Oculta

29 Estranho


Notas iniciais
Rey, gáis! Geeeeente! Tive um bloqueio criativo tão f####o pra escrever este capítulo. Serião. Bateu desespero. Não saía nada. NADA! Sorte que, em determinado momento, ouvindo o canto dos anjos - também conhecido como "Dangerous Woman" da Ariana Grande, cof cof -, consegui finalmente digitar. Ainda tive muitas ideias para os próximos, então: Amém, Arienes! Ah, aliás, viram a nova capa? Sim, troquei de novo. E não, não fico satisfazida com só uma capa mesmo. ;-; Também modifiquei a sinopse um pouquinho. E gostaria de agradecer a quem comentou no capítulo anterior, tá? Fiquei muito feliz que, mesmo após tanto tempo sem postar, houve pessoas que leram e comentaram de boas. Tá vendo? Não tem como abandonar com leitores tão fofos. :3 E aos leitores fantasmas: que tal saírem das sombras, hein? Quero conhecer os seres que caminham por entre estas páginas. Juro que não mordo - só se deixarem. DETALHE: mordo forte, então, não recomendo. Enfim, sem mais delongas: boa leitura!

— Por que demora tanto pra atender a porta, Delilah? — bufou Denise, adentrando o apartamento. Usava uma roupa tão informal que pisquei duas vezes para constatar que era a mesma de verdade.

Era muito estranha sem maquiagem também. Seu rosto ficava pequeno, a pele mais corada, até algumas sardas se faziam presentes. Eu definitivamente via Bethany como se tivesse avançado alguns anos à frente. E se ressalvar o que acabei de fazer há minutos... Esta aparência incomodou uma parte de meu estômago.

Seria culpa?

— Eu estava no banheiro. Wallace está dormindo. — menti.

Tive que me vestir e levar todas as coisas de Bethany ao quarto, além de apagar os possíveis vestígios de sua presença para evitar complicações; como, por exemplo, a mesa da cozinha. Varri e deixei os restos maiores em um canto. Não sei o que direi a Wallace de manhã, mas já ouço as piadas que não perderá a oportunidade de proferir.

Quando voltei ao quarto para conferir se Bethany estava bem ou se precisava de algo, vi que dormia profundamente, mas naquela famosa "posição fetal", o que me incomodou de certa maneira. Visto isso, relaxei sua tensa posição e ajustei as cobertas. Gostaria muito de estar enrolada a ela neste exato momento, mas tenho que dar atenção à sogra que não sabe que é minha sogra.

Cortês sentou-se meio desconfortável no sofá. Sim, exatamente naquele lugar — aquele que fiz impropérios com Bethany. A filha dela.

Sim, não há dúvidas: Culpa. Sinto muita culpa neste instante.

— O que houve, senhora Cortês? Por que neste horário? — tornei a perguntar, já que ela não aparentava mostrar interesse em iniciar o assunto por si só.

— Os meninos estão dormindo, então quis aproveitar a deixa. Sente-se aqui, sim? — pediu Denise, indicando o sofá. Eu engoli em seco, sentindo um frio repentino, mas fiz como pedido. Ao menos, havia a lareira elétrica, abaixo da televisão de plasma colada à parede, que esquentava o recinto um pouco.

— Do que se trata? — questionei, mexendo os dedos dos pés entre os pelos do felpudo tapete branco próximo ao sofá. Admito estar ansiosa para saber o que queria.

— Você gosta de ir logo ao ponto, não é, Mia? — sorriu, meneando a cabeça. — Eis o que gosto de ver em você. Será útil lá na frente.

— Lá na frente? — Franzi o cenho. — Aonde quer chegar, senhora Cortês?

— Isso não é só sobre negócios, Delilah. Me chame de Denise, por favor.

— Não mesmo?

— Não a princípio. Mas é relacionado... — murmurou, coçando a cabeça. — Inclui Bethany.

— O que tem Bethany? — engoli em seco novamente. Pelo jeito que falava, com certeza não sabia sobre a filha ter vindo. Mas seu tom ainda me era estranho demais.

— Thany é uma boa menina, sabe. Bem, você sabe, é claro. Deve conhecê-la mais do que eu. — Novamente, igual à primeira vez que conversamos desta maneira, Denise não me fitou nos olhos. Fixou o olhar em um ponto aleatório e ali permaneceu. O resto parecia petrificado. Só a boca se mexia. — Não sei o que sabe sobre nós e nosso relacionamento, mas sinto que sabe o bastante. Porém, é claro, na adolescência dela até agora, eu não fui presente em nada. É como se eu não a conhecesse, entende? Isso é estressante. Às vezes não sei como lidar.

— Bethany não é tão difícil de lidar. — murmurei, tentando encaixar as palavras. Que experiência eu tinha disso, afinal? Eu era só mais uma criança para Denise, praticamente. No que poderia ajudar? — Talvez muito teimosa às vezes, imprudente... E esses dois fatores acarretaram em... eu estar aqui. Nunca teria ido à loja sem tê-la conhecido.

— Ela realmente não relacionou os nomes com a minha profissão? Thany quando quer ser lerda... — meneou a cabeça, indignada. Eu sorri.

— Não é sempre que alguém descobre que a própria mãe é dona de uma empresa com tantas lojas espalhadas pelo país. — comentei. Denise deu uma risada curta, sentando-se mais à vontade no sofá. — Mas posso assegurar que ela mudou para melhor, Denise. Comparado à garota que conheci e que conheço hoje, há uma diferença enorme. Ela soube se valorizar e valorizar o que tem próximo de si.

— E teve que sumir por meses para aprender essas coisas. Fico triste ao pensar nisso. — murmurou e deu uma pausa. As faíscas que saiam das labaredas da lareira me eram uma boa distração até Denise prosseguir o que dizia. — E se não tivesse aparecido pra mim? Quando eu voltaria a vê-la, Delilah?

— Denise, o que lhe incomoda? Aonde quer chegar com tudo isso? — repeti a pergunta anterior. Sei que há uma finalidade por trás deste assunto.

— Não quero perder ela de novo. Mas não dá pra pensar como mãe e CEO ao mesmo tempo. — Ela suspirou. — Eu tenho vários profissionais, Mia. Mas quero te passar uma responsabilidade muito grande no momento.

— Eu me sentiria confortável se você não fizesse pausas. — murmurei. Odeio enrolação.

— Eu vou abrir uma sede da Cortês em Paris e precisarei de alguém para assumir as rédeas em Nova Iorque enquanto eu estiver por aqui. Minha escolha principal é você. — esclareceu, simplesmente. Eu arregalei os olhos, sem me importar em parecer pasma.

— Eu? — quis confirmar. Ela assentiu. — Denise, não me leve a mal, mas... isso é loucura. — Não consegui pensar em outra coisa.

— A minha ideia principal, na verdade, era preparar Bethany para isso em vez de outra pessoa. Mas não acho que ela estará pronta a tempo. Já em você, posso confiar.

— E o que Bethany pensará sobre isso? Você irá trazê-la? — questionei, ainda incrédula. Mas com medo. Muito medo.

— Não, ela tem que terminar a faculdade. — Denise se levantou, dando alguns passos em direção à sacada e permaneceu de costas para mim. — Então a responsabilidade de treiná-la também será sua.

— Denise, Bethany é minha... — engoli em seco. Não posso dizer. Não posso dizer sem a permissão de Bethany. — É uma... pessoa próxima a mim. Não acho que sou apta a isso. Seria problemático. E muito menos apta a assumir esse cargo.

— Eu sou sua chefe. Te acho apta em ambos os casos. Ninguém nasce sabendo, Mia. Você é capaz. — Ela se virou outra vez em minha direção, com um olhar que dizia: "Não tente mudar o que penso. Já me certifiquei disso." Quando era assim, eu sabia que restavam apenas duas opções: dizer sim ou não.

— Pode me dar um tempo para pensar? — pedi, desconfortável. Ela deu de ombros.

— Tem bastante tempo. Uma nova sede não fica pronta de um dia pro outro. — Foi apenas o que disse. Em seguida, caminhou para perto de mim e agachou em frente, fitando-me nos olhos. Era ainda estranho demais vê-la tão informal. — Você não é uma criança, Mia. Na sua idade, eu fazia muito mais do que aqueles que se dizem experientes e talentosos. Uma hora, uma pessoa apostou em mim e me fez ter tudo que tenho hoje. Consegue imaginar quem foi essa pessoa? — Eu meneei a cabeça em resposta. — Essa pessoa era eu. Eu apostei em mim mesma. Acredite no seu potencial, acredite em si mesma, se dê uma chance. Não espere que outros te convençam a isso.

Eu prossegui a fitando por um longo momento.

Não posso deixar de admitir: a mãe de Bethany é uma mulher incrível. Não sei muito sobre a sua história, mas, para quem diz tais coisas, não aparenta ser um conto de fadas.

Ela se levantou e relaxou o corpo por alguns segundos, parecendo estar satisfeita. Depois, caminhou em direção à porta.

— Compreende, Delilah? — questionou, girando a maçaneta.

— Obrigada, Denise. — Foi o que consegui dizer.

— Por nada, querida. — disse e sorriu. Depois, abriu a porta e se retirou.

Houve um silêncio tão profundo que me permiti relaxar por um momento. Meus músculos estavam tensos e algo martelava com força na minha mente. Doía.

Levantei também, mas lentamente, caminhando até a porta e a trancando com a chave. Em seguida, desliguei as luzes da sala e tomei rumo ao meu quarto.

Até esqueci que Bethany estava ali, bem esparramada na cama. Sentia-me cansada. Que horas eram? Devia ser bem tarde.

Porém, fiquei ali, na porta do quarto, em pé e de braços cruzados. Parecia uma assombração. Mas não a assombraria ou o que fosse. Amava demais para desejar algo ruim a ela.

Em dado momento, se remexeu debaixo do cobertor. Suspirou alto, depois levantou a cabeça do travesseiro, um pouco desorientada. Os olhos correram devagar pelo cômodo.

Ao me constatar, ela arregalou os olhos. Mas deu uma risada logo após.

— Que susto, meu Deus. — murmurou, cobrindo o rosto com o cobertor.

Eu descruzei os braços e me aproximei da cama, sentando-me na beirada, meio de lado e de costas para ela, mas sem fitá-la. Poucos segundos depois, a senti me abraçar por trás. Seu corpo nu estava bem quente, e mesmo que eu estivesse vestida, era como se nada me cobrisse ao tê-la assim.

— Posso pedir uma coisa? — sussurrou ao meu ouvido. Prossegui calada, mas assenti com a cabeça. — Estaria cansada pra uma segunda rodada?

Eu continuei calada. Mas havia um sorriso de orelha a orelha em meu rosto quando virei de súbito e a beijei outra vez, me enrolando novamente em seu cheiro e sua pele.

XXX

— Cadê a mesa? — questionou Wallace. Vestia uma regata preta e samba canção quando adentrou a cozinha. Eu gargalhava alto na hora, mas não por causa do seu questionamento.

Mia comentava sobre as peças que vestia por causa do trabalho e em como se sentia em cada uma delas. Acredite, ela era engraçada mesmo não querendo ser.

— Neste canto aí. As cadeiras continuam intactas. — respondeu Mia, simplesmente. Tomava seu costumeiro café, porém, este não fez, pois o serviço do hotel trouxe. E nada mal, aliás. Também trouxeram outros comes e bebes deliciosos. Íamos comer na varanda, mas sugeri à Mia que ficássemos na cozinha porque senão daria trabalho para arrumar mais tarde.

Se bem havia o serviço de quarto, né? Eu realmente me desacostumei com essas coisas.

Mas Mia não pensou duas vezes em concordar comigo, o que enfatiza seu jeito prático e simples de agir inalterado, ainda que conviva com alguns luxos.

Wallace fitou Mia com um enorme ponto de interrogação estampado na testa, mas depois deu uma curta risada. Logo após, se aproximou do balcão, onde estávamos sentadas em adoráveis banquinhos altos.

— Nossa, Mia. Que animação, hein. — Wallace olhou de maneira maliciosa para ela. Mia revirou os olhos e desceu do banquinho, indo em direção a pia, depositando sua xícara lá e pegando a esponja para lavar. Sempre lavava na mesma hora o que sujava.

Aliás, ela não comeu muita coisa. Só um pedaço de bolo de cenoura. E bem pequeno, por sinal.

— Estou a mesma de sempre, Wall. — murmurou de costas para nós.

— Mesmo, Delilah? — tornei a perguntar, com Wallace dando-me um sorriso cúmplice. Ele estava com aquela cara de bolacha de quando se acorda, mas continuava lindo de morrer. Pude visualizar melhor a tatuagem em seu braço agora. Era muito bonita.

— Você também não, Bethany. — resmungou Mia, fazendo ambos de nós gargalharmos.

— Delilah, lembra da entrevista, né? Trate de se arrumar. O Ricch não vai ser mais sua babá por enquanto. — comentou Wallace, deixando-me intrigada, e começando a atacar a enorme bandeja de comida posta em cima do balcão.

— Estou chocada. — murmurou ela do modo mais antipático possível. Eu a fitava ainda de costas e sorria como uma boba. Parecendo sentir o meu olhar, ela virou e deu um meio sorriso a mim.

Ah, garota... Não me mata assim, não.

— O que direi nessa entrevista, afinal?

— Desculpa me intrometer, mas... — pigarrei, incerta se deveria questionar ou não. Mia franziu o cenho ao me fitar. — Entrevista de quê?

— Menina, esquenta a cabeça, não. Pergunte à vontade. — comentou Wallace, sorrindo amigavelmente. Eu sorri tímida, mas não ignorei certo olhar que Mia me dirigiu. Foi como um... “Por que tá sorrindo pra ele?”. — É pra uma revista famosa aqui do país. Mia aceitou responder umas perguntas de muito bom grado, sabia?

— Não estou fazendo isso por mim, sabe bem. — disse ela, sentando-se de volta no banquinho. — Que horas devo ir?

— Na verdade, não deve. Que horas são? — questionou Wallace, me fitando. Eu franzi o rosto, não entendendo o que ele quis dizer. Mas enfiei a mão no bolso da calça de moletom e peguei o meu celular.

— Não devo? — Mia levantou uma sobrancelha.

— Eles estarão aqui às uma hora.

— É meio dia e quarenta e cinco. — murmurei, desatenta. Depois chequei o horário novamente, voltando a olhar para os dois. Wallace fitou Mia com incredulidade.

— Ah, diabos. Fique quieto. — vociferou Mia, levantando-se de maneira brusca e saindo do recinto.

— Ela tem sido meio agressiva ultimamente... — murmurei.

— Naquelas horas também? — questionou Wallace, obviamente malicioso.

— Gosta de deixar as pessoas sem graça, não é, Wall? — comentei, rindo.

— Eu sou assim mesmo. Desculpa! — Abanou as mãos no ar, mas não parecia nem um pouco arrependido, com certeza. — Mas é verdade. Estresse, provavelmente.

— Mia? Estressada? — cogitei, pensando alto. — Bem... faz sentido...

— Você sabe bem do que ela precisa... — murmurou. Sua cara semelhava uma plaquinha vermelha com “mais-dezoito” escrito no meio. — Conversar. Eu converso, mas é raro que se abra pra mim, sabe? E sei que é diferente com você, Beth.

— Não sei como abordar os assuntos com ela às vezes... — murmurei, me sentindo vulnerável.

— Ah, seja direta, mana. Mostra que tá preocupada e essas coisa clichê. — disse ele, tomando um gole de suco de laranja. — E se achar alguma tática pra ela se abrir mais fácil, me passa, tá? Menina do céu, não sabe o trabalho que essa guria dá... — acrescentou, exasperado. Eu dei risada. Mia realmente pode ser difícil de lidar algumas vezes.

— Você nem faz ideia, Wall... — murmurei, respirando fundo. Levantei-me do banquinho em seguida. — Bem, vou lá dar uma ajudinha. Você se vira aí?

— Meu amor, me viro, deito, deslizo... Eu sou uma deusa. — declarou Wallace, como se fosse obvio, depois me mandou um beijinho. Gargalhei alto demais com isso. Wallace era uma relíquia.

Em seguida, caminhei até a sala de estar e após, até o quarto de Mia. A porta estava escancarada. Só me aproximei e sem avisar, entrei.

Parecia que alguém havia virado o lugar do avesso. Uma bagunça de deixar qualquer um de cabelo em pé. Andei devagar pelo recinto, mesmo já tendo estado ali há algumas horas. Não fazendo nada decente, inclusive.

Sim, mesmo com sono, repetimos a dose do que fizemos na sala. É que eu não tinha aproveitado muito lá, sabe? Só ela me aproveitou. E sou uma idealista. Direitos iguais, ué.

Mia devia estar no banheiro, pois não a vi em nenhum lugar do quarto. Parecia ter atirado todas as roupas que trouxe, nas paredes, no chão, na cama, até em cima da lamparina charmosíssima — de noite, jazia uma iluminação tão suave que dava até mais sono — que ficava no cantinho do recinto. Estou pensando seriamente em roubá-la e levar para casa. “Olhe, tenho uma lamparina francesa”.

OK, admito estar sendo muito idiota com essa obsessão pela França e tudo mais.

Sentei na cama, tentando ficar o mais confortável possível perante aquela visão perturbadora. Até que ouvi um rangido vindo da porta do banheiro, virei e a vi se abrir. E tive que piscar os olhos algumas vezes por que lembrei de certa conversa por telefone.

Mia nem estava tão arrumada como já a vi algumas vezes estar. Vestia um terninho cinza meio prateado. A barra da calça estava dobrada e ficava um pouco acima do tornozelo, destacando os saltos pretos de camurça. O casaco estava aberto, mostrando uma camisa social preta que ela ainda abotoava. Sua clavícula estava bem exposta e admito ter babado. O cabelo estava solto e bagunçado.

Não percebeu a minha presença, pois ainda estava concentrada abotoando a camisa. Um semblante sério que me fez suspirar, sinceramente.

— Bethany! — quase gritou, colocando uma mão no peito. Nunca vi uma feição tão surpresa em seu rosto. Tão espontânea. Meu Deus, que coisa mais linda! — Que susto...

Eu só gargalhei, depois fiquei a admirando. Mia não se moveu. Porém, sua postura passava um pouco de... vulnerabilidade. Isso era bem estranho.

Na verdade, quando olho para Mia, vejo uma onça. Serena, mas sempre pronta para atacar. A excelência de sua postura exala um pouco de desdém, e essa palavra — excelência — resumia tudo. Entretanto, se não a conhecesse tão bem, até concordaria sem pestanejar sobre a parte do desdém também. Mas Mia não se acha melhor que ninguém. Seu jeito era assim porque... era a Mia, oras.

— Não fique me olhando desse jeito. — murmurou sem me fitar nos olhos.

— Desse jeito como? — Não entendi, levantando-me da cama.

— É que o que vê não parece ser eu. — respondeu e voltou a me fitar.

O que é isso? Que olhar é esse?

As sobrancelhas um pouco franzidas, mas não de aborrecimento ou coisa do gênero. O canto da boca curvado. E o olhar... Não é o olhar de Mia Delilah.

Era um olhar triste. Não que fosse a pessoa mais alegre do mundo, mas nunca contemplei esse tipo de olhar vindo dela. Não era normal. Não mesmo.

O que está acontecendo com você, querida?

— É você sim. — rebati, me aproximando. — A mulher mais inteligente que conheço. A mais linda que conheço. A mais incrível que conheço. Como não pode ser você? — Ela não respondeu, só desviou o olhar de novo. Fiquei próxima o suficiente para tocar seu rosto e virá-lo para poder me fitar. Nunca pensei que teria de fazer isso em Mia. Normalmente era o contrário. — O que Denise te disse ontem, Mia? — perguntei, intrigada. Poderia ser só isso? Wallace havia dito que esse comportamento não é recente.

Mia abriu a boca para responder, mas ouvimos alguns múrmuros e risadas. Eram pronúncias francesas e não entendi bulhufas. Não pareciam vir do corredor, então, provavelmente vinham da sala de estar.

— Chegaram. — Foi a única coisa que disse, olhando-me um pouco aflita. Eu dei de ombros.

— Calma. — murmurei, indo até a minha bolsa jogada próxima à cama. Fucei dentro até achar o meu pente para cabelo. Em seguida, voltei à Mia.

Comecei a pentear o seu cabelo, sem pressa, mas evitei demorar em excesso. Mia tinha fios fáceis de pentear; desembaraçavam rápido. Eu lhe fiz um rabo de cavalo simples com um elástico que tinha enrolado no punho (sempre deixava um ali quando possível).

Parei para analisá-la por alguns segundos. Estava bem mais elegante agora — madura também. Porém, admito que seu cabelo solto seja tentador... Percebi também que não usava maquiagem, o que era perturbador, pois continuava linda demais. Ave Maria.

— Pronto. Acho que pode ir agora. — falei, dando um sorriso de leve. Mia se aproximou e me deu um beijo muito carinhoso. Depois, um abraço morno e aconchegante. Céus, ela era um doce.

— Conversamos depois, está bem? — sussurrou, desvencilhando-se e me fitando nos olhos. Eu assenti com a cabeça, dando-lhe mais um beijo. E, sem dizer mais nada, foi em direção à porta e a fechou após sair.

Acho que devo me acostumar a permanecer sozinha nesse lugar.

Notas finais
O que será que tá acontecendo com a Miazinha, gente? Tô preocupada, de verdade (sério, eu mesma escrevo e fico com receio das personagens. Quê). Até o próximo!