Ocultos
4 Floresta
A luz do sol incomodava meus olhos, eu ouvia pássaros cantarem e parecia que havia levado a maior surra da minha vida.
— Olha quem acordou! — Eu ouvi uma voz conhecida. Era Sabs. Levantei a cabeça e vi ela acompanhada por três pessoas. Ela estendeu a mão e me ajudou a levantar. — Esses são Sam, Ariel e Tommy. — Reconheci uma das meninas. Eu tinha visto ela em uma sala quando Sabs corria comigo pela escola. Seus longos cabelos vermelho rubro pareciam brilhar. O sol batia entre os galhos das árvores e criavam um belo cenário. -
— Prazer... — Eu cumprimentei um por um. Me virei para Sabs. — Estamos na floresta? — Eu disse coçando os olhos.
— Adivinhou pelas árvores ou pela sua casa? — Ele apontou o dedo para o lado e eu vi a janela do meu quarto, da qual eu observava essa área enquanto não tinha iluminação.
— Foi mais intuição... — Eu disse me virando para os outros. — Sabs... posso te perguntar algo? -
— O que? — Ela disse se aproximando de mim. Eu a puxei para um canto mais privado.
— Eles são... sobrenaturais também? — Eu perguntei tentando não demonstrar curiosidade.
— Somos, Dave! — Disse o rapaz, Tommy. Sabs me puxou para perto deles novamente.
— Primeiro, estou orgulhosa por você falar sobrenaturais e não criaturas ou algo do tipo. Segundo, estou impressionada por você ter falado como se fosse algo comum. É bom se acostumar rápido.
— Obrigado... — Eu disse sorrindo um pouco envegonhado para ela e abraçando-a só com um braço. — Mas, o que vocês são?
— Bom, se você prometer não se assustar... – Eu assenti com a cabeça e Tommy deu dois passos para trás. Protuberâncias surgiram de sua testa e logo ficaram pontudas e negras, se tornando chifres. Olhos reptilianos amarelos me encaravam esperando por alguma reação, até que eu olhei para suas mãos. Escamas azuis formavam braceletes que protegiam suas mãos e agora ele tinha garras negras do tamanho de agulhas.
— Desculpa, eu não entendi muito bem o que você é... – Senti o rosto corar pela vergonha de não reconhecer a raça do rapaz.
— Tudo bem, não é a primeira pessoa, Dave... eu sou um draconato... meu pai é um humano e minha mãe um dragão. – Quase gritei quando ele concluiu. A ideia de dragões parecia muito mais absurda do que tudo que eu estava vivendo.
— Bom, a minha família você já conhece! — Sam disse. Sabs se pôs ao lado da menina e ambas ficaram com os olhos negros. -
— E você... é Ariel, né? — Eu perguntei para a garota dos cabelos vermelhos.
— Eu... eu sou uma simples feiticeira, como você — Ela disse meio acanhada. — Se é que "simples" e "feiticeiro" podem se encaixar no mesmo conceito.
— Verdade... — Disse Sabs. — Vem, Dave. Vamos te levar pra um lugar.
— Espera, Sabs. — Eu disse a segurando pelo braço. — O que aconteceu na escola? — Eu me lembrava de pouca coisa. Ela respirou fundo e se virou para mim.
— Você teve um lapso de clarividência, Dave. E um forte... — Ela disse.
— Como assim? — Eu perguntei confuso. — Clarividência não é apenas ver o futuro? -
— Esse é o conceito básico da clarividência. — Disse Sam. — Quando você vê ou prevê algo, Dave, você teve uma clarividência. Você tem visão de coisas relacionadas ao seu passado, ao seu futuro e à pessoas importantes que saíram ou vão entrar na sua vida. Você... se lembra de algo?
— Não... quer dizer... lembro de poucas coisas, mas não dessa tal visão. Lembro de ouvir um estrondo e água caindo no meu rosto. — Eu disse para eles.
— Você explodiu os armários, Dave. — Disse Sabs. — Eles me ajudaram a te tirar da cena. Os armários se entortaram, alguns pegaram fogo e os sprinklers de emergência se ativaram.
— Alguém se machucou? — Eu perguntei preocupado.
— Não... — Disse Tommy.
— Pronto... já te expliquei, mas agora você tem que vir comigo e com Ariel! — Sabs disse me segurando pelo pulso.
— Como sabem que fui eu? — Eu perguntei antes de irmos.
— Seres sobrenaturais tendem a ter a cor dos olhos mudadas quando se transformam ou no seu caso, usam magia, mesmo que involuntariamente. — Sam se pôs ao lado de Sabs e ambas me encararam. Os olhos de Sabs passaram do negro vampírico para um roxo, porém os olhos de Sam continuaram completamente negros. Eu pisquei e minha visão mudou, eu via duas auras atrás das meninas. O roxo atrás de Sabs tinha a imagem de uma mulher que parecia andar em uma esteira, sem sair do lugar, enquanto dois cães doberman a seguem. O preto constante em Sabs um homem pálido e forte, usando um sobretudo vermelho com adornos de asas e morcego douradas, me encarava com olhos negros e expressão sinistra, como se a qualquer momento pudesse sair daquela aura e arrancar minha cabeça. Ariel pegou um pequeno espelho do bolso e me mostrou meus olhos, se encontravam com o mesmo roxo. Parecia muito mais um púrpura, mas ainda era estranho ver aquilo. -
— Mas eu... eu não estou usando magia alguma agora. — Eu disse para as duas.
— Mas agora nós estamos te influenciando, Dave. — Ariel me explicou.
— Por que eu não consigo ver essa "aura" na minha volta como eu vejo em vocês? E por que cada uma tem uma pessoa diferente? A mulher não se parece nada com você, Sabs, e esse homem é assustador, Sam... — Eu perguntei confuso.
— Primeiro porque você não pode ver sua própria aura, ela está trancada. Vamos resolver isso se você parar de fazer perguntas e nos acompanhar, rapaz. E quanto às pessoas nas aura... elas mostram o mais próximo de alguém que “começou” a raça. Hécate, a deusa da magia, representa a aura de todos os feiticeiros, bruxos, magos... — Disse Sabs sorrindo para mim.
— O homem que você vê na minha aura é Vlad, o primeiro vampiro... Um Rei Turco que se viu em uma sinuca de bico quando seu reino seria tomado pelas forças de seu exército inimigo... Ele fez um acordo com um homem numa caverna... essa parte só faz eu pensar que ele tinha que ser muito burro... – Quando ela disse isso eu pensei ter visto Vlad fazer uma cara feia na aura. – E assim ele se tornou o primeiro vampiro...
— Bom, vamos indo? – Sabs perguntou. Todos assentiram e seguimos, porém, Tommy e Sam foram na direção contrária.
— Certo... — Eu disse sem graça. Cocei a nuca e comecei a acompanhar as meninas. Sabs ia à minha esquerda e Ariel à direita. Olhei para trás uma vez e vi Tommy e Sam indo um para cada lado.
Caminhamos por bastante tempo. Como se andássemos em círculos, mas seguimos uma trilha reta. Vez ou outra Sabs ou Ariel olhavam para trás. Como se soubessem de algo. Volta e meia eu ouvia galhos se mexendo e folhas serem esmagadas. Eu não sentia impacto do tempo. Nenhum tipo de cansaço, nada. Era como se o desmaio tivesse me deixado mais leve. Depois de um tempo andando, ouvimos constantemente galhos sendo remexidos. Paramos e um vulto negro passou pela esquerda.
— Costas com costas! — Sabs disse me puxando. Olhávamos para cima, para os lados procurando o vulto. Ele passou mais algumas vezes por nós.
— Eu não tenho controle de magia, Sabs! — Eu disse assustado.
— Vai precisar ter. — Ela me disse apontando para cima. Três criaturas desciam. Ambas tinha formato humanoide, porém não tinha as pernas. Mantos negros se postavam sobre seus corpos. Caveiras estavam por debaixo dos capuzes.
— Sabrine! — Ariel chamou a atenção de Sabs. Seus olhos ficaram roxos, assim como Sabs que agora mantinha os dois olhos negros.
— A gente não pode resolver isso pacificamente? — Eu perguntei sem graça.
— Não! — Sabs disse pulando na direção do que estava no meio. Os outros dois partiram para cima de mim e Ariel. Ela conseguiu se defender com exímia habilidade, eu não tive a mesma sorte. A criatura me cinturou e me lançou para frente, fazendo com que eu desse com as costas em uma árvore. Olhei para frente e vi Ariel derrotando facilmente a criatura que havia à atacado. Três pilares saíram da terra empalaram o monstro que caiu se tornando pó. Porém o que havia me atacado retornou ao meu encontro. Me segurou pelo pescoço e eu senti como se estivesse sendo sugado. Eu me sentia fraco à medida que os segundos passavam, até que alguém interviu. A criatura voou para longe de mim e eu caí. Me escorei na árvore e a criatura se preparou para voltar em minha direção. Quando faltavam poucos metros para me alcançar, um braço surgiu em volta de seu pescoço e Sabs apareceu tomada por uma escuridão. A bela ruiva foi recuperando sua cor pouco a pouco. Ela girou seu braço de uma vez só e uma vibração ecoou pelo ar. A criatura caiu inerte, tornando-se pó, assim como o que Ariel havia empalado. Era incrível como ambas derrotaram as criaturas tão rápido.
— Você está bem? — Sabs me perguntou.
— Estou... e o que você pegou primeiro ? — Eu perguntei apavorado. Olhei para as mãos dela e tinha algo negro, como petróleo.
— Bom... — Ela olhou para as mãos. — Ele teve o que mereceu. — Ela disse tirando o casaco para limpar as mãos. — Lua, pode vir já.
— Lua? — Eu perguntei estranhando. Ariel saiu de trás de uma árvore acompanhada de uma menina. Cabelos longos, não como os de Ariel, mas longos e castanhos, um pouco cacheados e parecia envergonhada. Segurava o braço esquerdo com o direito enquanto chegavam perto de mim. Usava um óculos quadrado e uma touca vermelha.
— Dave... esta é Lua. Basicamente é ela que está nos guiando. — Quando ela terminou eu me assustei. Achei que as duas sabiam para onde estávamos indo.
— Ela basicamente nos trouxe até aquelas coisas ou ela não sabia? — Eu perguntei ainda em choque.
— Aquelas coisas moram pela floresta. Se não fosse por ela, teríamos sofrido um ataque surpresa e não teríamos reação.
— Entendo — Eu disse estendendo a mão na direção da menina. — Prazer.
— Prazer — Ela gaguejou um pouco enquanto estendia a mão também.
— A Lua é diferente de tudo que você já viu, Dave. Apesar que você não viu muita coisa. — Ariel disse abraçando a pequena.
— Vampiros, Lobisomens, Feiticeiros... ela é? — Eu perguntei um pouco curioso. Eu parecia estar realmente me acostumando. Ariel assentiu para ela e ambas se afastaram. Lua tirou uma jaqueta jeans que vestia e por debaixo dela havia uma camiseta preta sem mangas. A garota piscou e seus olhos brilharam. Três pares de asas se abriram em suas costas e eu me assustei. Dei dois passos para trás e fui segurado por Sabs. Quando olhei bem para as asas, elas eram lindas. Era como uma noite estrelada. Um céu escuro. — Uma fada Lunar — As palavras simplesmente saíram da minha boca
— Como soube? — O meu palpite pareceu surpreender até a garota.
— Eu... eu não sei... eu simplesmente soube. — Eu disse para ela e para as já conhecidas, Sabs e Ariel.
— Ela está nos levando pro recanto das fadas. — Sabs me disse e eu me surpreendi.
— Quando te tiramos da escola, Dave. Tentamos entender o porque você destruiu tanto a escola tendo uma clarividência. Lembra que te falamos que sua aura está trancada? Estamos indo tentar liberar ela. — Disse Ariel.
— Mas por que ela está trancada? É muita informação pra um dia só, gente. — Eu disse para as meninas colocando as mãos na cabeça.
— Está escurecendo, temos que ir rápido. – Lua fitou o céu.
Andamos por mais uns minutos. Dessa vez foram realmente minutos. Cerca de meia hora de caminhada e havíamos chegado. Era como uma festa LGBT. Havia brilho em todos os lados. Haviam muitas "mulheres" aladas naquele lugar. Era realmente um recanto de fadas. Aos montes, passavam mais e mais por nós. Algumas até nos olhavam estranho, mas quando viam Lua ao nosso lado, sorriam e voltavam a voar majestosamente. De repente ouvimos uma marcha e vimos uma garota vindo. Carregava consigo um saco e suas asas eram negras também, porém diferente das de lua, elas tinham detalhes amarelos. Sua armadura era igual, pequenos detalhes amarelos, nas ombreiras, caneleiras e no cinto. Um par de espadas embainhadas e encontravam ao lado direito de seu cinto.
— Essa aí é a fada pirigótica? — Debochou Ariel baixinho. Seu sussurro não foi o suficiente para que a fada não ouvisse. Ela desembainhou as duas espadas e as cruzou no pescoço de Ariel.
— Não sou uma fada, vermelhinha. — Disse a fada, o que não fazia o mínimo sentido. Seus cabelos eram loiros e ela utilizava uma coroa negra. Em seu pulso eu pude notar uma pulseira com uma pedra, também negra, encravada.
— E... o que você seria? — Disse Ariel com o pescoço para trás.
— Sou uma guerreira... — Ela disse e me encarou. — E o próximo que me chamar de fada, terá a cabeça rolando pelo chão.
Tenso. Todos ficamos quietos. Ela tirou as espadas da volta do pescoço de Ariel e embainhou as duas novamente. Adentrou o local tirando sua coroa e se ajoelhando perante uma mulher. 4 pares de asas majestosas estavam atrás dela. Ela utilizava um vestido branco e uma coroa, muito parecida com a da Fada Guerreira, porém, com mais adornos e branca. Ela caminhou até a pequena guerreira e abraçou-a.
— Minha filha, não sei como ainda tenho coragem de deixá-la caçar essas monstruosidades. Mas isso não importa, o que importa é que você está bem — Ele dise soltando o abraço e encarando sua filha, a pequena Fada das Trevas. Nós ouvíamos a conversa à medida que nos aproximávamos das duas. Lua nos segurou.
— Ajoelhem-se! É a Rainha. — Lua disse se ajoelhando e nos puxando para baixo.
— Vejam se não é a pequena Lua — Disse a Rainha olhando para nossa amiga. Ela voou majestosamente até nós. — Minha sobrinha querida, há quanto tempo não nos vemos? — Perguntou a Rainha.
— Algumas semanas, Minha Rainha. — Lua disse ainda reverenciando à rainha.
— Oh, é verdade, não é mesmo... — A rainha disse parecendo confusa até que nos notou. — Trouxe amigos... diferentes, não é, Lua. -
— Sim, Ra... -
— Você pode me chamar de Tia, Lua. — Disse a rainha sorrindo docemente para a fada que se encontrava agora de pé.
— Sim, Tia! — Ela corrigiu antes de terminar a frase. — Mas podemos conversar em algum lugar mais privado, que não seja o centro da vila?
— O assunto é sério? Sua avó está bem? — A rainha parecia preocupada, como se previsse algo de ruim.
— Não... não tia, está tudo bem sim. Vovó está bem, eu estou bem... só — Ela me puxou pelo pulso. — Ele que não está.
— Um feiticeiro sem aura? Intrigante — Ela disse me circundando. Bagunçou um pouco meu cabelo fazendo com que eu ficasse arrepiado. — Vamos até o Cristal! — Ela disse e Lua sinalizou para que fossemos atrás.
Andamos alguns minutos com todos calados. Vez ou outra, Sabs pousava suas mãos em meus ombros e sorria. Chegamos à uma grande porta branca. A rainha pousou suas mãos sobre as maçanetas que brilharam ao seu toque, fazendo com que a porta abrisse sem nenhum ranger. Adentramos o local e encontramos um grande cristal, ele tinha o formato predominantemente quadricular e suas pontas pareciam amassadas.
— Então... A aura dele está travada? — A rainha perguntou.
— Tia Ophani, a senhora acabou de dizer que ele não tinha aura, como deduziu que estava travada? — Lua perguntou estranhando.
— Eu sou mais velha do que você pensa, Lua. Tenho algum conhecimento à mais sobre feiticeiros ainda. Eu só fico perplexa em como um feiticeiro tão novo já está com a aura bloqueada.
— Podemos descobrir isso, Rainha Ophani — Sabs se apresentou fazendo uma reverência. — Mas precisamos que a senhora desbloqueie a aura dele primeiro.
— Ele causou algum problema? — A rainha perguntou e Lua estava se preparando para responder quando foi cortada por Sabs.
— Não, Rainha Ophani, precisamos desbloquear a aura para que possamos ensiná-lo a controlar sua magia.
— Entendo. — Ela disse tirando a Coroa, As luvas e me puxou para perto dela. Ela ficou de costas para o Cristal. — Dave, não é mesmo? — Ela me encarou com olhar doce.
— Sim... sim, Rainha — Eu disse a encarando também. Ela fechou seus olhos e eu fiz o mesmo. Alguns segundos depois eu parei de escutar, de respirar e adormeci...
Poucas vezes vivenciei algo daquele tipo. Eram como mil sonhos, todos de uma vez só na minha cabeça. Não! Não eram sonhos, eram fatos. Eu estava em cima de uma montanha e logo à minha frente, um gigantesco lobo de olhos brancos e pelos negros. Pisquei e eu estava no telhado da minha nova casa. A lua estava diferente, estava azul!
— Pode correr, o destino foi lançado — Eu ouvi na minha cabeça quando uma mulher aproximava uma faca do meu pescoço, sua mão esquerda continha uma tatuagem. Tudo isso aconteceu muito rápido...
Acordei algum tempo depois. Levantei a cabeça e me escorei na parede. Espera, eu me escorei em uma parede. A parede era do meu quarto. Na janela ao lado, encontrei Sabs de olhos fechados, como se estivesse tirando um cochilo. Na cama ao lado, meu primo John dormia tranquilamente. Eu me sentia estranho... ou talvez diferente. Um milhão de coisas passavam na minha cabeça e eu não sabia processá-las direito. Ouvi um uivo lá fora. Distante, mas ouvi, o que fez eu lembrar o que acontecer mais cedo. Era noite já. Procurei meu celular e o encontrei embaixo do meu travesseiro. 02:51 da manhã, o sono percorreu meu corpo só de ler o horário. Revisei o quarto e encontrei tudo que estava comigo, horas antes, no momento em que a Rainha Ophani, uma Fada Angelical, havia libertado minha aura. Eu sentia confiança, sentia poder, sentia-me como um feiticeiro...
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