Ocultos
2 Aprendizado
— Dave, acorda. Temos que ir pra escola – Acordei com uma voz conhecida me chamando, era John, meu primo. — Temos que tomar café e irmos pra escola.
— Hm... tá bom... só deixa eu me arrumar e já desço. — Eu disse sonolento.
— Certo. — Ele disse pegando uma mochila preta e descendo. O rapaz vestia uma blusa verde com mangas curtas e uma jeans preta.
— Vai acordar ou não? — Ouvi Catherine falando com ele. — Pega um casaco, ta chovendo.
— Ta bom, garota. Vai logo, sua escola toca o sinal antes da minha. — Ela deu um beijo no rosto de John e foi embora. A porta se fechou e eu me levantei.
Coloquei uma camiseta cinza e preta com as mangas longas, uma jeans cinza e um all-star comum. Desci e encontrei quase toda a família na mesa. Cathy já havia saído para a escola e minha mãe não se encontrava também.
— Bom dia, Dave. — Disse tio Edgar, sinalizando para que eu me sentasse à mesa. — Sua mãe foi cedo para a nova empresa e deixou esta mochila para você. Seus livros serão entregues na escola.
— Certo, tio Edgar. — Eu disse estranhando o clima novo. Tomei um gole de café, o líquido quente esquentou meu corpo inteiro.
— Dave, vamos? — John chamou minha atenção para o horário.
— Bom, deixa eu escovar os dentes e já vou. Pode indo na frente, se quiser.
— Você não sabe o caminho da escola, garoto. Vai logo. — Ele disse sorrindo.
Escovei os dentes e nós saímos de casa. A escola não era muito longe da casa então não levamos muito tempo e nem pegamos muita chuva no caminho. Adentramos a escola e senti os olhares pesarem em mim.
— Dave, você tem que ir até a orientação para pegar seus livros e sua indicação. — Ele me avisou se afastado devagar.
— Indicação? — Eu perguntei confuso.
— É, a sala que você vai estudar. Eu tenho que ir, nos vemos no intervalo. — Ele foi se afastando cada vez mais e uma mulher se aproximando, passando ao seu lado e lhe cumprimentando. Ao chegar em mim, se apresentou como a orientadora do colégio e pediu para que eu à acompanhasse.
Andamos alguns poucos minutos até uma sala com um balcão e algumas cadeiras. Ela contornou o balcão e me mandou esperar à frente dele. Catou alguns papéis e pediu minha assinatura. Nada que eu nunca tivesse feito antes.
— Obrigada, Dave. Vou pedir que você espere a pessoa que vai levá-lo até sua turma. — Ela me disse enquanto eu guardava os livros e o papel assinado.
— Ok, eu me sento ali? — Perguntei apontando na direção das cadeiras.
— Pode sentar se quiser. — Ela me disse contornando novamente o balcão.
Não levou muito tempo para que uma garota ruiva e mais baixa que eu surgisse na sala. Pele branca como gelo e expressão sorridente.
— Senhor Mason, esta é Sabrine Zullush. Sabrine, pode guiar nosso novo aluno? Apresente a escola, seu armário. Tome cuidado, uma palestra está acontecendo no auditório para os alunos do segundo ano.
— Certo. É Dave, né? — A menina me perguntou com firmeza porém a mesma expressão sorridente.
— Sim. — Eu disse com a impressão de ter gaguejado um pouco.
— Vamos lá, vou te mostrar seu armário. — Ela disse sorrindo mais uma vez.
Sala 148
Turma 3
Pensamento de John
Era como se algo estivesse errado. A sensação de clarividência nunca era boa comigo. Cathy parecia nas nuvens quando via algo e eu me sentia tão mal. Era como ser empalado por uma centena de lanças. Eu sentia uma gota de suor escorrer por minha testa e me curvei na carteira. Será que era Dave? Minha mãe havia me avisado que ele não tinha controle e pouco conhecimento sobre seus poderes. Talvez fosse ele, talvez não fosse, eu não saberia responder. Sequei a testa e me reclinei na cadeira.
Corredor da escola
Armário 135
Pensamento de Dave
Sabrine me puxava pelo pulso enquanto fazia o caminho do corredor. Ela me mostrara o meu armário, número 135, fileira da direita.
— Bom. Catherine me explicou o que você é. — Ela me disse parando quase que instantaneamente a corrida.
— E... o que eu sou? — Eu perguntei confuso.
— Um feiticeiro. Um sem a menor prática e conhecimento para ser mais específica. — Ela falou sorrindo de canto. — Catherine quer poupar a mãe dela. Pediu para que eu te ensinasse o básico.
— Eu não entendo isso. Como eu posso fazer parte disso? — Eu perguntei com a mesma expressão da noite passada.
— A gente não escolhe essa vida, Dave. É um dom dado à você que muitos gostariam de ter. Muitos fazem de tudo para tê-la. — Ela me informava de forma doce.
— Fazem? Não... fariam? – Perguntei estranhando a forma que ela disse.
— Magia negra é odiada e repugnante, muitos de nós... — Eu senti um baque ao ouvir "nós". Aquela realmente era minha vida agora? — Muitos de nós se tornam... "caídos". Mas também tem aqueles que nascem normais e se tornam caídos.
— É complicado para mim. É muito complicado. Eu tenho 16 anos e minha mãe apenas lançou essa informação na minha direção. "Você é um feiticeiro." Você nasceu assim, não é?
— Eu vou te explicar tudo, mas depois. Primeiro você tem que saber que sou um tipo... "diferente" de feiticeiro. — Ela me disse pondo a mão sobre meu ombro.
— Ok... — Eu soltei a única palavra com uma leve desconfiança.
— O mundo sobrenatural se estende muito além de Feiticeiros, Dave. Além dos transmorfos, existem as criaturas de toda e qualquer lenda já criada. Afinal, cada lenda tem sua base de criação. Eu sou o que vocês conhecem como híbrido. Uma mistura de seres. Minha mãe, uma renomada feiticeira amiga da sua família. Meu pai, uma criatura das trevas. Um dos seres mais temidos pelos humanos... pelo menos para aqueles que não acham Crepúsculo legal.
— Ele seria? — Eu perguntei tomando o assunto como algo comum em minha vida. Bom, aparentemente se tornaria e um costume rápido não seria tão mal.
— Bom... — Ela disse e piscou os olhos. Não demorou muito, mas seus olhos castanhos agora eram negros. Ela abriu a boca e seus caninos se mostraram como presas para mim.
— Um Vampiro... — As palavras fugiram de mim. — Então... -
— Vai ficar tudo bem, Dave. Você se acostuma. É como um namoro de anos que acaba. Você vai sentir falta da sua antiga vida, vai sentir vontade de desistir de tudo, mas uma hora, você vai se acostumar. -
— Ainda assim, Sabrine... -
— Me chama de Sabs. — Ela me interrompeu com a informação e sinalizou para que eu prosseguisse.
— Ainda assim, Sabs... — Eu me corrigi soltando um leve sorriso. — É muito complicado para mim.
— É complicado tudo isso, Dave. Não foi para mim por que eu nasci no meio disso tudo. Eu cresci no meio de feiticeiros, de vampiros... de feiticeiro-vampiro.
— Oi? — Eu perguntei surpreso — À mais um igual a você?
— Uma — A correção era esperada. — Minha prima. Ela vive conosco desde pequena. Bom, quando eu nasci ela já tinha 3 anos de idade. Você quer aprender? Não faremos nada que você... bem, que você não queira.
— É que... eu não sei se eu quero... e não sei se não quero. Eu tenho medo do que pode acontecer.
— Medo do imprevisível é algo normal, mas quem disse que nós somos? — Ela me fitou com um sorriso.
— Bom... pode ser. — Eu disse receoso.
— Pode ser ou você quer? — O sorriso foi substituído por uma expressão séria.
— ... — Eu pensei com cuidado e calma no assunto. — Eu... eu quero, Sabs! — Ela sorriu e me puxou pelo pulso.
No meio da corrida, me deparei com uma sala de aula aberta. Alguns segundos foram o suficiente para que eu notasse duas meninas. A que sentava na esquerda da mesa tinha feições indígenas, cabelos castanhos escuros e olhos pretos. Senti um forte vibração ao olhar para ela. Ela me encarou e foi como uma energia me puxando na direção dela. A da direita, uma menina linda cabelos completamente pintados. Um vermelho rubro que brilhava. A mesma coisa que aconteceu com a pequena índia, aconteceu com a "vizinha". Seus olhos castanhos penetraram minha alma e me surpreenderam ao tornarem-se azuis. Um azul tão claro quanto o mar caribenho. Perdi o foco delas e seguimos nosso caminho. Três salas depois da dupla feminina, me deparei com uma situação parecida. Em frente ao quadro negro, havia um rapaz. Devia ser um pouco mais alto que eu e respondia algumas questões históricas. Ele me fitou e soltou um leve sorrisinho que me fez sentir as bochechas esquentarem. Seus olhos verdes rapidamente mudaram para amarelo. Não sei o porque, mas senti que diferente das meninas, ele quis que eu visse aquilo. Seus cabelos castanhos iam até as costas e ele constantemente mexia neles. Seu porte era levemente atlético. A camiseta de mangas curtas deixava à mostra alguns músculos e uma tatuagem. Um círculo com três raios saindo de seu centro e duas listras pretas abaixo. Ele voltou a olhar para o quadro e responder. Desviei o olhar e senti algo diferente. Um misto de raiva e medo veio de um rapaz sentado. Ele me encarava por debaixo dos óculos. O mais curioso eram seus cabelos curtos e brancos como neve. O rapaz não era albino, seu tom de pele era pouco mais claro que o meu. Não tive tempo de ver mais, Sabs me puxara com mais força.
— Estamos chegando ao auditório, Dave. — Ela me avisou.
— Ta, mas o que faremos lá? — Eu lembro de ter ouvido algo sobre o auditório na sala da coordenadora.
— Você já vai entender. Não só a situação, mas o que nós somos. — Ela me disse e acelerou a corrida. Chegamos em frente à uma porta dupla branca, que ela abriu com o maior cuidado do mundo. Ouvi algumas vozes lá dentro e lembrei plenamente o que havia escutado. A palestra do segundo ano!
— O que você vai fazer? — Eu perguntei para ela quando a mesma fechou a porta com o mesmo cuidado.
— Dave. Feiticeiros, desde muito tempo atrás, usam a mesma filosofia para ensinar jovens que nasceram com esse "dom". "Se quer manusear algo, faça parte". Isso basicamente quer dizer que aquele clichê de "pense como tal coisa, seja tal coisa" funciona. Vou te mostrar!
Sabs parou em frente a porta, abrindo-a novamente com cuidado. Ela colocou seu pé na frente para que a porta não fechasse. Me empurrou um pouco para o lado e fechou os olhos. Quando os reabriu, estavam um tom escuro de roxo. Ela fitou o auditório e as luzes piscaram. Todos lá presentes revistaram a sala com o olhar, até que um estrondo pode ser ouvido e as lâmpadas explodiram. Uma gritaria se originou lá dentro, fazendo com que Sabs me puxasse pelo pulso e saísse correndo me arrastando.
— Essa é outra lição que aprendemos cedo, Dave. Corre! — Ela me disse sorrindo e suando enquanto corríamos. Soltei um leve sorriso e continuamos nossa fuga pelo corredor. Passamos novamente pela sala dos rapazes e ambos haviam sumido. — Dave, vamos ver como você se sai com os jogadores da nossa escola.
— Oi? – A fitei curioso. — O que você vai querer que eu faça, Sabs?
— Ah nada demais, Dave. Você só vai brincar com eles um pouco. — Ela disse sorrindo para mim.
— Ai. Meu. Deus. — Eu soltei as palavras pausadamente.
Chegamos as arquibancadas e vimos alguns garotos se alongando. Sabs me disse que a escola tinha um dos melhores times de rugby dos arredores.
— Gosto de vir aqui quando a aula está entediante... — Ela disse aos suspiros enquanto observava os rapazes sem camisa correndo ao redor do campo. — A gente não veio aqui pra isso. Dave, a escolha é sua. Faça o que quiser, ou o que sua imaginação quiser. Você só tem que se imaginar como uma extensão daquilo que for usar.
— Mas... e se der algo errado? — Eu perguntei preocupado. — E se eu machucar alguém?
— Bom, é um risco, mas se você quer, você tem que tentar algo... –
Foi o que fiz. Eu não tinha controle algum sobre minha vida natural, imagina a sobrenatural. O esforço físico e mental pesava. Eu sentia uma pressão contra as costas e fechei meus olhos. Apoiei as mãos no chão e senti um baque que me atirou para trás. Abri os olhos e minha visão mudara, eu via as raízes da grama brilharem por debaixo da terra. Ouvimos um som seco e a nossa frente um rapaz havia tropeçado. Quando vi sua perna, senti um forte enjoo na mesma hora. Estava quebrada, quase que no formato da letra V. O resto do time correu na direção dele, inclusive os dois rapazes que eu encontrara mais cedo.
— Saiam de perto dele! — Disse um homem alto que corria na direção da rodinha que se formava na volta do rapaz. Perdemos a visão sobre ele.
— Treinador, deixa que a gente leva ele pro vestiário — Disse o rapaz de cabelos longos. Logo atrás dele, chegava com expressão séria, porém calma, o de cabelo branco.
— Tem certeza, Rodriguez? — O treinador perguntou para o cabeludo e recebeu como resposta um aceno positivo com a cabeça. Eu e Sabs observávamos atentos a situação.
O rapaz de cabelos brancos acompanhou o de cabelos longos até o meio do cerco. Saíram pelo outro lado carregando o rapaz que mancava. Era estranho, parecia que estava simulando os passos mancos.
— Vamos! — Sabs me puxou pelo pulso novamente.
— Espera — Eu disse à segurando. — Não quer seguir eles, quer? -
— Você tem que ver uma coisa, Dave! Vamos. — Ela me disse com expressão séria, mesmo que tentasse passar calma para mim. Eu fui, relutante e receoso, mas fui.
Fomos nos esgueirando pelas arquibancadas enquanto a multidão se dispersava e voltava a se exercitar. Sabs abriu a porta com muito cuidado. Nenhum barulho, não havíamos sido notados.
— Se acalma, Lip. — Ouvimos uma voz.
— Eu... eu não consigo, Calisto. — Permanecemos quietos. Tampávamos nossas bocas com as mãos e respirávamos com cuidado.
— Lip, se acalma ou eu vou ter que te apagar. — Ouvimos outra voz, um pouco mais fina que a do suposto rapaz chamado Calisto.
— Eu... eu to tentando, Peter... — Eu estiquei um pouco a cabeça e vi o rapaz com a perna no lugar. — Peter... — Ele disse com a voz alterada.
— Que foi? — O rapaz cabeludo atendeu e se aproximou. -
— Se vai me apagar... faz agora. — Ele disse e se virou pra nós. Sua feição mudara. Seus olhos eram amarelos, suas orelhas pontudas e presas surgiram na boca dele. Em sua mão, grandes garras surgiam e ele alternava o olhar entre nós e a outra dupla. — Por que eu acabei de encontrar a dupla que fez aquilo no campo!
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