O portal do poço é acionado e Regina é a primeira a sair. Estende as mãos e recebe a filha pequena em seus braços, enrolando-a em uma capa ofertada por Cesar. Estende a mão e ajuda Smila a sair. Em seguida, Vasco sai do poço e senta-se no chão, exaurido pela viagem e intempéries sofridas. Por segundos, ele fica ajoelhado no chão verdejante do bosque.

– Vamos embora, Vasco! Precisamos avisar sobre nossa chegada e tomar Alda em nossos braços!

Ele esboça um pequeno sorriso e fica em pé. Aproxima-se da esposa e fecha os olhos, aguardando ser envolvido por algum truque que encurtasse o caminho. Apanha a filha nos braços e sente sua amada enlaçar sua cintura com a propriedade dos que se amam. Gescitula para que Smila se aproxime também.

Naquela mesma noite, toda a família está reunida em casa, com a presença de Mary e David. Todos devidamente banhados e alimentados, mas ainda com suas marcas físicas e espirituais. Marcas que iriam moldar o futuro de todos.

– Não poderia imaginar que estávamos fora por quase quarenta dias. – Regina brinca com Alda e recebe abraços e beijos saudosos. Observa Yasemine sentada nas pernas do pai, ouvindo algo que David e Killian falavam. – Creio que a luta mais árdua, será conquistar aqueles dois novamente.

– Vasco entendeu que Zelena envolveu Smila em algo podre. Ele relevará e recomeçará a vida em família. – Mary olha na mesma direção que a madrasta.

– Não se ele souber que Smila está supostamente esperando uma criança. Ele irá culpar-se pelo resto de seus dias, acreditando que ofereceu brechas para que ela nutrisse um amor doentio.

– Mesmo que ele saiba disso, o filho continuará sendo de Robin. Qual seria a responsabilidade dele nisso? É Robin quem deve saber e decidir como seguirão com essa responsabilidade.

– Vasco certamente irá tentar assumir a paternidade da criança. Não permitirá sequer que Robin chegue perto das duas. – Regina inspira profundamente. — Ou talvez ele nem se importe com isso...ainda desconheço a essência humana dele. Sei lá...

Mary olha o homem ao longe, lutando para ser cordial com seus familiares.

– Eu penso que vocês quatro deveriam fazer uma viagem e num momento posterior, você poderia levar Vasco para outra lua-de-mel. Precisam colar os cacos e reconstruir sua família.

– Concordo.

Por mais alguns dias, a família de Regina permanece reclusa em sua casa, recebendo poucas visitas e evitando saídas e exposições, para que perguntas que não poderiam ser respondidas, fossem feitas.

Naquela manhã chuvosa, Regina desce para a cozinha e encontra Vasco organizando a mesa para o café da manhã. Estavam respeitando o espaço um do outro e dormiam em quartos separados até que conseguissem recuperar plenamente o casamento. Olha-o com muita paixão, embora odiasse aquele pijama com listras azuis e brancas. Não poderia existir algo mais horroroso que aquilo!

– Bom dia, amor!

Ele sorri e logo desfaz o belo sorriso. Sua alma estava latejando pelo desejo de expor seu segredo e implorar o perdão àquela mulher que exalava poder em seus olhos.

– Penso que já chegamos ao extremo de nossos questionamentos pessoais, meu amor. – Regina se senta junto ao balcão e recebe uma caneca com café. – Temos de decidir se iremos continuar juntos ou se vamos seguir caminhos distintos.

– Eu fiz sexo com Cosima.

A fala seca de Vasco surte como um efeito de um soco no estômago de Regina. Ela quase se engasga com o café. Olha-o incrédula, ficando boquiaberta.

– Foi depois de um jantar numa noite, eu me senti exaltado, excitado e muito quente. Ela se mostrou receptiva e acabamos juntos naquela noite.

– Receptiva? Então foi isso que ela quis dizer, quando me falou sobre ter reivindicado você? Ela me disse que eram as regras da aldeia dela! Ela cuidou de seus ferimentos e como pagamento, ousou tocar você, sexualmente. Deveria ter deixado como uma cabra! – Regina estreita os olhos. – Foi bom?

Arqueando as sobrancelhas escuras, Vasco nega com um movimento de cabeça.

– Não sei. Tudo o que me lembro são dos beijos preliminares e de ter despertado sem roupas, ao lado dela. Algumas imagens ainda vagam em minha mente, como se fossem de um filme visto há muito e muito tempo. Não posso dizer que fui drogado ou obrigado...não sei...não posso isentar-me da responsabilidade. Mas não descarto o uso sujo de algum truque.

– Certamente, ela usou algum tipo de erva para estimular você. Eu sei que em sua sã consciência, você jamais tocaria o corpo de outra mulher. Você me ama!

Vasco estreita as sobrancelhas e olha para as mãos. Brinca com os dedos.

– Algo que me intrigou e que quero saber: como conseguiu transformar Cosima em cabra? Você sempre repudiou minhas habilidades e até combinamos que eu evitaria usá-las. Como fez se não há magia em você?

Vasco dá de ombros e mostra-se desinteressado em encontrar uma resposta convincente.

– Eu tinha a certeza de que havia perdido você e que poderia perder minha filha. Pensei que Alda ficaria sozinha, caso eu não conseguisse lutar com Cosima. Quando estamos desesperados, desobedecemos até a Lei da Gravidade, minha querida. – ele tenta sorrir. – Mas não pense que vou enveredar por este caminho. A magia somente nos trouxe desgraças.

– E se não tivesse dado certo?

– Deduzo que eu teria de lutar até a morte, mesmo que fosse apenas com minhas mãos nuas. E certamente, eu morreria porque Cosima é um monstro.

Regina se levanta de onde está e caminha até seu marido. Segura o rosto bonito e triste dele, entre as mãos. Beija-lhe os lábios demoradamente e depois os longos cílios que tanto admirava. Ah! Ele era definitivamente seu!

– Éramos apenas um do outro e permitimos que outras pessoas maculassem nosso casamento. Quero que saiba que durante muito tempo depois do nascimento de Alda, pensei que ela fosse filha de Robin. – ele o mantém preso entre suas mãos. – Eu me relacionei com Robin,quando ele retornou daquela vez. Usei minhas habilidades e comprovei que você é o pai.

– Aquele episódio deixou uma cicatriz em nosso caminho e abriu uma vala enorme para que outras pessoas fomentassem a desconfiança. Lutei, venci e relevei aquela ferida, mas o ladrão sempre volta e mostra o quanto é importante em sua história, minha rainha.

Regina é beijada desta vez, conseguindo sentir o amor pela maciez dos lábios dele.

– Eu assumo que tenho usado de pressão, cobranças e até chantagens para que você fique ao meu lado, Regina. Sei que você gosta de mim, mas ama Robin com muito mais intensidade. Ele foi destinado a você e sei que você foi destinada a ele. Tenho de aceitar isso e reconhecer que jamais terei tanta força para lutar pelo seu amor real. Jamais serei seu amor verdadeiro.

– Vasco...

– Sou um excelente pai, um marido exemplar, sei que sou um ótimo amante, mas não sou o amor de sua vida. – ele sorri suavemente. – É uma dor aguda em meu peito, como se eu tivesse ferido por uma seta envenenada. Infelizmente, a única coisa que podemos administrar é nosso tempo. Os nossos sentimentos são cavalos selvagens que galopam em uma praia longa e deserta, não podendo ser administrados.

O casal se abraça e ali permanece protegendo um ao outro em seus braços.

– Não quero perder você, Vasco. Você é minha primeira flor, eu já lhe disse uma vez. É uma pessoa generosa e sabe me desvendar como ninguém conseguiu. Sabe de meus muitos defeitos e das poucas virtudes, e mesmo assim se fez tão importante em minha existência. Ensinou-me a ser alguém melhor e a receber amor, sem restrições.

– Quem sabe se algum dia, eu não a ensino a oferecer seu amor para mim, sem restrições.

Regina sorri e beija os lábios do marido. Havia desejo e paixão naquele beijo, assim como a urgência dos amantes sedentos pela consumação daquele sentimento. Com carinho, conduz o seu homem até o quarto e sente em seu íntimo que conseguiria apagar toda a dor, todos os conflitos e dúvidas, além de arrancar de vez todas as lembranças e gostos de Cosima, de sua pele. Ele seria seu novamente e, cruelmente, o faria dependente dela outra vez.

E aquele quarto se torna testemunha da loucura que explode da alma atormentada de Vasco. Como ele amava aquela mulher! E por mais que tentasse convencer seu coração de que ela não o amava, tudo o que conseguia era cair rendido aos seus pés de rainha.

Ali, naquele cenário privado, íntimo e protetor, ele implora pelos seus toques, pela sua atenção e por palavras que o enganassem para que pudesse crer que era amado de fato. Nem mesmo a morte teria forças para destruir aquele amor em seu peito. Ela era sua vida, seu ar, seus movimentos e seu mundo! Iria amá-la e iria beber das delícias femininas que ela estava ofertando de forma tão generosa!

“O amor é uma enigmática dádiva celeste, que apesar de toda obscuridade e de toda a brutalidade dos que a querem sufocar, triunfa sobre tudo.” *

O que ele vê nos olhos de Regina é a mais absoluta confusão de sentimentos. Ele sabia que mesmo não sendo amado por ela, com a intensidade que desejava ser, sempre conseguia fazê-la dependente de sua presença.

* Shakepeare