Gustav
Caminhávamos ao longo do extenso fiorde de Oslo. Os dedos de Louise entrelaçados nos meus me passavam a maior sensação de calma, e eu sentia como se houvéssemos apenas ela e eu no mundo. Seu sorriso era luz para os meus olhos, e sua voz, música para os meus ouvidos. Ainda custava-me a acreditar que estávamos casados. Eu era só um plebeu que não tinha muito a oferecer à futura rainha, além do seu amor incondicional. Meu avô sempre me disse que a verdadeira nobreza está no coração, e que o Príncipe Hans passara de vigarista a consorte da Rainha Elsa com um simples passe de mágica. Essa mágica ele chamou de amor. Eu só fui entender isso melhor quando me apaixonei por Louise. Um dia ela cresceu e se tornou uma jovem linda. Louise era estonteante com seus cabelos ruivos e olhos azuis profundos. Seu sorriso me deixava abobado e sua risada era a mais agradável melodia.
Senti-me um estúpido quando soube que a havia perdido para um príncipe. Se eu tivesse agido mais rápido, muitas dores teriam sido evitadas. Quando soube que ele era na verdade um primo desgraçado em busca de vingança, não sabia se sentia mais raiva dele ou de mim. Queria poder ter impedido Louise de conhecê-lo. Mas não pude. No entanto, agora eu a tinha ao meu lado e só conseguia pensar em como eu tinha sorte.
— Tudo bem – ela suspirou. – No que está pensando agora?
— Só consigo pensar em como sou um homem de sorte por ter a esposa mais maravilhosa do mundo – eu sorri.
— É o que você diz sempre. Assim eu fico sem jeito...
— Você é uma graça quando fica sem jeito.
— Você é bom nisso.
— No quê? – perguntei.
— Em ser um perfeito cavalheiro. Você realmente existe? Não sei se mereço um marido tão bom – ela riu.
— Ei, você merece isso e muito mais. Eu prometo dar o melhor de mim, sempre. – Peguei a mão de Louise nas minhas e a beijei. Quando voltei os olhos ao rosto de Louise, ela estava chorando. – O que foi? Eu disse alguma besteira?
— Não, seu bobo – ela riu, secando as lágrimas com as costas das mãos. – Só fiquei emocionada. Eu te amo, sabia? Muito.
Eu a abracei apertado por muitos segundos e beijei sua testa em seguida.
— Eu também te amo. Com todo o meu coração.
Louise me puxou pela camisa e me beijou inesperadamente. Seus beijos eram quentes e passionais, me dando a sensação de que iria incendiar de tanta paixão. Suspirei e entrelacei seus dedos nos meus novamente.
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro – ela assentiu.
— Quando foi que você se apaixonou por mim?
— Não tenho certeza – respondeu ela, pensativa. – Sei que só admiti para mim mesma que estava apaixonada quando você foi passar o Natal nas Ilhas do Sul. Eu senti meu coração apertado de tantas saudades. Senti falta das nossas conversas, dos carinhos... E percebi que sentia falta do amor. Que queria compartilhá-lo com você. Quando você voltou, minha vontade era de te apertar e cobrir de beijos – suspirou. – Ao invés, eu te abracei, disse que senti sua falta e que te amava.
— Foi a frase mais linda que já ouvi – sorri.
— Obrigada por reconstruir meu coração – sussurrou Louise.
— Sempre que quiser – respondi. – Aonde você quer ir agora, amor?
— Ainda temos tantos lugares para ir e tão pouco tempo! – ela lamentou. – Queria que as luas de mel durassem mais.
Eu dei risada.
— Eu também queria. Infelizmente precisamos voltar logo. Não quero nem imaginar o que os seus pais vão fazer se nos atrasarmos um dia que seja.
— Vão entrar em desespero, é claro! – Ela riu. – E são bem capazes de mandar uma frota inteira atrás de nós.
— Então vamos logo. Como você disse, há muitos lugares para ver e pouco tempo.
— Certo... Mas vai ter que me pegar antes!
Dito isso, ela saiu correndo e rindo, e eu fui atrás, com um sorriso estampado no rosto. Alcancei Louise e a agarrei pela cintura, pegando-a nos braços. Caímos na risada.
— Você não me escapa mais, Princesa Louise – sussurrei, encostando minha testa na dela.
— Não vou escapar de você, Príncipe Gustav – respondeu ela no mesmo tom.
— Ainda não me acostumei com esse “príncipe”.
— Pois trate de se acostumar. É isso que você é agora: um príncipe. Não que você já não fosse – ela sorriu. – Mas agora é oficialmente da realeza.
— Hum... Sabe qual é o título que eu mais gosto?
— Qual?
— O título de marido. Pode me chamar assim quantas vezes você quiser, eu não me canso de ouvir.
— Me beije, marido – disse, contornando meus lábios com o dedo indicador.
— Seu desejo é uma ordem – sorri, beijando-a.
Naquele minuto, senti que estava onde deveria estar. Meu lugar era ao lado do meu amor, e eu viveria para fazê-la feliz e protegê-la. Enfrentaria as dificuldades com ela, e faria nosso tempo juntos valer a pena. E se eu aprendi alguma coisa com tudo que aconteceu, é que a única coisa que realmente te impede de tentar é você mesmo.
Fim.
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