Oculta
18 Revelada
— Não sei se compreenderá como me sinto, mas contarei. — começou Mia, suspirando longamente. — Não me interrompa ou opine, apenas ouça, está bem? Senão talvez eu não consiga falar até o fim.
— Delilah... — murmurei, mas não sabia o que dizer. Esperei tanto por esse momento, e agora... sinto um enorme receio do que possa ser.
Conte antes que eu mude de ideia, Mia.
— Há duas pessoas fixas nesta história. Não me agrada nenhum pouco o parentesco que temos. Mas não faz diferença.
“Minha mãe, Sarah, era a mulher mais maravilhosa do mundo para uma criança que nem ao menos sabia andar sem tropeçar nos próprios pés.
Ela seguia a crença judaica e era uma fanática. Ensinou-me bastante sobre a religião, seus rituais, símbolos, ainda que eu não compreendesse pela mentalidade infantil da época. Também nunca tive interesse em me aprofundar mesmo nos dias atuais.
Sarah também me ensinou o idioma hebraico. Eu aprendi com facilidade e praticávamos bastante. Inclusive, meus professores recomendaram que eu me especializasse nele. Assim fiz, mesmo sem ambição. Não era como se eu tivesse algum passatempo. Até hoje não sei onde posso utilizar este "talento". Porém, não é um detalhe relevante.
Meu pai chamava-se Evan. Era atencioso, amável. Dava-me tudo o que eu queria. Mas ele e Sarah tinham personalidades bastante questionáveis.
Houve um tempo em que não diziam uma sílaba sequer ao outro. Eu nunca soube o porquê desta tensão familiar.
Então, Sarah foi embora de repente. Lembro que, enquanto arrumava as malas, dizia-me que tinha uma missão a cumprir e que voltaria logo. Não foi o que aconteceu.
Neste meio tempo, Evan se tornou frio e começou a me tratar como uma estranha. E, de certa forma, eu compreendia sua revolta. Afinal, sua mulher foi embora sem mais nem menos, deixando-o com uma filha para criar. Não era surpreendente que começasse a descontar sua frustação em mim.
Ele convidava amigos para vir à nossa casa de vez em quando. Eu não ligava, até gostava. Podiam ser estranhos, mas eram conhecidos de meu pai. E uma criança confia em seu pai, não é mesmo?
Diziam querer brincar comigo e eu, inocente, aceitava de bom grado. Não ia à escola, não conhecia meus vizinhos, não tinha parentes próximos, nem saia de casa... Minha companhia era eles e meu pai.
Eles me alisavam, acariciavam, tiravam pequenas "cascas". Todavia, eu só soube que isso era errado anos depois. Como eu poderia saber na época? Meu pai via e não dizia nada.
E esses encontros perpetuaram por um bom tempo. Sequer lembro o quanto.
Até que, certa vez, perguntei algo a Evan. E foi a pior coisa que fiz em minha vida.
Questionei se eu podia "brincar" com outras pessoas. Com isso, ele enlouqueceu.
Trancou-me no porão de casa. Pareceu uma eternidade. Sem comida, água, luz... Absolutamente nada. Imagine quão aterrorizante foi para uma criança.
E eu sempre tive uma imaginação fértil. Imaginava muitas coisas no escuro. Saindo, existindo, rastejando, me observando.
Mas, com o tempo, me acostumei. Acostumei com o silêncio e, consequentemente, com a solidão, até com a escuridão. Elas me foram boas amigas. Acolheram-me sem questionamentos. Tanto que fizeram isso sem meu consentimento.
Quando Evan voltou, pediu desculpas. Eu estava só o pó, mas tive esperanças de que teria o meu pai de volta, aquele amor de volta. E tive. Mas não como imaginei.
Foi onde tudo começou realmente. A realidade que me trouxe tantas consequências para lidar. Foi além das meras visitas anteriores.
Ele se aproveitou. Abusou. Obrigou-me a aprender coisas obscenas, libidinosas. Ensinava-me sua filosofia de conexão entre ódio e luxuria. Pressionava-me a “controlar” este ideal com plenitude, me aperfeiçoar. E que só assim, mais tarde, me deixaria livre.
Evan era um maníaco sádico perturbado. Talvez fosse por este motivo que Sarah o tenha abandonado. Mas por que não me levou junto, nunca saberei.
Eu aprendi tudo. Apenas não tive escolha. Eu apanhava se não fizesse o que ordenava. E isso se acumulou em anos que, para mim, foram séculos, milênios.
Até que em um dia, não sei, foi inocente de sua parte. Evan deixou a porta do porão aberta e eu saí.
Jamais saberei expressar o quão foi bom ver o sol outra vez. Luz. Iluminação. Aquilo me fez tanta falta.
Eu fugi. Pelo meu estado, pessoas me viram na rua e estranharam. Perguntaram se eu estava perdida, mas eu não queria falar com ninguém. Na verdade, eu não sabia falar direito. Eu só queria fugir para bem longe. Mas um deles percebeu minha aflição e conversou comigo. Uma moça, na verdade. Daí me levou a uma delegacia.
Contei o que houve em um detalhamento tão puro que ninguém conseguiu acreditar. Só após constatar os resultados dos exames médicos que tive que me submeter. Era a única forma de comprovar. A boca pode mentir, o corpo não.
Evan foi condenado. Aparentemente, muita gente não sabia que ele tinha uma filha. E isso não me surpreendeu."
— E o restante você pode imaginar. Mais consultas médicas, psicólogos, grupos de apoio. Pesquisaram pelo paradeiro de Sarah e algum outro parente possível, mas sem sucesso. Fui transferida para um orfanato neste meio tempo. — acrescentou Mia, dando de ombros.
Sua voz soou, em tudo que acabara de contar, seca. Sem emoção. Sem lágrimas. Era mais um tom questionador. Acho que se pergunta o porquê de tudo isso até hoje. E como não há resposta... também não há emoção.
O que não é o meu caso.
Meus olhos ardiam de tanto chorar. Eu estava tão triste. Puta merda, eu me sentia despedaçada.
Nem em um milhão de anos imaginaria essas coisas acontecendo com este anjo que caiu de paraquedas na minha vida. O meu amor por ela pareceu aumentar ainda mais.
Eu não conseguia controlar o soluço. Minha garganta estava quebrada. Meu nariz escorria sem parar.
Sabia que contar não era nem metade do que sentiu. Creio que não dá para expressar tão facilmente em palavras. Ou se realmente dá para expressar.
Queria confortá-la. Mas antes, teria de fazer isso comigo, pois estou realmente sem rumo no momento.
— Seu pai... Evan... — tentei pronunciar, soluçando. — Ainda está preso?
— Ele foi espancado até a morte enquanto cumpria a pena. — respondeu, sem remorso. — Presos não apreciam estupradores.
— Não fale assim, Delilah. Ninguém... aprecia... isso...
— E há outra forma de dizer? Eu deveria estar triste, Bethany? — questionou, intrigada. — Teria sido diferente se ele não fosse assim. Às vezes fico imaginando como seria, Beth. E é horrível. Pois sei que não mudará nada. Sei e ainda consigo ter esperanças. É ridículo.
— Não é ridículo! — esbravejei, limpando o rosto na minha camisa. Eu sabia que era nojento fazer isso, mas não pensei muito. — A gente imagina o que não pode ter. Isso vai se repetir várias vezes na sua vida.
— Bethany, ele me estuprou. — afirmou. Sua voz tinha um tom mais grave agora. — Esse filho da puta não merece estar nem na porra dos meus pensamentos.
Eu me calei. Mia pronunciar qualquer palavreado baixo é estritamente raro. Quer dizer, nunca a ouvi dizer até agora. E não apreciei ouvir.
Nos encaramos. O que posso dizer?
Eu acho que a compreendo. Mas não estive em sua pele. Então não compreendo.
O que faço? O que digo?
O que acontece daqui em diante?
— O que aconteceu depois? Depois que... seu p... Evan... foi preso? Como você se sentiu? — perguntei, sem certeza de que isso era uma boa pergunta. Ela desviou o olhar.
— Eu não senti nada. — respondeu Mia, simplesmente. — Ainda não sinto muita coisa até hoje.
— Há mais alguma coisa que queira me dizer? — questionei por fim, exausta.
— Eu tenho pesadelos. Todas as noites. — disse. Eu arregalei os olhos. Todas as noites? Como alguém aguenta ter pesadelos todas as noites? — É outro motivo para ter o isolamento no quarto. Não costumo ser muito silenciosa quando os tenho.
— Delilah, a Kiara ficava agitada todas as noites. — constatei, arrepiada. Meu Deus.
— É pior quando ela fica dentro do quarto. Mas o bom é que me acorda. Só que me arranha. — respondeu, ainda sem expressão. Eu definitivamente estava quase sem palavras. Quase.
— Como são os pesadelos? — arrisquei perguntar.
— Adivinhe. — murmurou ela, levantando-se da cama.
Foi em direção ao banheiro e entrou, depois voltou rapidamente com um rolo de papel em mãos e me entregou. Acho que usei quase metade só limpando o meu nariz. Que nojeira.
Quando a fitei de volta, a vi próxima a porta do quarto.
— Aonde você vai? — perguntei, um pouco aflita.
— Eu vou... Não sei. — balbuciou, desviando o olhar. — Dar uma volta, talvez.
— Ah, mas não vai mesmo. — falei, pousando o rolo em cima do criado mudo. Levantei da cama e me coloquei à frente da porta, trancando sua passagem. — Estamos conversando ainda, Delilah.
— Já terminei de contar. O que mais você quer?
Eu, com toda ousadia reunida, me joguei em cima dela e a abracei com força, nos fazendo cambalear e cair sobre a cama. Mia grunhiu.
— Daqui você não sai. — resmunguei, tendo o som abafado pelo seu pescoço.
— Você está me estrangulando, Beth. — Seu tom de voz saiu engasgado, então afrouxei o aperto, mas rindo ao mesmo tempo.
— Como consegue contar isso tudo e não demonstrar nada, Delilah? — questionei, deixando meu rosto próximo ao seu. Ela tinha um cheiro... Ah, muito bom. — Você me impressiona às vezes.
— Pensei que perguntaria mais coisas. Você sempre tem tantas perguntas.
— Não sei o que perguntar... — murmurei, pensativa. Funguei para inalar mais o seu cheiro genuíno. Meu Deus, que cheiro bom. — Você tem um cheiro bom.
— Você também cheira bem. — comentou ela. E aquele olhar maravilhoso voltou para o seu rosto.
— Nada comparado a você. — elogiei, alisando seu cabelo. Ela parecia entregue a mim. — Não precisamos de apenas sexo pra fortalecer isso aqui, Delilah. Mas você... Eu não sei dizer. Eu te quero. E nunca fui exigente sobre essas coisas. Mas, com você, eu quero. Eu quero. O que acha que poderíamos fazer pra mudar? Acho que se não fizermos nada, isso vai piorar.
— Você não pode fazer nada. — disse quase como um pedido de desculpas. Isso me deixou muito para baixo. — Isso só depende de mim. E eu não sei o que fazer.
— Me diga o que faz você lembrar dele. – murmurei. Foi algo espontâneo, mas talvez pudesse funcionar.
Ela permaneceu em silêncio por um bom tempo. Continuava no mesmo lugar, sem mexer um músculo, apenas me fitando. Eu continuei observando-a e acariciando seu cabelo.
— Claridade. Claridade me lembra dele. Ele me deixava no escuro quando não estava por perto.
Eu me levantei de supetão, caminhei até o interruptor e desliguei a luz do quarto. Mesmo tropeçando, achei a cama e voltei para o mesmo lugar.
— O que mais? — sussurrei. Não era minha intenção sussurrar, mas foi meio automático. E eu não gosto de escuro. Mas pretendo perder este medo se deixar Mia mais confortável.
— Nós não conversávamos enquanto... — Ela não terminou a frase, mas eu compreendi. Certo, conversar. Isso é fácil.
— Algo mais?
— Ele sempre estava vestido. — respondeu ela em um fio de voz.
Eu não disse nada. Apenas me sentei em seu quadril e tirei a minha camiseta. Tudo bem que não podia ver, mas com certeza tinha tato.
Peguei suas mãos e as pousei nas laterais da minha barriga. Deslizei as palmas para cima, até abaixo da linha do sutiã e voltei. Retomei minha posição anterior, deitada por cima de Mia, e não tirei suas mãos de mim.
— Eu tiro o resto se quiser. — murmurei, sem ligar para o que estava propondo. Não é hora para timidez. E não tinha porquê de ser tímida com Mia.
— Ele nunca tirou a minha roupa. Eu quem tirava.
Acho que chegamos ao “finale”.
— Você tem certeza que quer continuar, Delilah?
— Não, não tenho. — respondeu ela, sentando-se comigo em seu colo. Em seguida, encostou seu rosto em minha clavícula e me abraçou. — Continuo sendo sua, Beth. Espero dar o que quer em breve.
Pelos céus... Continua sendo?
Eu nem sabia que era realmente minha, Mia.
Ela era minha.
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