Oculta
24 Sem Opção
Não vai almoçar comigo?
Dslp, querida
É q vo ter um compromisso
Por que não avisou antes?
Eu esqci.
Sei q a gente tava combinando
d almoçar juntas tds os dias,
mas hj n vai dar msm :c
OK.
Ah, que ódio quando invoca o modo "silábico". Se bem que estaria do mesmo jeito se fosse cara a cara. Mas não sei por que, por mensagem me irritava mais.
Que seja. Havia algo mais problemático para me preocupar, de qualquer forma.
Eu já me encontrava próxima ao restaurante. Era um dia nublado, o tipo de dia que você só quer ficar em casa sem fazer nada. Esse fato realmente não me animava para o "encontro".
Pela vidraça do estabelecimento, em uma das mesas, visualizei um homem de ombros largos, cabelos grisalhos, e vestindo um terno elegante. Olhava para o relógio do punho a cada cinco segundos.
Com certeza era o meu pai.
Em contrapartida, eu vestia um jeans simples e blusa de moletom preta sem estampa, um tênis também preto, o cabelo solto, nada mais. Não me produzi para ir, não. Pus algo confortável e pronto. Nem ao menos passei base no rosto. Era o meu pai, cara. A preguiça foi dominante.
Fui muito bem recebida ao adentrar o local, como sempre. Avisei à recepcionista que alguém já me aguardava, sinalizando para a mesa de meu pai, este que agora me encarava com uma intensidade que só senhor William para proporcionar. Era como se eu tivesse aprontado (bem possível) e ele estava doidinho para oferecer horas e horas de sermões. Eu sorri com isso. Era nostálgico.
A recepcionista assentiu e deu espaço para que eu me dirigisse à mesa. E, OK, finalmente o nervosismo me tomou.
— Olá, Beth. — cumprimentou William em seu tom formal, mas com uma pitada de "eu diria outra coisa se não estivesse em público".
— Oi, pai. — cumprimentei dando um sorriso pequeno, evitando contato ocular.
— Pensei em pedir o especial, mas não sei se ainda gosta. Já faz um tempo que não viemos aqui...
O tom de sua voz demonstrava... saudade. Eram realmente raras as ocasiões que meu pai evidenciava algo de maneira tão direta. William era um cara cético, sério, na dele. Mas era tranquilo. Ao menos comigo.
E por que será que isso me lembra tanto uma certa pessoa?
No geral, eu era o seu xodó. Fui a última filha, tempos depois de Michael e Jason. E, bem, sendo uma garota, fui muito mais mimada... seja por ele ou por Denise.
E isso me beliscou. Lembrar sobre quando viviam juntos me causava um desconforto no estômago.
E pensar que, talvez, muita coisa naquele tempo não foi sincera... Eu era uma criança muito inocente para perceber.
— É verdade, faz tempo que não comemos aqui. — concordei neutra.
— Você quer o cardápio para escolher? — sugeriu, me oferecendo o menu.
— Não, não. Peça o que quiser. Quem me convidou foi você. — respondi. Eu não estava com fome, na verdade.
— Em outros tempos, você até brigaria pra escolher o que pedir. — recordou-se. OK, isso estava me cansando.
— Pai, por que queria me ver?
Eu admito não gostar muito de mandar tudo na lata, mas desta vez está difícil aturar. Ele não fala comigo há meses e de repente liga agindo como se nada tivesse acontecido? Não vai ser como antes. Eu não sou a mesma há tempos. William deve ter um bom motivo para falar comigo, com certeza.
— Eu cansei, Bethany. — desabafou, cruzando os braços sobre a mesa. — Depois de tudo o que aconteceu... Eu entendi um pouco o porquê de você ter fugido. Porém, não aprovo sua atitude e nunca, jamais, aprovarei. Você sabe disso.
— Ah, com certeza. Deixou bem claro na última vez que nos vimos. — cutuquei.
— E deixo claro de novo. — ressaltou, revirando os olhos. — Uma conversa seria suficiente e você fez aquilo. Olhe, se ponha no meu lugar igual me pus no seu. Você aprovaria? Aprovaria mesmo?
Eu fiquei quieta. Claro que não aprovaria. E sei que minha atitude foi estúpida, é obvio. Mas, sinceramente, discutir isso outra vez me deixará desgastada.
— Teve sorte que foi Denise. Eu não teria a mínima piedade contigo. — acrescentou e suspirou alto. Eu assenti e permaneci calada. — E não me recordo de ter ficado muda, Bethany.
— O que quer que eu diga? — questionei, franzindo o cenho.
— Oras, me atualize. Como vai a sua vida, por exemplo.
— Só estou estudando por enquanto. — respondi e dei de ombros.
— Nenhum estágio ou emprego?
— No momento não. Eu trabalhei por um tempo em uma lanchonete de Sheepshead, mas só isso. — comentei. Acho que não mencionei isso a muitas pessoas.
— Trabalhou numa lanchonete? — William me fitava incrédulo.
— Sim. E eu era uma ótima funcionária. — respondi orgulhosa. Que saudades do velho chefinho!
— O que mais fez enquanto esteve fora? — tornou a questionar ele, aparentemente bem curioso. Parece que houve uma pausa no episódio de sermões (por enquanto).
Eu ia responder, mas fui interrompida pelo garçom que depositava os nossos pedidos na mesa. O cheiro do rango impregnou as minhas narinas e, não sei, uma fome indescritível se apoderou de mim, mas me forcei a responder William antes.
— Ah, não muita coisa. Às vezes, eu saia com Mia ou com uns amigos, estudava, trabalhava...
— Mia? — indagou, franzindo o cenho. Ué, realmente não sabe quem é ela?
— Mia é minha... — Demorei alguns segundos para não responder o que deveria responder. — amiga. — completei, engolindo em seco. Em seguida, peguei os talheres e me preparei para saciar o que quer que esteja em meu estômago.
— Disseram que ficou na casa de alguém enquanto esteve fora. Era a casa dessa garota?
— Sim, no apartamento dela. Ela me ajudou bastante. — respondi, sorrindo. Por mais que fosse apática no início, Mia se tornou a melhor pessoa do mundo para mim. Lembrar dela me fez morrer de saudades agora.
— Ela sabia que você fugiu? — questionou. Sua voz parecia um pouco cautelosa. Ah, sei bem o que o senhor está pensando, paizinho.
— Sim, mas não sabia o porquê. Pensou que seria melhor ficar por um tempo lá até eu ter coragem de voltar.
— Ficou por muito tempo. — comentou, mordiscando um pedaço de carne. — Ela tem quantos anos? Morava sozinha?
— Ela tem dezenove. E sim, morava sozinha. — Eu franzi o cenho com a sua pergunta. — Por quê?
— Então, ela morava sozinha e, ainda sim, deixou que uma estranha morasse junto? Não faça isso, filha. Falo sério. Seja mulher ou homem. Principalmente homem.
Eu acabei rindo. Mas está certo de que eu nunca faria isso e Mia é realmente corajosa por ter permitido.
— Não, não vou fazer, pode deixar. — cessei a risada, me sentindo mais leve.
— Pelo jeito, se apegou a ela... O jeito que diz seu nome soa como se fossem “BFFs”. — comentou fazendo aspas com as mãos ao pronunciar “BFFs”. — E a Beatriz? Parou de falar com ela?
Eu me contive para não rir de novo. Ah, pai. Sua inocência sobre o quanto me apeguei é fascinante.
Ah, Beatriz é a minha antiga BFF¹ de quando eu ainda estudava no colégio de Nova Iorque antes de fugir. Éramos tão inseparáveis, que meus irmãos pensavam que íamos nos fundir, como uns personagens naquele desenho do Dragon Ball Z.
— Eu não parei, não. A gente se fala por mensagem às vezes. Mas no geral, não como antes...
Isso me entristeceu um pouco. A Bia foi uma boa amiga, no fim das contas. Abandoná-la para fugir está na minha listinha de arrependimentos. Que é meio grandinha, aliás.
Mas, se não fosse por isso, eu nunca teria conhecido Mia. Então, a compensação está ótima.
Eu e William conversamos até seu limite de tempo do almoço, uma hora e meia, mais ou menos. Ele voltaria ao serviço, pois diferente de mim, uma vagaba de carteirinha assinada, meu pai e cerca de noventa por cento da humanidade, trabalham.
Fez questão de me dar carona ao meu apartamento, inclusive. Eu, cheia de tanto comer a maravilhosa comida do restaurante, tive que aceitar.
Foi bom nos vermos, por mais incrível que pareça agora. Só que isso não diminuiu a minha preocupação sobre o meu problema de codinome: “Tenho-namorada-quase-ninguém-sabe-tô-apaixonada-por-ela”.
E, falando nela, recordei que cancelei nosso almoço e nem ao menos mencionei o porquê. Então, decidi fazer algo um tanto inesperado e desnecessário. Diria que o tipo de coisa que faço com frequência, convenhamos.
Enquanto aguardávamos o farol liberar para prosseguir o caminho, tirei o celular do bolso e enviei uma mensagem à minha mãe.
Maezinha
Lindinha
Razão do meu vive
O que vc quer, Beth?
Eu tô trabalhando! :P
Eu sorri. E mesmo assim respondeu a minha mensagem na hora, né, dona Cortês!
Eu qria ir ai
te fazer uma visitinha
Posso? :3
Ué, claro q pode, querida!
Vc ainda não veio mesmo...
Soh da vez q, sabe...
q vc me achou, kkkk
Posso ir hj msm?
Hoje? Mas já?
Pode! Claro q pode!
Tiro um tempo pra te mostrar
as coisas
Os meninos liberam o portão
quando vc chegar
Tá bom? c:
Tah bom, entao!
Bjoo
— Pai, pode me deixar na empresa da mãe? — perguntei, enquanto o farol abria.
— Sua mãe tem uma empresa? — questionou, claramente surpreso. Eita.
— Sim. — respondi, com cautela. O que deve estar pensando agora? Nunca imaginei que William não estivesse ciente. — Pode? É pertinho daqui.
— Posso, Beth. Me conduza. — pediu sem demonstrar uma reação diferente. Mas eu tive mais um momento de nostalgia.
Quando eu era menor e estávamos no carro, William me sentava em seu colo e dizia “me conduza”. Daí eu mostrava o caminho para ele, que lado seguir, onde parar. Eu nem sempre sabia o caminho, é claro. Mas era muito divertido. E, agora que parei para pensar, também era contra a lei — afinal, uma criança no colo enquanto dirige não é viável, né?
Estávamos próximos da agência mesmo, não foi nem dez minutos até que William parasse em frente ao enorme portão de metal pintado de preto fosco — por que uma entrada tão macabra? —. Eu me despedi dele e sai do veículo sem cerimonias. Antes de ir embora, ele sorriu e buzinou. Era muito difícil vê-lo sorrir — mas não raro como Mia —, então fiquei muuuito feliz com isso.
Refletindo agora, acho que lidar bem com a Mia todo este tempo é devido a minha experiência com tais personalidades.
Enfim, ao lado do mega portão, havia o que parecia ser a área onde os funcionários adentravam, havendo catracas giratórias (aquelas de banco, sabe), mas não dava para ver o interior do local. E não tinha ninguém ali para me recepcionar.
Como diabos vou entrar nessa birosca? É só passar? Não pode ser e não quero pagar mico. Essa com certeza não é a entrada que achei da outra vez.
Estava prestes a ligar para a minha mãe até que visualizei um interfone em uma extremidade. Vou arriscar.
Aproximei-me. A calçada estava bem movimentada — é Nova Iorque, cacete —, fazendo-me engolir em seco. Mas logo ouvi um chiado em conjunto de uma voz masculina:
— Boa tarde, senhorita Cortês. Aguarde um segundo.
— Obrigada. — agradeci e aguardei. Ouvi algo estalar após.
— Entre pela primeira catraca à sua esquerda, senhorita. — disse a voz em mais um chiado.
Eu não respondi, apenas fui até a catraca designada e girei, adentrando o espaço. Não havia nada ali, realmente. Só um corredor, o qual não pude visualizar quando estava do lado de fora. Era curto e em seu fim, revelava um pouco de um jardim. Eu me dirigi até ele, saindo da “recepção fantasma”.
Avistei vários seguranças como estátuas pela área. Havia esquecido o quão bonita era esta parte da empresa. A trilha de pedras até às imensas portas de vidro dando ao prédio, o elegante jardim perneando por todo seu arredor...
Um dos seguranças se aproximou e sinalizou para que eu o acompanhasse. Assim fiz. Nem me toquei que não vestia algo muito apresentável para ir em um lugar daquele nível. Meu cabelo devia estar uma arapuca... E minhas roupas, então? Devo parecer ter acabado de acordar. Aí, que saco! Mas é tarde demais.
Pude agora adentrar a verdadeira recepção. Tudo era prata, prateado, brilhante e chique. Era tudo tão a cara da minha mãe que até quis gargalhar por um momento, sério.
Havia três mulheres detrás de um balcão, todas vestidas em um terninho preto que... Uau. Isso que é classe. Fincada na parede atrás do balcão, havia o logotipo da empresa com letras prateadas — para variar —: “CORTÊS”.
Um pouco mais à frente do balcão, poltronas e sofás, bem discretos, mas modernos, formavam um triângulo. Inclusive, uma mesa-aquário reluzia lindamente no centro deste.
Bom gosto. Isso define a minha mãe.
Mas os olhares das atendentes eram meio indiscretos. Sabiam quem eu era? Bem, por um lado, eu esperava que não.
Não quero que saibam que sou a filha da dona. Pessoas vão querer me mimar e vai rolar certos interesses só para ficar bem na fita, então... Argh. Não gosto nem de imaginar. É um saco. Já sofri disso na empresa do meu pai. É o preço a pagar por ser filha de gente rica.
Ignorando as atendentes, o segurança continuou a me conduzir. Enquanto caminhávamos, eu me atentava aos detalhes mais irrelevantes possíveis. Entramos em um corredor. Nenhuma porta por ali jazia aberta. Todas tinham alguma plaquinha sinalizando algo: "Almoxarifado", "Arquivo", coisas do gênero, mas algumas eu não conseguia identificar por causa da iluminação azulada. Era maneiro, mas horrível para as vistas.
Paramos na área de elevadores. Entramos em um e o moço designou para o sexto andar, o último. Não parecia ser um prédio com muitos andares mesmo.
Ao chegarmos, entramos em mais um corredor — este era meio como uma passarela, todo espelhado e ainda com a iluminação azulada, dando apenas à uma única porta (?). Havia uma plaqueta com as iniciais "D.C." no topo.
O segurança abriu sem bater e sinalizou para que eu entrasse. Ouvi passos e burburinhos de conversa. Novamente, engoli em seco.
— Mais que preciso que vá nesta viagem! Se me disser um motivo viável, até deixo que fique. Mas não está facilitando o meu lado, querida. — Minha mãe dizia algo. Eu apareci então e roubei a atenção dos presentes.
— Beth! — gritou Wallace ao me ver. Depois veio correndo todo alegre e me abraçou. Eu ri com sua animação. — Que bom te ver, garota! O que faz aqui?
— Mas já chegou, filha? — questionou Denise, aproveitando a deixa de Wallace para me dar um beijo na bochecha como cumprimento. Ela usava seu terno azulado e saltos agulha padrão. — Pensei que demoraria um pouco mais.
— É que me deram carona... — comentei, sem graça. Minha mãe franziu o cenho, obviamente não entendendo o porquê de eu omitir quem deu a carona. Mas, é claro, maravilhosa como Denise era, não me questionaria. Ainda. — Então vim rapidinho. Interrompi alguma coisa?
— Não, querida. — respondeu Denise, olhando para trás. E encostada na mesa principal estava ninguém menos que... Mia.
E... Aí, Deus. Eu morro internamente ao ver com as roupas que diz usar apenas no serviço. Fala sério. É para deixar qualquer um de queixo caído lá no submundo.
Vestia uma regata, colete social preto por cima, meia-calça, short jeans e botas escuras de cano alto nos pés. Misericórdia. Senhor do céu. Essa meia-calça realça muito as maravilhosas coxas tão bem torneadas dela. As palmas das minhas mãos estão até formigando.
Era um estilo muito despojado para Mia, mas conseguia ser linda vestindo qualquer coisa. Perdi até o foco.
— Por que está aqui, Bethany? — questionou ela, direta como sempre.
“Bethany”. Ai, ai, ai. Já sei que não estou em bons dias com ela.
— A Thany disse que queria fazer uma visita. — respondeu Denise dando de ombros. — O problema é que estou meio ocupada agora, querida. Pensei que viria mais tarde, então tinha algumas coisas pra fazer...
— Eu fico com ela, Cortês. — ofereceu-se Mia, sem delongas. Mas a carranca séria permanecia. — O Wallace lhe acompanha à reunião. Terei que me trocar, então demorarei a ir de qualquer forma.
— É até melhor. As duas vivem juntas mesmo. — concordou Wallace, rindo um pouco. Não sei se Mia lhe contou algo, mas aquela frase soou dúbia.
— Tudo bem pra você, Thany? — questionou Denise, me fitando.
O meu objetivo era exatamente este, mãezinha. Nem imaginei que Mia seria dada a mim de bandeja.
— Claro. Por que não? — respondi, sorrindo para Denise, depois fitando Mia.
Ela se desencostou da mesa e veio lentamente em nossa direção, quer dizer, minha direção. E acabou por fazer algo para lá de imprevisível.
Mia me abraçou. E teria sido até normal, se não fosse por ter me levantado do chão e começado a me levar para fora do escritório deste mesmo jeito.
Eu gargalhava sem parar. Meu Deus. A gargalhada assídua de Wallace me acompanhava.
— Se as duas se machucarem, não vem chorar! — ouvi minha mãe gritar, me fazendo rir ainda mais. Como Denise não percebe, Jesus?
Ou será que já percebeu?
Eu realmente não sei.
— Parece que vou tirar uma folga só porque quis fazer uma “visita”. — comentou Mia, me colocando de volta ao chão ao entrarmos no elevador. No ato, seu rosto ficou bem próximo do meu. Eu resisti muito para não a agarrar no mesmo instante. Cruzes. Estou ficando paranoica.
— Eu aceito um “obrigada”, aliás. E vai mesmo tirar essa roupa?
— Vou. Vamos ao closet, e depois... — Ela me encarou pensativa. — O único lugar que gosto daqui é o jardim e você já passou por ele ao entrar.
— Vai mesmo passear comigo? — questionei, franzindo o cenho. Eu não vim com este objetivo.
— Sim. É o que Cortês faria no meu lugar. — respondeu em tom seco.
— Desculpa por não avisar sobre hoje mais cedo. Eu realmente esqueci... — pedi de vez. Por favor, Mia. Não fique indiferente para sempre!
— Tudo bem. — respondeu apenas, enquanto saíamos do elevador. Não vi em que andar descemos.
Era um setor bem amplo, iluminado, mas não tinha móveis, exceto pelos equipamentos, como holofotes, tripés, etc. Provavelmente era onde as sessões de fotos eram feitas, afinal, incluindo os itens que mencionei, havia um cara de pé com uma câmera em mãos, então imagino que não seja de enfeite.
— Meu pai quis se encontrar comigo. Almoçamos. Ele quem me trouxe pra cá também. — expliquei, mesmo sem Mia perguntar nada. Nós paramos de andar e ela me fitou.
Eu sabia que não questionaria. Mia não pergunta nada que não acha necessário. Ela pensa assim: Bethany tinha um compromisso e não poderia cumprir o combinado comigo, então tudo bem.
Mas o que ferrou é que não avisei com antecedência. E sei que detesta isso.
— Tudo bem, Bethany. — repetiu, agora em um tom baixo. — Foi para isso que veio? Explicar o motivo de não ter almoçado comigo?
— Em parte, sim...
— Qual é a outra parte?
— Tô me sentindo inútil ultimamente. — desabafei, alisando o cabelo para trás. — Todo mundo trabalha. Todo mundo faz algo. Eu só... estudo...
— Você estuda. Por que não é o suficiente?
— Porque não é, poxa. Todos estudam, trabalham ou fazem algo por fora... É chato ficar... de fora. — murmurei. É chato, caramba. Você não se infiltra nos assuntos que se tratam de trabalho e coisas assim. É chato demais.
— Bethany, fazer os dois é desgastante. Tem sorte que não precisa se preocupar com isso, pois o restante não tem opção. Então usufrua deste benefício. Saberá do que estou falando ao ter seu primeiro período de provas. — disse Mia, fazendo-me refletir um pouco.
— Miazinha! — ouvi o homem da câmera chamar. Tirei os olhos de Mia e o vi se aproximar. Tinha um porte atraente, barba por fazer e ainda se vestia muito bem. Putz, será que só tinha gente bonita nesse lugar? — Quem é essa?
— Oi, Ricch. — cumprimentou Mia. — Esta é Bethany.
Ricch? Ricch de Ricchard?
Esse era o namorado da minha mãe?
— Bethany!? — Ele me olhou perplexo. — Caramba, finalmente!
— “Finalmente”? — repetiu Mia, não entendendo. Já eu, abri um largo sorriso.
— Jesus Cristo! Você é a cara da sua mãe, criatura! Impressa e cuspida. Prazer, sou Ricchard. — apresentou-se dando-me um beijo caloroso na bochecha.
— Prazer. Pode me chamar de Beth, se quiser. — falei, sorrindo gentil.
— E me chame de Ricch, querida. — disse, mas ainda me olhava perplexo. — E não tô acreditando. Você é muito linda. E mais alta do que eu esperava.
— Todo mundo diz isso. — respondi um pouco acanhada.
— Para ela é “alta”, já eu, é "girafa". Anotado, Ricchard. — comentou Mia com um pouco de indignação. Eu gargalhei.
— Ué, pra você é girafa mesmo. E, olha, se reclamar, eu pioro. — Ele deu de ombros. — Adoraria tirar fotos suas, Beth. Se bem que... — murmurou Ricchard, pensativo, enquanto intermediava o olhar de mim para Mia.
— Fotos? Não, não, não. Não tenho interesse em ser modelo, Ricch. — respondi sincera, meneando a cabeça.
— Adoraria tirar fotos de vocês juntas, na verdade. — soltou ele, ainda pensativo.
— Quê? — Mia indagou e eu fiquei muda. Juntas?
— Sim, vocês duas. Não sei, mas é como se houvesse uma química. Sabe, yin e yang? Vocês têm isso. Não levem pro lado de, sabe. Mas vocês combinam um pouco. Há um contraste interessante.
— E definiu isso de repente? — Mia ainda questionava sem entender bulhufas.
— Pelo amor do senhor, só me deixa tirar fotos de vocês juntas! O que custa? — implorou Ricchard. Não pude deixar de gargalhar. Já virei fã!
— Não. — respondeu Mia em tom definitivo. Eu franzi o cenho.
— Por que não? São só fotos. Você já tira bastante. No meu caso que seria um pouco estranho, já que nunca fiz isso... — argumentei, dando de ombros.
— Uma vez que faz os gostos de Ricchard, paga-se caro mais tarde. — respondeu ela, fitando-o com seriedade, ao passo que Ricchard só meneava a cabeça em desaprovação. — Irei me trocar. Aguarde aqui, está bem?
— Tá. Vai lá. — concordei e dei um sorriso pequeno. Ela assentiu e se distanciou.
Andou em direção a uma porta de vidro de granito do lado oposto de onde entramos. Eu nem havia reparado na existência desta porta até agora, na verdade. Seria o tal closet? Via-se o outro lado bem ofuscado, só sombras praticamente.
— Vocês estão namorando ou só se pegando mesmo?
Eu demorei, realmente demorei, a processar o que Ricchard havia acabado de me dizer, segundos após Mia passar pela porta de vidro.
— Quê?
— Estão namorando ou se pegando? Pela demora pra responder, é certeza que meu gaydar não está danificado. Sua mãe sabe? — questionou com naturalidade.
— A gente... não... — Porra, agora não sei o que responder. — Tipo, não, cara...
— Querida, eu sou bi. Não fique aflita. É uma pergunta inofensiva. Se fosse um garoto, você responderia na mesma hora.
Eu o fitei por um momento. O que faço, céus?
— Por que acha que temos algum tipo de relacionamento?
— Mia não olha pra ninguém daquele jeito. — admitiu, dando uma risada breve. — Eu a conheço há pouco tempo, mas deu pra captar. Ela vem demonstrando mudanças de humor meio peculiares durante as sessões também.
— Tipo o quê?
— Ela sorri mais. — respondeu ele, sorrindo. — Sorri sem eu ter que implorar para isso. Ela se ousa mais. É como se um arco-íris estivesse surgindo dentro dela lentamente.
— E o que vê quando olha pra mim? — perguntei a fim de testá-lo. Parecia ser um bom observador.
É por isso que gosta dele, não é, Denise?
— Vejo uma miniatura da Cortês. — comentou e riu outra vez. — E uma moça inteligente com ótimo gosto para pessoas. A Mia é maravilhosa. Então permita-se afundar nela até não restar pedacinho que desconheça. Aposto que não vai ter arrependimentos.
— Desse jeito parece conhecer ela mais do que eu... — comentei, um pouco sem graça.
— Não, com certeza não. Só deduzo coisas.
— Minha mãe não sabe. — confessei num sussurro.
— Hmmm... Entendo. — murmurou, pensativo. — Deni não vai ligar. Ela só quer que você seja feliz. E, bem... não está namorando uma qualquer. Mia é como uma segunda filha pra ela.
— Então tô praticando algum tipo de incesto? — comentei, suprimindo uma risada. Já Ricchard, não se segurou.
— Não faz pergunta difícil, Beth! Mas o problema real é o seu pai.
— Meu pai?
— Sim. Sei de algumas coisas sobre ele para saber que não aceitaria fácil. — murmurou ainda pensativo. O quanto conhecia sobre mim e a minha família? — Mas é sua vida, querida. Faça o que quiser. Assuma ou não assuma. Pegue ou não pegue. Só seja você.
— Se fosse tão fácil assim...
— Ah! Me faz um favor?
— Sim? — questionei, franzindo o cenho.
— Eu escondi a roupa da Mia na primeira penteadeira à esquerda. Tenho certeza que deve tá procurando até agora... Vá e a ajude, por favor? — pediu com inocência. Só sei que me acabei de rir. Esse Ricchard é uma pérola.
XXX
Cara. O que. Era. Aquilo.
Roupas.
Roupas para tudo que era lugar. Para tudo que era lado.
Roupas. Camisas, camisetas, blusas, casacos, jaquetas, coletes, moletons, calças, bermudas, shorts, vestidos, chapéus, sapatos, tênis, saltos, botas, sandálias, cintos, joias, acessórios.
Nossa Senhora. Eu estava no céu? Só podia estar.
Havia fileiras e mais fileiras de araras de vestimentas. Uma variedade tão imensa de cores, estilos, costuras, tecidos, texturas. Era incrível. Era satisfatório. Era maravilhoso.
Estava me sentindo perdida, até ouvir um baque-surdo. Lembrando do que fui fazer ali, caminhei até onde notei vir o som. Era uma cena um tanto inusitada, composta por: Mia, seminua, descalça e... furiosa.
— Amor. — chamei. Ela se assustou e cobriu o busto com as mãos. Eu ri com isso. — Calma. Já disse que não precisa esconder isso aí.
— Calada, Bethany. — quase rosnou, mas eu ri novamente. Parecia procurar algo com avidez em uma das araras.
— Ricch disse que sua roupa estava na primeira penteadeira do lado... esquerdo, se não me enga-
Sem deixar que eu terminasse a frase, ela desapareceu entre as araras. Eu franzi o cenho.
Dei alguns passos e olhei ao redor. Era roupa que não acabava mais. Onde Mia se enfiou?
Até que me deparei com uma dezena de penteadeiras brilhantes, todas com aquelas lâmpadas fincadas ao redor do espelho em formato de bolinhas. Coisa de celebridade mesmo, sabe.
Encontrei Mia. Ela fuçava na gaveta de uma das penteadeiras. Aparentemente, achou o que buscava, pois vi algumas peças nas mãos. Mas a vi fechar a gaveta com certa violência.
— Tantas roupas por aqui e você procurando a sua, Delilah? — questionei, sentando-me em uma das cadeiras giratórias em frente às penteadeiras.
— Teria que procurar pelo meu tamanho, se fosse o caso. E é raro encontrar algo que eu goste de verdade. — respondeu em tom grosso. Poxa, parecia mesmo muito irritada.
Eu levantei da cadeira e caminhei em sua direção. Ela estava de costas, já havia posto o sutiã e estava prestes a vestir uma blusa simples de lã. Antes de descer o tecido dos seios para baixo, passei as mãos por ali e a abracei por trás.
Passamos a sempre dormir juntas desde a nossa... primeira vez. Mia diz que os pesadelos diminuíram depois disso, inclusive.
Só que não fizemos mais nada erótico (ao extremo), por mais que eu estivesse bem assanhada para tal. Sedenta. Morrendo de vontade.
Mas ainda é uma coisa delicada para Mia. E olha que ela mesma tem se descontrolado bastante, mas não chega nos “finalmentes”.
Não forçarei. Ela sabe que quero. E quando me querer, vamos fazer. Então, por enquanto, ficamos só nas preliminares... Às vezes mais gostosas que o ato em si, sinceramente. A cada dia consegue se superar.
Porém, o carinho, a proximidade, a confiança, as conversas, tem evoluído consideravelmente. Chegamos em uma fase em que palavras nem sempre são necessárias para mostrar como nos sentimos. É ótimo às vezes, pois, diferente dela, com seu vocabulário rico e intelecto invejável, eu não era muito boa com as palavras.
— Está com fome? — sussurrou Mia. Eu ainda a abraçava por trás e não queria largar. Dei um beijo em seu pescoço antes de virá-la de frente para mim, abraçando de novo e permanecendo assim.
Amo seu cheiro. Relaxa muito o meu interior.
— Acabei de almoçar, lembra? — murmurei, olhando para baixo e visualizando a parte detrás de suas firmes panturrilhas ainda cobertas pela meia-calça. — Seria uma pena se pusesse uma calça.
— É exatamente o que farei. — respondeu de forma apática. — Mas é difícil tirar esta coisa.
— Não é, não. — retruquei, rindo com sua confissão. — Tira o short que te ajudo.
OK, juro que me ofereci sem segunda intenção. Mia, por mais que muito independente, era alheia à certas coisas e eu adorava ajudar quando o caso. Eu me sentia valiosa, por mais estúpido que fosse.
Sem delongas, ela se desvencilhou do meu abraço e abriu o botão do short, descendo pelas grossas coxas. Tinha um corpo com muito mais atributos que o meu, mas não sou uma tábua, aliás. Dava um pouco de inveja visualizar o nível de sua genética.
Após tirar o short, agachei e tornei a puxar sua meia-calça para baixo. Tudo bem, não era uma cena nada educativa, entretanto, em determinada parte das coxas, a peça não descia mais.
— Acho que ela é pequena pra você. — murmurei, puxando a peça com mais força, mas com receio de rasgá-la — era um tecido fino, afinal. E consegui dando um jeitinho. Só que acho que soei. — Pronto. Senta e tira o restante.
Mia, quieta — e me deixando inquieta, ironicamente — sentou em cima da penteadeira mais próxima. De certa forma, a cena pareceu ficar (muito) mais obscena.
Cabelos bagunçados, seminua da cintura abaixo, pernas entreabertas à medida que, delicadamente, tirava a meia-calça. Ao esticar os braços, sua blusa grudava na pele, deixando os músculos notáveis. Sexy. Tudo era muito sexy.
E os céus que me perdoem. Mas, desta vez, vou atacar.
Quando terminou, eu avancei. Segurei seu queixo entre o indicador e o polegar, fazendo-a fitar meus olhos por um instante. Mia intermediou o olhar de meus olhos à minha boca e me puxou para perto, entrelaçando suas pernas no meu quadril. Céus. Ela vai me matar.
Uma vez que minha boca tomava a sua, minhas mãos eram como um carro desgovernado — corriam para todas as direções, sem freio. Logo estavam por baixo de sua blusa, explorando e apertando com vontade.
Os suspiros que dava me faziam apertar ainda mais, além de arranhar. Comecei a beijar seu pescoço e empurrei com força seu quadril contra o meu. Mia comprimiu mais as pernas.
Era tão bom dar prazer a ela. Fazia-me ir às alturas.
Quero ouvir você gemer, Mia. Gemer como se eu fosse a única que pudesse te saciar. Como se meu toque fosse a última gota d'água no mundo. Quero que me queira.
Quero que precise de mim, Mia.
— Beth, é melhor não- — começou a dizer, mas tapei sua boca com uma mão. Com a outra, aproximei o indicador da minha boca.
— Sshhh. — cochichei, pedindo silêncio. Ela franziu as sobrancelhas perfeitas e eu sorri.
Vagarosamente, desci a mão que tapava sua boca pelo meio dos seus seios. Não desviei o olhar em momento algum. E nem ela.
O que tínhamos era mais que química, eu diria. Era sobrenatural.
Enfiei a minha mão por dentro da sua peça intima. Pude ver seus lábios ficarem entreabertos. E eu não queria usar as mãos, mas em um lugar como este, é a melhor opção.
Como os lábios de sua boca, entreabri os lábios de sua vulva devagar. Pressionei os dedos e comecei a alisar o clitóris de cima a baixo.
A visão que eu tinha era fantástica. A respiração de Mia estava mais audível, o peito se elevava sem pressa, alto. Cada vez que eu movimentava os dedos, ela parecia ter um espasmo.
Mia pousou as mãos, uma em cada lado do corpo sobre a penteadeira para se apoiar. Isso facilitou, pois abriu as pernas e me deu mais espaço para explorar. Eu voltei a beijá-la, mas não parei de masturbá-la.
Colocou uma das mãos por cima da minha e pressionou com força contra sua intimidade. Eu comecei a ficar bem excitada por causa disso. Também porque seu rosto se tornava mais... sombrio.
Relações sexuais a mudavam de alguma maneira. Eu não sabia se era por conta dos acontecimentos passados em sua vida, já que traumáticos... Mas era como se algo a dominasse. Como se a única essência que a mantivesse viva fosse o prazer.
E visualizá-la assim, principalmente sendo eu quem proporcionava isso a ela, não sei. Era divino.
Acelerei os movimentos. Mia agarrou minha nuca, segurando-me como se fosse desmoronar a qualquer instante.
— Mais rápido... Mais rápido... — sussurrou.
Seu pedido é uma ordem.
Comecei a circular e pressionar os dedos com mais força pelo clitóris e Mia queria acompanhar, se movimentando junto no mesmo ritmo.
E, finalmente, começou a gemer.
Misericórdia. Eu derreti. Ainda era surreal a ouvir assim. Eram gemidos delicados, cheios de desejo. Minha respiração ficava mais pesada a cada novo som que emitia.
Fincou as unhas no meu pescoço, causando-me uma pequena ardência, e foi neste momento exato que começou a gozar. Gemeu muito mais alto e senti seu corpo tremer, entrar em êxtase. Eu continuava a circular seu íntimo, mais veloz agora, enquanto a via receber o prazer definitivo.
Ela pousou o rosto no meu ombro e eu percebi que não estava mais rígida lá embaixo, então fui parando lentamente os abalos. Beijei a lateral de sua cabeça e, com delicadeza, retirei os dedos.
Neste momento, Mia pegou meu punho com firmeza e puxou para si. Eu senti meus dedos entrarem em contato com algo úmido... de novo. Ela estava chupando.
— Egoísta. — sussurrei e fechei os olhos por um segundo. Eu que deveria estar fazendo isso. Queria sentir seu gosto. Era meu privilégio.
Em seguida, levantou a cabeça e me beijou sem pressa.
— Obrigada. — agradeceu ela, dando-me um abraço terno.
Fiquei paralisada. Obrigada pelo o quê, Mia? Eu que deveria agradecer. Agradecer por ter você. Agradecer por você existir.
Sequer sei o que dizer após ouvir isso.
— Preciso de sua ajuda para vestir a calça, Beth. Não tenho forças. — sussurrou. Eu soltei uma risada automaticamente.
Em silêncio, me desgrudei dela, o que foi difícil, de verdade. Peguei a calça que jazia pousada na penteadeira ao lado. Era um jeans folgado, simples. Sacudi e abri o zíper. Após, agachei aos seus pés e passei o cós da calça por eles, depois passando pelas panturrilhas, joelhos e coxas. Ela ficou de pé então.
— Eu estava brincando. — murmurou. Eu levantei as sobrancelhas, surpresa. Sem dúvidas, às vezes não sei distinguir quando Mia está brincando ou falando sério. — Mas obrigada, de qualquer forma. — completou, fechando o zíper da calça.
— Por nada... — murmurei, coçando a nuca. Aliás, sou bem idiota. Tipo, muito. Em excesso.
É que não sei bem como reagir depois de uma situação dessas. Ajo naturalmente? O que falo, cacete? Não faço a mínima ideia. Eu acabei de fazê-la gozar e... Ah, é, a minha mão ainda está um pouco pegajosa. Eu não quero limpar em minha roupa porque, sei lá, seria um pouco... rude. E não iria limpar realmente.
Mia terminou de se ajeitar e me fitou. Eu a olhava distraidamente, como uma otária. Mas fiquei mais otária ao vê-la sorrir. Então ela veio, pegou a minha mão — sim, aquela pegajosa — e a beijou, entrelaçando nossos dedos em seguida.
— A próxima será por minha conta. — alertou e me olhou com intensidade. Eu engoli em seco e assenti.
Ansiedade me definia.
XXX
— Este é o ateliê. — apresentou Mia ao adentrarmos mais uma das instalações da empresa. Este no caso era bem bagunçado, mas igualmente amplo aos demais. Porém, eu já esperava algo do gênero. Normalmente ateliês são assim. O que os torna mega fascinantes!
Cara, era ali onde o povo botava a mão na massa. Era onde saia a base de tudo que fazia sucesso nas vitrines!
Só que é o seguinte... não havia ninguém por lá. E nos outros setores não havia também. E eu não faço a mínima ideia do porquê.
— Você deverá ter um em breve, creio eu. — comentou Mia, mas eu não dei muita atenção.
— Cadê os funcionários? — tornei a questionar.
— Lembra-se da reunião, a qual Cortês e Wallace mencionaram mais cedo? — relembrou. Eu assenti em concordância. — Todos estão no salão de palestras. É no subsolo.
— Vocês têm coisas no subsolo também? — exclamei de boca aberta. Até que me toquei. — Espera, você não deveria estar lá? Na reunião...
— Deveria.
— Ô merda... — murmurei, me sentindo culpada. — Se eu não tivesse vind-
— Não atrapalhou, Beth. — tranquilizou ela ao passo que pegava uma caneta, essa que antes pousava em cima de uma mesa extensa de madeira. Havia outros tipos diversos de materiais também. Tesouras, fitas, linhas, réguas, alfinetes, agulhas... — Boa caneta.
Bufei. Ela estava perdendo uma reunião geral e sei que, com certeza, não acontecia sempre, pois deve diminuir muito a produtividade do dia só para isso — sim, a faculdade está me fazendo ver esse lado das coisas —, e ainda sim demonstrava estar mais interessada em uma simples canetinha?
— Mia, eu já vou indo. É melhor você ir pra reunião antes que acabe...
— A reunião não é sobre nada que eu não saiba. — ressaltou, enfiando a caneta no bolso detrás da calça. Eu franzi o cenho vendo sua atitude furtadora. — Devolverei após testar.
— Sei... — murmurei, desconfiada. — E por que Ricch não foi pra reunião também?
— Ricch se denomina como “o cara que só tira fotos”. Dessa forma, não vê necessidade de comparecer para itens do gênero. O que é, de certa forma, cômico, pois acaba participando de qualquer maneira.
— Amor, não acha que tá na hora de personalizar um pouco esse seu linguajar? — questionei, um pouco desconfortável. Às vezes, Mia usava termos tão incomuns ou falava coisas tão corretamente que eu me sentia deslocada.
— Personalizar o meu linguajar? — repetiu ela, franzindo o cenho.
— Sim. Usar algumas gírias, por exemplo. Tipo... — Pensei um pouco. — Tipo dizer “tipo”.
— Qual o problema em dizer “como” em vez de “tipo”? “Tipo” não parece encaixar corretamente na frase. — argumentou. Eu suspirei longamente.
— Não precisa encaixar, Delilah. Você não tá escrevendo uma redação.
— E qual o problema em falar deste jeito? — quis saber. Caramba, vou ter que explicar isso a você, Mia? Sério mesmo?
— Não é que seja um problema... É só que... Assim: você tem talento pra se portar e formar bem o que quer expressar, Delilah. Mas não tem necessidade de usar esses... atributos em conversas informais como as nossas.
— Se sente incomodada quando me expresso desta forma?
— Um pouco. — murmurei sincera, mas rapidamente complementei: — Mas é só porque você parece muito inteligente e madura quando fala desse jeito, o que é super ao contrário de mim. Tipo, sinto como se eu fosse uma criança! Porque não consigo falar assim.
— Não estaria pedindo e explicando uma coisa dessas se fosse uma criança. — argumentou e sentou-se em uma cadeira próxima. — O meu vocabulário é, diria, padronizado. Eu não tenho interesse em me encaixar na modernidade atual da língua.
— Ah. Tudo bem. — murmurei, derrotada — e um pouco chateada também. Por que fui tocar no assunto?
— Sei que demonstro arrogância devido a isso. Sei também que algumas pessoas me detestarão em um primeiro momento. Mas, Bethany, e se soubesse que, ainda aos doze anos, eu era analfabeta?
Eu estava distraída fuçando em alguns tecidos ao ouvir. Fiquei tão pasma que nem quis fitá-la. Só paralisei.
De novo, qualquer vestígio que explane do seu passado, deixa-me muito surpresa. Só não sei quando mencionará algo e evito perguntar, obviamente.
Analfabeta aos doze?
— Você...
— Sim. Dado que não estudei naquele período, incluindo mais dois anos ausente por outras pendências, é o que resultou. Tive que aprender tudo em um curto tempo, mesmo que dissessem para não ter pressa, mas me dediquei. E ainda atrasei um ano no colegial, como sabe.
— Eu não sabia... — murmurei, engolindo um seco. — Te ofendi quando pedi pr-
— Eu sei que não sabia. E não ofendeu. — cortou ela. Engoli mais em seco. — Não é a primeira pessoa que pede isso. — ressaltou, pousando a caneta que havia pegado de volta na mesa. — Só quero que saiba o porquê do meu desinteresse. Treinei, estudei muito para ser o que é hoje e isso me agrada. Não mudarei para agradar as pessoas ao meu redor.
— Por que acha que devo saber? — questionei, sem entender. Era muito nobre para eu saber. Não a imagino dizendo tais coisas para outra pessoa.
— Quero que me entenda. Tranquiliza saber que, de alguma maneira, compreende ou tenta me compreender. — declarou, levantando-se da cadeira. Eu apenas a fitava em silêncio. — Mas algumas vezes já falei de maneira informal contigo.
— Quando?
— “Eu te amo”. Como dizer isso de maneira formal? “Eu te aprecio”? “Eu te cobiço”? Enfim, a primeira não soa tão ridícula como as seguintes.
Eu gargalhei alto com isso. Mia diz coisas em um tom tão sério que chega a ser icônico. Eu me aproximei e lhe dei um abraço.
— Imagina, Delilah. Eu chegar no seu ouvido... — murmurei, me aproximando do seu lóbulo. — e dizer: “Eu te cobiço”. — sussurrei.
— Não é tão ruim assim. — comentou, envolvendo o meu corpo com os braços. — Mas prefiro que diga seu velho “você tem um cheiro muito bom”.
— Agora se tornou um padrão? — choraminguei, indignada. — Eu vou inventar outra coisa pra dizer, você vai ver.
— Estarei aguardando. Mas, realmente, não precisa dizer nada. — ressaltou. Seus olhos não desgrudavam dos meus. — Apenas me olhe assim. Sempre.
Eu segurei seu olhar. Lembro que, e era de se indignar, algumas pessoas dizem que olhos castanhos são sem graça.
A graça está a quem eles pertencem. É a verdade.
Nos beijamos. Entretanto, em poucos segundos eu já sugava seus lábios e Mia me amassava com as mãos. Parece que o deleite do closet não foi suficiente.
Até que, de repente, Mia nos separou.
— Eu vou matar você, Wallace! — vociferou ela, me assustando. Seu corpo todo vibrou ao elevar a voz. Eu senti meu rosto ficar quente.
Merda. Sequer cogitei que alguém poderia nos ver em um lugar desses!
— Ô, caralho! Não grita! — exclamou Wallace, aparecendo em nossas vistas. — Desculpa! Eu não fiz de propósito! — tentou se explicar, mas seu largo sorriso dizia outra coisa. — Eu tô falando sério! Tu sabe que a entrada pro salão de baixo é aqui perto, Delilah!
— E só você aparece? Ah, cale a boca. — ordenou Mia, tapando o rosto com uma das mãos. Separei-me dela rapidamente e ajeitei as minhas roupas. Aí, Deus.
— Ah, foda-se! — esbravejou Wallace, rindo sem controle algum. — Meu Deus! Nunca imaginaria ser a Bethany! Puta merda. Como não quis me contar!?
— Por que você faria o que está fazendo exatamente neste momento, Wallace. — respondeu Mia sem olhar para ele. Eu permanecia com a boca fechada e rezando para não estar parecendo um pimentão.
— OK, OK. Desculpa. Tá, me deixa respirar. — Ele fechou os olhos, inspirando e expirando. Eu não controlei a risada. — Pronto. Ufa. Mas que coisa mais fooooofa!
— Wallace, saia, por favor. — pediu Mia, claramente sem paciência.
— A reunião praticamente acabou, mas eu sai antes. Então é melhor que vocês não continuem se pegando por aí...
— Wallace, eu não vou repetir.
— Do que se tratava a reunião? — questionei, tentando mudar o foco. Wallace me olhou com cara de paisagem.
— Ahhhhh... O certo seria não dizer, né? Mas você é filha da Cortês, então, tô em dúvida.
— É sobre uma viagem. Fashion Week. É a primeira vez da empresa em um evento desta escala. — explicou Mia, ignorando o questionamento de Wallace.
— Uau. Deve ser maneiro! — comentei, animada. — Onde vai ser?
— Paris.
Eu escancarei a boca. Paris? Fala sério. Minha mãe vai para Paris e não me disse nada!?
Se bem que é coisa da empresa, mas...
— Espera aí! Se Beth é a guria, e ainda tô impressionado com isso, porque nunca cogitei tamanho bom gosto e tudo mais... — elogiou Wallace, pensativo. Eu senti o meu rosto fritar de vergonha. — Você poder ir, Mia! É só levar a Beth junto! Até porque, né, a mãe dela... Não seria difícil inserir no pacote!
— Você realmente não ia por minha causa? — questionei e a fitei com indignação. Não era a primeira vez que fazia algo do gênero. Isso subiu o meu sangue.
— Eu sei o que está pensando. — quis deixar claro ela. Eu só cruzei os braços e a esperei falar. — Mas não me dou bem com aviões.
— Você já viajou de avião, Delilah?
— Não, mas-
— Então como pode ter tanta certeza? — cortei, séria.
— Caramba, nunca pensei presenciar uma DR entre vocês tão cedo. — comentou Wallace, e eu mordi o lábio para não rir, mas mantive meu rosto sério.
— Wallace, já mandei você sumir, não mandei? — verbalizou Mia, não desviando o olhar do meu. Porra... Eu estava me excitando, velho! — Eu simplesmente não quero ir. Tenho que ter um motivo concreto?
— Por que não? Você vai pra um lugar incrível, Delilah. E não vai à toa. — argumentei, relembrando a tal Fashion Week. — Então, faz assim: se eu for, você vai comigo?
Ela demorou a responder. Eu tentei ignorar a presença do Wallace. Estava começando a ficar desconfortável.
— Duvido que sua mãe deixe. — murmurou ela, sem me fitar.
— E se ela deixar? Você vai? — insisti, mesmo não entendendo por que diabos minha mãe não me deixaria ir.
— Sabe que sim.
— Ela vai de qualquer forma. — comentou Wallace, e seu tom não era brincalhão. — Cortês não vai deixar que fique.
— Então ótimo! — comemorei, vitoriosa. — Eu vou falar com a minha mãe. Vai ser fácil.
XXX
— Não. — respondeu Denise com firmeza. — E quem te disse sobre essa viagem?
— Quê? Por que não posso ir? — questionei indignada. Que mãe desnaturada é essa que vai para Paris e não leva a filha!?
— Porque eu disse não e ponto. Não quero ficar cuidando de ninguém quando estiver lá, Thany. E você não respondeu a minha pergunta, mocinha.
— A Mia que disse. — respondi, bufando. — Mãe, olha pra mim. Eu realmente preciso que alguém cuide de mim? Fala sério.
— Argh. Vocês realmente são unha e carne. — praguejou. Eu a fitei sem entender.
— Mas e o que tem? É uma viagem a negócios. Acho que seria viável eu ir junto... — argumentei com descaramento. Até parece que ligaria para algum tipo de trabalho se fosse.
— Bethany Cortês Raymond.
Eu suspirei. Quando ditava meu nome completo daquela maneira, pode crer: lá vem bomba.
— Não faz nem um mês que a senhorita começou os estudos, vem faltando à toa, e agora tá querendo viajar? Não tô pagando faculdade pra você só tirar diploma, peste. Saia de lá com conhecimento. Meu dinheiro não cai do céu. Quem dera! Mas não é assim que a banda toca! — argumentou indignada. — Aliás, acho teria que renovar o passaporte e isso ia demorar.
— Mas, mãe! Você vai levar todo mundo da empresa e não vai me levar!? Olha a mancada que você tá dando! — insisti. Eu não acredito que vai mesmo sem mim!
— Quem disse que vou levar a empresa toda, sua doida? Estou cotando no máximo trinta pessoas, metade delas para voltar mais cedo e ainda estou achando muito. — esclareceu, virando o seu transformer² à avenida.
Após a reunião geral da companhia, Denise me encontrou e conversamos sobre a dinâmica do serviço em seu escritório. Como Mia já havia me mostrado os ambientes, o que restou para ela foi isso. Mas foi legal.
Não cheguei a ver nenhum relance de Mia ou até de Wallace depois que me deixaram com a minha mãe, então não pude me despedir. Sumiram como fumaça.
Agora, Denise me levava ao apartamento, pois saia cedo do serviço. Se bem que, sendo a dona, podia sair e entrar a hora que quisesse, acho.
— A Delilah vai voltar mais cedo da viagem? — perguntei, não deixando de exalar quão deprimida me sentia.
— Não, vai voltar comigo. Pretendo ficar mais uns dias depois da Fashion Week. Ela vai me acompanhar. — respondeu sem a mínima preocupação.
Mas é logico que Denise estaria despreocupada, Bethany! Não é ela que vai ter a boca tornando-se virgem outra vez durante esses dias.
— Tá de brincadeira, né? Poxa, eu podia te acompanhar! Por que tem que ser a Delilah?
— Ela me ouve. Diferente de você, mocinha insistente. — suspirou Denise.
— Pois adote ela logo...
— Pense antes de falar, Bethany. — vociferou em tom grosso. Eu engoli em seco, mas sem entender. Até que lembrei.
Ah, droga. Por que tenho que ser tão estúpida? Acho que socar a minha boca nem seria o suficiente depois do que acabei de dizer.
Afinal, Mia é órfã.
— Não quero que se prejudique na faculdade. Mia trabalha pra mim. Você é minha filha. Entenda isso. Eu decido o que você faz da vida ou não.
— Até eu fazer dezoito, na verdade. — murmurei, irritada.
— Não. Até você começar a pagar suas contas. — argumentou, e eu fiz o favor de permanecer em silêncio. Que engraçado, Mia me disse isso uma vez. — Não fique brava comigo. Você só vê o lado da diversão. E suas responsabilidades? Como deixarei uma empresa na sua mão se não consegue me entender nessas horas?
Era sempre assim agora. Ela apelava para o "como posso confiar minha empresa a você, se...". E, infelizmente, aquilo acertava em cheio.
— Certo. — murmurei a contragosto, enquanto ela parava o veículo em frente ao meu prédio. Abri a porta do carro em silêncio, e quando me levantava para sair, senti Denise me segurar pelo braço.
— Bethany. — chamou e eu a fitei cética. — Eu amo você, filha.
— Eu sei, mãe. — respondi, sorrindo um pouco. Às vezes esquecia o quanto era carinhosa comigo. — Eu também amo a senhora. — Dei-lhe um beijo rápido no rosto.
Nos despedimos e eu sai do carro, assim ela tomou seu rumo com o Optimus Prime³. Sério, aquele carro era grande demais.
Agora me vi em um nó.
O que farei sem Mia por mais de duas semanas?
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