Ocultos

13 Olho por Olho. Dente por Faca.


O rugido da fera era amedrontador. O grande lobisomem, Martin, rosnava para mim. Em disparada à mim, eu só tinha como desviar. Pulei o mais alto que pude e consegui me segurar no galho de uma árvore. Olhando para baixo, notei a fera me encarando com as presas a mostra. Olhei para minhas mãos e elas tinham o mesmo brilho azul de minutos antes. Soltei-me da árvore e caí socando o lobisomem com uma força desconhecida por mim. Pensando tê-lo derrubado, fui surpreendido por uma mordida na coxa esquerda. Urrei de dor e cotovelei para baixo a criatura fazendo ela soltar minha perna. Ele pulou novamente em minha direção e desta vez fui mais rápido. Senti minhas mãos se aquecendo e empurrei o ar com toda força que tinha. Me assustei ao ver partículas elétricas saindo de minhas mãos, fazendo a criatura voar para dentro do galpão. Agora eu iria até o fim. Corri na direção do galpão. Ao adentrar-lo eu via muitas caixas, feno e ferramentas. Algumas foices e tochas apagadas. Ele corre contra mim novamente e morde novamente minha perna esquerda. A dor era insuportável e eu sentia minha carne ser rasgada. Meus ossos fraquejavam quanto mais ele apertava. Tentei levantar a mão e soltar alguma magia contra ele mas fui impedido por suas sanguinárias garras que cravaram-se em minha mão e a pressionaram contra o chão. A dilatada pupila do lobo me encarava enfurecida. Ele me soltou e eu não sentia forças para me levantar. Minha calça preta estava molhada pelo misto de baba e sangue. Atravessado em minha perna, um grande dente se encontrava. A criatura andava lentamente até a entrada do local.

O que há de errado com você.– Eu gritei contendo o choro. Sua resposta vai virar-se para mim. Sua boca era ensanguentada, não conseguia diferenciar se pela ferida que me causara ou por seu dente que soltou-se ao adentrar minha carne. Ele rosnou e correu até mim novamente. Meus olhos se tornaram púrpuras ao encarar a fera. O olhar de um penetrou o de outro e de repente eu não estava mais no galpão. Era como estar no espaço. Eu podia encarar o lobo claramente mas nós flutuávamos e nada se podia ser vistos. Entre nós dois, havia um bebê que tinha seus cabelos afagados por uma mulher. Uma mulher que assemelhava-se muito... não... era minha mãe e no berço era eu. Ao sumir esta imagem, outra mulher tinha o mesmo carinho pelo mesmo bebê. Martin encarava ainda em sua forma de lobo mas ao ver a mulher, o rapaz não se conteve ao mostrar uma cara de tristeza. O grande lobo negro ia diminuindo e se tornando o garoto da minha altura e eu finalmente notava uma semelhança entre nós. Ele não olhava para mim, somente para o chão, como se estivesse envergonhado. As duas cenas reapareceram mas entre elas havia um homem. Meu pai. Aquilo significava duas coisas, o motivo escondido por minha mãe de meu pai ter sumido e que Martin era meu irmão. Era mais uma descoberta em minha vida em menos de 1 mês. Ele me olhou e não existia mais raiva em seu olhar. O cenário voltou ao galpão e o rapaz voou para trás se tornando humano novamente. Minha perna ardia e eu assistia a ferida se fechar. O dente dele cai da ferida e em sua boca um novo dente nascia. Ele virou-se e foi saindo com a mão no tronco. Eu sentia a força, tanto nas pernas quanto no braço machucado voltarem e me levantei. Ao sair do galpão, não via vestígios do Ômega. O choque era grande mas eu não tinha como negar. Martin e eu eramos irmãos, filhos do mesmo pai e agora havíamos descoberto. Eu caminhava até minha casa com pesar, sentindo algo diferente. O cansaço tomava conta do meu corpo e eu só pensava em chegar em casa. A ferida ainda se fechava e eu não entendia a velocidade. A dor era suportável porém imensa. Avistei a janela do grande casarão. A mesma janela em que eu abrira para sair, me dava uma visão que eu não esperava. Dentro do quarto, John, Cathy, Sabs e Sarah me olhavam e os olhos de Sarah brilhavam diferente dos meus ou os de Cathy. Ao invés dos olhos roxos, seus olhos tinham a mesma coloração castanha mas agora brilhavam intensamente. As mãos da menina brilhava da mesma maneira. John e Sabs saem pela janela para me ajudar. Sem querer acordar o casarão todo, eles me levitam com cuidado até a janela. Ao Sarah tocar meu ombro, eu sentia toda a dor sumir e a calma tomar conta. Aos poucos, meus olhos iam se fechando e um sorriso prazeroso se formava em meus lábios, caindo assim, em um profundo sono...