Receosos, os homens retornam para a sala principal, temerosos com o quadro que iriam presenciar. E o quadro é triste de fato: Zelena esquálida, sentada no chão, ao lado de Regina que segurava o corpo desfalecido de Smila, enquanto que Galeano se mostrava frio, inerte como se fosse uma pedra de gelo sem emoção alguma.

Yasemine se desvencilha dos braços do pai e vai para os braços da mãe, sendo recebida com um amor que poderia ser cheirado, tamanha sua força e poder.

– Precisamos ir embora, meu amor. – ela segura o rosto da menina entre as mãos. – Sua presença está sugando toda a força vital de minha irmã. Precisamos cuidar de Smila...

Nicolas ajoelha-se ao lado da mulher ferida e sorri para Regina, gesticula para que Vasco faça o mesmo. É atendido.

– Segure a mulher em seus braços, Majestade.

Vasco faz uma careta de desentendimento e observa o cigano abrir um pequeno camafeu como pingente e exibir um pó amarelado.

– Você deve despejar o pó sobre a moça. Ela irá retornar saudável.

– E quanto ao homem? – Yasemine pergunta apontando para o homem alado.

– Tá certo! Use a metade nela e a metade nele. – o cigano faz uma careta de desgosto.

Momentos depois, tanto Smila quanto o homem alado estão sentados nos chão, amparados e aguardando reuni suas forças para seguir, cada qual, o seu destino.

Num cato da sala, Galeano comprimia a mão contra o peito. A dor da derrota e da vergonha queimava intensamente. Estava perdendo sua chance de ser dono daquele reino e a chance de ter seus dois amores ao seu lado. Mas aquilo seria uma situação para ser resolvida noutra ocasião, com mais planejamento e cautela. O certo era que Vasco e Yasemine seriam seus em um futuro próximo. Tudo apenas seria uma questão de tempo e paciência. Ficaria mais forte e desenvolveria as habilidades que havia conhecido, para tornar-se imbatível e irresistível.

Três dias depois daquela tarde, parados diante de um poço feito de pedras, os companheiros de aventuras olhavam para dentro daquele portal. A angústia latejava dentro de todas as almas, além de muitas dúvidas, muitas perguntas, muitas acusações ainda não feitas e muitas posições ainda não assumidas.

– O que fazemos agora? – Regina pergunta protegendo-se contra o vento frio.

– Vocês precisam voltar para casa e retomar suas vidas. Aqui, nós faremos o mesmo. – Cesar brinca com uma pedrinha.

– Nada será como era no passado. Mas devemos deixar o passado onde deve estar: no passado. Lamento não poder ficar e cuidar de minha irmã. Ela cometeu um erro e quase pagou com a vida. Precisa de ajuda.

– Zelena será sempre Zelena. Não a veja como uma criança frágil que precisa de um abraço aconchegante. – Cesar olha Regina de soslaio.

– Isso não me isenta da responsabilidade pelo que houve aqui. Permiti que surgisse uma brecha e muitos sentiram-se no direito de entrar em minha vida, maculando a si mesmo.

Cesar emite um gemido de desdém. Arrogante, aquele homem! Sentindo-se responsável pela atitude de outras pessoas! Talvez ele visse o mundo com um universo antoprocentrico!

– Eu tenho de retornar para meu povo. – Nicolas sorri e ajeita a mochila a tiracolo. – Fiquei porque não poderia deixar que minha menina furiosa, enfrentasse aquelas loucuras, sozinha. Sei que o macaco não conseguiria fazer o serviço sozinho, então, eu voltei.

Cesar sorri pela primeira vez e Yasemine descobre que nunca o tinha visto sorrir.

– Foi um prazer servir a senhorita, princesa Yasemine! – o cigano segura a mãozinha dela e beija de maneira cortes e polida. Não seria atrevido porque havia visto o pai dela lutar e não queria ser transformado em cabra ou receber aquele chute alto. – Estarei nas proximidades da Floresta das Esmeraldas quando quiser minha ajuda.

Ele se vira para Regina e apenas sorri. Volta-se para Cesar e o abraça com força.

– Poderá fazer parte de meu grupo, quando for menos furioso e orgulhoso.

– Agradeço, mas sou um lobo solitário.

O cigano sorri e afasta-se, dirigindo-se para longe do grupo.

– Macaco solitário, eu diria! – ele grita de onde estava e desaparece do campo de visão.

Por alguns segundos, o silêncio toma conta das pessoas e todas ficam apenas olhando para o horizonte, em buscas de suas próprias respostas.

– Ser solitário, quer dizer que não virá conosco? – Yasemine segura a mão do amigo protetor.

– Eu não pertenço ao mundo de vocês, Yasemine. Eu preciso apenas de mim mesmo para sobreviver e, além disso, quando você retornar pelo portal, será uma menina de quatro anos novamente. É certo de que não se lembrará de mim...

– Isso não vai acontecer, Cesar...

Cesar sorri sem exibir os dentes. Tranca o rosto novamente.

– Você veio uma vez e poderá retornar quando quiser. Basta ter um portal aberto e pensar nesta floresta e em mim. Então nos encontraremos outras e outras vezes. Quero que saiba que você foi a coisa mais linda que aconteceu em minha vida, depois que me tornei adulto. Você precisa apenas ser menos rancorosa e mais racional. Promete para mim?

Ela sorri e a luz do dia se concentra naquele sorriso. Cesar beija seus cílios longos e a liberta.

Sem dizer uma palavra sequer, Regina envolve o macaco no mais profundo e grato abraço que alguém poderia oferecer.

– Devo a você, a vida de minha filha e de meu marido. Quando precisar de algo, vá ao meu castelo e entre em contato comigo por meio de um espelho quadrado que fica atrás de uma tela representando uma simples noite em lua cheia.

Cesar não esboça reação, além de levantar uma das sobrancelhas. Volta-se para Vasco e vê o homem estender a mão para um cumprimento. Ele a aceita.

– Você é o mais honrado dos guerreiros, Cesar. Sinto-me orgulhoso e honrado por ter conhecido você. Sua generosidade não tem tamanho e sua força também não. Saiba que terá um amigo em mim e quero que aceite minha amizade, porque quase não as tenho. – Vasco se inclina em reverência.

– O senhor deve ser um homem muito valioso em seus mistérios. Porém, não há perdão por ter permitido que mãe e filha se tornassem inimigas. Trate de consertar isso, porque você deve a elas. Espero que consiga isso, antes que novas brechas sejam abertas e que novos inimigos surjam. – ele solta a mão de Vasco e olha Regina. – Cosima ainda está como cabra?

– Não.

– Então, eu sugiro que saiam o mais rápido que puderem daqui. Porque ela não admite nenhum ser mágico em sua floresta, que não sejam os homens-gaviões. Não quero ser a ave de mau agouro, mas a senhora conseguiu uma inimiga que não descansará até tomar uma vida pela vitória roubada. Agora, vão!

Num outro ponto daquele reino, Galeano permanece estático, desolado e sentindo-se impotente diante da frustração de sua derrota. Olha a mãe adormecida sobre a cama e permite ser tomado pela decepção e pelo desprezo.

– Você não me preparou para saber de minhas habilidades. Caso eu as dominasse, as teria usado para ter Yasemine e Vasco em meu reino, além de conseguir tornar-me o soberano. Vi meus anseios serem levados pela chuva e estou mais sozinho do que antes. – ele ri desdenhoso. – Mas o tempo é o senhor de todo o conhecimento e vou aprimorá-los. Não pense que desisti de meus sonhos e de meus amores...é tudo uma questão de estações. Eu juro pelo sangue verde que corre em minhas veias!