Ocultos

1 Fantom Hills


A Luz que saía pela porta tornava a visão de um homem postado de pé em frente à igreja, totalmente angelical. Suas mãos estavam para trás e ele assitia com olhar de pena um ser rastejante. Ser este, que arrastava-se com pesar sobre o chão como se estivesse a procura de uma redenção ou apenas uma pequena fonte de poder. Ao ter sua cabeça tocada pelo brilho do luar e das luzes da igreja, ele levantou sua cabeça e encarou o Padre. Padre este que não se espantou com as feições monstruosas e bestiais do homem. Seus olhos eram um vermelho como o sangue que jorrava de uma garganta cortada. Suas orelhas eram pontudas e seus dentes eram presas. O padre, um homem aparentemente velho, não fazia um mínimo movimento que fosse. Apenas observava atentamente enquanto aquele ser "menor" rastejava em sua direção.

— Você procura por redenção? — Disse o Padre

Sua resposta foi um aceno positivo com a cabeça.

— Você a terá, meu jovem — Ele prosseguiu enquanto descia os degraus. Um por um, sem pressa alguma.

— Vocês estão procurando... não é mesmo? — Perguntou a criatura.

— Recrutando, meu caro... recrutando. — O padre corrigiu.

— Eu quero então... eu preciso. — Ele implorava.

— Infelizmente seu estado já é crítico. – A fera no chão da um sorriso de escárnio.

— Está aí um homem da fé que não perdoa. O senhor faz jus a fama da vocação. — O rapaz fecha o sorriso e uma gota de sangue escorre pelo canto de seu olho.

— Pelo contrário. — O padre se ajoelhou e ficou mais perto do outro. — Eu perdoo, mais do que eu deveria... entretanto, existe uma diferença enorme entre benevolência e inocência. — Ele disse se levantando e dando as costas para a criatura que se encontrava no chão e agora com uma cara de medo. – Eu sou o líder desse grupo enorme, garoto... ser benevolente ou não, as pessoas devem continuar confiando que eu às salvarei a todo custo! — Ele disse se virando novamente na direção do homem que recuperara suas feições humanas. Em suas mãos, uma calibre doze brilhava. – E pode ter certeza que eu farei! – O estampido é alto. O corpo inerte do lobisomem se esvai em sangue, enquanto o padre lentamente da passos para dentro da igreja...

Bem Vindos à Fantom Hills!

17.000 habitantes.

Mostrava o banner. Meu rosto escorado na janela do carro tremia por conta das batidas que o vidro tinha em seu próprio eixo. O carro andou por mais alguns minutos que eu não calculei, apenas esperando a tortura se iniciar. E eu, minha mãe e meu gato, Bunker chegávamos à nossa nova casa. Os olhos amarelos de Bunker cintilavam à medida que o sol batia em seu rosto enquanto eu acariciava seu pelo. Estávamos indo morar com parentes, e o pior é que eu nem conhecia eles. Senti um tranco e o carro encostou.

— Chegamos, Dave! — Minha mãe disse tirando a chave da ignição. O carro estava em frente à um casarão grande e antigo. Portas e janelas num tom amedrontador de preto que me fariam passar longe na noite de halloween, e isso nem era o mais assustador. Adornos em dourado por toda a extensão das peças externas da casa e um maior no centro da porta, como aquelas campainhas antigas. Saímos do carro para pegar as malas. Puxei minha mochila e pus nas costas, estava um pouco pesada pela quantidade de livros e roupas que eu conseguira colocar lá. Começo a puxar um amontoado de malas para levar do carro até o casarão.

— Olá! — Uma voz me chama a atenção, olho para trás e avisto um garoto. Seus cabelos azuis esbranquiçados pela cor desbotada eram talvez a coisa mais exótica nele. Magro e um pouco mais baixo que eu, ele prossegue falando com minha mãe. — Este é o famoso Dave, tia Annie?

— É, o famoso Dave. — Minha mãe respondeu o garoto. — Dave, conheça seu primo, John. — Ele soltou um leve sorriso de canto, me envergonhando.

— Prazer... — Eu gaguejei entregando minha mão à frente. Ele me surpreendeu com um tapa em minha mão e um abraço.

— Prazer, primo Dave. Me da isso aqui, eu te ajudo. — Ele disse catando algumas malas que eu tentava miserávelmente segurar.

Fomos indo até a grande porta de entrada da casa. O tom vinho dado à casa de madeira tornava ela uma junção de bela e apavorante. Adentramos o local e um homem chegou até nós. Cabelos negros como carvão, pele branca como marfim, o homem alternou de uma expressão rubra, para um misto de alegria e curiosidade.

— Olá, Annie... — Ele disse abraçando minha mãe.

— Oi, tio Edgar! — Ela respondeu retribuindo o abraço.

— Onde está o resto dos meninos? — Ele disse se referindo aos meus irmãos mais velhos. Caroline e Steven moram atualmente na Califórnia juntos. Sempre foram muito ligados e acabaram me deixando de lado. Ambos são maiores de idade o que tornou mais fácil o sonho deles de nos abandonar.

— Somos só eu e Dave, tio. — Minha mãe respondeu com pesar.

— Oh. Olá, Dave. Já faz um bom tempo que não o via. Conheci você quando tinha poucos meses de vida. É bom ver como você cresceu. Venham, quero apresentar-lhes minha mulher.

Ele nos guiou até a cozinha, onde vimos quatro mulheres. A pequena, provavelmente a mais nova delas tinha olhos azuis e cabelos castanhos com pontas loiras, era um padrão adolescente muito claro pra mim, o que não tirava mérito pela beleza dela. Haviam duas em frente a uma pia. Uma secava e a outra lavava a louça, ambas muito pequenas e gordas, cabelos loiros curtos no ombro e usando vestidos combinando. A quarta mulher era a esposa do tio Edgar, um pouco mais baixa que ele, cabelos negros que desciam até a cintura escorridos, olhos pretos como o cabelo e usava um conjunto de calça e blusa completamente preto, como se estivesse preparada para um baile de gala. Ele chegou à sua frente e estendeu-lhe a mão.

— Esta é Charlotte. — Ele disse apresentando-a à nós. Beijou-a no rosto com ternura e ela veio até nós.

— Muito prazer, Edgar e a família falam muito sobre vocês. — Como se não bastasse minha timidez natural, eu ficava mais sem graça a medida que falava com uma família que nunca havia mandado um cartão que fosse, que nunca havia dado um sinal de vida.

— O prazer é todo nosso, Charlotte. Este é Dave e sou Annie. — Minha mãe nos apresentou dando um abraço. Eu fiz o mesmo, afinal eu era tímido, não mal-educado.

Alguns segundos distraída e minha mãe sofreu um bruto abraço da garota mais nova.

— Tia Annie... — Foi a única frase dita pela menina.

— Olá, Catherine. Como você está? — A resposta foi um aceno positivo com a cabeça. Agora que eu conseguia ver melhor, imaginei que tivesse quinze ou dezesseis anos.

Por fim, as duas mulheres acabaram a louça e viraram-se para nós. Gêmeas! A primeiro veio até nós e abraçou minha mãe, a segunda fez o mesmo movimento comigo. Senti as bochechas esquentarem.

— Finalmente chegaram. Eu já estava preocupada com vocês. — Disse a que abraçou minha mãe.

— Titia, levamos só quatro horas de Chicago até aqui. Estamos bem.

— Que seja, está anoitecendo já e vai chover. — Ela disse com firmeza na voz.

— Tia... – Minha mãe chamou a atenção de ambas, afinal, quando se tem uma gêmea, as duas vão se virar – Precisamos ter aquela conversa... eu achei que conseguiria contar à ele no caminho mas não tive coragem. — Minha mãe disse me fitando.

— Hm... John, Catherine, vão para seus quartos estudar. Vocês tem aula amanhã e matricularemos Dave lá... — Os dois concordaram e subiram. A escadaria da casa formava um T e cada um foi para um lado. – É melhor irmos para a sala, ter esta conversa de forma confortável...

— Dave, sente-se – Disse o tio Edgar assim que chegamos à sala, e pela primeira vez, senti um tom mais firme em sua voz.

— Annie, você poderia começar explicando ao Dave todos os motivos da mudança de vocês... – Petúnia, a tia gêmea que usava um vestidinho roxo disse olhando para minha mãe, que se sentava ao meu lado. -

Todos se sentaram a mesa e olhavam diretamente para mim, até que minha mãe começou a falar.

— Dave... você deve ter percebido que as coisas estavam fugindo um pouco do meu controle nos últimos tempos, não é? –

— É mãe, um pouco sim, estava difícil manter as contas e tudo mais... os meus problemas com as escolas... – Ela me cortou assim que eu terminei a frase.

— Esse é o princípal, Dave. Nossa família é residente dessa cidade há muitos anos já... somos como guardiões de Fantom. – Ela começou a história dessa forma, o que foi o suficiente pra me confundir. –

— Antes que continue, Annie, fiquei curiosa com o que Dave disse sobre “problemas com as escolas”... no plural. Quais problemas exatamente?

— Dave acabou dando uma leve demonstração do que somos capazes. Foi ruim ter acontecido na escola, mas ele não me explicou a situação.

— Dave, você tem que nos contar o que houve! — Petúnia me disse, mais uma vez com firmeza na voz.

— Eu não sei. Eu estava na sala e de repente as janelas explodiram.

— Mas o que estava acontecendo? — Edgar insistiu.

— Bom... eles... eles estavam... — Eu gaguejei e um nó formou-se na minha garganta. — Eles estavam falando do meu pai.

— Como assim? — Minha mãe me questionou.

— Foi isso. Eu ouvi um som estridente. Algo muito alto, foi horrível, eu tampei as orelhas com as mãos e de repente tudo estourou... – Eu disse segurando o choro ao lembrar da sensação.

— É, não sobram dúvidas. — Petúnia disse. — Vá dormir, Dave. Você acordará cedo amanhã.

— Não sobram dúvidas de que? O que ta acontecendo? — Eu perguntei pelo quão confusa era a situação.

— Vá dormir, Feiticeiro. Seus estudos começam amanhã... com a família inteira supervisionando!

Fui para o quarto com aquilo martelando minha cabeça. Cheguei lá e encontrei John. O quarto era realmente impressionante. Duas camas postadas em lados contrários, a minha ao lado da janela que dava para os fundos da casa, enquanto a de John era costeada por uma enorme prateleira abarrotada de livros. Ele estava lendo um desses, um livro estranho. A capa marrom e uma palavra escrita em letras estranhas que eu não entendi inicialmente, mas ao fixar um pouco mais os olhos consegui ler. “Grimório”. Me sentei na cama e fiquei olhando pela janela enquanto o garoto seguia sua leitura.

— Não faz ideia do que ta acontecendo, não é? — Ele me disse fechando o livro e o recolocando em um espaço certo no meio de tantos outros na prateleira. Eu continuei com minha atenção voltada para a floresta atrás da casa. Havia algo lá que puxava meu olhar.

— Não mesmo. — Eu disse sem fazer qualquer tipo de contato visual com ele. Porém meu olhar para a floresta se intensificou quando duas luzes vermelhas piscaram duas vezes no breu da floresta e foram se afastando cada vez mais. — Mas sei que não é coisa boa...