Ocultos
15 Saúdem a Rainha
Aquela noite foi diferente de qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Eu estava em pé em um corredor branco e aparentemente sem fim, tentei andar por alguns minutos, mas parecia não chegar a lugar algum, foi quando ouvi passos apressados a minhas costas e pude ver o enorme lobo negro de olhos brancos correndo em minha direção, devido ao fato de estar correndo de um enorme lobo sanguinário não pude distinguir se ele estava com raiva ou não, mas eu não iria ficar ali para descobrir.
Quanto mais eu corria mais Martin se aproximava. Eu não tinha noção de tempo, parecia que eu estava correndo há horas e meu corpo estava exausto, porém também me sentia revigorado a cada passo que dava, como se meu corpo tivesse acabado de liberar adrenalina.
Foi então que eu ouvi algo se aproximar cortando o ar e quando olhei para trás uma flecha passou ao lado de meu rosto cortando minha orelha, então finalmente entendi. Martin não corria para me atacar, ele também corria para fugir.
Parei no meio do caminho e tentei ao invés de ver, ouvir o coração de Martin, e assim vi sua aura no formato de um lobo, mas um lobo pequeno e amedrontado correndo aos tropeços, eu tinha que ajudar.
– Corre. — Quando Martin chegou a mim voltou a sua forma humana.
– Não. – Dei um passo à frente deixando o ômega para trás e então pude ver uma figura encapuzada segurar uma besta carregada, ele mirava em meu rosto e estava prestes e disparar.
– Vamos lá, isso não deve ser tão difícil, igual ontem, vamos... – Ergui meus dois braços e diferente da tonalidade que eles haviam recebido na luta anterior estavam amarelados. – Agora é só imaginar, e... – O homem que nos perseguia disparou sua flecha e então rapidamente eu imaginei todo o corredor a minha frente desabando e num piscar de olhos isso aconteceu, porém junto à queda de uma parte do caminho todo o resto desabou também. Martin foi esmagado por uma pedra e logo o chão a baixo de meus pés se abriu e eu caí.
ϕ
– Vamos, Dave! Acorde! – Eu estava deitado em minha cama e pude ouvir Cathy gritar logo a baixo de mim, e quando olhei para os lados eu estava quase no teto enquanto todas as coisas no quarto levitavam, e ao perceber isso tomei um susto fazendo com que tudo voltasse para o chão enquanto Cathy se aproximava de mim. – Dave, o que aconteceu?
– Eu não sei, eu estava em um sonho, um homem estava lá e perseguia Martin, de repente eu consegui fazer tudo se partir e... Eu não sei mais. – Minha prima me olhava assustada, eu podia ver seus olhos lacrimejarem e ela me abraçou. – O que houve? Por que você está assim?
– Quando eu cheguei ao quarto você estava flutuando e balbuciando... Você balbuciava “Venator”, Dave. – Eu sabia o que a palavra significada, de alguma forma eu sempre conseguia entender o que todos diziam e sabia que era latim, mas decidi deixar que minha prima confirmasse minha ideia. – Isso em latim significa “Caçador” e se ele perseguia o Martin e você... – Então a garota desabou em prantos enquanto me abraçava e eu pensava no ocorrido.
ϕ
Encontrei Sabs no caminho da escola e John me deixou sozinho junto a ela porque ele e mamãe iriam a um conselho da família para tentar entender o que acontecia comigo, e aparentemente não me queriam lá.
– Se realmente houver um caçador de seres sobrenaturais por aqui, Dave, nós devemos tomar cuidado, pode ser qualquer um, humano ou não, nós não podemos confiar em ninguém, muito menos naqueles que já não confiamos muito. – Sabs fazia uma cara de desgosto e sem precisar de poder nenhum eu sabia que ela falava sobre Calisto.
Estávamos em baixo de um sol escaldante e então uma duvida surgiu em minha mente.
– Sabs, por que você não queima no sol? Vampiros deveriam queimar, não? Ou é apenas coisa de filmes? – Perguntei meio tímido com medo da garota se recusar a responder.
– Por causa disso daqui. – Ela me mostrou uma pedra vermelha pendurada em seu pescoço. – Eu ganhei da... – Ela parou de andar e apontou para um lugar onde havia uma réplica do coliseu de Roma numa versão menor e mais bem conservada. – Santo Drácula, mas que merda é essa? – De repente pudemos ouvir um grito vindo de dentro do lugar, mas não um grito comum, um grito misturado ao uivo de um lobo. – Vêm, Dave, corre!
Sabs tinha a incrível mania de ao encontrar algo enorme, tenebroso, perigoso e que aparentemente tem algo lá dentro que vai nos matar correr em direção ao lugar ao invés de correr para a direção contrária, o que na minha humilde opinião não era nada sensato, mas eu a acompanhei na corrida até o lugar.
Quando chegamos passamos por uma enorme porta que nos levou a arquibancada do coliseu e então pudemos ver uma cena rara.
Alaska, Peter, Annie e Phillip aparentemente levavam uma surra de uma garota de quase 19 anos, cabelos cacheados e negros, olhos castanhos e uma pele morena clara.
– Vocês acham que são lobos. – Ela levantava Phillip no ar e o arremessava longe com um braço só fazendo com que uma parede se rachasse. – Mas são apenas cachorros sem rumo que não sabem pra onde fugir e tentam se unir para se tornarem fortes, mas eu não, eu sou Lorenna, a caçadora de lobos! – Ela gritava e ria sadicamente se divertindo com a situação. – Agora me digam... ONDE ESTÁ CALISTO?
– Cale a boca, amazona estúpida. – Peter correu em direção à garota que voava a uma altura baixa e tentou desferir um golpe em seu rosto, mas rapidamente ela sacou sua espada e fez um corte que mais pareceu um arranhão de gato no braço do garoto que caiu imóvel no chão.
– Está espada foi feita com prata fundida a acônito aurum, o acônito usado para matar Licaão, o rei dos lobos. Um corte raso como este que fiz em você é o suficiente para paralisar até mesmo um alfa genuíno, quinze centímetros matam instantaneamente qualquer licantropo. – Ela cuspiu na cara de Peter. – Agora quem é a amazona estúpida?
– Por que você quer ver Calisto? Nos diga um motivo plausível e nós iremos lhe dizer. – Annie murmurava tentando se curar de uma perna quebrada, mas devido a ser muito nova com seus poderes era difícil.
– É simples, ele acha ser dono dessa cidade, tenta manter tudo em ordem e mandar em todos só por ser um alfa genuíno e se achar o mais poderoso, mas eu sei o que ele quer, ele quer o caos e o terror, e eu como amazona justa e sábia não posso deixar um garoto egocêntrico como ele se sentir no poder. – Sabs me cutucou com o cotovelo e fez um gesto positivo com a cabeça, como quem concordasse com o que Lorenna dizia. – Eu quero desafiá-lo para um duelo, o vencedor leva a cidade, agora vamos, me digam ou eu mato todos vocês por não colaborarem com a justiça.
– Eu sei onde ele está! – Sabs se levantou e eu tentei puxá-la pelo braço, mesmo Calisto às vezes parecendo estar sempre escondendo algo, segundo o que Phillip contou a Sarah, ele manteve a cidade segura por anos dos seres mais estranhos que apareceram.
– Não! Cale a boca! Calisto já lhe salvou você e seus amigos inúmeras vezes sem nem você saber e é assim que você retribui? – Phillip gritava desesperado.
– Cale a boca você, seu idiota. – Sabs retrucou. – Mas como eu ia dizendo, ele provavelmente está na toc...
– Eu estou aqui, não precisa me dedurar, vampira asinina. – Calisto entrava na arena estralando seu pescoço e encarando Sabrina que tinha em sua face uma cara de desgosto com a presença do garoto ou quem sabe por ele não ter sido atacado de surpresa em sua toca. – É a mim que você quer, amazona, mas não vejo motivos para me odiar, por mais que eu seja um homem e amazonas e licantropos nunca tenham se dado bem, eu nunca fiz mal nenhum a cidade e nunca ofendi nenhum de seus deuses.
– Eu te observo há muito tempo, boçal, e a ameaça que você fez a um ente próximo meu é inadmissível. – Ela bateu os dentes e então pude ver a expressão de Calisto mudar, diferente de mim, ele conseguiu entender o que ela quis passar com o bater de dentes.
Antes que o alfa pudesse dar uma resposta a amazona disparou em sua direção lhe desferindo um golpe que lhe fez voar longe, quando se levantou eu olhei diretamente para o lado esquerdo de seu peito e pude ver dos Calisto, um real e um formado por sua aura vermelha. Aparentemente mais ninguém podia ver a aura, mas ela em poucos segundos correu em direção a amazona e abocanhou seu pescoço e se Calisto realmente fizesse aqui acabaria matando-a em apenas um golpe, mas ele não cedeu ao instinto de fúria e correu em direção a garota tentando lhe retribuir o soco, mas ela o agarrou pelo pescoço e o levantou quase dez metros do chão.
O licantropo tentou uivar para assustar a amazona, mas ela riu e o arremessou no chão fazendo com que seu braço se quebrasse.
– Você realmente não tem ideia do quão forte eu sou, não é mesmo? – Ela ria e voava em direção ao chão assim acertando o abdômen do garoto fazendo com que o chão se rachasse. – Eu sou o seu pior pesadelo, eu não sinto medo! Agora se renda, entregue a cidade e eu juro não fazer mal a nenhum de seus amigos. – Ela caminhou em direção a Annie que estava deitada e colocou a espada de prata próxima a sua garganta. – Continue lutando e eu começarei matando por você e depois toda a sua alcateia.
– Como posso saber que você não está mentindo e vai matar todos depois que eu me render? – O garoto murmurava.
– Somos filhas do poder. Nascidas para vencer. Homens não tem lugar em nosso coração. Mas caso se ajoelhem têm o perdão. Nunca quebramos nossas palavras. Tenham essas memórias gravadas. Este é o legado das amazonas. – Lorenna sorria enquanto dizia aquelas palavras. – Uma amazona deixa de ser amazona caso quebre sua palavra.
Calisto se encontrava estatelado no chão, seu lobo feito de aura estava furioso, ele rosnava e seus olhos vermelhos rubro brilhavam e o alfa tomou sua decisão.
Seu olhar era sério e decidido, eu sentia que ele levantaria e daria um golpe final fazendo com que a amazona implorasse por perdão, então ele reuniu sua forças e começou a se levantar, ele tinha um joelho dobrado, um pé apoiado no chão junto a suas mãos, sua cabeça estava erguida e ele olhava furioso para a amazona que estava esperando mais um golpe.
– Ave, Lorenna, morituri te salutant. – O alfa baixou a cabeça se ajoelhando perante a amazona. – Ou se preferir... Ave, Lorenna, aqueles que estão prestes a morrer a saúdam.
– Sábia decisão. – Ela voou em direção a um lugar onde havia um trono feito de ouro. – Eu estarei aqui caso precisem de mim, vocês estão livres para ir, mas se lembrem, agora sou eu quem resolvo e mando nas coisas por aqui.
Fale com o autor