Ocultos

6 Lua Cheia


Corríamos em direção à cidade. A lua ainda estava normal mas em algumas horas ela estaria completa.

— Onde você acha que ele vai estar? — Questionei ofegante.

— Não sei. — Sabs disse dando uma longa inspirada. — É provável que nem Calisto saiba. -

— Você não achou muito estranho ele ter pedido desculpa? -

— Pode ter sido ele... — Ela fez uma breve pausa. — Pode ter sido a lua também... o comportamento deles muda enquanto a lua muda. -

— Ele não ficaria mais violento? -

— O sentimento que ele está sentindo no momento é o que se amplifica. — Sabs explicou. — Se ele está apaixonado, vai ficar mais calmo, se estiver com raiva, vai se tornar violento e por aí vai. -

— Certo. — Eu disse ofegante enquanto subíamos a montanha...

Longe dali, a Alcateia de Calisto conversava.

— Você ta bem, Cara? — Peter perguntou para Phillip. O rapaz prendia seus longos cabelos enquanto prestava atenção no recente Beta.

— To sim, Velho. Eu só acho estranho Calisto querer viajar logo quando a lua ta cheia. — Phillip respondeu ao amigo.

— Relaxa... lembra o que eu te falei. Se concentra na cadeia e respira fundo. — Peter disse. — "Alfa. Beta. Ômega" — Citou.

— Sim... sim — O garoto sentou-se no chão.

— Como você ta com a Sarah? — Peter questionou o amigo sentando-se ao seu lado.

— Eu... eu não sei. Acho que gosto dela, mas duvido que ela sinta o mesmo... E você e Catherine? — O rapaz sorri e baixa a cabeça.

— Ela nunca vai querer nada comigo... -

— Pelo menos você tem a nós — Lip sorriu e deu soquinho no ombro do amigo. -

— Verdade... tenho à minha irmã também, mas não a vejo faz uns meses. Desde que ela me contou que o Pam ta morando lá.

— Eu não te entendo, Peter. — Balbuciou Phillip. — Você podia ser parte da alcateia do seu irmão mas prefere continuar com Calisto.

— É algo que você não entenderia tão fácil, Lip. — O rapaz respondeu olhando para a lua. — Os métodos do meu irmão são algo totalmente diferente do que meus pais nos ensinaram. Eu sentia como se ele só estivesse esperando eles morrerem para se tornar algo diferente. E eu acho que eu não me acostumaria novamente.

— Certo... — Phillip disse piscando algumas vezes.

— Phillip... — Peter disse se levantando. -

— Sim. — O rapaz se assustou com a própria voz. Suas presas estavam para fora e seus olhos eram dourados.

— Vou pegar o talismã! — Peter disse se levantando. Ele corre para a grama perto de onde estavam e pega uma mochila que parecia abarrotada de coisas. — Não... não... não — O rapaz começara a ficar desesperado. — Calisto não pode ter levado... — O rapaz tirava tudo que havia dentro da mochila. Casaco, cadernos, canetas e livros. — Droga, Calisto. — Ele disse socando o chão. — Lip... — Ele disse se virando porém não recebeu resposta. — Lip? — Quando voltou ao local em que ambos estava sentados, encontrou apenas a camisa de Phillip. Esta agora, toda rasgada e ensanguentada. — Merda...

Na montanha, Sabs e Dave conversavam enquanto esperavam a lua.

— O uivo dele vai atrair outros seres? — Eu questionei Sabs.

— Vai atrair a alcateia apenas. — Ela respondeu. — Só espero que e não atraia Calisto. -

— Você não ta muito ansiosa pra enfrentar um lobo enfurecido? Não sei se você lembra, mas ele quase cortou nós dois ao meio ontem. — Citei a manhã passada.

— É verdade... mas você precisa treinar. Ainda mais agora que destravamos sua aura, vai ser mais fácil. Tanto para você quanto pra... — Ela foi interrompida por um som. Um uivo... não... não era um uivo, era um rugido. — É, ele ta bravo. — Sabs disse se levantando e eu fiz o mesmo. — A gente só precisa localizar ele pela cidade agora. — Ela disse sorridente.

— Eu achei que seria mais fácil... — Verbalizei.

— Vai ser. Ta conseguindo controlar os olhos? — Ela me perguntou tornando um de seus olhos negros.

— É... um pouco. — Eu disse piscando algumas vezes até que minha visão mudou. Eu conseguia ver a aura de Sabs. Olhei para a lua e algo parecido vinha dela. Como um farol vermelho. — A gente tem que seguir aquilo? — Eu disse apontando para a luz.

— Sim... de preferência rápido. Seu olho mágico vai te cansar rápido. — Eu estava prestes a dizer algo e ela me interrompeu. — Sim, mas eu te explico depois que acabar isso. — Eu assenti positivamente e saímos em disparada.

Na cidade, Cathy e Sarah saíam do cinema conversando sobre o filme.

— Você gostou? — Perguntou Sarah.

— O filmezinho chato, viu. Eu nunca mais deixo você escolher o filme, Sarah. — Respondeu Cathy.

— Ah, mas foi tão legal aqueles bichinhos representarem os sentimentos dela. — A garota de longos cabelos cacheados afirmou sorrindo.

— Não importa. — Catherine disse enquanto ajeitava seu short.

— Estranho — Disse Sarah enquanto elas se sentavam em um banco. — Lip não me ligou.

— Ele não te disse que ia fazer algo? — Cathy questionou a amiga.

— Ele ia sair com o Peter. — Ao citar o amigo de Phillip, Catherine revirou os olhos.

— Ah, o garoto chato. — Ela disse com cara de nojo.

— Ele é gamadinho em você. — Sarah gargalhou da cara que a amiga fez.

— Eu sei. Isso não quer dizer que eu seja nele. — A garota disse comendo uma pipoca.

— Once a heartbreaker... -

— Always a heartbreaker! — Cathy completou.

Enquanto isso, Peter corria floresta à dentro atrás do amigo descontrolado. O cheiro de sangue tocava suas narinas e ele rastreava Phillip.

— PHILLIP — Ele gritava enquanto suas feições faciais tornavam-se monstruosas. As garras surgiam na mão do rapaz que corria o mais rápido que podia. Seus olhos dourados, suas narinas absorvendo tudo davam mais confiança ao rapaz. Ele vivera seus 16 anos de vida correndo por aquela floresta. Ele acelerava à medida que seus sentidos se aguçavam. Um rápido pressentimento e o rapaz pisou à frente. Seu pé tocou a beirada de um barranco e ele pulou girando para frente. Caiu com um dos joelhos ao chão e seguiu sua corrida em busca do lobisomem descontrolado.

Sabs e Dave corriam o máximo que podiam. Um pensamento correu à cabeça de Sabs que alertou Dave.

— A Cathy não ta pela cidade? — Ela me questionou enquanto eu me lembrava do aviso. "Vamos ao cinema, Primo, até depois".

Droga! — Eu disse tirando o celular do bolso de trás da calça. A corrida era frenética e a luz que saía da lua começara a piscar e enfraquecer. — Quanto tempo acha que temos pra isso acabar? — Perguntei à Sabs.

— Dez, talvez Quinze minutos. — Ela me respondeu. — Cathy é uma feiticeira, Dave. Sua prima, ela sabe se defender.

— Não tenho dúvidas, Sabs. — Eu disse discando para ela. — Mas tenho quanto à defender ela e Sarah! — Verbalizei ofegante.

As duas amigas caminhavam em direção ao casarão.

— Cathy... — Sarah chamou a atenção da amiga. — Não ta sentindo algo diferente? -

— Tipo o que ? — Cathy disse se virando para trás. Sua expressão se tornou pálida. — Sarah. Vem devagar pra mim e não olha pra trás. — Cathy disse com os olhos púrpuras.

— Sim, Catherine. — Disse Sarah com os olhos vidrados em Cathy. Ela pegou na mão da amiga que foi levando-a até o portão do casarão.

Catherine fazia o maior silêncio possível enquanto observava uma criatura a uns cinquenta metros delas. Foi tirando as chaves do bolso com calma, porém algo mais caiu de seu bolso. Seu celular. Ela observou a criatura de longe, como se estivesse atenta, porém sem fazer algum movimento a mais. Quando ela foi pegar o celular do chão ele começou a tocar. O contato de seu primo, Dave, apareceu na tela e ela atendeu.

— Dave... — Ela disse tapando a boca. — Se você me ligou pra saber sobre o lobisomem... Estamos no casarão.

Ela ouviu o primo do outro lado da linha balbuciar algo. O pavor tomou conta de si. O lobisomem lunático virou-se para as duas. Seus dourados olhos brilhavam e ele uivou, correndo na direção das duas em seguida. Ele se aproximava cada vez mais e Cathy tentava abrir a o portão. Sarah saiu do transe e viu a criatura correndo para cima delas. Faltavam poucos metros para que fossem alcançadas e Catherine falhava mais uma vez em encontrar a chave para abrir o portão. O Lobisomem pulou para cima das duas rugindo. Sarah se encolheu e Cathy segurou o lobisomem no ar. Seus olhos mudavam e tornavam-se púrpuras enquanto ela encarava a besta que rugia e mostrava as presas constantemente para a garota. Peter pulou por cima do amigo e segurou ele pelo tórax. Ao pousar no chão, lançou o amigo para frente, que caiu rolando. Sua expressão era de bravura ao olhar para o amigo no chão.

— Foi inteligente da sua parte se cortar pra eu te rastrear, mas agora você tem que voltar ao normal. — Peter disse com a voz alterada. Phillip se mostrou descontrolado ao ficar em posição de batalha para o amigo. Peter rosnou para o amigo que rosnou de volta. — É... eu imaginei que não seria igual...

Phillip rugiu para o outro Beta que se pôs curvado esperando o ataque. Peter se manteve parado até Phillip correr em sua direção com as garras apontadas para seu rosto. Peter girou e segurou o braço do rapaz, derrubando-o. Com o outro braço, Phillip fez um corte enorme no tríceps de Peter que rosnou.

— PHILLIP — Peter rugiu mais alto desta vez, mas teve o mesmo resultado. Sarah se apavorou ao ouvir aquele nome. Será que era o "seu" Phillip? A menina tinha noção que Peter estava junto com ele, e, de repente ele está em sua frente daquele jeito. Garras, presas, os olhos dourados. Ela sentiu uma dor no peito e seu coração a bater mais rápido. Sentiu uma lágrima escorrer por sua bochecha e tocar seu queixo. Peter ouviu o choro da garota e se desconcentrou. Phillip o pegou pelos cabelos e o tocou ao chão. Phillip virou-se para Catherine que estava à frente de Sarah. — Ei, Cachorrinho. — Peter o provocou no chão. O Rapaz virou-se e fez um sorriso macabro. Correu de volta na direção de Peter que chutou seu rosto, fazendo o rapaz cair. — Você não vai matar ninguém, Lip.

— CHEGA — Sarah gritou chorando. — Peter... por que ele? Por que vocês dois? — Ela soluçava. — Phillip. — Ela chamou a atenção do rapaz que pareceu atender.

— Sarah, não. — Disse Cathy pedindo para que a amiga ficasse ao seu lado porém em vão. Os dois se aproximava e Phillip continuava com a feição de lobo. Pouco longe dali, Dave e Sabs chegavam. Ao verem Peter junto, os dois passam a caminhar. — Você não vai fazer nada? — Catherine perguntou à Peter. — Ele vai matar ela.

— Não, Catherine. — Ele respondeu seco. -

— Sabe, esse é um dos principais motivos de você ser o último cara que eu namoraria, seu frouxo.

— Nem em uma situação dessa você deixa de ser fútil, tô começando a agradecer o seu fora. — Ele retrucou.

— Calem a boca. — Sarah ordenou. Ela estava cara a cara com o rapaz que a encarava como se fosse algo diferente. Ela acariciou seus cabelos lentamente, o que pareceu acalmar o rapaz. Seus olhos tornaram à coloração normal. Suas orelhas foram voltando ao tamanho certo, da mesma forma que as garras e presas. O rapaz se ajoelhou e a abraçou pela cintura.

— Me diga que eu não te machuquei, por favor. — Ele implorou para ela. -

— Não.. — Ela disse sorrindo enquanto uma última lágrima escorria por seu rosto. — Mas você vai ter que me explicar o que foi isso.

— Eu vou. — Ele disse se levantando. — Eu só to um pouco... — Ele não terminou de falar e caiu inconsciente ao chão.

— Ele ta bem, Sarah. — Peter avisou a garota. — Só ta exausto... vou levar ele pra toca. Ai. — Ele disse ao ver o corte em seu braço. — Pelo menos vai curar.

— Vocês vão me explicar direitinho isso amanhã! — Sarah afirmou pondo o dedo no peito de Peter.

— Tudo bem... Sarah. Eu vou cuidar dele... – O rapaz deu uma última olhada para Catherine, que fechou a cara, e partiu caminhando com o amigo no ombro.

Em cima das árvores, observando atentamente, um par de olhos brancos assistia a conversa. Ao ver Peter levar Phillip para a toca, os olhos piscaram e mudaram sua expressão. Um jovem pulou da árvore e saiu em disparada, levando consigo, a visão de um duelo entre os Betas de Calisto.