Oculta

25 Distante


— O que tá fazendo? — perguntei ao vê-la fuçar em seu armário.

— Pensando em o que levar nesta viagem. — respondeu, bufando.

Mia estava estressada com o trabalho e isso era mais claro que a luz. Tudo bem, não queria viajar e, para completar, eu não poderei acompanhá-la — e olha que importunei bastante a minha mãe, mas não surtiu efeito — mas trabalho é trabalho, fazer o quê. Muitas vezes não há escolha, você só faz, mesmo que eu não tenha muita experiência para dizer alguma coisa, mas ela já estava me preocupando.

Mia não é estressada. Ela é mal-humorada. Há uma pequena diferença.

Creio que pessoas estressadas não tenham paciência, descontam sua raiva em tudo, já mal-humoradas só não tem boas emoções sempre, são fechadas, distantes. Essa era a Mia que conheço. E a que gosto também, de certa forma.

Às vezes, me pergunto se minha mãe está fazendo certo ao sobrecarregá-la desse jeito. Convenhamos, por mais que Mia seja muito competente, ela nem passou dos vinte.

— Quer ajuda? — perguntei com cautela.

— Acho que sim.

— Quando vou viajar... — murmurei, levantando da cama. Ela havia comprado uma mala de tamanho razoável, como sugeri. Eu analisei por um momento. — separo assim: roupas pra sair; pra ficar em casa; intimas; produtos pra banho e essas coisas. — falei, concentrada em lembrar dos itens prioritários. Mia me fitava com demasia atenção. — Isso não deveria ser dificultoso pra você, Delilah. Você tem um gosto bem neutro pra roupas.

— Eu... — começou ela, alisando a têmpora com uma das mãos. — Eu não quero ir. Não sei o que farei lá e não quero te deixar. Está difícil porque não estou com um pingo de paciência para organizar isso.

— Delilah, é só por alguns dias... — Tentei tranquilizar, mas eu mesma não gostava da ideia.

— Estou quase fingindo estar doente para ficar. — comentou e eu gargalhei. Isso, com certeza, não fazia parte de sua ética.

— Você vai a um lugar maravilhoso e num evento muito importante. É importante pra sua chefe e ela te quer lá. — argumentei, dando de ombros. — Essa chefe é minha mãe e, por mais que eu ainda esteja magoada por não ter me deixado ir... faça isso por ela. Se te quer ali é porque confia em você.

— Eu não sei por que ainda continuo, Beth. — desabafou, sentando-se na cama com desanimo. — Não faz parte de mim. Essas coisas não são para mim.

— Eu sei por que continua. — afirmei, sentando ao seu lado. — Você se importa. Com a minha mãe, a empresa. Se fosse por dinheiro, já teria saído, sei que não liga pra isso. Você conheceu pessoas boas lá, como o Wallace, por exemplo. Sei o que é não querer abandonar quem importa pra você e que também se importa com você. É muito provável que se arrependa caso o faça e eu sei o que é isso. E, acredite, não vai querer passar o mesmo.

— Você se refere a...

— Sim, me refiro a nós. — concordei, pegando uma mão sua. — Nem sei como consegui passar aqueles dias sem você. Dar de cara contigo na frente da faculdade realmente era uma coisa que nem sonhar eu conseguia.

— Desculpe por agir daquela forma na última vez em que nos vimos. Digo, na casa da sua mãe antes de...

— Não tem que se desculpar. Você tava certa. A única pessoa que pode se sentir culpada aqui, sou eu. — respondi, meneando a cabeça e sentindo vontade de chorar. Lembrar quão estúpida fui é cruel.

— Você gostava mesmo de Bryan, não é mesmo?

— Eu gostava. Bastante. — admiti, rindo um pouco. E diria que superei bem fácil. Quer dizer, sequer lembrava dele até tocar no assunto. — Mas não foi certo acreditar naquilo de primeira. Você, desde o início, estava do meu lado. Eu conhecia você. Troquei nossa amizade por uma paixonite imbecil. Fui burra pra caramba.

— O que te levou a gostar de mim, afinal? — quis saber ela. Uau. De repente, fomos de roupas para um assunto desses?

— Eu... — murmurei, pensativa. Realmente... não lembro o que me fez gostar de Mia.

Ah. Acho que lembro sim.

Aquele dia... no apartamento do “B”, pois agora não gosto nem de citar o nome, depois de termos feito... aquilo — também não gosto de lembrar disso — eu vi várias coisas...

Aquelas costas. A pele bronzeada. Os cabelos castanhos.

Talvez possa ter imaginado a Mia neste dia.

Mas o que me pergunto... Por quê? Por que naquela hora? Por que de repente? Como?

Eu não sei. Eu realmente não sei responder.

— Eu não sei. — repeti em voz alta. — Acho que, sei lá... De alguma maneira, o destino...

Antes de eu terminar a frase, ouvi uma risada abafada. Ela estava rindo?

— O que foi? — perguntei, sem entender.

— Eu não acredito nesse tipo de coisa. — respondeu e pude perceber um sorriso sendo controlado nos lábios.

— Destino? Profecia? Deuses? — questionei, curiosa.

— Em nada disso. — confirmou. — Penso que é uma distração. Não sabe ou não lembra. Não quer dizer que, necessariamente, algum tipo de essência cósmica fez com que gostasse de mim.

— Ah, é? — Eu meio que concordava, mas acreditava em Deus. E se contasse que vi seu relance após... aquilo com o B? Não era normal. E parecia tão real... Bom, com certeza não vou contar para ela. É embaraçoso e desnecessário, ainda mais depois do que acabou de dizer. — Agora, diga: o que te fez gostar de mim?

— Isso. — disse antes de se aproximar e me dar um beijo carinhoso. Permaneceu assim próxima ao meu rosto, fitando-me com intensidade. — Não é destino. Não é a graça de algum Deus. É você, em carne e osso. Eu me importava com você. Sua presença me agradava. Passei a gostar de conversar, gastar o tempo com você. Isso, o beijo, me fez perceber o que eu sentia. Coisas que sentia e não entendia por quê. E, a cada beijo, tudo se intensifica. A cada beijo, sinto me apaixonar de novo. Não é o que, é quem. Quem me fez gostar de você, foi você mesma, Beth. Você sendo apenas você.

Eu estava de boca aberta.

Quase não dizia essas coisas, e agora que diz, é assim, de derreter, de amolecer o coração. Sua fala era tão convicta, ardente. Era como se despisse uma parte da alma.

Simplesmente não sei reagir. O que dizer após uma declaração dessas? Foi intenso e lindo de ouvir.

— Vou mesmo ficar sem te ver por duas semanas? — questionei para ninguém em especial e com a voz embargada. Os olhos já teimavam transbordar. Mia era bela de todas as formas. Definitivamente.

— Seja forte, pois me terá por perto para sempre caso queira. — Mia afirmou sorrindo.

Eu ouvi isso? Eu realmente ouvi isso!?

Foi como... um pedido de casamento. Eu e Mia casadas? Cara, seria tão... incrível.

Nunca imaginei. Praticamente vivo com ela nos últimos dias, mas ter nossa casa... Formar uma família...

Se suas palavras de antes me deixaram feliz, agora devo estar brilhando.

— Vamos comprar anéis? — soltei, sem pensar.

— Anéis? Que tipo de anéis? — questionou Mia, franzindo o cenho.

— Anéis de... compromisso... — respondi em voz baixa, morrendo de vergonha. Eu nunca usei algo do gênero. Nunca fiquei com alguém por tanto tempo para cogitar usar algo que sinalizasse isso. Se bem que eu e Mia começamos a namorar a pouco menos de um mês. — Já que somos namoradas e tudo mais...

— Sabe que isso... deixará claro aos outros que temos uma relação, certo? — relembrou, cautelosa. Estou ficando nervosa, e não é por isso, mas sim porque não rejeitou a ideia.

— Eu sei... — murmurei sem conseguir fitá-la.

— Eu... não sei por que estou me sentindo tão bem agora. — ouvi Mia dizer e dei risada.

— A ideia das pessoas saberem que sou sua namorada te anima?

— Por que não animaria? É cansativo ver rapazes se aproximando de você com segundas intenções e observar enquanto os dispensa...

— Sinto um pouco de ciúmes no ar. — funguei e ri de novo. Era muito engraçado ver Mia indignada com essas coisas, além de incomum para a sua personalidade. Ficou até em silêncio. OK, até parece que é a única que sofre. Eu sofro ainda mais! Namoro uma modelo, cara! — Eu sei que é chato. — comentei, colocando uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. — Mas o Ricch me tranquilizou um pouco.

— Ricch? Você contou ao Ricchard sobre nós? — Mia me fitou surpresa.

— Na verdade, não. Ele meio que só... catou a lança da coisa. Aquele papo de química deixou um pouco claro. — expliquei rindo, relembrando disso. — Aliás, ele é namorado da minha mãe. Disse que ela não ligaria. Ah, e não conte a ninguém. Sobre os dois, sabe.

— Entendo... — murmurou ela, pensativa. — Certo. Faça no seu tempo, Beth. Sabe que não pressionarei. Mas é ousado querer anéis.

— Ah, quer saber? — Bufei, alisando os cabelos para trás. — Acho que seria melhor contar a três direções. Toda essa pressão é um saco. Porra, eu não precisei chegar nos meus pais e dizer: "Olha, sou hétero, tá bom?”

— Sabe o porquê para ser assim. Não deveria estar tão brava.

— Eu deveria estar brava sim, poxa! Isso é fútil!

— Mas vou comprar os anéis. — decidiu, levantando-se da cama de novo. — E sabe onde vou comprar?

— Delilah, a gente racha o preço dos anéis. Você não vai comprar sozinha. — retruquei, indignada com sua precipitação.

— Vou comprar em Paris. — afirmou, me ignorando. Eu a fitei surpresa. — Não, deixe-me comprar esses. Você compra os próximos.

— Os próximos? — questionei, não entendendo.

— Sim, os próximos. — repetiu, sorrindo, sem me explicar.

XXX

FAMILIA DO CAPRICHO

PARTICIPANTES: JASON! S., Michael Sunnin, Bethy S2

JASON! S. adicionou você

JASON! S. adicionou Michael Sunnin

JASON! S.: Fala gostosas!

Michael Sunnin: O que é isso, Jason?

JASON! S.: É um grupo, ué

Bethy S2: Pq inventou de criar um grupo

de família sendo que

soh tem a gente q eh irmao?

JASON! S.: Pq eu quis.

Simples assim, maninha

Michael Sunnin: Eu não gosto

muito de grupos

JASON! S.: Vai ter q gostar

Se sair vms levar como traição

Bethy S2: Por onde vcs andam, alias?

Infelizmente to cm sdds ;-;

JASON! S.: Sdds de mim

qualquer um sente, florzinha

Michael Sunnin: Eu to com sdds

tbm, mas do Jason não

Bethy S2: To soh cm sdds do Jackson tb

Retire-se, Jay

JASON! S.: To me sentindo muito

magoada agora

Suas sem coraçao

Bethy S2: S2

Temos q marcar de sair

qualquer dia desses

JASON! S.: Vdd

Dai vc convida aquela sua

amiga gatinha

Qual o nome dela msm?

Michael Sunnin: N leva ela, Bethy

Bethy S2: N vo msm, ela vai viajar

Eh Mia, Jay

JASON! S.: Ela tem q viajar cmg

pq vou levar ela pras alturas, meu bem

Michael Sunnin: Para de ser idiota, Jay

Respeita a amiga da Bethy

Vou começar a tarar as suas mina

pra ve se vc acha bom

JASON! S.: Ate parece

Se n cata nada, queridinho

Bethy S2: Ai, se vcs forem começar a

brigar sobre qm cata mais mina

Eu saio desse grupo agr msm

Michael Sunnin: Desculpa, Bethânia

Bethy*

Corretor, desculpa

JASON! S.: Bethânia kkkkkkkkkkkkk

Michael Sunnin: Preciso apresentar

minha namo pra vcs

JASON! S.: VC TEM NAMO FDP?

Michael Sunnin: Tenho kkk

Faz pouco tempo q a gente oficializo

Sabe a Johanna? Entao

JASON! S.: N acredito

Fdp descarado

Pensei q vcs só eram de rolo

Parabens cara, na moral

Michael Sunnin: Vlw, Jay

Bethy S2: Ai q lindo esse momento

bromantico

Parabens, Jackson!

Michael Sunnin: Ela ta doida

pra conhecer a familia

JASON! S.: É doida msm pra

querer conhecer gente doida

Bethy S2: Vdd

JASON! S.: Pode contar, Bethy

Bethy S2: Contar o q, peste?

JASON! S.: Teus rolo, fia

To ligado q vc é peguetera

Bethy S2: Vai te catar, Jay kkkkk

Pior q to

Mas n vo fala por msg

JASON! S.: Pilantra, agr q vai fala memo

Bora, manda na lata

Vai q aq n tem terrô, n tem caô

Bethy S2: Vcs vão achar q é zoeira

Michael Sunnin: Só se disser q

tá de rolo cm uma mulher

JASON! S.: Vdd kkkkkkkkk

Bethy S2: Hm...

JASON! S.: PERA AI

TÁ BRINCANDO NÉ?

BETHÂNIA

BETHY

CONTA AGORA

FILHA DA MAE

VADIA TU VAI CONTA TUDO

Michael Sunnin: ‘OOO’

Eita kkkkkkkkkkk

JASON! S.: PEGUETERA MESMO

É POR ISSO Q FUGIU NÉ

AGORA ENTENDI TD

CAIU A MASCARA, VIADA

Bethy S2: VAI PRO INFERNO, JAY

KKKKKKKKKKKKKKK

Mano, to rindo mto

Michael Sunnin: É sério, Bethy?

Desde quando?

Bethy S2: Ai, realmente n queria

Contar por msg, Jackson

Michael Sunnin: Q nada, rlx

Agr todos podem competir pra ver

qm pega mais mina

Bethy S2: Para, idiota kkkkkk

Michael Sunnin: É sério, Bethy

Eu tb tive minhas aventuras,

então não se preocupe

Bethy S2: Serio, Jackson????

‘0’

Michael Sunnin: Momento confissões, é?

Sim, já fiquei cm homens kkk

Bethy S2: Eu to é passada

JASON! S.: Caralho

Seis são tudo viado

O q vai ser dessa família

Bethy S2: Cala boca, Jay

Hetero n fala no grupo

Michael Sunnin: kkkkkkkkkk

JASON! S.: Aliás, n tenho preconceito

Nunca fiquei e tb nunca tive interesse

Mas se rolar, rolou

É palhaçada ficar julgando

Bethy S2: Porra

Ngm aq é hétero?

Serio?

Michael Sunnin: N to acreditando

Bethy S2: E eu td preocupada

de ser a ovelha negra

JASON! S.: Engraçado é q nunca

tocamos no assunto

O q é bem bosta

Michael Sunnin: Eu tinha medo

q parassem de falar cmg se dissesse

Bethy S2: Poxa, Jackson

Nunca faria isso

Mas tb fiquei com medo

JASON! S.: Eu nunk msm

Ainda preciso te encher o saco, ue

Bethy S2: kkkkkkkkkk

Como vc é idiota, jay

Michael Sunnin: Agr a gente

tem q sair mesmo

JASON! S.: Nunca li tanta vdd, mas

a bethy n contou cm qm tah de rolo

Bethy S2: E n pretendo tao cedo

JASON! S.: É UM JOGO CMG, GAROTA?

Bethy S2: É kkkkkkkk

To saindo aq

Bjo pra vcs

Michael Sunnin: Vms marcar, bethy

Bjao, fica cm Deus

— Tudo pronto? — perguntei à Mia.

Ela vestia uma blusa de lã, calça de moletom e botas de camurça, todas pretas. Poderia até se camuflar, se não fosse pelo cachecol branco enrolado no pescoço. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, o que aparentava deixá-la mais alta.

— Acho que sim. — respondeu sem ânimo e sem me fitar.

Estávamos no meu apartamento agora. Kiara rodeava as pernas da dona com receio do pré-abandono — temporário —. Eu vou cuidar dela durante este tempo, aliás.

Mia soltou a barra de puxar da mala de rodinhas e agachou-se para acariciar a bichana. Kiara miava sem parar.

— Eu entendo como ela está se sentindo. — desabafei.

— Não me preocupo com ela. Alguém vai cuidar dela. — disse Mia, parando de acariciar Kiara para levantar. Depois veio em minha direção. Eu estava sentada no braço do sofá. — Estou preocupada contigo.

— Acho que sou um pouco grandinha pra precisar de babá. — murmurei, cruzando os braços. Mas logo descruzei e a abracei pela cintura.

— Também acho. Mas... por precaução... — murmurou, me fazendo rir. Beijou a minha testa e eu arrumei um dos fios de cabelo que teimavam cair em frente ao seu rosto, mas a deixava charmosa.

— Espero que não me troque por um francês. Ou uma francesa. Sabe, as pessoas acham franceses irresistíveis. Até dizer “francês” é sedutor.

— Imagino. Muita sedução. — ironizou e revirou os olhos. Eu gargalhei. — A única coisa francesa que eu trocaria por você seria um bolo, talvez.

— Ah, e isso sem dúvidas aumentou minha autoestima. — retruquei, indignada. Ela deu um de seus meios sorrisos. — Um bolo, Mia? Bom, ao menos não é um simples pão francês.

— Eles também devem ser ótimos.

— Quieta. — esbravejei, apertando seu quadril e fazendo-a dar um salto. Cócegas ainda eram um ótimo ponto fraco dela.

— Eu amo você, Beth. — declarou, levantando minha cabeça para fitá-la. Ah, glória Deus. Como era linda ao dizer isso.

— Eu também te amo, Delilah. — respondi, sorrindo.

O seu celular tocou, mas eu já sabia do que se tratava antes mesmo de ela atender. Clemente viria buscá-la para levá-la ao aeroporto. Não podia ir com seu carro porque estava no conserto — alguma coisa no motor soltou recentemente, o que fazia o veículo esfumaçar como uma chaminé. Eu não tinha carro e não pretendia ter tão cedo — queria comprar com o meu próprio dinheiro e não com o da minha mãe, de preferência... Era Clemente ou um táxi.

— Cuide de Kiara. — ressaltou, dando-me mais um beijo na testa, voltando a pegar a mala e arrastando-a até o corredor do andar.

— É o que me resta, né... — murmurei, me sentindo deprimida. — Não quer que eu desça com você?

— Está frio lá fora. É melhor que fique aqui, OK? — disse, dando alguns passos até o elevador e pressionando o botão ao lado. A cabine já estava em nosso andar, o que facilitou. Ela entrou e eu me aproximei, a analisei de cima a baixo e nos encaramos por um momento.

— Eu realmente espero que não me troque por franceses. — murmurei.

Mia deu um sorriso radiante, largando a mala e segurando a porta do elevador para que não fechasse e pudesse me puxar para um beijo de tirar o fôlego.

— Até breve, Callie. — sussurrou entre meus lábios, dando-me um beijo na bochecha em seguida. Eu segurei sua mão e apertei.

— Tchau, Delilah. — me despedi dando um sorriso triste. Assim, soltei sua mão e logo a porta da cabine se fechou.

O meu mundo pareceu ter se fechado também em um silêncio ensurdecedor.

XXX

FAMILIA DO CAPRICHO

PARTICIPANTES: JASON! S., Michael Sunnin, Bethy S2

Bethy S2: To tão triste ;-;

JASON! S.: Ue, vc n ia sair?

Bethy S2: Ia, mas to sem pique t-t

JASON! S.: Era pra ser um grupo

de zoeraj, n terapia

Michael Sunnin: O q houve, Bethy?

Bethy S2: Eu sei, jay

Ai, vm sair hj? Tipo agr?

JASON! S.: Nossa vc tá triste msm

Michael Sunnin: To saindo do trabalho

Se n tiverem nada p fazer, eu topo

JASON! S.: O sistema n tava

funcionando hj, daí sai cedo

BORA!

Bethy S2: Qero bolicheee

Ah, algum de vcs

vem me buscar,

pfvr

Michael Sunnin: Mas é folgada kkkk

Vc ou eu, jay?

JASON! S.: Eu to de moto

Vai encarar, gatinha?

Bethy S2: Pfvr, Jackson

Eu ainda quero viver

por um longo tempo

Michael Sunnin: Kkkkkkk

Ta, me fala aonde q eu busco

Fiquei esperando Michael em frente ao portão do prédio. E, sim, Mia me mataria se soubesse que saí logo após dizer que era melhor que eu ficasse em casa.

Bom, Jason teria sido mais rápido para vir, mas era um louco pilotando a moto. Ninguém merece.

Em compensação, eu me sentia ansiosa. E pensar que, logo Michael, o mais quieto de todos é o meu aliado... Dava até vontade de rir. Isso me relaxou.

E eu gostava de conversar com Michael. Jason era divertido de conversar também, mas era difícil conversarmos sobre algo sério sem nos sentirmos estranhos no ato. Com Michael, era tudo fácil e tranquilo.

Levei um susto ao ouvir a buzina. Olhei para o lado e lá estava ele, sinalizando pela janela para que eu entrasse no veículo.

Assim fiz, antes colocando uma mão na boca e assoprando para esquentar. Estava realmente muito frio. E não me enrolei muito em tecidos para sair. Sorte que dentro do boliche é bem quente. Principalmente depois que você começa a jogar.

— E aí, Bethy. — cumprimentou ele, dando um sorriso gentil e aquela ajeitava de leve nos óculos de grau sempre consigo. Usava uma touca azul na cabeça, um casaco marrom de couro, calça jeans e tênis de camurça da Adidas. Michael era bonito e viril, e é claro, sempre lembrava muito o nosso pai.

— E aí, Jackson! — o cumprimentei animada enquanto me sentava no banco de passageiro. O motivo de seu apelido era simples e um pouco estúpido: uma referência a Michael Jackson.

Não, o meu irmão não era nada parecido com ele, também não sabia fazer o moonwalk¹ — na verdade, sempre teve a tendência de dançar muito mal — mas era um grande fã do rei do Pop. Tinha álbuns e tudo mais. Inclusive, sempre amou que eu o chamasse desse jeito.

— Não esquece do cinto. — relembrou. Eu fiz bico, mas logo me prendi ao banco e Michael começou a movimentar o carro. Segurança era em primeiro lugar com ele. Menos um ponto para Jason.

— Então... Como você tá? E, por favor, não me pergunte o mesmo. — quis deixar claro e ele deu risada.

— Vou muito bem. Não vai dizer o porquê da euforia de sair tão de repente?

— Só uns negócios aí... — murmurei, sem ânimo.

— Eles têm nome? — insistiu, mas os olhos estavam fixos na rua. O caminho que fazia era um pouco familiar para mim. Percebi então que íamos ao Stav Center. Era o shopping que tínhamos costume de ir quando mais novos.

Caramba, semana da nostalgia? Só podia ser.

— Você sabe qual é. — respondi, em voz baixa.

— Está pensando em se assumir, Bethy? — Ele questionou de repente.

— Hãn? Por quê? Seria ruim? — perguntei, engolindo em seco. Michael gargalhou.

— Normalmente as pessoas tomam coragem pra assumir quando encontram alguém em especial...

— Aham... Você e suas hipóteses... — rebati, revirando os olhos.

— Pelo jeito não é um simples rolo, hein. — argumentou, mas rindo. Tinha a mesma perspicácia de analisar as coisas como o pai também.

— Sim... — murmurei, angustiada. — Não que eu não tenha experiência com relacionamentos ou algo do tipo. Já namorei algumas vezes, mas... desta vez...

— Dessa vez é a "vez", não é? — comentou. Eu só o fitei e franzi o cenho. Michael, percebendo isso, contraiu os lábios para segurar mais uma risada. — Vocês já tão namorando ou só cogitando a ideia?

— Estamos namorando. Mas, bem, oficial não é...

— Ela é assumida? — questionou, enquanto pegava uma ficha do estacionamento subterrâneo e passava por uma daquelas grandes catracas.

— Hmm... Digamos que, se eu me assumir, automaticamente ela se assume. Ela não se importa ou tem problemas com esse tipo de coisa, sabe? É meio complicado de explicar, na verdade... — respondi, começando a me sentir desconfortável. Eu não queria falar sobre Mia.

— Não sei muito bem o que Denise acharia sobre isso...

Ah, isso é interessante: Jason e Michael nunca chamaram Denise de mãe. Mas não era porque não merecia o título ou coisa do tipo. Denise sempre foi atenciosa com todos nós. Eles só não se sentiam confortáveis em determiná-la como tal.

Inclusive, não sei muito sobre a mãe deles. Quando toquei no assunto uma vez, quase fui jogada aos leões por ambos. Desde então, por precaução, não questionei mais nada.

— Mas o pai não vai aprovar. Sabe que ele segue leis religiosas, mesmo não sendo alguém que comparece muito à igreja. Vai ter problemas com ele. — acrescentou. Ótimo, já estou me sentindo melhor. Valeu, Michael! Por não ajudar em nada! — Só que ele é um cara que aceita quando se acostuma. Lembra quando Jay quis colocar piercings?

— Lembro muito bem. — falei rindo. William havia dito que, se Jason colocasse, os arrancaria à força.

— Aí, Jay, teimoso e pirracento igual você conhece, foi lá e colocou um no nariz e outro na sobrancelha. Lembro que ficou horrível, mas adorei a atitude. — Michael opinou, me fazendo gargalhar alto. Em seguida, achou uma vaga para estacionar e logo se apoderou do lugar.

— Realmente... Ainda bem que ele não usa mais. — comentei, dispersando a imagem rebelde de Jason com piercings.

— Graças a Deus. — clamou Michael, rindo. Nós nos soltamos dos cintos e saímos do veículo. Eu ajeitei a roupa e me senti confortável com o clima morno do estacionamento. — Ele ficou uma fera depois que Jason fez isso. Parou de falar com ele por dias, mas também não fez nada sobre. E, depois de um tempo, voltou a falar normalmente. Teve uma vez que até pediu pra tirar o piercing da sobrancelha, mas era só porque não ficava legal mesmo. Então, vê? Quando é inofensivo, o pai percebe com o tempo. Não vai ser diferente quando souber que... você também gosta de mulheres. — continuou enquanto caminhávamos ao elevador.

— Você parece não gostar de rótulos, Michael. — murmurei ao perceber e ele sorriu.

— Detesto. Bethy, se é isso que tá te deixando mal, saiba que tem pessoas que te apoiam e que compreendem você, tá? — tranquilizou. Eu sorri meigamente e lhe dei um abraço. Jesus, eu tinha um irmão maravilhoso. Obrigada!

— Valeu, Jackson. — agradeci. A porta do elevador abriu e entramos. Selecionei o primeiro andar, onde ficava a praça de alimentação e o boliche. — Mas não é por isso que me deu essa vontade de sair.

— Não? — indagou ele, perplexo. — O que é, então?

— Lembra que eu disse que a Mia ia viajar?

— Mia... — murmurou, franzindo o cenho. Só falta não lembrar da criatura. — Espera. É a garota do seu aniversário? Que trabalha pra Denise? Não, calma aí...

— Sim, essa aí... — murmurei, sentindo meu rosto esquentar.

— É ela? — Ele quis confirmar. Eu assenti em concordância.

Saímos do elevador e caminhamos em um silêncio repentino. Em frente à entrada do boliche constatamos uma cabeça amarelada à vista, vestindo camisa preta de estampa clichê do Nirvana, calça jeans rasgada, uma blusa de moletom enrolada no quadril e calçando coturnos. Jason brilhava como um rockstar pirateado.

— Ele vai morrer três vezes quando souber. — sussurrou Michael, referindo-se a Jason.

— Ô se vai. — murmurei e tentei controlar a risada. Nem lembrei deste pequeno detalhe.

— Yaaay! — cumprimentou Jason, aproximando-se e passando um braço pelo meu pescoço e o outro no de Michael. Só que não permaneceu assim por muito tempo em Michael porque ele era mais alto, então manteve o braço apenas atrás de suas costas. — Meus chuchucos! Como vão?

— Quem fala "chuchucos" hoje em dia, Jay? — questionou Michael. Eu gargalhei.

— Vamos muito bem, querido chuchuco. — respondi, dando-lhe um beijo na bochecha.

— Tá vendo? Você tem que ser igual a Bethy e não questionar o uso de "chuchuco". — respondeu a Michael, que revirou os olhos. Eu só pude rir. — Vamos, quais as noviças? Além de que ambos curtem cortar pros lados e tudo mais.

— Cala boca, Jay. — esbravejei, tapando sua boca com uma das mãos. Ele riu abafado. Depois lambeu minha mão, me fazendo ter que retirá-la. Limpei na roupa dele, só de raiva.

— Não conte isso à Johanna, Jay. — Michael pediu sério.

— Relaxa. Vou assustar a menina desse jeito? — provocou, levando uma cotovelada nada amigável de nosso irmão mais velho.

— Eu tô com fome. — desabafei.

— Eu também. — concordou Michael, apontando para um dos restaurantes ali próximos. — Um ranguinho antes?

— Com certeza! — Jason concordou e já nos arrastava até o lugar.

No fim, não fomos jogar boliche. Jason se empanturrou de cerveja, eu de comida, e nem Michael estava com pique para jogar alguma coisa, então ficamos conversando sobre as coisas alheias da vida.

Tudo era mais fácil de falar com meus irmãos. Eu podia falar qualquer coisa, do jeito que eu quisesse. Ser mais eu. Ser algo além de mim. Algo que eu só conseguia ser na presença deles. E eu amava isso.

Por mais que quisesse dar na cara deles algumas vezes. Entretanto, era um sentimento violento romântico.

Michael contou sobre sua namorada, Johanna, e de como se conheceram. Só de mencionar o nome da garota, seus olhos mudavam de alguma forma. Era tão fofo vê-lo assim. Johanna é realmente especial.

Jason contou sobre seus demais rolos, e eram muitos. Sempre foi o tipo de cara sem compromisso mesmo.

Até houve um tempo em que eu e ele discutimos sobre isso, porque iludia as garotas e achava bonito. Mas tomou jeito, pois realmente o perturbei, tornando a deixar claro que não queria nada mais intenso às pessoas. Pelo menos é o que diz.

Só me pergunto quando finalmente se ousará para uma relação fixa. Alguma vez na vida, ao menos.

E é claro, tive que contar sobre o meu rolo também. Era justo.

Jason ficou perplexo ao saber que a garota era Mia. Michael riu muito, obviamente. Acabei contando algumas coisas que fiz ao fugir e como a conheci também. Mas isso voltou a me deixar triste.

E pensar que estava há quilômetros e permaneceria assim por tantos dias...