Oh, vã cobiça!
28 Capítulo Final

Yasemine abre a porta do escritório da mãe, na prefeitura e é recebida com o mais largo e brilhante dos sorrisos.
– Quando me disseram que você estava aqui, pensei que fosse brincadeira. Quem a trouxe, meu amor?
– Pedi para a tia Mary me trazer. Eu disse a ela que queria muito falar com você.
Regina não consegue controlar seu amor por aquela menina feroz e passional. Já havia visto do que ela seria capaz por amor. Conseguia ver todos os traços da mistura de Vasco e dela, naquela criança valente e forte.
– Será que você me perdoou?
– Você é minha mãe.
– Vejo tristeza em seus olhos, meu amor. Será que quer continuar com a mulher adulta dentro de seu corpo infantil?
Yasemine abaixa a cabeça e brinca com as mãos.
– Eu ainda me lembro de tudo o que vivi e senti naquele reino. Eu me sinto fraca neste corpo e penso que posso enlouquecer, mãe. Sinto falta de Cesar e ainda tenho paixão por Nicolas.
– Não irá enlouquecer, minha linda! Você voltará a ser aquela menina impetuosa, ciumenta e possessiva com sua família. A carga de suas lembranças poderá causar sua intranquilidade, mas loucura não, meu amor. Porém, precisa me deixar ajudá-la, Yasemine.
Levantando o queixo e tirando os cabelos que cobriam seus olhos, Yasemine concorda com um movimento de cabeça.
Estendendo as mãos, Regina sorri ao receber a garota em seus braços. Senta-se no sofá e a abraça, aconchegando-a junto aos seios. Começa a niná-la como se ainda fosse um bebê recém-nascido. Move a mão sobre os olhos da criança e evoca um sono profundo em seu corpinho.
– Durma, meu amor. E todas as lembranças e sentimentos sobre aqueles dias, ficarão adormecidas em sua alma, até que você cresça e encontre o seu caminho dentro deste mundo insano. Quando você despertar, iremos juntas para um passeio na praia e suas lembranças serão exclusivamente infantis.
Naquela mesma tarde, Regina e Yasemine caminham pelas areias da praia e brincam de corrida, pega-pega e rolam pelo chão, esquecidas de tudo que as rodeavam. Apenas mãe e filha, num momento de rara proximidade.
Na mesma noite, após o jantar, Regina acomoda sua família na mesma cama. Todos iriam assistir a um filme e dormiriam todos juntos logo em seguida, como se buscasse proteção da escuridão lá fora. Ela queria acalmar a dor das lembranças da intervenção profunda de Smila e trazer a paz de volta àquela pequena família. Era sua missão como matriarca e pilar daquele grupo.
E lá pelas tantas, em meio à escuridão azulada do quarto, Yasemine observa sua mãe, seu amado pai e sua pequena irmã adormecidos sobre a imensa cama. Olha-os com amor e sorri ao sentir que estavam todos bem. Não seriam mais os mesmos, porque o peso da nova condição de Smila em suas vidas, iria ser companhia constante de todos ali. Infelizmente, não havia nada a ser feito e a ingênua Smila iria pagar um preço altíssimo por envolver-se com o desconhecido e desejar o que estava marcado como proibido.
Talvez Regina e Vasco fossem sofrer durante muito tempo, entretanto, ela não conseguia incomodar-se com a “punição” daquela mulher que se atrevera a desejar alguém já marcado. A menina sorri e percebe que não se importava com a situação miserável daquela rival, como não iria hesitar e empurrar para fora do caminho, quem ousasse olhar Vasco com olhos de mulher.
Yasemine caminha para a janela e olha a noite lá fora. Sente saudade pela separação de seus amigos e busca nas estrelas do céu, as mesmas posições das estrelas na floresta onde viveu com Cesar, seu amigo verdadeiro. Como ele estaria? Onde e com quem estaria? E Nicolas? Será que ele ainda se lembrava dela? Iriam se reencontrar algum dia? Será que um dia ela iria beijá-lo como seus pais beijavam-se? Ele seria seu príncipe cigano? Será que seria correspondida? E Zelena, como estaria? Mais forte? E o palerma Galeano?
Teria de saber administrar a discrepância entre corpo e alma, mas sentia que poderia conseguir. Olha a mãe por cima do ombro e sorri.
– Obrigada pela tentativa, mamãe.
FIM.
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