Ocultos

22 Alfa, beta, ômega e delta.


O dia se passou com um treinamento intensivo. Sarah não conseguiu curar Peter e o rapaz quebrou o braço para que a regeneração se acelerasse e a dor parasse. Já Dave, com os olhos vendados, teve uma leve visão de Calisto em forma de lobo, porém não conseguiu ver o resto da alcateia. Peter avisou os lobos sobre o convite do pai de Sarah para um jantar.

– É perfeito, a gente entra lá, mata o velho e sai feliz. — Disse Alaska.

– Cê ta maluca né ? E a Sarah fica como ? Ela não ta preparada pra perder ele. — Repreendeu Peter.

– Se você quer ir com esse pensamento, é melhor não ir, Alaska. Vamos como amigos dela, não como lobisomens, Ok ? — Calisto se colocou em sua posição de líder. Os amigos assentiram e novamente, Alaska com olhar de deboche aceitou. — Vamos apresentáveis. Vão para a toca, tomem um banho... tenho umas coisas para resolver...

No casarão.

– A princesa vai demorar ? — Gritava Sarah para Cathy no banho há 20 minutos.

– Não enche. — Respondeu a loira. Sarah sentou-se na cama e ouviu um barulho na janela. Ao olhar e encontrar seu namorado de uma forma totalmente diferente da de algumas horas mais cedo, ela sorri e o convida para entrar.

– Oi, Lip. — Cumprimentou Sarah com um beijo.

– Oi, Sah. Esperando a Cathy ? — Perguntou o namorado. A moça assente positivamente com a cabeça e ele sorri. — John e Dave vão também ?

– Não, eles vão pra uma festa na casa da Ariel. Só nós e a alcateia. — A ideia de encontrar seu sogro e assassino dos pais de Peter assustava Lip um pouco.

– Hm... ok. Você está linda — O elogio foi como um chute para que os dois se abraçassem.

– O rei e a rainha do drama vão se soltar ou querem que eu vá para a sala até terminarem ? — Surgiu Cathy de dentro do banheiro.

– Não é necessário, mas então, vamos? — Disse Lip.

– Ahn temos que ir no mercado primeiro... eu... me ofereci pra cozinhar. — Sarah falou para o desespero de Cathy.

– Fuck. — Pigarreou Cathy.

– O que?

– Nada não, amiga. Vamos lá...

Minutos depois, o trio está na frente ao mercado e as compras estão feitas. Peter, Alaska e Annie demoram a aparecer.

– Chama o cachorrinho logo, Phillip. — Debochou Cathy. O rapaz a olhou em reprovação. Suas feições tornaram-se do lobo. Os olhos amarelos, orelhas pontudas, presas afiadas, davam a ele um poder distinto. Ele uiva para o alto, tomando cuidado para que ninguém o visse. Alguns minutos e o trio surge.

– Cade o Calisto? — Perguntou Lip.

– Ainda resolvendo os assuntos pendentes. Pediu pra eu avisar que vai pra lá mais tarde. Vamos? — Peter respondeu os amigos que assentiram.

Minutos caminhando e o grupo conversando, Peter avista do outro lado da rua a Amazona Lorenna. Vestindo roupas mais casuais desta vez e com vários curativos no rosto. Ao seu lado, Thalles, um aluno da escola tomava um café e conversava com ela. Ela encara Peter e este assente positivo para ela. Ela, mantendo um olhar totalmente fixo nele, chama a atenção do olhar de Thalles. O rapaz segura ela pela mão e a puxa. Continuando seu caminho, eles chegam a uma casa branca. Sarah abre a porta e ela e Cathy entram sozinhas até ouvir um pigarro vindo de Lip.

– Não vão entrar? — Perguntou Sarah.

– Tem que convidá-los, Sarah. São seres sobrenaturais. — A garota encara surpresa o namorado e os amigos que ficaram um pouco constrangidos com a situação, mas rapidamente a garota muda sua expressão para algo alegre e convida os amigos a entrar. – Fiquem na sala, não façam besteira que logo mais meu pai chega e eu termino o jantar. Por favor, não destruam nada.

– Você acabou de pedir para o bando de pulguentos não destruir nada? Você basicamente soltou alguns touros desajeitados dentro de casa e espera que eles não quebrem nada? Só em sonho. – A garota se apoiou sobre uma mesa e acabou batendo o cotovelo em um vaso que começou a cair, mas por sorte Lip foi rápido o suficiente para pegá-lo antes que caísse.

– Acho que os touros tem mais jeito que a vaca. – Peter disse com um sorriso sarcástico no rosto e a garota começou a pedir desculpas a Sarah que encarou Lip e riu também indo até a cozinha acompanhada de Cathy.

– Onde Calisto está, Peter? – Annie perguntou sentando-se no sofá.

– Não sei, ele apenas me disse que tinha alguns assuntos para resolver com Sabrine e que logo mais estaria aqui. – O garoto se sentou no chão e ligou a TV. O noticiário dizia sobre uma série de assassinatos com um padrão, todos os corpos encontrados tinham dois buracos no pescoço. – Vampiros estúpidos. – Então o celular de Peter tocou e ele antedeu. – Alô? – Calisto respondeu do outro lado.

– Você está assistindo TV? – O alfa perguntou e a voz de Sabs ecoava no fundo “Mas que merda, mas que merda!” Fique calma, Sabs, pode não ser nada. – “Eu tenho certeza, estão vindo atrás de mim”. – Eu não vou deixar te fazerem mal. Peter, acho que você entendeu o recado, daqui alguns meses vamos ter algo difícil de lidar, é a terceira ou quarta cidade com o mesmo padrão, fique atento.

– Pode deixar, e toda essa sua intimidade com ela? Já tá chamando de Sabs em alguns dias de amizade? – O garoto riu. – Calma, estressado, não precisa mandar eu me foder. – Peter olhou para o celular. – Desligou na minha cara, desgraçado.

– O que ele disse, Peter? – Alaska de braços cruzados encarava o garoto.

– Bem... – Um homem com roupa social entrou na sala, era o pai de Sarah. – Depois conversamos sobre isso. Olá, senhor, muito prazer, eu sou Peter. – O garoto foi em direção ao homem que cumprimentou o garoto apertando-lhe a mão enquanto olhava fundo em seus olhos.

– Muito prazer, eu sou Lucian. – O homem cumprimentou todos na sala e foi em direção à cozinha.

Passados alguns minutos Sarah voltou a sala e pediu que todos fossem até a sala de jantar.

A casa de Sarah era algo bonito de se ver, tudo muito bem arrumado, limpo e grande. A sala de jantar era linda, uma enorme mesa ocupava o lugar rodeada por várias cadeiras e inúmeros pratos diferentes sobre a mesa, Sarah sorria ao ver a felicidade estampada no rosto dos amigos ao se deparar com tanta comida.

– Antes de comer, vamos rezar. – Lucian sugeriu e todos deram as mãos. — Pai Nosso, que estais no Céu; Santificado seja o Vosso Nome; Venha a nós o Vosso Reino; Seja feita a Vossa Vontade, Assim na Terra como no Céu; O Pão-Nosso de cada dia nos daí hoje
Perdoai-nos as nossas ofensas; Assim como nós perdoamos a
Quem nos tem ofendido; E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do Mal.

– Amém. – Duas vozes disseram em coro surgindo da porta pela qual todos tinham entrado na sala. Calisto e Sabs apareceram. – Espero que você não se importe de eu ter convidado Sabs para vir comigo, Sarah. – A garota disse que não havia problema algum e Calisto sorriu. – É uma bela casa senhor, Lucian, mas eu tenho que ser sincero e dizer que aquela cabeça de lobo é de um enorme mau gosto. – Calisto apontou para uma cabeça de lobo pendurada na parede. Sabrine cutucou o garoto com o cotovelo e fez uma cara de desgosto.

– Eu caço algumas vezes, e esse lobo foi algo realmente difícil de matar, então aceitei como um presente do Pai, já que não sou completamente por ter uma filha, não vejo mal algum no lobo, mas queiram se sentar. – Calisto e Sabs se sentara um ao lado do outro, Calisto ao lado de Peter e Sabs ao lado de Annie.

– Como você entrou aqui? Tem uma barreira mágica protegendo a casa. – Peter sussurrou sem sair do lugar e graças à super audição Calisto pode ouvir.

– A nossa bruxinha sabe burlar algumas coisas para uma entrada dramática. – O alfa sorriu e olhou para Sabs que conversava com Annie, ainda um pouco tímida.

– Eu ouvi muito falar de você, Calisto. – O padre sorria enquanto tomava um gole de vinho. – Não só de Sarah, mas como de professores, moradores e qualquer pessoa dessa cidade. O garoto que perdeu os pais, mas se manteve firme, estuda, é capitão do time de rugby e ensina artes marciais em uma academia pra conseguir dinheiro. Você é um exemplo de líder.

– Eu também ouvi muito falar do senhor. – Calisto e Lucian estavam sentados em pontas opostas da mesa. – O grande padre da cidade, amado por todos, o homem mais generoso que já viveu por aqui, o homem que doa muito dinheiro para instituições carentes, que ensina crianças de rua a ler, o homem que não faria mal a uma mosca. – Todos da alcateia se entre olharam e Sabs tentava segurar o riso.

– Mas você com apenas 14 anos juntou tanto dinheiro, comprou um prédio abandonado e faz a reforma de lá por conta própria. – Sarah encarava o pai e pedia para ele parar de tocar em assuntos assim. – Acalme-se, minha filha, creio eu que seu amigo não se importa de me contar um pouco de sua vida.

– De forma alguma, e eu não tenho 14 anos. – Calisto levantou-se e começou a admirar os inúmeros quadros pendurados nas paredes da casa, todos mostravam caçadores com lobos abaixo de seus pés ou rostos com nomes. – Creio eu que está seja sua família, senhor. – O homem assentiu com a cabeça. – Meu pai era um homem de respeito, tinha dinheiro e poder, mas roubaram tudo que ele tinha e ele teve que recorrer a outros meios para continuar vivo e manter eu, minha mãe e minha irmã a salvo. – Todos na mesa fizeram uma cara de surpresos. – É, eu acho que nunca contei sobre a minha irmã, ela também junto a meus pais naquela história que todo mundo da cidade já conhece. O incrível assassinato da família mestiça, a família que aceitava qualquer um que precisasse de ajuda. Ela era um pouco mais velha do que eu, me ensinou muito do que eu sei, inclusive como ganhar dinheiro. – Calisto se sentou. – Vamos, senhor, agora é a sua vez de contar uma história.

– Claro. – Lucian sorriu. – As lendas antigas de minha família contam sobre seres sobrenaturais que assombravam suas vidas e obrigaram que eles os caçassem, mas o principal desse seres eram lobisomens. Divididos em alfa. – O homem encarou Calisto. – Beta. – Mudou seu olhar para Peter. – E ômega. – Encarou a janela que dava para uma floresta logo atrás de sua casa. – Cada um deles com uma função, o alfa lidera o bando, o beta segue o alfa e o ômega busca por um alfa ou por ser um alfa, mas existe uma quarta classe. O delta. Poucas pessoas conhecem essa parte da lenda, até porque deltas são raros e considerados uma lenda dentro de uma lenda. Havia uma família muito antiga e poderosa conhecida como família Falcone. Seu líder era Carmine Falcone. Um homem respeitado e conhecido por ter começado a nascer em uma sexta-feira e só ter saído completamente do ventre de sua mãe após uma semana, numa sexta-feira de lua cheia. Infelizmente pouco antes de parir o filho a mãe de Falcone foi mordida por um lobo, vindo a adoecer, e quando finalmente o filho nasceu ela estava morta, pois aparentemente o filho tomado pela fome devorou a mãe por dentro. – Todos na mesa mantinham expressões de medo, então Lucian se levantou e começou a andar de um lado para o outro. – Desde então Carmine Falcone se tornou um menino, garoto e homem temido por todos devido às histórias que diziam que o garoto havia se tornado um lobo dentro do útero de sua mãe. Como todo homem ele se apaixonou um dia por uma bela mulher, com a qual se casou e veio a engravidar, mas com uma peculiaridade, eram sete gêmeos e cada um deles nasceu em um dia da semana, a cada criança que nascia a mulher de Carmine ficava mais fraca e quando a ultima finalmente nasceu ela veio a falecer. E com o passar dos anos cidade toda foi tomada pelo medo de serem outros sete monstros como supostamente Falcone era e quando as crianças completaram 16 anos os cidadãos decidiram atacar o casarão da família, mas eles foram surpreendidos por algo. – Lucian foi em direção a um quadro que mostrava inúmeras pessoas segurando tridentes e tochas viradas para uma casa, a qual apresentava um ser muito alto, repleto de pelos e olhos vermelhos que aparentemente protegia sete garotos com olhos amarelos. – Falcone realmente era um monstro, ele era o primeiro lobisomem já visto e seus filhos herdaram esse dom e para proteger os filhos, que além de seus descendentes eram sua matilha ele tomou a forma de lobo e se dispostos a entregar-se para os cidadãos, desde que seus filhos fossem deixados em paz e o prefeito da cidade fez um acordo, que infelizmente não foi cumprido e quando Carmine viu seus filhos amarrados em trocos junto a ele para serem queimados ele foi tomado por uma fúria enorme, despertando um poder enorme dentro de si, seus olhos brilharam vermelho rubro, mas era diferente, ele não era apenas um alfa, ele havia se tornado um alfa genuíno, se soltou das correntes de prata que o prendiam, libertou seus filhos e pediu que eles corressem enquanto ele continha os cidadãos, assim dando uma chance para que eles fugissem. – Lucian parou ao lado de Calisto. – Infelizmente os cidadãos estavam armados cor prata e deram um fim no homem, mas algo diferente aconteceu aquela noite, o coração de lobo ao invés de parar de bater se mostrou valente, e sob a luz de uma lua de sangue o lobisomem voltou a vida, mas ele estava diferente, ele havia se tornado um delta. Ele havia compreendido que não valia a pena lutar contra as leis de Deus, a escória sempre seria escória. – O homem sorria e todos na mesa estavam desesperados.

– Não, o senhor está errado. – Calisto encarou o homem com serenidade. – Falcone morreu sob o que mais lhe dava poder, não a sua, mas sob seus filhos que tiveram uma nova chance. Eles nunca haviam feito mal algum à cidade, mas os homens os temiam por não os entenderem, e essa é a lei dos homens, temerem o que não entendem.

Lucian fincou o garfo na mão de Calisto.

– Queira me perdoar, queria pegar o salmão. – A ferida na mão do alfa fechou e o padre pegou o salmão e foi se sentar. – Bem, agora chega de conversa, vamos todos comer. – Ele dizia como se nada tivesse ocorrido.