Oculta
4 Reconhecendo
— As pessoas de lá são legais. — comentei. Ainda bem que era sexta-feira. Minhas pernas estavam me matando.
Mia não me respondeu e estou me acostumando com isso. Só assentiu. Nem fez questão de me fitar. O olhar estava fixo ao horizonte enquanto caminhávamos de volta ao seu apartamento.
— Você quer que eu faça alguma coisa quando chegarmos? — perguntei meio sem graça. Esperava que não me pedisse para cozinhar. Seria uma catástrofe. Mas daria o meu melhor. Eu acho. Quer dizer, tá. Nunca fiz tarefas em casa. E não é algo que eu me orgulhe.
— Apenas dê comida à Kiara. — disse, mas me fitou com dúvida no olhar. Poxa, eu não ia esquecer a única coisa que solicitou até agora. — Tenho expediente hoje.
— OK... Ahm... Você vai sair no mesmo horário de ontem? — questionei receosa. Eu suava frio a cada pergunta que proferia. Ela me analisou e não respondeu, para variar.
Sério, era um absurdo. Nunca conheci alguém tão inexpressível.
— Não é meu horário fixo. — ressaltou. Paramos na calçada para esperar um carro virar à esquina, depois prosseguimos para atravessar a rua. — Tive que cobrir o posto de uma pessoa ontem. Não sei ao certo se terei que cobrir novamente.
Ao ouvir isso, tive uma ideia sensacional.
— A lanchonete precisa de funcionários? — perguntei. Parece que vi a luz no fim do túnel. — Você poderia me indicar?
— Já trabalhou em algum lugar? — questionou, parando de caminhar, mas, desta vez, sem motivo, mesmo que estivéssemos já em frente ao prédio que morava, do outro lado da rua.
Eu dei um sorriso amarelo, sem saber realmente o que dizer.
— Na verdade, eu nunca trabalhei. — admiti, engolindo um seco.
— Verei com o dono. — decretou, voltando a caminhar em seguida. Atravessamos a rua e Mia buscou algo no bolso da calça. Era uma chave. E então, sem mais nem menos, esticou a mão e me ofereceu o item.
OK, acho que temos um problema aqui.
— Você... — murmurei, não sabendo por onde começar. — não acha perigoso dar a chave do seu apartamento para uma pessoa que mal conhece?
— Sim. — admitiu, deixando-me extremamente curiosa e confusa. — Mas o que você faria? Raptaria a minha gata?
— É uma possibilidade. — murmurei, segurando o riso. Aquela gatinha era uma fofura.
— Espero que não considere isso. — frisou, e parecia falar bem sério. Quer dizer, quando é que não parecia estar falando assim, né?
Pois bem, sem se despedir — não que eu esperasse por isso — deu meia volta e seguiu o seu rumo. Observei caminhar até a esquina e desaparecer de vista antes de subir as escadas ao portão do prédio.
Aliás, o mesmo senhor de antes estava sentado lá, outra vez olhando para o nada e fumando um cigarro.
— Boa tarde. — cumprimentou ele. Tinha a voz grossa, rouca e escassa. Normal para alguém que aparentava ser tão velho.
— Boa tarde. — respondi, passando por ele.
— Finalmente... — o ouvi murmurar. Iria ignorá-lo, mas minha curiosidade deu o parecer novamente.
— Como? — questionei, virando-me.
— Ela não costuma responder. — comentou, sinalizando com a cabeça para o final da rua. Para onde Mia havia seguido.
— O senhor mora aqui há quanto tempo? — perguntei. OK, eu era uma baita de uma intrometida. Mas dane-se.
— Ah, mocinha... Já perdi as contas. — respondeu ele, gargalhando devagar. — Mas, sabe, agora é que não me mudo mesmo.
— Por quê?
— Acho que gostaria de ver o dia que ela terá um bom dia, entende? — esclareceu. Eu ainda não o entendia. — Ela é tão... novinha, né? Acho que a vida de meninas nessa idade de vocês é difícil. — acrescentou ele, tragando seu cigarro.
— Não é totalmente verdade, mas... acho que sim. — respondi, intrigada. O que esse velho pensava de Mia, afinal? Alguma paixonite também? Era só o que me faltava. — Ela mora há muito tempo aqui?
— Uns dois anos, mais ou menos, eu acho. E, bem... nunca a vi conversando com ninguém. — admitiu, virando-se para me fitar. Já era a segunda pessoa que me dizia aquilo. — Você deve ser realmente especial pra ela, mocinha.
Especial? Não faz nem um dia que ela me conhece. Ouvir isso me fez querer revirar os olhos, mas, como era um senhor de idade, seria falta de respeito. Posso ser tudo, mas não malcriada.
— Não, não... Não é pra tanto. Somos só... primas. Nada demais. — respondi, dando um sorriso cínico e subindo os últimos degraus.
— Mocinha... qual o seu nome?
— É Bethany. — respondi rapidamente, já ao pé do portão.
— Você sabe o nome dela?
Paralisei.
Estou incrédula.
O nome dela? Ele não sabe o nome dela?
— Vocês sempre se cumprimentam? Tipo, como ontem? — quis saber antes.
— Sim. Sempre estou aqui, ué. — respondeu ele, tranquilo.
Como você cumprimenta um vizinho por tanto tempo e nem ao menos sabe o nome dele?
Sabe, meus pais se mudavam freneticamente antes de se separarem. Mas se eu perguntasse, saberiam dizer o nome de cada vizinho até o final de cada rua. Sem contar o nome dos filhos, parentes... Eu mesma sabia o nome da maioria dos meus vizinhos, mesmo não tendo falado com muitos deles.
Poxa, cara. Isso é o cúmulo.
— O nome dela é Mia. E o seu?
— Herbert, moça. E sem querer ser intrometido, mas já sendo... Ouvi a conversa de vocês. Vá alimentar o gato de Mia. Até depois! — respondeu ele, dando um sorriso de canto.
Eu levantei as sobrancelhas e, sem saber como reagir, só assenti. Logo virei e então adentrei o prédio.
Certo, acho que peguei afeição pelo tal Herbert. Não aparentava ser uma má pessoa, afinal. OK, OK. Vamos ignorar este momento do dia por hora.
Subi as escadas — que pareciam infinitas. Chegando ao apartamento, pude ouvir miados de Kiara próxima à porta. Sorri de imediato. A gatinha parecia sentir a presença de um conhecido de longe.
Busquei a chave em meus bolsos e abri a tranca. Kiara veio e se esfregou nas minhas pernas sem parar de miar.
Aliás, eu ainda não conseguia associar a imagem de Mia junto a um animal de estimação. Ela era tão fria, né. Peculiar. E, por mais que tentasse não demonstrar, tinha muito apego à Kiara.
Ah, convenhamos. Para animais, sempre há uma exceção, não é verdade?
Com cuidado, peguei o corpinho de Kiara e trouxe ao meu colo, a acariciando em seguida. Ela parou de miar e começou a ronronar.
OK, vamos à caça da ração. Onde deve estar?
Adentrei o recinto e equilibrei Kiara enquanto trancava a porta. Caminhei até a cozinha e fucei nos armários. E, bingo, achei o saco de ração em um dos armários — ah, vá. Que lugar imprevisível!
Analisei o saco e automaticamente lembrei de Harris. Saudaaaaades! Por que não o enfiei dentro da bolsa também?
Continuei com Kiara no colo enquanto procurava por seu potinho para alimentá-la. Admito que adoro ficar com bichinhos no colo. É muito gostoso. Kiara, diferente da maioria dos gatos, não aparentava querer saltar dali, aliás.
Achei o pote em um canto da sala e despejei um pouco da ração. Na verdade, um pouco mais que o necessário — aquela gata parecia meio desnutrida. Logo pulou do meu colo e foi até o pote. Já eu, caminhei até o sofá e me sentei, a observando comer.
Direcionei o meu olhar para a TV e fiquei... imaginando o quanto aquele tubo deveria pesar. Depois, lembrei da noite passada.
Aquele barulho quase me fez acordar como um zumbi nesta manhã. Um sono bom é um sono em meio ao perfeito silêncio. O mais profundo dos silêncios. Então, cara... Com certeza eu não dormi bem. Estou um porre.
Levantei do sofá e caminhei — diria saltitei, na verdade — até a porta do quarto de Mia. Seria bom aproveitar sua cama enquanto estivesse fora. Contudo, quando girei a maçaneta...
Trancada.
Depressão súbita. Tá, eu também não gostava que entrassem no meu quarto sem a minha permissão. Mas... ela me deu a chave do apartamento, ué.
Olhei para o relógio de parede. 14h15.
O que eu faria o dia inteiro?
Não tinha meu celular, obvio. Ah, e eu não gostava de assistir TV. Não tinha meu notebook. E ali não havia nenhum outro aparelho eletrônico para usar.
O distúrbio do tédio me atacou. Absolutamente. E quando isso acontece, a coisa fica bem louca.
Comecei a vasculhar o apartamento inteiro. Kiara me seguia dando miados baixos. Parecia curiosa em saber o que eu estava fazendo. A verdade era que nem eu mesma sabia.
Contudo, visualizei um compartimento na parte debaixo do rack. Duas portinhas. Ao abrir, constatei alguns livros. Capas velhas, outras novas... Certo, eu não era tão fã de literatura, realmente. Mas aquilo era uma emergência. Peguei o que estava mais próximo e analisei.
“Feliz Aniversário, Querida Estranha”. Era o nome do livro. A capa mostrava parte das pernas de alguém usando um all-star preto de cadarços laranjas nos pés, num estilo bem vintage. Não aparentava ter muitas páginas. Talvez não passasse de 150.
Comecei a ler. Ah, não li a sinopse. Sempre achei que tirava a graça da história ou que pudesse dar spoilers.
E, admito, não sei quanto tempo se passou. Só sei que, em algum momento, eu estava fitando a parede, com uma cara de debiloide (provavelmente) após terminar de ler aquele livro.
Não tinha uma história forte. Mas algumas partes me fizeram refletir de verdade. Eu me identifiquei com muitos pensamentos dos personagens.
Para me tirar do devaneio, algumas batidas vindas da porta serviram. Me recompus e levantei. Kiara começou a miar e saiu apressada até lá. Fui no seu encalço e destranquei a passagem.
Era Mia, claro. Tinha sacolas em mãos e algumas pousadas no chão. Sem questionar, peguei as que estavam no piso e levei até o balcão da cozinha. Sou educada, né.
Quando olhei para trás, Mia estava ajoelhada ao redor das sacolas e acariciava Kiara. Era difícil, mas se prestar bem atenção, havia algumas alterações em sua expressão. Suas sobrancelhas ficavam altas. Ufa. Ela não é um robô. Está provado.
Ok, não é um grande detalhe, mas é um começo.
Acho que gostaria de ver o dia que ela terá um bom dia, entende?
Ao lembrar o que Herbert disse, sinto que é algo grotesco. Todos temos bons dias. Pode não ser sempre, mas temos.
Mia só não demonstrava isso. Como não demonstrava muita coisa também.
— O quê? — murmurou Mia, me fitando. Acho que a encarei sem querer.
— Nada. — respondi e desviei o olhar.
— Eu falei com o dono. Ele está de acordo desde que eu me responsabilize por você.
Ah, fácil. Ela tinha virado minha responsável mesmo.
— Que ótimo! Quando eu começo?
Independentemente de tudo: Era o meu primeiro emprego!
— Você irá comigo após a aula. — respondeu ela enquanto tirava seu casaco. — Você comeu alguma coisa?
— Não...
Se fosse meu pai perguntando, muito provável que eu receberia um sermão de três horas seguidas com essa resposta.
Mas Mia apenas me encarou por alguns segundos e... assentiu, como sempre. Caminhou até a cozinha e guardou o que havia trazido nos armários e geladeira.
Eu sentei em um banquinho próximo ao balcão e a observei. Não tinha outra coisa para fazer mesmo. A não ser que eu pegue outro livro para ler.
Preparou o que parecia ser o arroz e o deixou secando, enquanto temperava alguma coisa que eu não conseguia ver, pois seu corpo tapava a visão.
Não vou dizer que não é estranho. Mia era uma pessoa muito indiferente. Ela não se importava comigo — os detalhes sobre mim, digo — ou com a minha vida. Tipo, por exemplo: o fato de que não como, de jeito nenhum, arroz sem o acompanhamento de feijão. Opa, a vi tirando uma tigela do congelador com algo marrom dentro. Espero, com todas as forças, que seja feijão.
OK, fiquei de olho nela por um tempinho. Eu estava quase dormindo sentada, até que pousou um prato em cima do balcão, na minha frente. Havia arroz, feijão e pequenos pedaços do que parecia ser carne com um molho amarelado por cima. Na verdade, o cheiro já denunciava o que me aguardava.
Strogonoff.
Céus!
Fitei Mia, mas estava de costas outra vez. Fazendo seu prato, provavelmente. Bom, comecei a comer.
Aí... meu... DEUS.
Sério, nem a empregada que meu pai pagava horrores cozinhava tão bem. E eu amava, de paixão, de loucura mesmo, Strogonoff.
Detonei aquele prato em minutos. Segundos, talvez. Não sei. Mas vou virar uma bola se continuar comendo do jeito que comi hoje.
— Amei o seu Strogonoff. — elogiei. Não consegui me conter. Ela assentiu e começou a comer também. — Você mora sozinha há quanto tempo? — perguntei, puxando assunto.
— Uns três anos e meio.
— Seus pais não ligam?
— Eu não tenho pais. — respondeu, me olhando de soslaio.
Zona CDP alcançada — Chega De Perguntas — com sucesso. Mas quis me ousar um pouco.
— Desde que nasceu ou tipo... — Fiz um gesto com as mãos, não muito específico. Eu só não consegui formar o resto da frase.
— Fui para um orfanato aos dez anos. Saí aos quinze e cá estou. — respondeu, parecendo não querer se aprofundar mais. Certo, Mia não teve uma infância das boas. Isso está bem claro. Então a existência de sua personalidade peculiar tinha uma explicação.
Para mim era ótimo. Tá, calma... Pelo menos ela não quis virar uma antissocial da noite para o dia ou seguir alguma modinha de adolescentes.
— Há quanto tempo mora com seu pai? — ela perguntou. Aleluia. Que essa conversa renda!
— Desde sempre. Antes, com meus meios-irmãos, mas agora são maiores de idade e não queriam mais ficar com o mandachuva. — respondi com certa inveja.
— Seus pais são divorciados?
— Sim.
— Por quê? — questionou, direta.
— Traição. Chute de quem.
— Todos os filhos moram com o pai. Você não tem contato há um tempo com a sua mãe. Imagino que ela seja a responsável.
Eu a observei por um momento. Queria perguntar uma coisa, e não tinha nada a ver com o assunto atual, e imaginei centenas de formas para perguntar sem parecer grossa, mas acho que é impossível.
— Por que está me ajudando?
Não conseguia imaginar um bom motivo. Está gastando dinheiro comigo. Comida, hospedagem... Até tempo.
Uma pessoa normal tentaria contatar a minha família de algum jeito. Eu não a imaginava como alguém que ajudaria porque queria ou se sentia nessa necessidade. E não imaginava um jeito de que pudesse entender o meu lado completamente. Aliás, lado que sequer mostrei.
Se eu estivesse em sua pele, me taxaria de mimada, rebelde. Mas não é isso. Eu juro.
Só não tenho escapatória. Se eu permanecer com a minha família, continuarão me tratando como uma boneca de pano. Como sempre fizeram. Meus tios, avós, primos, conhecidos. Meu pai. Minha mãe. Acho que até meus, agora, ex-amigos.
Tinha medo que quisesse tirar proveito de mim mais tarde. Havia diversos fatores para isso.
Mas um lado meu não cogitava essa situação, por incrível que pareça.
— Eu sei quando alguém não viu o lado ruim da vida. E espero que não veja. Mas eu vi. Ninguém quis me ajudar, perceber, saber. Não tive auxílio. — comentou, se levantando e pegando os pratos do balcão, os depositando na pia. — Ser imoral ao extremo não é parte de mim. Por isso ajudo.
Imoral ao extremo. Repeti esta frase mentalmente.
Ela queria ser gentil. Mas, ao mesmo tempo, mostrava que não era. O quão estranha você é afinal, Mia?
— Mas não quer dizer que eu a entenda e saiba o que está acontecendo.
Eu sorri. Obrigada, Mia.
XXX
— Bethany! A gente vai dar um role depois da aula. Quer ir junto? — perguntou-me Bryan, animado.
Ah, mas é claro que eu queria. Já tinha até aberto a boca para dizer sim, porém...
— Putz, não vai dar. É que tenho uma coisa pra fazer depois da aula com a Mia. Desculpa. — respondi, com cara de tacho.
— Ah, tudo bem. Sempre tem uma próxima. Não tem problema. — tranquilizou ele, dando aquele seu sorriso angelical. Não resisti em sorrir também.
Se despediu em seguida e correu ao portão de saída do colégio, se agrupando com seus amigos. Certo, mesmo recusando o convite de Bryan, meu ânimo estava a mil. Seria o meu primeiro dia de trabalho!
Mas não podia estar animada sem estar totalmente nervosa também.
Avistei Mia. Usava uma calça preta e a camisa branca do colégio com o símbolo de um tigre estampado ao lado direito do peito. Havia olheiras bem visíveis abaixo de seus olhos e não aparentava estar de bom humor. Se bem que... Quando é que estava de bom humor?
Eu usava a mesma camisa porque o professor de Sociologia quase me crucificou para solicitar na diretoria antes de começar a aula. Não era um colégio lá cinco estrelas, mas o uso do uniforme era obrigatório — só não nas sextas-feiras, falou?
Tá, sou um porre para roupas, mas ter algo definitivo para usar no colégio me aliviou tanto que talvez estivesse estampado na minha testa. É que não tenho lá muitas roupas para abusar no momento.
— Guardou suas coisas? — perguntou Mia.
— Sim. Eu preciso levar algo específico? — Ela negou com a cabeça e sinalizou para caminharmos.
Mal a vi durante o final de semana. Só a noite, e bem tarde ainda. Sobrevivi porque deixou comida pronta na geladeira nesses dias. Senão, depender das minhas habilidades culinárias... Morte na certa.
Ah, o que fiz o final de semana inteiro? Li livros. Para ser sincera, meus olhos ardiam por conta da intensidade usufruída nestes atos.
Não tivemos outra conversa duradoura como na noite de sexta. Se bem que aquilo não foi muito duradouro também. Isso me deixa deprimida.
Sei lá. Eu estava acostumada a conversar constantemente com alguém a qualquer momento. Seja cara a cara, telefone, internet... Só que não tenho mais tais luxos.
Não, não falo pelos cotovelos e não sou de falar só de mim até para o poste da rua. Só gosto de conversar e conversar sobre algo bom. Não sobre a minhoca que se enfiou na terra perto do jardim do colégio. Por favor, né.
O pior de tudo, é que eu queria muito conversar com ela. Somos mulheres, poxa. A gente tem que ter algum diálogo em comum. E se vou conviver com ela por algum tempo, isso estava passando de uma necessidade particular para urgência.
Pensei em alguns assuntos. Roupas? Talvez jamais. Bijuteria? Não a vi usando nada até agora e duvido que gaste dinheiro com adereços do gênero. Maquiagem? Com certeza não usa e não acho que tem interesse em usar. Comida? Não... vai me deixar com fome. Aí, Deus...
Espera aí. Que tal...
— Você leu todos aqueles livros que estão no seu apartamento? — perguntei esperançosa.
— Sim. — respondeu apática. — Por quê?
— Só curiosidade. É que alguns... são muito bons. — comentei e era verdade.
— Você leu quantos dos meus livros?
— Quatro até agora. — respondi, um pouco envergonhada. Era a primeira vez que lia essa quantia em tão pouco tempo. E não eram livros pequenos, não!
— Por que não leva para a aula e lê quando estiver livre? Ou leia quando o professor não estiver olhando. — sugeriu. Era uma boa ideia.
— É. Talvez eu leve sim. — respondi, a fitando. Acho que tinha a feição levemente — entenda “levemente” como de difícil percepção — tranquila agora. Fiquei feliz com isso. Pelo menos livros era um assunto que Mia tinha interesse mesmo. E eu estava tendo mais afinidade com isso agora.
O tempo estava morno, mas frio na sombra. Certas pancadas de vento me impediam de tirar a blusa que usava aberta por cima da camisa. Mia parecia bem com este clima, já que não usava seu familiar casaco.
O movimento estava um pouco maior nas ruas, mas nada demais. Só ainda tínhamos que ter cuidado ao atravessá-las, porque por mais que fosse segunda-feira, tinha doido varrido achando que é profissional de Drift¹.
— Qual foi o primeiro livro que leu? — perguntei.
— Eu não recordo o nome agora. — respondeu ela, franzindo um pouco o cenho.
Sem perceber, acabei franzindo o cenho também, uma vez que fiquei perplexa. O formato da sobrancelha dela era tão... “desenhado”. Como se as fizesse com frequência.
Eu tinha que tirar as minhas de quinze em quinze dias ou menos para que não virassem duas taturanas plantadas no meu rosto. Francamente... senti inveja.
— Mas lembro que falava sobre uma garota que teve seu aniversário esquecido por conhecidos e parentes. — continuou ela.
— Espera... Eu sei qual é! É... Querido Estranho... Aniversário... Algo assim... Droga, não me lembro direito.
— Sim. Lembro que o título continha algo semelhante.
— “Feliz Aniversário, Querida Estranha”. — disse, relembrando-me.
— É um livro escrito por uma brasileira, sabia? — comentou.
— Não... Se bem que o nome da autora parece ser de lá mesmo.
— Como sabe, afinal?
— Eu já viajei pro Brasil. É bem legal lá. — comentei, recordando-me das praias. E que praias!
Ela ficou em silêncio. Tentei achar uma saída para que não se tornasse perpétuo.
— Já pensou em viajar pra fora do país?
— Pretendo, na verdade.
Obrigada, mãe natureza! Agradeço pela sabedoria para tomar novos rumos a esta conversa!
— Pra onde?
— Ao Brasil.
Agora entendi o porquê do silêncio. Que a faixa CDP não seja alcançada...
— Por que para lá?
— A cultura é rica. As pessoas são boas. O ambiente é tropical. É um país interessante de diversas maneiras.
— Bem... O tropical de lá é bem abusivo, dependendo de onde você permanecer. — alertei.
Fiquei os primeiros dias lá de cama, passando mal de tanto calor. Sentia minha boca secar e meu corpo transpirar numa quantidade implacável. Demorou um pouco para acostumar com aquele ambiente todo.
— É melhor que o frio natural deste país.
— Sério? Eu adoro. No frio sempre dá pra fazer boas combinações de roupa. — falei, mas quis me estapear. Droga, droga, droga, droga... Não era para falar sobre isso!
Falei tão espontaneamente que me distrai e ia atravessando a rua com o sinal ainda vermelho. Quando me dei conta, um carro já estava próximo, mas Mia me puxou. Vi o automóvel passando a milímetros do meu corpo enquanto buzinava.
Levei um puta susto. Olhei para trás e então percebi que Mia segurava a minha mão. E ela estava sorrindo.
Mia estava sorrindo!
Espera... Que tipo de humor é esse? Ver pessoas (quase) sendo atropeladas dava algum tipo de euforia ou o que quer que seja?
— Você parece ser este tipo de pessoa mesmo. — comentou. Seu semblante relaxou e retomou a inexpressividade padrão. — Eu não me importo com roupas.
— Ah... Entendo... — murmurei, me recompondo. O sinal ficou verde, então atravessamos. Até aí, tudo bem, se não fosse pelo fato de que...
Mia ainda segurava a minha mão. Me senti uma criança perdida.
Sua mão era áspera, tênue, quente. A minha estava bem gelada, então o choque térmico era notável.
Quando estávamos já do outro lado da rua, Mia alisou as costas da minha mão — sem disfarçar, sério — e soltou. Foi como se quisesse aquecê-la. Porém, não adiantou muito. Desde criança, sempre tive as mãos geladas. Os pés também. Acho que ficava abaixo de 0° C até.
De qualquer forma, aquilo me deixou... estranha. E meio aérea.
— As roupas são uma forma de mostrar quem sou, do que gosto... É definitivamente um estilo de vida pra mim. — desabafei.
— Talvez eu nunca tenha olhado por este lado. — admitiu Mia, me fitando. — É por isso que foi embora?
— O quê? — Olhei confusa para ela.
— Você quer seguir uma carreira neste ramo, não é?
— Sim, mas... há diversos outros fatores... — respondi, meio sem graça.
Falar disso me deixava mais estranha ainda. Falar de seus... sonhos para alguém, assim, do nada, era estranho. Ainda mais quando você o deseja desde que se entende por gente.
Eu amava tudo sobre roupas. Estilos. Conceitos. Adereços. Tudo. Mas todos são influenciados por alguém... Eu fui pela minha mãe.
Ela é a pessoa mais regrada quando a coisa é moda. Trabalha com isso. Talvez amasse mais moda do que a sua própria família.
Literalmente.
Traiu o meu pai com um estilista que, até então, era denominado gay por ela. Aham. E eu sou a Elsa², a rainha do gelo.
Acho que minha mãe merece um prêmio. Enganou a gente direitinho.
— Eu sei que há. Mas se foi embora porque ama isso, você deu um grande passo. Pode parecer errado ao olhar da maioria, mas, se importa, ao meu não parece.
— Importa sim. — respondi automaticamente, sem pensar. Mia me fitou.
Eu queria que sorrisse. Que dissesse: “Fico feliz em saber.”
Desejar isso é estúpido. Mas eu queria. E não sabia por quê.
Mas seria como ligar a um hospital às cinco horas da manhã perguntando se vendiam pastel. E, além disso, obter uma resposta positiva.
E, como imaginei, ela desviou o olhar.
Enfim, chegamos à lanchonete.
Entramos pelos fundos. Mia disse que me apresentaria ao dono primeiro.
Já no estabelecimento, fomos ao que parecia ser um pequeno escritório. Havia um moço, gordinho e baixinho, fuçando em um monte de papéis. Sorriu simpático logo que nos viu.
Mia me apresentou com seu jeito formal e frio. O senhor parecia acostumado com seu aspecto, o que me deu certo alívio. Tentei ser simpática também, mas não ao nível irritante. Mas me iludi com a aparência daquele homem.
O cara não gostava de corpo mole e deixou isso bem claro enquanto ressaltava alguns pontos cruciais sobre o serviço.
Em seguida, fomos à cozinha. Vesti o uniforme: um avental encardido com o símbolo de um sanduíche estampado e boné.
De início: lavar a louça.
E foi um desastre.
De primeira, quebrei dois copos e três pratos. Mia disse para usar as luvas, assim os itens não deslizavam das minhas mãos. Daí em diante ficou mais fácil.
Mia estava sempre na minha cola para auxiliar e eu sempre acabava fazendo alguma “arte”. Entretanto, eu não ficava tão desanimada com isso.
Ela dizia para tomar cuidado e me ajudava a consertar a bagunça. Podia até simplesmente não dizer nada às vezes. Podia só olhar nos meus olhos com um: “De novo, Bethany?”, mas... sempre estava lá para me ajudar.
O importante é que ela estava lá.
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