Ocultos
5 Alunos
— Dave — Ouvi uma voz me chamar. Ao abrir meus olhos, ainda sonolento, reconheci John, meu primo.
— Bom dia! — Eu disse sorrindo e esticando os braços. Ele sorriu de volta e se virou em direção à porta do quarto.
— Bom dia... Vou tomar café, te espero lá em baixo! — Ele disse e saiu do quarto. Alguns minutos olhando para o teto e uma aguda voz ecoou no quarto.
— Bom dia, Dave... como foi o dia de ontem? — Catherine sorria de forma amigável, como se soubesse e tudo.
— Se foi bom eu não sei, eu só sei que to muito dolorido. — Falei me levantando.
— Primo, eu to atrasada, só vim te dar um beijo porquê não nos falamos ontem. — Ela me disse beijando meu rosto.
—Certo, Catherine — Era estranho pra mim qualquer demonstração de afeto que não viesse da minha mãe. Não me entenda errado, em dezesseis anos de vida eu só recebera isso dela.
— E se você não começar a me chamar de prima ou Cathy eu vou bater em você... — Ela disse saindo do quarto e eu sorri.
Me vesti com certa rapidez. Peguei a mochila e desci as escadas. Fui em direção à cozinha e encontrei a família toda em volta da mesa. Nesta manhã, minha mãe se encontrava tomando um café e conversando com Tio Edgar e Tia Charlotte. Tia Petúnia comia biscoitos e tomava leite. Tia Judite lia o jornal e tomava um quente chá de morango. O que mais me impressionava é que eu presumira tudo antes de entrar no cômodo.
— Dave, seus olhos. — Disse minha mãe observando minha chegada. — Tem que tomar cuidado com isso, querido. — Ela disse se levantando e vindo em minha direção.
— A senhora está linda, mãe! — Eu disse observando o visual. Uma saia florida que ia pouco acima do joelho. Uma jaqueta de couro e um coque no cabelo. Os anos haviam sido bons para minha mãe. Em seus 45 anos, ela aparentava 30.
— Obrigado, querido. Mas agora você precisa fazer seus olhos voltarem ao normal e tomar cuidado para que ninguém veja eles assim. — Ela disse se referindo à coloração púrpura.
— Certo, mãe — Eu pisquei algumas vezes até minha mãe assentir e sorrir. Ela pegou uma xícara de café para mim e pediu para que eu me sentasse.
— Estou indo trabalhar já, Dave. Vá para escola com John e nos vemos a tarde. — Ela disse me dando um beijo na testa. — Espero que aproveite o dia como ontem. — Ela disse e eu achei um pouco suspeito. Ela pegou sua bolsa e saiu.
Quando terminei meu café, fui até o banheiro escovar os dentes. Ao terminar minha higiene pessoal, voltei a cozinha e John me esperava. Tio Edgar e Tia Charlotte nos desejaram boa aula e nossas queridas Tias Gêmeas tricotavam e não prestaram a atenção. Saímos de casa e fomos em direção à escola. Foram alguns minutos caminhando e conversando.
— Sabs me contou o que fizeram ontem. Sabe que foi perigoso, não é? — John me encarava.
— Você não é o primeiro que me diz isso. — Eu lembro de Miro no dia anterior. — Enquanto caminhávamos pela floresta ontem me dei conta disso.
— Sabe, Calisto poderia ter acabado com vocês ontem mesmo. — Ele me disse enquanto chegávamos. — Nunca vi um lobisomem como ele. — Quando chegamos a escola nos deparamos com uma faixa no corredor. -
— O que foi isso? — Perguntei assustado com a destruição que vi. Alguns armários tinha suas portas amassadas e outros tinha manchas negras de queimado.
— Isso... foi o que você fez ontem quando teve a clarividência. — Disse uma voz conhecido. Sabs veio e me abraçou por trás. — Bom dia pra vocês. — Ela disse para mim e John.
— Parece que alguém ta animada hoje. — Disse Sam chegando junto à ela. — Bom dia, meninos. — Ela disse dando um tapinha em nossos ombros. — John, eles mudaram a nossa turma por causa da pequena destruição. -
— Plausível — Ele disse ao meu lado. — Vocês vão para onde agora? -
— Temos a manhã inteira de teatro. — Ela disse me soltando e vindo para minha frente.
— É perto da nossa sala. — Sam disse e o sinal tocou. — Vamos indo... Não vou deixar vocês sozinhos de novo depois de ontem.
— Plausível também. — John disse sorrindo. — Vamos. — Eu e Sabs assentimos e fomos indo atrás deles.
Enquanto caminhávamos e conversávamos, John e Sam foram se afastando e Sabs e eu nos distraíamos e acabamos trombando com alguém.
— Vocês não prestam atenção não? — Disse uma garota. Cabelos loiros, olhos azuis. Era o perfeito estereótipo de patricinha de filme adolescente. — Essa escola tá rodeada de gente inútil. — Ela disse saindo e duas meninas vieram atrás dela.
— Oi... é... desculpem por ela, tá um pouco irritada só — Nós não tínhamos reação. — Meu nome é Sarah, esta é Lolla... — Disse a menina da direita. Longos cabelos cacheados e olhos castanhos escuros revezavam entre olhar para mim e Sabs. Ao seu lado, uma menina um pouco maior que ela. Cabelos ruivos ocre e olhos castanhos. — Prazer. — Ela disse estendendo a mão e a outra menina fez o mesmo.
— O prazer é nosso.... já sua amiga ali... — Sabs disse se referindo à loira que continuava caminhar.
— É... bom, nós vamos indo. Até qualquer hora. — Disse Lolla enquanto puxava Sarah pelo pulso. Adentramos o auditório. O mesmo que um dia antes havia sido esculhambado por Sabs, agora parecia mais calmo.
Descíamos as escadas em direção ao palco sem muita pressa. Eu senta um leve frio na espinha descendo, mas nada que não pudesse ser aguentado.
— Bom, meus queridos alunos. — Disse uma mulher no centro do palco. Vestia uma saia florida bem parecida com a que minha mãe estava usando mais cedo, com a diferença na coloração que era mais verde e no comprimento que ia até o calcanhar. — Como alguns de vocês sabem, dois pequenos incidentes ocorreram na escola ontem. O primeiro foi aqui, que poucos sabiam mas já foi resolvido. O segundo foi no corredor que muitos viram, já que é a principal via de entrada para a escola. Dou de presente para vocês hoje, aula livre. Conversem, fofoquem e façam o que quiserem desde que não envolva destruição. — A professora disse e eu senti mais um calafrio. Olhei para trás e um rapaz me encarava. Seus cabelos eram negros como os meus e seus olhos da mesma cor. Seu cabelo era mais curto que o meu e ele usava um topete. Me encarava como se me conhecesse.
— Sabs, quem é ele? — Eu perguntei para Sabs tentando disfarçar.
— Quem? — Ela disse se virando? — Aquele que ta na arquibancada, Dave? -
— Ele mesmo. — Eu respondi.
— É o Martin. Ele chegou alguns dias antes de você. Acho que hoje faz uma semana que ele está aqui. — Ela disse tranquila.
— Pensei ter sentido... — Eu me interrompi. — Nada, esquece.
— Oi... gente... — Disse uma voz que não reconheci vindo de trás de nós dois. Nos viramos e demos de cara com Phillip e Peter. -
— Vai nos atacar? — Sabs perguntou séria.
— Não! Eu vim pedir desculpas por ontem. — Phillip disse e Peter pousou a mão sobre seu ombro. — Eu não sei o que deu em mim.
— É comum ter esse tipo de crise no início, Lip. Pelo menos você veio pedir desculpas. — Peter disse ao amigo.
— Aceitas. — Eu interrompi Sabs antes que ela xingasse o rapaz novamente. — É bom saber que Calisto não obrigou você à fazer isso.
— Na verdade... isso não é bom... pelo menos pra nós, Dave. — Disse Sabs me fazendo pensar. Realmente, o rapaz não ia com a nossa cara. — Falando nisso, onde está o poodle? Espero que não esteja caçando criancinhas indefesas.
— Isso é do fetiche da sua raça, Sangue-suga. — Disse Peter em defesa do amigo. — Chega, Lip. Já fez o que queria... vamos embora. — Os dois se viraram e subiram as escadas.
Olhei rapidamente para onde Martin estava antes e a cadeira estava vazia. Eu sentia novamente um calafrio. Corri o olhar pela sala mas não encontrei o garoto. Horas se passaram e eu e Sabs conversávamos sobre esse novo mundo para mim. Era como um banco de dados em minha cabeça, ela me contava sobre criaturas famosas que mudaram muito o mundo sobrenatural. Os Doutores do Medo, La Bête du Gévaudan e Vlad, o Empalador.
— Dave... hoje a noite vamos sair. — Ela me disse ao finalizar a história sobre A Besta de Gévaudan.
— Vamos? Por que? — Eu perguntei para ela. Era estranho uma informação tão aleatória e um momento tão curto.
— Hoje é Lua Cheia. — Quando ela falou isso eu automaticamente lembrei do "sonho" do dia anterior. A Lua Azul, será que aquilo seria relacionado a lua cheia?. — Phillip vai perder o controle! — Ela contemplou.
— Acha que ele vai matar alguém? — Eu perguntei preocupado. -
— Se ninguém parar ele... eu não tenho dúvidas. — Ela me respondeu.
— A lua cheia interfere no que? Por que eles perdem o controle? — Eu perguntava curioso.
— A lua cheia é o fenômeno que os torna poderosos. O poder basicamente sobe à cabeça e eles perdem o controle. A besta toma o lugar do humano e ele pode matar até seu melhor amigo. — Eu fiquei lembrando do dia anterior. Phillip havia derrubado um Beta que nasceu assim em poucos segundos só por fúria. Com a lua cheia... só Calisto pode pará-lo.
— E Calisto e Peter? Eles não perdem? — Eu perguntei imaginando Calisto fora de controle. -
— Peter em seus primeiros anos de vida perdia constantemente. Mas com o tempo e a prática, todos aprendem a controlar. Calisto é o único Lobisomem que eu conheço que nunca perdeu o controle. Acho que por ter se tornado um Alfa em tão pouco tempo, ele se fortaleceu.
— Como sabe que Peter perdia o controle quando era pequeno? — Eu perguntei não dando muita bola para Calisto.
— Eu conheço a irmã dele! — Ela disse sorrindo. — Frankie é uma amiga.
— Ele tem uma irmã? — Eu perguntei perplexo. -
— Sim... — Sabs disse para mim sorrindo ainda. Ouvimos o sinal para irmos embora da escola e Sabs continuou me contando. — Ela é como você... a magia dela é um pouco diferente. Frankie é uma Sabia dos Objetos. Basicamente ela vê o futuro, o passado e o presente nos objetos. Ela vivencia aquilo. É quase como vivenciar uma Era apenas por tocar em um Objeto Oriental antigo. — Ela me explicava e eu me impressionava cada vez mais.
— Então existem mais de uma variação de Feiticeiros! — Eu afirmei e ela assentiu. Eu começava a me animar com aquela história.
Fui para minha casa e Sabs para a dela. Ela me passou uma página de um livro para que eu estudasse mas pediu para que eu não me esquecesse de estar pronto. "A noite pararemos um lobo" ela disse. Algumas horas se passaram e peguei meu celular para ver. Eram 17h30 da tarde. Fiquei alguns minutos olhando para o teto e ouvi um barulho vindo do lado de fora do quarto. John não se encontrava em casa, assim como nossas tias gêmeas e Tio Edgar e Tia Charlotte. Todos haviam ido ao mercado para as compras mensais e minha mãe ainda não regressara do trabalho. Ouvi a voz de Cathy e uma voz feminina que eu já ouvira antes. Cathy e a dona da voz adentraram o quarto sem bater na porta e falaram comigo.
— Primo, essa aqui é a Sarah. — Disse Cathy chegando para mim. Ela pôs as mãos em meus ombros.
— Olha... eu não esperava que fosse você, já que não me disse seu nome, mais cedo. — Disse Sarah.
— Verdade — Eu sorri e cumprimentei ela. — Meu nome é Dave, Sarah. Prazer. A menina que estava comigo era a Sabrina, mas pode chamar ela de Sabs.
— Bom, a loira mal-educada se chama Samantha. Me desculpe por ela, mesmo. — Ela disse sorrindo sem graça.
— Tá tudo bem — Eu disse sorrindo. — A gente não deu muita bola não...
— Bom, vocês já se conhecem então... Sarah é minha melhor amiga, primo... — Cathy disse sorrindo e abraçando a menina. — E bom... de mais um certo rapaz por aí né. — Cathy sorriu maliciosamente para ela.
— Ah... ainda não... — Ela disse corando e sorrindo. -
— Bom, a gente vai sair, Primo. — Disse Cathy. — Vamos no cinema. Até depois...
— Até — Elas saíram pela porta e eu respirei fundo.
— Ei — Dei um pulo da cadeira. — Você ficou lendo o livro e não se arrumou, não é? — Disse Sabs sorrindo na janela. — Põe um casaco e vamos lá. -
Tirei uma jaqueta de couro de cima da cama e vesti. Pulamos da janela e caímos com uma pequena vibração no chão. Saímos correndo. Durante a corrida, senti mais um calafrio e olhei para o lado rápido. Um par de olhos brancos me encarava no escuro da floresta. Pisquei algumas vezes e aquele par de olhos sumiu. Sabs sorriu para mim e eu me desvirtuei.
— Vamos caçar ele? — Eu perguntei curioso.
— Não... vamos esperar ele caçar — Ela disse enquanto mudávamos nossa rota para a montanha...
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