Oculta

19 Normalidades


Notas iniciais
Em homenagem à maravilhosa senhorita com o pseudônimo BLACK MAGIC: Muitíssimo obrigada por proporcionar a SEGUNDA RECOMENDAÇÃO para Oculta! Fiquei tão fucking feliz quando vi! Realmente não esperava. Muito obrigada mesmo, de coração! ♥

— Eu realmente não gosto de fazer compras.

Bufei. Estava difícil escolher entre um colete preto e um marrom, e Mia não estava ajudando. Caramba, até com meus ex isso acontecia. Com você vai ser o mesmo, Mia? Parece uma maldição.

— Você não aprendeu nada na Cortês? — questionei, enquanto olhava distraída para outras peças expostas na loja.

— Já vi você com uma jaqueta preta do mesmo modelo. Escolha a marrom. — respondeu, indiferente. Eu bufei de novo, frustrada.

— OK. — Só consegui responder isso, devolvendo a jaqueta preta à gaiola.

— Sua mãe sabe mais. Por que não pede dicas a ela em vez de mim?

— Ela tá sempre tão ocupada que duvido que encontre tempo pra me dar dicas sobre moda. — murmurei, dando de ombros.

— Você realmente não conhece a mãe que tem, Beth. — murmurou Mia. Ela se aproximou enquanto eu ainda observava algumas peças. — Não que eu me importe em lhe acompanhar, mas não levo jeito para isso e você sabe.

— Não sei. Gosto quando me acompanha. — murmurei, virando-me, a centímetros de seu rosto. Ela me fitava com os olhos cerrados, mas tranquilos, atenta aos meus movimentos.

Dei-lhe um beijo devagar na bochecha, sem me importar com as pessoas ao redor. É isso o que somos. Duas garotas que se gostam e se beijam. Ao inferno quem não gostar. Eu definitivamente não me importo. Não mais.

Mia vestia um casaco de cor creme, o que me trouxe nostalgias. No primeiro dia em que a conheci, usava um casaco da mesma cor — só que esse era bonito, ao menos. Eu sabia que vestia um moletom por baixo, pois a vi se vestir, e devo ressaltar que foi uma bela e agraciadora visão e, por fim, nada demais, calça jeans e botas de couro concluíam seu visual.

Também devolvi a jaqueta marrom, desistindo de minha compra em um acordo silencioso comigo mesma. Depois, peguei a mão de Mia e entrelacei nossos dedos. Ela me fitou intrigada.

— Não vai comprar?

— Não. Sabe, você mora aqui há pouco tempo, Delilah. Vou te mostrar o que é Nova Iorque.

Saímos da loja e fomos até onde o carro de Mia jazia estacionado. Não resisti em querer arrastá-la ao lugar que eu mais gostava da minha grande cidade: Times Square, é lógico. É um pecado estar em Nova Iorque e não visitar o templo dos deuses. É um pedaço do paraíso!

Mas, infelizmente, não ficamos lá por muito tempo. Mia achou o lugar lindo, só que havia duas coisas que detestava: barulho e muita gente em um lugar só. Eu ri disso. Queria que conhecesse as lojas que havia por lá, mas talvez não fosse de seu interesse.

Então, fomos dali até o conhecido Grande Terminal Central. Ficava meio próximo de onde morávamos, inclusive.

Mia ficou encantada com a arquitetura do local, mas também ficamos lá por um curto período, para variar. Bom, não tinha muito o que fazer. Era uma estação ferroviária, afinal.

Como em quase uma sincronia perfeita, aproveitamos a deixa para pegar um metrô até o Parque Central.

E ela amou o Parque Central. Só que aí, a mesa virou.

Eu nunca gostei muito de verde, sabe. Sou uma garota que nasceu ali, no meio da rua, com milhões de coisas acontecendo ao mesmo tempo, milhões de pessoas falando ao mesmo tempo, milhões de pessoas interagindo ao mesmo tempo. Alguém “caseira” é o que definitivamente não sou.

Todos aqueles bichos voando para lá e para cá... Sentar na grama e imaginar o que pode estar se arrastando ali ou se arrastou por ali... Você pode me chamar de nojenta, mimada, fresca, mas não curto e não é agora que vou curtir. Nem se for para deixar Mia feliz. Detesto, detesto!

Felizmente, Mia sentiu que eu não estava me dando muito bem naquele lugar e fomos embora bem rápido.

Cacete. Não vamos permanecer por mais de uma hora passeando em algum lugar?

Pois à vista disso, tive uma ideia genial. Acabamos por ajustar nossa rota novamente.

Vamos ao museu!

Bom, já era noite e Mia quase rejeitou a proposta, porém, como sempre digo: sou bem persistente. E é claro, ela adora arte, foi quase irresistível. E eu nunca havia ido ao Museu Metropolitano de Arte, no fim das contas.

Quando estávamos próximas do destino, fiquei abobalhada. A infraestrutura, a disposição daquele lugar era linda. Tinha todos aqueles detalhes de construções gregas e tudo mais. Magnífico!

E ao entrarmos, então? Eu andava arrastando o meu queixo pelo chão. Era tudo tão incrível. Como nunca visitei!?

Por fim, da maneira mais irônica possível, acabamos ficando pouco tempo por lá também, mas desta vez não tivemos dedo nosso. Como eu disse, era tarde, chegamos minutos antes de o museu fechar.

Bem, após tanto passeio, adivinha? A fome deu o seu parecer. Minhas tripas brigavam entre si. Mia concordou em irmos comer alguma coisa.

Adentramos em um restaurante bem sofisticado ali perto, pois eu não aguentaria ficar no carro nem um pouco mais. A não ser que Mia nos leve a um drive-thru. E olhe lá.

— Você vai querer o quê? — perguntei logo ao sentarmos.

— Você decide.

— Ah, Mia. Não seja assim. Tenho trauma dessa resposta. — murmurei, rindo.

Eu não sei. Queria que tudo fosse diferente com ela. Estava cansada do clichê que era sair com um homem e passar pelas mesmas fases. Sentia-me ansiosa em fazer algo diferente.

— Sente aqui do meu lado. — sugeriu Mia. Eu fiquei um pouco surpresa com isso. — Assim podemos visualizar o cardápio juntas.

Abri um largo sorriso. Rapidamente levantei e sentei ao seu lado. Mia pegou o cardápio e começou a folhear, indicando o que gostava e não gostava, e eu o mesmo.

— Eu não quero beber refrigerante. — murmurou Mia, suspirando longamente. Eu estranhei.

— Suco? — sugeri.

— Não quero beber suco também.

— Água? — Dei uma risada curta.

— Melhor que isso. — murmurou de novo, me olhando de soslaio.

— Está falando sério? — questionei, compreendendo seu desejo oculto.

— Garçom. — chamou ela. Um moço magricelo vestido de terno se aproximou com um caderninho em mãos. — Pode nos recomendar um bom vinho do cardápio, por gentileza?

Eu não estava acreditando que ela ia beber mesmo. Em público!

— Ah, sim, sim. Temos várias opções, mas o melhor mesmo seria o-

— Pode trazer. — cortou Mia, dando um meio sorriso.

— Opa, tudo bem. — murmurou ele, sorrindo simpático e anotando algo no caderninho. — Mais alguma coisa?

Não conseguimos chegar a um consenso sobre nenhum prato, então escolhemos o prato especial do dia. Também pedimos refrigerante, pois Mia deixou claro que não queria me ver bebendo nada alcoólico por enquanto. Mas não me agrada em nada o fato de que irá tomar em meu lugar, oras.

— Delilah, você tem alguma foto sua no celular? — perguntei, curiosa.

— Não. Por quê?

— Nem alguma que alguém tenha tirado de ti?

— Não as tenho em meu celular.

— Não tem em algum site? — insisti, abrindo a tela do Google no navegador do meu celular em seguida.

— O que quer, Beth? — perguntou ela, por fim.

— Quero ver as fotos que tira no trabalho. — respondi e, por incrível que pareça, sim, fiquei envergonhada.

Mas pude ver e ouvir algo superior às setes maravilhas do mundo.

Mia começou a rir.

Pense só: já era linda sorrindo, imagine rindo. Era uma risada meiga, doce. As vibrações de seu vocal tocavam a minha pele de um jeito arrebatador. Nunca vi e ouvi coisa mais linda. E acabei por rir também. Era bem contagiosa.

— Você me tem na sua frente e quer fotos? — indagou, e ainda tinha um meio sorriso no rosto. Deus, o fato de eu ter uma namorada já é surpreendente, agora uma namorada linda dessas... Céus.

— Me disseram que você veste roupas diferentes das que te vejo usar... — murmurei. Agora sentia o meu rosto quente de verdade.

— Eu posso vestir algo que goste se for o caso, desde que eu não pareça seminua ou nua mesmo. — sugeriu. Eu não resisti em olhá-la com malícia.

— Completamente nua seria interessante. — sussurrei, pousando a cabeça em seu ombro.

— Acho que posso dizer o mesmo a você. — murmurou ela, acariciando meus cabelos.

Logo o garçom trouxe nossos pedidos e literalmente atacamos a comida. Já me sentia verde de tanta fome.

Continuamos a conversar, mas de bobagens alheias. Mia contou que Matheus ficou ligando desesperadamente ao meu celular quando tive o colapso e que, independentemente de qualquer coisa que dizia para acalmá-lo, ele continuava doido de pedra com a situação.

Até que ela, e digo isso no modo mais Mia de ser, simplesmente desligou o telefone. Meu Deus, eu ri até sentir a garganta seca quando me contou isso.

Depois começamos a falar de seu trabalho, já que realmente conversávamos muito pouco — ou sequer conversávamos — sobre isso.

— Você deveria ter um Facebook, Instagram ou Twitter, sabia? Essas coisas te aproximam das pessoas. São boas pro trabalho, seja ele qual for. — comentei, tomando um gole da minha Coca-Cola.

— Não sei mexer nessas coisas, Beth.

— Não sabia usar um e-mail e aprendeu, não aprendeu? — argumentei. Ela assentiu em concordância. — Não é tão diferente, querida.

— Você cria para mim? — pediu. Eu a fitei em seguida.

Ah, aquele olhar. Ao vê-lo novamente, já pude constatar que, com certeza, Mia estava alterada pela bebida.

— Claro que crio, amor. — respondi, direcionando meu olhar à garrafa de vinho pousada na mesa. Era a segunda que Mia pediu. Tinha pouco menos de três dedos ainda sobrando.

Disfarçadamente, enquanto Mia comia sua sobremesa muito concentrada, despejei o resto da bebida na minha taça — sim, misturando com o refrigerante para não perceber — e bebi tudo numa golada só. Aquela quantidade não me deixaria embriagada, é obvio. Aliás, o gosto ficou horrível.

De repente, constatei uma coisa. E quis me estrangular. Mas o que surpreende mesmo é o fato de que Mia não se ligou disso.

— O que foi? — perguntou Mia, franzindo o cenho ao constatar a minha aflição.

— Delilah, você tá bêbada. E eu não sei dirigir. — respondi de forma direta. Ela arregalou os olhos. Caramba, ela não se tocou mesmo.

— Acho que dirijo bem mesmo estando bêbada. — comentou e eu não consegui controlar a risada.

— Ah, você “acha”? E eu acho que não vou arriscar. — respondi, tirando o celular do bolso. — Vou pedir para Clemente nos buscar.

— Clemente está de férias. — lembrou Mia. Ótimo. Era só o que me faltava.

— Então vou ligar pra minha mãe pra ver se alguém pode buscar a gente. — murmurei, procurando pelo número de Denise na lista de contatos.

— Mas e o meu carro? Não o deixarei aqui.

— Qual o problema em deixar aqui? — perguntei, franzindo o cenho.

— Deixá-lo aqui já é um problema. — respondeu Mia, em tom obvio. — Não conheço este lugar.

— Delilah, você tem seguro. Se algo acontecer, não vai ser um problema tão grande.

— Realmente não sabe dirigir ou só tem medo, Beth? — questionou e depois me encarou com uma atenção exagerada.

Está aí uma pergunta que eu nunca soube responder.

Fiz aulas de direção sim. E sim, eu tenho carteira de motorista. Mas é ridículo ter autorização e mesmo assim ter medo.

Sei que não sou a única, é claro, mas simplesmente admitir, lembrar o quão fútil da minha parte é isso, não é de meu feitio. Prefiro dizer que não sei, não tenho carta, do que explicar o porquê de nunca ter realmente conduzido um carro na vida, exceto pelo carro das aulas.

Mas, bem, quem me perguntava era Mia. E depois de tudo que contou, ser sincera sobre isso é o de menos.

— Tenho medo. — admiti, sem fitá-la.

Mia não disse nada. Levantou-se, vestiu o casaco e pegou o extrato de nossa conta que o garçom havia posto em cima da mesa. Sinalizou para eu levantasse também. Assim fiz e me ajeitei.

— O celular. — pediu, estendendo a mão. Eu a olhei sem entender. — Dê, por favor.

Eu entreguei, ainda não entendendo bulhufas. Mia o enfiou no bolso detrás de sua calça em seguida.

— Você irá dirigir e nos levará para casa. — disse, simplesmente. Depois estendeu as chaves do seu carro na minha direção enquanto íamos ao caixa. Ah, não.

— De jeito nenhum. — Empurrei a chave para o lado. — Não vou dirigir, Delilah.

— Então eu vou. — Ela deu de ombros, oferecendo o cartão do banco à moça do caixa sem sequer perguntar se poderíamos rachar o valor.

— Você não vai dirigir assim. — bufei, indignada.

— Quem me impedirá de dirigir o meu próprio carro? — questionou, irônica.

Ah, Mia. Aprenda que não se usa ironia comigo.

— E quem vai sozinha pra casa em seu próprio carro? — rebati, cruzando os braços. Já estávamos fora do restaurante. Ela se virou na minha direção. E, meu Deus, tinha um sorriso estampado no rosto. Jesus, assim é difícil brigar.

— Não ousaria! — disse em um tom meio falso de descrença. Eu franzi o cenho. Ela estava estranha.

O casaco que vestia estava aberto e mostrava sua blusa de moletom um pouco para cima, revelando um pouco da pele do quadril. Por mais que fosse algo mínimo, conseguiu me distrair muito bem.

— Não me teste. — aconselhei.

— Alguém corajosa o suficiente para fugir de casa aos dezesseis anos... Imagino que dirigir um carro não deveria ser complicado.

— Pois é. — respondi, emburrada. — Dê o celular de volta, por favor.

Ela negou com a cabeça. OK, estava adorável com as lâmpadas da calçada iluminavam parcialmente o seu rosto, por mais que eu estivesse fula com ela neste exato momento.

Mia começou a se aproximar. Encarei séria, sem esboçar nenhuma emoção. Ao estar a um palmo de distância, passou os braços ao redor de meu pescoço e me beijou com calmaria. Mas logo se tornou um beijo urgente.

Mais que urgente.

Senti que íamos nos fundir.

Mia pressionava sua boca com avidez, às vezes permanecendo com nossos lábios grudados por um momento, fazendo minha cabeça ir para trás e deixando-me um pouco zonza. Não demorou muito para que eu agarrasse sua cintura. Porém, nossos corpos já estavam em demasia proximidade.

Ela nos separou então, depositando um selinho demorado na minha bochecha direita enquanto ambas as mãos seguravam o meu rosto. Encarou-me depois, dando um de seus raros sorrisos.

Eu quis beijá-la de novo. Misericórdia.

— Só uma tentativa. — murmurou, acariciando minha mandíbula com o polegar. — Se não conseguir, voltamos de ônibus. Pode ser?

Era bem difícil dizer não quando Mia Cortês Delilah Montenegro lhe fitava com aqueles fantásticos olhos castanhos, devo ressaltar.

Assenti em concordância fazendo-a sorrir mais uma vez. Nunca a vi sorrir tanto em um espaço tão curto de tempo, céus.

O que um vinhozinho não faz, não é mesmo?

Ao chegar onde o carro se encontrava estacionado, Mia estendeu as chaves de novo, e desta vez aceitei. Abri a porta do motorista e sentei no banco, puxando o cinto de segurança ao passo que Mia fazia o mesmo, sentada no banco de passageiro.

Inseri a chave na entrada e dei um longo suspiro. Eu suava pelas mãos.

— Não compreendo seu medo, mas isso não se compreende. — murmurou Mia, colocando uma mão por cima da minha que jazia sobre o volante. — Não precisamos conviver com certos medos para sempre.

Eu sabia ao que se referia. E não deixava de ser válido.

Pude perceber que Mia estava tentando perder aqueles medos. E espero estar ao seu lado quando conseguir, como está comigo agora, mesmo para algo tão pequeno. É uma atitude já especial para mim.

Senti-me mais leve para prosseguir, então, girei a chave, dando partida. O motor soava de maneira suave, o que me acalmou um pouco.

Mia foi me auxiliando ao decorrer do caminho. Foi uma surpresa eufórica: eu não senti uma vontade intensa de frear o carro, abrir a porta, me jogar para fora e sair correndo. Era uma baita de uma evolução, fala sério.

Ao chegarmos ao prédio, deixei claro que sou uma péssima manobrista e pedi para que pegasse leve com isso. Mas Mia pediu para que a deixasse manobrar, já que o máximo que poderia acontecer era bater em alguma mureta ou em outro carro (?). Sim, foi o que ela mesma disse. Não concordei, obvio, mas fui expulsa do banco do motorista assim mesmo, para variar. Estava pedindo ou ordenando? Ué.

Fiquei do lado de fora observando-a conduzir no estacionamento. O volante parecia ter sido feito especialmente para ela. Não deu nem trinta segundos, o carro estava certinho na vaga.

Mia saiu e trancou as portas do veículo. Em seguida, fomos ao elevador e subimos até o nosso andar em silêncio. Pude perceber seus olhos baixos pelo espelho da cabine. Cairia no sono em breve.

Eu estava indecisa sobre o que fazer. Entrar no meu apartamento ou no apartamento de Mia?

E se fosse para o dela? Não sabia se estava receptiva a isso. E se sim, o que faria em seguida? Sei que não faríamos nada de... Se é que me entende. E eu estava cansada também.

Bom, ao chegarmos, Mia se adiantou e caminhou até a porta de seu apartamento. Depois se virou ao abrir.

A seguir, o que posso dizer é que vi um vulto. Algo me empurrou, fazendo-me ir contra a parede. Mal pude constatar e Mia me beijava outra vez. Não só beijava, mas realmente me devorava com a boca. Tanto que tive que me separar de seus lábios por um milésimo de segundo para recuperar o fôlego. E já foi tempo demais.

Ela aproveitou esta pausa mínima para nos levar para dentro de seu apartamento. Pude ouvir o baque da porta se fechando, mas não pude saber como a fechou, já que suas mãos continuavam pelo meu corpo.

Mia era imbatível. Empurrou-me outra vez à parede, levantando os meus braços para cima e os pressionando, assim tinha meu pescoço livre para degustar à vontade.

Senti o mundo girar. Era como droga. A cada beijo sentia-me paranoica, maníaca por mais.

Ela me levou dali, e quando abri os olhos, estávamos em seu quarto. Eu perdi o equilíbrio, caindo na cama com Mia por cima.

Tudo se intensificou daí. Era corpo, pele, boca, mãos, boca, e mais pele, e mais mãos. Eu a sentia me tocar em todo lugar. E ela estava dando brechas para tocá-la.

Mas, quando segurei seu rosto para beijá-la outra vez, fitei seus olhos e recordei de um detalhe. Um grande detalhe.

Ela estava bêbada.

— Mia, não. — murmurei, empurrando-a de leve e engolindo um seco.

— O que foi? — perguntou, sem entender.

— Não vou fazer nada com você assim. — afirmei, desviando o olhar.

Eu sabia que me arrependeria de rejeitá-la mais tarde. Jesus, e como me arrependeria. Mas é por um bem maior.

Acima de tudo, também sou mulher. Eu não ficaria feliz em saber que fiz algo que normalmente não faria sóbria e, a outra pessoa sabendo disso, deixou que eu fizesse assim mesmo. Disso tenho certeza absoluta.

— Desculpe. — pediu Mia. Depois pousou sua cabeça na curva do meu pescoço e permaneceu em silêncio.

Comecei a acariciar seus cabelos e prossegui assim por alguns minutos. Quando virei o rosto para fitá-la melhor, vi seus olhos fechados e ouvi o som de sua respiração pesada. Estava dormindo.

Quando dormia não tinha carranca ou seriedade alguma. Vê-la assim acalmava a alma e fazia o meu coração inchar de tanto amor.

Um amor que, agora, eu não tenho medo de demonstrar, dizer e conviver. Se há algo que sei, é que, independentemente do resultado, valerá a pena.

E adormeci com estes pensamentos, junto ao meu anjo de asas quebradas.