Ocultos
3 Licantropo
Foi muito rápido. Em um segundo o rapaz corria para cima de nós, no outro, Peter se encontrava à nossa frente e Lip caído abaixo de uma pia do vestiário. Peter rugiu e se colocou esperando a próxima investida. O rapaz de cabelos brancos observava quieto enquanto Phillip se levantava lentamente e bufando.
— Phillip! — Peter brandiu alto, quase como se estivesse rugindo novamente. — Eu não quero te machucar! — A resposta do amigo surgiu como uma risada para nós. Sua voz estava completamente alterada, como se alguém proferisse suas palavras em conjunto. Peter pôs o braço para o lado em forma de proteção à mim e Sabs. Eu segurei forte a mão da menina ao meu lado.
— Ele quer à mim, não é? – A voz de Sabs saiu amedrontada de certa forma, mas ela se manteve firme. Quando olhei para ela, as íris de seus olhos eram engolidas pela negritude da pupíla, ao mesmo tempo que veias saltavam pelas palpebras. Pela primeira vez, eu via o lado vampiro dela e seus caninos protuberantes pareciam ansiar por sangue.
— Eu não sei. Você quer esperar ele cortar vocês dois ao meio? Ou vão fugir enquanto eu ainda consigo segurar? — Peter disse olhando para nós. Péssimo momento para se virar. Lip o segurou pela nuca e o tocou para o lado, fazendo com que o rapaz atingisse de corpo inteiro a parede de concreto. Ele virou-se para nós e rugiu. Uma briga enfurecida se iniciou quando Peter jogou-se de ombro para cima de Lip. Ambos caíram no chão. Lip se levantou primeiro com olhar sanguinário. Ele segurou Peter pelo pescoço e suas garras brilharam enquanto ele mirava o pescoço do rapaz de cabelos longos.
Foi então que o garoto quieto fez algo em relação à briga dos dois. Ele levantou-se rugindo na direção de Lip, um rugido três vezes mais alto que dos outros dois que brigavam. Senti os pelos da nuca arrepiarem ao olhar nos olhos dele. Eram exatamente como as luzes vermelhas que eu vira na noite anterior, no breu da floresta, me encarando diretamente. Lip correu para um canto do vestiário como se estivesse se protegendo de alguma ameaça, e com a sensação que eu tive, imagino que fosse mesmo.
— O que vocês estão fazendo? — Disse um rapaz adentrando o vestiário e indo na direção de Lip. — Calisto, o que aconteceu ?
As feições humanas voltaram ao rosto de Calisto enquanto ele levantava Peter. Os cortes nos braços do rapaz iam se fechando aos poucos, seus olhos já não brilhavam mais no intenso amarelo e eram os verdes mais claros que eu já tinha visto.
— Phillip teve uma crise, Miro. — O rapaz que estava perto de Lip ajeitou os óculos. – Ele já está bem, mas quase tivemos um problema real com a bruxinha e o novato.
— Mas porque? Achei que você o tivesse ensinado a controlar – O rapaz era baixo e magro, tinha cabelos ondulados bem curtos e usava um óculos fundo de garrafa, o que tornava mais fácil ver os olhos castanhos e puxados.
— Eu só não ensinei ele a se controlar perto de Vampiros. — Calisto lhe respondeu indicando Sabs, com a cabeça e Miro assentiu, tanto para Calisto, quanto para Sabs.
— E ele? — Ele perguntou se referindo a mim. — É como vocês? -
— Não... ele é um feiticeiro. — Calisto disse seco me olhando com desprezo.
— Dave... — Sabs sussurrou para mim. — Já pode me soltar. — Quando ela terminou a frase eu percebi o quão forte eu segurava a mão dela. Ela acenou positivamente com a cabeça enquanto eu soltava. Em seu pulso, um hematoma sumia rapidamente.
— Venham vocês dois! — Miro olhou para nós e nos disse com firmeza.
Saímos do vestiário seguindo Miro.
— O sinal vai tocar já. Aconselho você a ir buscar seus livros, garota. — Ele disse encarando Sabs. — Eu cuido do seu amigo...
— Dave. — Eu ouvi duas vezes meu nome. Era como se a voz de Sabs ecoasse em minha cabeça. — Eu já volto... vai ser rápido. — "Se algo acontecer, fale comigo telepaticamente" soou na minha cabeça.
— Certo... — Eu disse gaguejando.
Ela assentiu e foi andando. O rapaz olhou para mim seriamente.
— Você sabe que o que vocês dois fizeram foi perigosíssimo, não é? — Ele me olhou. – É suicídio atacar um lobisomem, ainda mais um que mal aprendeu a se controlar... Prazer, eu sou Miro — Ele estendeu sua mão.
— Meu nome é Dave. Eu... eu me mudei ontem pra cá. — Eu disse apertando a mão dele.
— Bom, Dave. Você é... bom, deve ser meio difícil encarar esse fato. Mas você é um feiticeiro, devia ter um pouco mais de cuidado com isso.
— Pra falar a verdade, eu descobri essa parte da minha vida ontem a noite. — Eu engolia o seco quanto mais aquela conversa se prolongava.
— Bom, se quer saber o mais básico... Agora, quanto mais conhecimento, melhor é o feiticeiro — Eu estranhava as informações soltadas pelo rapaz. — Você precisa confiar em mim... Sei que não é algo fácil, afinal acabou de ver que sou amigo do lobo que quase te matou.
— Realmente é difícil acreditar nisso. É mais difícil entender como você fala sobre isso com tanta facilidade. — Eu disse e ele me puxou até um banco. Nos sentamos e eu larguei a mochila do lado.
— Então... — Ele iniciou.
— Então... só lobisomens não é a única coisa que eu preciso saber... porquê?
— A primeira coisa que você deve saber é: Calisto fez questão que eu explicasse isso para você. Eu não sei se ele está nos ouvindo, mas ele quer que você entenda as "regras" dele. — Ele sinalizou aspas com os dedos. Ele pediu para que nos afastássemos um pouco e pôs uma folha entre nós. — Os lobisomens são separados em três postos, Dave, como uma hierarquia. — Ele puxou um lápis do bolso e fez um circulo. — Os Ômegas — Ele desenhou uma espécie de raio saindo do meio do circulo que ia para o canto inferior direito. — Ômegas se geram de duas formas: Expulsos de suas alcateias ou tendo seu Alfa morto por alguém de fora. — Finalizando sua explicação, ele escreveu "ômega" ao lado da seta. Ao finalizar, fez outra seta, esta saindo meio e indo para o canto inferior esquerdo. — Os Betas, criados por um Alfa ou nascidos assim. São os seguidores dos Alfas. — Ele me disse escrevendo "beta" ao lado da seta esquerda. — Por fim os mais fortes. Alfas. — Ele fez um seta para cima, vinda do centro do circulo. — São os líderes de alcateia. Seus olhos são vermelhos durante à transformação. Alguns se tornam tão poderosos que seus pelos mudam de cor. Existem duas maneiras de se tornar um Alfa. A mais "fácil" — Ele soltou um pequeno sorriso falando aquilo. — Você tem que matar um Alfa. Cortar sua garganta, queimá-lo. Qualquer coisa que faça ele parar durante um ataque de fúria.
— E a segunda? — Eu perguntei curioso.
— Um Beta ou Ômega realmente merecedor do poder de um Alfa se torna um Alfa Real ou Alfa Verdadeiro. Eles não podem ter seus poderes roubados. Nunca. Nem ao morrerem. Calisto é o único que eu conheço.
— Então ele é bom não é? — Eu disse um pouco esperançoso quanto ao rapaz. A expressão de raiva dele misturada aos olhos vermelhos me amedrontavam. Como se ele expressasse um "não mexa comigo".
— Você é inocente, Dave. Deve perder isso logo que se acostumar que não é alguém comum. O mundo sobrenatural não se encaixa a bem ou mal. Calisto é meu amigo à pouco tempo, é algo que nem eu mesmo sei. Mas eu presenciei ele se tornando um Alfa. Ser um Alfa Real torna ele mais poderoso que muitos seres sobrenaturais...
— Está tudo bem? — Ouvi Sabs em minha cabeça. A conexão mental havia realmente sido estabelecida.
— Está! Não venha para cá... me diga onde quer me encontrar. Em qual parte da escola? Eu te encontro assim que acabarmos aqui. — Eu pensei tentando falar para ela.
— Dave... Bem e Mal não são conceitos que se aplicam ao sobrenatural. Pode se aplicar aos seres, mas não à entidade. Ser merecedor de um dom é algo que os mais fortes e mais decididos recebem, assim como Calisto.
— Entendo... — Eu disse esperando uma continuação.
— Não... ainda não. Mas uma hora você vai. — Ele disse sorrindo e eu me lembrei de mais um questionamento.
— E quanto aos dois outros que estavam com ele? — Eu perguntei me referindo ao cabeludo e ao descontrolado.
— Peter foi o primeiro Beta que o Calisto teve. Ele... nasceu assim. É um licantropo real.
— Mas se ele nasceu assim, não deveria ter uma alcateia já? — Eu perguntei estranhando.
— Bom... isso é algo que você terá que descobrir por si só. Levando em conta quem é sua família, você vai saber rápido... — Ele disse olhando para o céu e voltando-se para mim. — O outro é o Phillip. Calisto transformou ele à algumas semanas. Ele me disse que o encontrou tendo outra crise de dor na cabeça. Estava suando frio e se contorcendo de dor. Calisto teve pena dele e o transformou. A mordida curou ele.
— Então o que foi aquilo? Foi por causa da perna? — Eu perguntei com medo do rapaz ter ressentimentos.
— Acho difícil. Mas você teve uma pitada de culpa. Mesmo que involuntariamente. Peter e Calisto tem um auto-controle melhor para encontros com outras criaturas sobrenaturais. Feiticeiros, Wendigos... Consequentemente vampiros...
— Sabs me disse que é meio vampiro apenas. — Eu disse tentando diminuir a situação.
— Ainda assim. Vampiros e Lobisomens serem rivais não é apenas uma história. Isso pesa. Mas todas as criaturas sobrenaturais pesam quando estão perto umas das outras. E você mesmo sendo um feiticeiro jovem, sem muito conhecimento, é poderoso.
— Você sabe bastante, Miro. — Eu disse soltando um pequeno sorriso para o rapaz. — Mas ainda acho difícil eu ser um poderoso feiticeiro.
— Me encontra na frente do seu armário! — Sabs na minha cabeça.
— Bom, quando quiser conversar... — Ele disse anotando um número de celular na folha. — Toma. — Ele rasgou a folha. Me entregou junto com a parte do símbolo.
— Miro, esse símbolo... Ele é para todos os lobisomens? — Eu perguntei muito curioso.
— Não, Dave. Esse é o do Calisto. — Ele pegou desenho da minha mão e com a caneta ligou as setas, umas às outras.
— O que significa? -
— A triáfice, triskelion, como quiser chamar, é um símbolo que simboliza hierarquia, como eu disse, mas ele nunca tem um padrão certo. Calisto fez isso enquanto líamos sobre símbolos. Lembro dele me dizer algo em relação à subir de patente. Ômegas solitários podem se tornar Betas, que podem se tornar Alfas e estes que podem se tornar solitários. Calisto nunca gostou de ser solitário. Ele e Peter tem uma grande conexão justamente pelo rapaz ter proporcionado à ele um início de uma alcateia. — Ele disse e eu me lembro de Peter ser protegido por Calisto e ajudado a se levantar. Aquela pequena ação tinha um fundamento.
— Certo, Miro! — Eu cumprimentei ele. — Até... — E fui indo em direção ao corredor que dava acesso aos armários.
Era como pequenas batidinhas na minha testa. Logo elas aumentaram a frequência e a força. Eu via tudo ao meu redor embaçado. Vi Sabs se aproximando em câmera lenta. Um som ensurdecedor, como uma explosão se originou dos armários. As portas se entortaram e eu senti água cair no meu rosto. Eu pisquei... bem devagar. Uma... duas... três vezes até me sentir fraco...
Fale com o autor