Oculta
28 Regresso
Notas iniciais
Ah, quem vai matar alguém sou eu.
Esqueci o quanto a Mia podia ser mal-educada. Ela não se ligou que vim por causa dela? E ainda me trata desse jeito? Olha, se eu soubesse onde era esse tal desfile, faria uma bela surpresinha, só para que deixasse de ser besta.
E, meu Jesus amado, estou morrendo de sono. Quase dormi no banco do táxi. O motorista teve que gritar para avisar que havia chegado ao destino — o qual Mia informou por mensagem, como prometido. Pelo menos isso, né. Quero ver como vai se redimir pelo jeito que me tratou por telefone.
OK, admito que ela tenha razão para agir assim, pois sabe que a minha mãe não aprovará caso descubra, e sei que ela mesma não dedurará, já que, no fim, pode virar a cúmplice da história. Bom, talvez a situação ficasse equilibrada se eu admitisse logo que Mia era a minha namorada... Ao menos acho que amenizaria alguma coisa. Eu acho.
Isso é uma droga. Não importa, eu tenho medo. Tenho medo de que aconteça comigo o que acontece com tantas pessoas por aí ao se assumirem — e olha que estamos no século vinte e um, deveria ser aceitável. Mas tenho medo do preconceito. E sei que é ridículo. Mas é o que sinto.
De onde vou tirar coragem para finalmente dizer?
Ouvi Hotline Bling do rapper Drake tocar pela lanchonete, próxima ao prédio em que Mia disse estar hospedada, e por um momento, mais uma vez, tentei dispersar os meus pensamentos. Havia acabado de comer um grande e delicioso lanche francês com uma bebida que eu não sabia o nome (suco, talvez), também maravilhosa. Foi um pouco difícil de pedir, é claro. O atendente não entendia muito bem o meu inglês, mas utilizei a malandragem de apenas apontar ao cardápio o que eu queria — e não quer dizer que eu soubesse o que estava pedindo. Fui mais pela foto da comida, mas não me decepcionei. Só não sei o quanto foi que paguei por essa refeição, afinal.
Agora, ao retomar minha atenção, recordei que, na verdade, Hotline Bling era o toque do meu celular ao receber ligações. Então sai fuçando na bolsa às pressas.
É, a letra da música resumia bem o que pensei ao fitar "Deusa Delilah" no identificador.
— Onde você está? — questionou, sem ao menos me esperar dizer alguma coisa.
— Numa lanchonete. Por quê? Tô pensando em dizer pra uma das garçonetes que fugi de casa. — murmurei, afastando o celular do rosto para rir. Quem sabe eu não tenha um romance do tipo em versão francesa?
— Não brinque comigo, Bethany. — rosnou Mia. Havia pequenos múrmuros ao fundo da chamada. Mas não era a barulheira de quando liguei mais cedo. Será que já estava no apartamento?
— Você já chegou?
— Sim, mas você não poderá vir ainda. — respondeu com o tom de voz baixo.
— Por quê? Minha mãe tá aí? — deduzi, engolindo em seco. Olhei para o relógio de parede em um canto da lanchonete. Já eram mais de onze horas da noite.
Olhei ao redor. Havia uma boa quantidade de pessoas presentes no local, mas eu não ficaria ali a noite inteira. Eu estava exausta.
— Mia, se eu esperar, vou ficar na rua. Vo me hospedar no mesmo prédio, pode ser? Depois nos falamos...
— Não, espere mais um pouco. — pediu, ainda em tom baixo.
— Não dá, depois e-
— Espera, merda! — esbravejou, me fazendo arregalar os olhos, surpresa. Então, ouvi um barulho alto ao fundo da linha, como um baque.
— Mia? — chamei, franzindo o cenho. Ouvia sua voz distante, mas não compreendi o que falava.
— Wallace irá te buscar. Espere, está bem?
— Tá... — respondi, totalmente confusa. Ela não acabou de dizer que eu não poderia ir para lá?
— Certo. Até breve. — E desligou outra vez.
OK, agora é sério. O que diabos ela tem? Não era para estar tão brava, sinceramente.
Peguei minha bolsa, a mala (de rodinhas, graças a Deus) e fiquei próxima a entrada do estabelecimento, mas ainda ao lado de dentro. Ficar lá fora não seria interessante, já que eu não conhecia as redondezas. Era uma área nobre, mas cautela nunca é demais.
Fixei o olhar à entrada do prédio, de trinta andares ou mais, bem luxuoso — diga-me algo que relacione a minha mãe que não seja luxuoso —. Havia bastante trânsito pelas ruas e várias pessoas passeando pelas calçadas, por tarde que fosse.
Por que Wallace e não ela? Mia não quer mesmo olhar para minha cara tão cedo? Pois, se for o caso, compro uma passagem de volta para Nova Iorque agora, mesmo sabendo que isso custaria muito da mesada que Denise deixa disponível. E sim, minha mesada é alta. Entenda que sou filha de uma pessoa rica. Isso já está obvio.
Ainda observando o movimento pela vidraça da lanchonete, avistei uma figura chamativa saindo do prédio e atravessando a rua ao lado de cá. Vestia um sublime terno branco e parecia apressado. Ah, e desculpe, tenho que admitir: ele era um baita pitel também.
Porém, ao cerrar os olhos, constatei que era ninguém menos que: Wallace! Caramba, não era a primeira vez que eu babava no cara sem querer. Estou me sentindo muito culpada agora.
Mas é só lembrar de Mia nua que sei o quanto posso ser fiel.
No fim das contas, espero que Wallace não aja grosseiro como ela, até porque não tem motivos para isso.
Sai da lanchonete. Logo ele me avistou e começou a andar mais rápido. Vi que sorria de orelha a orelha. Quando próximo o suficiente, abriu os braços para me cumprimentar.
— Beeeeeth! — quase berrou, dando-me um abraço de urso.
— Wall! Que bom te ver, anjo! — falei dando risada, enquanto retribuía o abraço.
— Tô passado, menina! Sabe que Cortês vai te enforcar quando souber, né? — ia dizendo ele, pegando a alça da minha mala de rodinhas, ao passo que começávamos a caminhar. — Delilah tá quase tendo um treco.
— Imagino que sim... — murmurei sem graça. O que será que ela vai me dizer? — Mas, nossa, Wall... Eu não aguentava mais...
Fomos conversando durante o caminho todo, que foi até curto. Basicamente, atravessar a rua e adentrar à recepção do prédio.
Wallace contou um pouco sobre o que fizeram nos últimos dias, lugares que visitou e tudo mais. Com isso, me deu uma vontade insana de explorar aquela cidade magnífica. Poxa, eu estava em Paris, cara! Isso é o máximo! Mal posso esperar para turistar! Só que, se eu fizer isso sem Mia, não vai ter a menor graça. De preferência, antes que a minha mãe me assassine.
Entramos ao elevador. Wallace continuava a falar. Tinha um humor simples. Não é à toa que nos demos bem de primeira. Ainda me impressiono ao lembrar que uma pessoa como ele pode ser tão próxima a Mia.
Aí também lembro que ela me tem próxima e minha personalidade é parecida com a de Wallace. Seria mera coincidência? Acidente?
— Ah, Cortês tá hospedada aqui também. — murmurou Wallace ao chegarmos ao andar.
— QUÊ!? — berrei, tapando a boca em seguida.
— Calma, não neste andar. Mas, bem, alguns andares acima... — acrescentou, rindo sem se importar enquanto saíamos do elevador.
— Mas é péssimo do mesmo jeito, Wall. — murmurei, perplexa.
— Acha mesmo que ela não vai saber que veio pra cá, Beth? — questionou Wallace, dando de ombros. — Cada ação tem sua consequência. Agora vamos, te dou um docinho de morango. Quer?
— Precisa perguntar ainda? — Dei risada ao passo que ele abria a porta do apartamento.
O lugar era imenso. Acho que três vezes maior que o meu apartamento em Nova Iorque.
Havia uma porta de vidro que dava acesso à varanda com uma bela e grandiosa vista, e olha que eu mal estava no início da sala de estar. Porém, meu subconsciente procurava por uma coisa em específico.
Mas nenhum sinal de Mia.
— Cadê ela? — perguntei.
— No quarto, eu acho. — respondeu Wallace, se desmontando do terno. — Fica à vontade, Beth.
Eu assenti, pousando a minha bolsa no extenso sofá e deixando a mala próxima. Wallace entrou em um corredor, e eu o segui, já que não ficaria plantada na sala de estar. Entramos na cozinha e finalmente a encontrei.
Estava em pé, de costas, perto da pia. Tinha o cabelo preso em um coque, usava uma camisa larga, calça de pano leve e estava descalça. Sempre tinha o costume de não usar nada nos pés quando em casa.
Pareceu sentir a nossa presença, então virou-se lentamente, mostrando um copo bem cheio do que aparentava ser suco em uma das mãos. Mas algo me dizia não ser suco. Não se bebe suco numa taça quando se está em casa, não é? Ou isso não era válido em Paris?
Mia apenas nos encarou sem dizer nada. De imediato, pude perceber olheiras profundas abaixo de seus olhos, deixando-me surpresa e preocupada.
— Então... Eu vou dormir. Nem sei como tô de pé até agora. — comentou Wallace, espreguiçando-se. — Boa noite, meninas.
— Boa noite, Wall. E obrigada. — agradeci, sincera. Ele me olhou, assentiu e deu um sorriso, dispersando-se.
Mia continuou a me fitar em silêncio enquanto bebia seu copo. Eu puxei uma cadeira da mesa e sentei, apoiando o queixo em uma das mãos, sem quebrar o contato ocular.
— Olá. — murmurei, sorrindo. Se existe alguém que podia ser bem cínica, esse alguém era eu.
— Está com fome? — perguntou, simplesmente. Eu meneei a cabeça.
— Só sede. — respondi, dando de ombros.
— De quê? — quis saber ela. Eu franzi o cenho.
— Sede de... — Pensei um pouco antes de responder, cerrando os olhos. — Tá brava comigo ainda?
— Não estou brava, Beth. A sua mãe, ao souber que veio, que ficará brava. Só não entendo por que veio. — respondeu fria. Eu levantei da cadeira.
— Eu vim por sua causa. Sabe disso.
— Eu não ficaria aqui para sempre. São só duas semanas. — ponderou, meneando a cabeça. — Você não morreria por causa disso.
— Eu sei... É que, sei lá... — murmurei, sem saber o que dizer.
— Eu não direi nada a ela. Mas como vai voltar depois? Denise às vezes vem para cá por causa d-
— Mia, por favor. Para de pensar no que vai acontecer. Desde quando acha que eu ligo? — cortei, perdendo a paciência. — É só uma droga de viagem. O máximo que ela pode fazer é cortar a minha mesada. Pelo amor de Deus, até o Wall foi mais receptivo. E olha que você é minha namorada. Ou por acaso se esqueceu nos dias em que esteve aqui?
— Pare de dizer besteiras. — respondeu em tom grosso.
— Tá. Agora pode me dar um abraço? — pedi, me sentindo uma criança. Eu só queria a minha Mia de volta. Eu só estava com saudades.
Ela me fitou por um momento. Pousou a taça no balcão ao lado da geladeira e andou até mim. Mal tinha se aproximado e eu já me deliciava com o seu cheiro. Isso me fez sorrir inconscientemente.
Quando fez menção para abrir os braços, circulei seu pescoço, a puxando e dando um abraço bem apertado. Mia não demorou a retribuir, apertando-me ao passo que eu pousava a minha cabeça em seu ombro. É uma sensação mais que maravilhosa. Abracei tão forte que senti os músculos tensos, então afrouxei um pouco, mas, no ato, acabei afastando a minha cabeça, podendo então fitar o seu rosto bem mais de perto.
Aqueles olhos, o nariz, a boca... Pareciam mais atraentes que antes.
Parei uma mão em seu rosto e acariciei. Mia fechou os olhos. Tirei uma mecha de sua testa e me aproximei de seus lábios. Pareciam mais receptivos que nunca.
Mia subiu uma das mãos para o meu ombro, apertando de leve, subindo até o meu pescoço em seguida. Pendeu a cabeça um pouco para o lado, aprofundando o beijo. Neste momento, eu senti um tremor na espinha.
Duas semanas? Aguentei uma e me pareceu meses. Eu não aguentaria nem mais um minuto.
Puxei o laço que prendia o seu cabelo, fazendo as mechas lisas despencarem sobre os ombros. Isso me atiçou demais. Passeei a mão por elas, pressionando a sua cabeça em minha direção, tornando o beijo mais quente. Meu Deus, estava delicioso.
Mia se antecipou, me empurrando contra a parede, encaixando uma das pernas no meio das minhas e pressionando o seu quadril contra o meu. Sua respiração estava alta e eu sabia que a minha também estava, só não percebia muito bem. Separou nossas bocas e começou a sugar o meu pescoço. Eu não contive o suspiro. Também pressionava meus seios e alisava todo o meu corpo.
— Desculpe por ter te deixado brava. — sussurrei, ficando mais e mais excitada com o que Mia fazia.
— Desculpas? — murmurou, beijando minha orelha. Minhas pernas quase falharam.
— Sim... Devia ter avisado. — falei e ela parou de beijar, deixando-me ouvir e arrepiar com sua respiração alta próxima ao ouvido.
— Quero agradecer por ter vindo. — sussurrou. Eu engoli em seco. — Estou louca por você, Beth. Eu posso agradecer? Você deixa? Deixa, Beth?
Eu quase morri ao ouvir isso. Meu senhor, dai-me forças. Essa mulher não existe. Simplesmente não existe.
Sempre que fala assim, derreto igual um sorvete. Como consegue ser tão linda ao dizer essas coisas? Sua voz ficava mansa, até mais jovem. É como uma criança pedindo permissão a um adulto.
Só que eu sabia que não era para fazer nada educativo.
— Faça o que quiser comigo, amor. Eu sou sua. — afirmei, fazendo-a me fitar. Ela sorriu e havia um brilho em seu olhar. Eu penso que é impossível Mia se tornar mais linda do que já é, mas a cada dia me surpreende mostrando que não há limites para sua beleza. Era a coisa que eu mais amava nela.
Eu sou apaixonada por isso tudo.
— Eu quero testar uma coisa. — murmurou, me analisando. Eu estava sentindo seu jeito oculto dar o parecer. E não sabe quão isso me deixava animada, vulgo ardendo de desejo. — Nós conversamos sobre isso?
— Isso o quê, Delilah? — questionei, não entendendo. Ela se aproximou mais ao meu rosto, sem desviar o olhar.
— Sexo. — murmurou, alisando um dos meus braços. Eu engoli em seco.
— Que eu me lembre sim... — respondi, mas uma parte de mim não tinha tanta certeza.
— Não sobre quando fazer, mas sim como fazer. — Em seguida, Mia passou uma mão por baixo da minha camisa, alisando a barriga levemente. Eu deixei um suspiro escapar. — Está na hora de falar sobre isso, não acha?
— Eu não sei, Mia... — respondi, com um receio estranho.
— O que você gosta que façam em você? É a hora para ser sincera, Bethany. — comentou. Seu tom estava um pouco calculista demais, mas acompanhado de um desejo explícito. O que Mia planejava?
— Eu... Eu não sei, Delilah... — murmurei. Eu realmente não sabia ou essa situação me deu um branco.
— Então farei alguns testes. — Ao dizer isso, me levantou bruscamente, recostando-me na parede com minhas pernas em torno de sua cintura. Eu a olhei pasma.
Então começou a beijar a minha clavícula, mordiscando a pele, depois passando ao meio dos meus seios ainda cobertos pela camisa. Eu senti como se fosse morrer. Agarrei seus cabelos da nuca enquanto deslizava a boca pelo meu corpo.
Meu Jesus, como senti falta deste toque.
— Você gosta disso, Beth? — perguntou e sugou o meu pescoço com força. Eu suspirei alto.
— Gos... to... — respondi com a respiração atrapalhando a minha pronúncia.
— E disso? — Agora, ela mordeu um de meus ombros com força, fazendo-me quase pular por conta da ardência. Mas admito que gostei.
Mas só Mia vai explorar nessa história?
À vista disso, desci de seu colo e a empurrei, deitando-a sobre a mesa da cozinha. Antes de prosseguir, a fitei por um momento. Tinha um semblante surpreso, a respiração bem audível, os lábios entreabertos. Seus punhos estavam prensados pelas minhas mãos... Ela parecia tão vulnerável. E tão... sexy.
Eu a beijei com força, sugando os lábios e passeando as mãos por suas coxas, puxando-as para cima e encaixando nossos quadris outra vez. Mas ouvi um rangido e, logo em seguida, estávamos no chão.
A mesa havia se partido ao meio.
Eu comecei a gargalhar muito alto, sério. O prédio inteiro deve ter conseguido me ouvir. Puta merda, não creio!
— Minha... cabeça... — murmurou Mia. Eu voltei a fitá-la ainda gargalhando, mas um pouco preocupada.
— Ma... machucou? — Tomei vergonha na cara e cessei a risada. — Sério, machucou mesmo, Delilah?
Ela não me respondeu, mas seu rosto já exalava o que sentia. Levantei desajeitada, depois a puxei em seguida, fazendo-a sentar numa das cadeiras.
Olhei para o que sobrou da mesa. Na boa, aquilo era feito de quê? Papelão? Puta que pariu, viu. Era só o que me faltava.
— Deixa eu ver. — murmurei, voltando minha atenção à parte detrás de sua cabeça. Não havia nada, só alguns fiapos de madeira — é, a porra da mesa não era feita de papelão — que tirei dando uma leve passada de mão nos fios castanhos. Para saber onde realmente doía, pressionei um ponto próximo a sua nuca com o polegar. — Doí?
— Aí não... É um pouco mais acima... — respondeu Mia, com a voz baixa. OK, estou me sentindo culpada agora. Que merda, cara.
— Eu devo ter um doutorzinho na mala. Vem. — murmurei, arrastando-a para a sala de estar. Enquanto eu fuçava nas minhas coisas, ela se sentou no sofá. Felizmente, achei o gel de massagem com facilidade — um milagre nessas horas. O problema é que o cabelo de Mia vai ficar todo melado, mas eu o lavaria depois (se ela deixar).
Quando voltei a fitá-la, vi que me olhava silenciosa, porém serena.
Droga, eu estava sentindo dó. Tentei... fazer algo legal e acabou nisso. Sou uma verdadeira tapada.
— Desculpa, Mia. — pedi, dando-lhe um selinho. — Foi sem-
Cortando a minha fala, ela puxou o meu rosto. Então, a vi sorrindo. E não era um sorriso qualquer.
Acho que foi o primeiro sorriso descarado que vi em seu rosto.
— Você é meio desesperada. Estou bem... um pouco dolorida, mas nada demais. — confessou, dando de ombros. — Ótima hora para que a mesa quebrasse, não?
— Hora ideal. — respondi e voltei a rir. Mia também começou a rir, e eu sorria abobalhada vendo-a daquele jeito.
— E quem pagará pelo estrago? — questionou Mia, desconfiada.
— Não olha pra mim! Eu não trabalho!
— É essa sua desculpa agora? Como veio para cá, então? Fez um “mochilão”? Ou veio por vias sobrenaturais?
— Você tá tirando sarro demais pro meu gosto, Delilah! — olhei feio a ela. — Tudo bem, eu pago...
— Estou brincando, flor. — acalmou Mia, dando-me outro beijo. — Mas quero continuar. — Ela levantou o meu queixo com o dedo indicador. — Se não for problema a ti.
O quê? Problema? Definitivamente nenhum problema. Problema nenhum!
— Pra quem acha que tá perguntando essas coisas? — questionei, me aproximando, sentando no seu colo e passando os braços pelo seu pescoço. Ela cruzou as pernas, acomodando-me melhor.
— Eu gosto de ser cordial. — murmurou enquanto massageava minhas costas. — A menos que não goste.
— Está considerando muito opiniões alheias nas suas ações, Delilah. — apontei, mas adorava quando me questionava, independentemente do que fosse.
— Só quando se trata de você. Isso é ruim? — questionou, dando-me um beijo demorado no canto da boca.
— Não... Eu até gosto...
— Sei de algo que gosta também.
Dito isso, Mia me puxou com tudo, fazendo-me deitar no sofá enquanto ficava por cima. Logo tirou a minha camisa e começou a desabotoar o meu jeans. Tenho que mencionar quão acho sexy quando é bruta desse jeito? Não, sinceramente. É obvio.
— Tá com pressa? — murmurei, vendo-a se desfazer da própria camisa também.
— Cale a boca. — verbalizou, após me beijando com força.
Ela me levantou outra vez, agora para desabotoar o meu sutiã. Eu me sentia uma boneca de pano sendo conduzida desse jeito, por isso a puxei para baixo de mim, já partindo para cima.
Aproximei-me da lateral de sua cabeça e mordi o lóbulo da orelha com força, a ouvindo suspirar de prazer. Mas se tornou um pequeno grunhido de dor, pois não larguei fácil. Em sequência, ela começou a me arranhar, realmente machucando a minha pele, então parei, mas passando a mordiscar seu pescoço.
Era bom, só sei dizer isso. Eu a machucava, e mesmo assim, Mia parecia continuar a me desejar mais e mais. Prensava o quadril contra o meu, apertava mais, esfregava. Gostosa demais.
Com pressa, puxei sua calça para baixo e comecei a masturbá-la, mesmo que ainda vestisse a peça intima. Mia pousou suas mãos sobre a minha e me deliciei ao vê-la se contorcer.
— Você me quer? — sussurrei rouca ao passo que ouvia sua respiração mais irregular com os meus toques.
— Quero. Quero... Quero. — repetiu de olhos fechados, como uma reza.
Minha mente pareceu adormecer ao vê-la assim. Só percebi minhas mãos puxando sua calcinha para baixo com rapidez, logo só estava de sutiã, mas me desfiz deste com igual velocidade, aproveitando para beijar e sugar os mamilos expostos. Ela me arranhava com muita força. As mãos eram como ferro quente alisando a pele.
Mas despertei ao ouvir uma batida vinda da porta.
De súbito, paralisei. Mia pareceu não ouvir, pois continuava a me beijar. Até trocou as posições, fazendo-me ficar por baixo dela, e tornou a rebolar em cima da minha intimidade. Isso me queimou de excitação. Agarrava meus ombros e alisava os meus seios nesse processo.
— Mia? Mia, abre a porta! — Uma voz abafada surgiu e eu a reconhecia muito bem.
— Denise. — sussurrei, petrificada. Mia continuava de olhos fechados, ignorando qualquer chamado que fosse, e muito menos parando o que fazia.
— Não me faça parar, por favor. — pediu. Sua voz saiu tão manhosa, tão quente, tão sedenta. Ai, meu Deus! Eu também não quero parar.
Para piorar, o celular, pousado na mesinha de centro da sala, começou a vibrar. Virei a cabeça e pude ler "SRA. CORTÊS" na tela. Caralho! O que diabos ela quer?
— Mia, tem que atender o celular. — murmurei, mas começou a sugar os meus mamilos. Eu vou me perder desse jeito. — Mia...
— Calma... — sussurrou, dando-me um beijo sufocado com a respiração descontrolada. Ainda com o rosto próximo ao meu, entreabriu as minhas pernas e começou, devagar, a me penetrar com os dedos. Eu revirei os olhos e tentei manter o raciocínio, porém, gemi alto, sem me dar conta que minha mãe pousava há metros de distância.
Mia pousou o rosto na curva do meu pescoço e permaneceu ali, só me dando prazer. Eu que deveria estar fazendo isso, mas o vai e vem não me permitia oposição a nada, a não ser gemer. Isso não duraria muito tempo, eu sei. Eu já estava querendo gozar.
— Mia, para... — pedi. Não quero que acabe rápido. Deixa eu fazer o mesmo em você, Mia. Por favor.
— Por que parar? Por que parar se está tão bom, Bethany? — sussurrou ao meu ouvido e aumentou a presteza das estocadas. Eu me contorci e a abracei, apertando-a contra mim. Ai, meu Jesus. Como era bom.
Senti vir. Minha respiração estava cada vez mais irregular. Mia pareceu perceber, então aumentou as estocadas ainda mais. Parecia tocar todas as partes internas do meu corpo. Meu novo idioma consistia em aspirar, suspirar e gemer.
E então veio. Eu nem compreendia mais o que havia em minha volta. Via algo piscar da mesinha — o celular de Mia —, mas nada mais. Minha boca estava mais ressecada que nunca e os olhos cerrados fitavam o nada. O nada que tinha tudo. O nada que me dizia ser o suficiente.
Nunca pensei que o nada pudesse ser tão bom.
Mia diminuiu os movimentos ao perceber meu desgaste, passando a só acariciar o meu clitóris, como um carinho qualquer. Como quem se acaricia uma mão, um rosto. Não era nojento e nem obsceno — se deixássemos de lado o fato de que era onde tudo acontecia.
Ela sabia que aquilo era uma parte minha. Por estranho ou diferente que fosse. E eu esperava que amasse essa e todas as outras partes do meu corpo porque é assim que me sinto em relação ao corpo dela.
Porém, não adianta ter apenas o seu corpo. Eu não tenho acesso a sua alma. Não por completo.
Por enquanto.
Passado um momento, ela parou as carícias e me abraçou ternamente. Eu a abracei de volta um pouco trêmula e exausta. Finalmente, sua mão foi parar em cima da mesinha para pegar o celular, após o trazendo o ouvido.
— Denise? Desculpe. Eu estava dormindo. — murmurou ao aparelho. Fiquei acariciando seu cabelo enquanto mentia para a patroa. — Não, também não ouvi. Você quer subir?... Tem certeza?... Não, tudo bem. Onde está Ricch?... Entendi. Tudo bem, suba.
Em seguida, Mia desligou o celular e eu a fitei, aflita. Minha mãe viria para cá, e eu? Como fico?
Ao pousar o celular de volta na mesinha, me fitou serena, dando-me um beijo tranquilo e profundo. Ela estava mais linda que nunca.
— Ela quer conversar. — explicou para mim e suspirou. — Não é sobre o trabalho.
— Vocês conversam assim com frequência? — perguntei, curiosa.
— Não. É raro, inclusive. — Mia se levantou e, do modo mais prático possível, me pegou no colo como se eu fosse papel, começando a caminhar. Logo entramos num corredor e ela abriu uma porta à esquerda, revelando um quarto. Não havia nada demais por ali, apenas malas postas do lado de um armário, uma cama desarrumada. Mia me depositou ali e me cobriu com um cobertor.
— Creio que esteja cansada por conta do fuso horário, então, descanse, está bem? Eu volto. Mas estou aqui ao lado, de qualquer forma. — tranquilizou, dando-me um meio sorriso. Eu sorri de volta.
— Sabe que você tá nua, né?
— Eu não me esqueceria de algo assim. — disse, dando-me um beijo na testa em seguida.
Admito que era até meio cômico e engraçado, mas muito bom, poder ter uma ampla visão de seu corpo enquanto se retirava e fechava a porta do quarto. E então, eu me via sozinha novamente.
Outra vez, sozinha.
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