Oculta
5 Diferente
Notas iniciais
Quatro meses se passaram desde que encontrei Bethany. Nossa convivência continua a mesma. Ela, extrovertida, alegre, espontânea e eu... como eu.
Em mim não havia pretensão para mudar isso. Não pretendo torná-la minha amiga. Não pretendo que me defina como uma pessoa que pode contar. Não pretendo nada.
Mas, independentemente disso, Bethany me define assim. E não é algo que minha opinião deva contar, no fim das contas. Isso não me muda ou muda minha vida. Então não me importo.
Nossa convivência é até simples. E não compreendo isso. Pessoas são difíceis.
Kiara gosta muito dela. E a partir do momento que Kiara gosta de alguém, esta pessoa é confiável. Pode parecer bobagem, mas o julgamento de Kiara me ajuda certas vezes.
Kiara é o nome da minha gata de estimação.
Quando fui adotá-la, o dono, até então, dizia se tratar de um animal muito birrento. Estava até receoso em apresentá-la a mim. Eu insisti mesmo assim.
Ao vê-la, a analisei e ela fazia o mesmo com aqueles olhos esverdeados inocentes. Na época, apenas um filhote. Uma graça.
Lembro que havia se aproximado de mim e começara a miar enquanto me fitava. Parecia querer atenção. Agachei, acariciei, mesmo estando bem confusa. O dono tinha dito totalmente o contrário do que eu presenciava naquele momento.
Também lembro de, ao direcionar o olhar a ele, constatar que sorria como uma criança. Admitiu ser a primeira vez que a gata agia assim com alguém.
É que Kiara havia sido maltratada meses antes deste dono resgatá-la. Estava à beira da morte.
Talvez ela goste de mim porque a entendo. Entendo perfeitamente.
E entendo o amor, desde que se refira à Kiara. Eu a amo. É o único ser vivo com quem cultivo isso. Então, se alguém não gosta de Kiara, esta pessoa não deve respirar o mesmo campo de oxigênio que ela e muito menos eu. E se Kiara gosta de alguém, essa pessoa merece minha atenção.
Enfim...
Com Bethany trabalhando na lanchonete, passamos muito tempo juntas. De início, ela me trouxe muita dor de cabeça. Não sabia fazer nada. Limpar, lavar, atender ou o que quer que seja. Uma patricinha completa.
Mas, convenhamos, Bethany nunca precisou aprender essas coisas. Sempre houve pessoas para fazer isso por ela. Então, diferente do meu chefe, que descontou alguns bocados do meu salário pela bagunça, não a culpo. Algumas coisas são inúteis para aprender por conta própria.
Os prós: ela aprendia rápido. Raramente precisei repetir alguma coisa para que entendesse. Sua perseverança era visível.
Em três semanas, o chefe queria me beijar por ter a trazido. Disse que nunca pensou em encontrar alguém melhor que eu para aquele serviço. Foi uma surpresa. E o interessante nisso tudo: ele aumentou o meu salário.
Inclusive, quando Bethany começou a receber também, as coisas ficaram muito fáceis em casa. Eu não me preocupo tanto com dinheiro como antes.
Combinamos quem paga a comida, as contas e o aluguel. Aproveito o que sobra da minha parte para adicionar à minha poupança. Já Bethany prefere gastar com roupas.
Isso não me incomoda, claro, é o salário dela. Mas sempre quer que eu vá junto quando deseja comprar algo. E não tenho paciência para isso. Só aceito porque sempre me paga algo para comer depois.
E era pior agora que começou a namorar com o tal Bryan. Felizmente não conversamos sobre isso, até porque não me interesso, não estou nem aí para o que ela faz, ele faz, eles fazem, vão fazer, sair, casar ou bulhufas. Definitivamente não dou a mínima e acho isso uma completa chatice. Aliás, Bryan não era tudo isso. Ela tinha um gosto peculiar.
Apesar disso, me relaxa ter ciência destes acontecimentos. Bethany está se ajustando à maneira dela.
Perguntava-me até quando isso duraria.
Estávamos no shopping, em uma loja chique. Eu sentada em um banquinho próximo ao provador e Bethany lá dentro testando as quinze peças que levou consigo.
A loja era muito chique. Realmente. Eu não ousava olhar para as etiquetas com o preço das peças. Era capaz de incidir em um ataque cardíaco com tantos números antes da vírgula.
Quando a acompanhava até estes locais, levava um livro comigo. O problema é que Bethany demora séculos para escolher algo, então há vezes que termino de ler o livro, como agora, ficando sem ter o que fazer. Esperando algum milagre.
Olhei ao redor, com desinteresse. Uma atendente captou minha presença e caminhou em minha direção.
— Precisa de algo, moça? — perguntou ela, acanhada.
— Não. Estou apenas aguardando uma pessoa sair do provador. — respondi.
— Ah, tudo bem. Meu nome é Lúcia, se precisar. — disse, dando um sorriso iluminado.
— Certo. Obrigada. — assenti sem dar muita atenção.
— Posso te dizer uma coisa?
— E o que seria? — A fitei curiosa, mas não demonstrei isso.
— É que... — A moça contraiu os lábios e olhou para os lados antes de responder. — Você é linda.
Muito bem. Aparentemente, acabei de ser cortejada por uma mulher. Deveria ser constrangedor. Mas não vi dessa forma.
Eu só... não recebia elogios. Muito menos de estranhos. Então dei um pouco de atenção àquela figura em minha frente. Talvez a tal Lúcia tenha esquecido os óculos em casa.
Entretanto, tentei agir como qualquer pessoa em meu lugar.
— Obrigada. É muito gentil de sua parte dizer isso.
Ela que era bonita. Pele negra, cabelo crespo e volumoso. Ela se encaixava perfeitamente neste termo. Eu não.
E não retribui o elogio, afinal, sequer sou o tipo de pessoa que profere coisas do gênero, mas também levei em conta que ela talvez pensaria que eu tinha suas mesmas intenções, o que obviamente não era o caso.
Também não sou preconceituosa. Para mim é normal. Não julgo — e não há o que julgar.
Mas mal sinto fácil atração por homens, quem dirá mulheres. A sociedade me influenciou para que eu não as visualize desta forma.
Contudo, admitir que alguém é bonito não é dizer “me agarre e leve para casa”, muito pelo contrário. Mas se alguém admite para outro sem ao menos conhecê-lo, esqueça o que eu disse anteriormente.
— Você poderia ser modelo. — comentou, sentando em um outro banquinho ao meu lado. Agora acho que está caçoando da minha cara.
— Isso é exagero. — respondi da maneira mais educada possível.
— Não estou brincando. Você é muito linda, sério. — ressaltou. Eu sentia seu corpo se aproximar. E o seu cabelo, sendo bem volumoso, já encostava em mim.
Não há alguma norma que proíba funcionários de flertar com seus clientes?
— Me sinto lisonjeada, por mais que discorde de você. — respondi, lentamente me afastando dela. Mas estava praticamente na ponta do banco. Se me afastasse mais, eu cairia. Engoli um seco.
— Acho que o fato de não se achar linda te faz mais linda ainda. — continuou, perto o suficiente para me-
Bethany finalmente saiu do provador, toda alegre, e eu levantei de súbito. Ela olhou atentamente para nós duas, desconfiada e sequer fez menção de esconder essa percepção.
— Pronto? Vai pagar agora? — perguntei, captando sua atenção.
— Sim, só preciso saber ond-
— Precisa de ajuda? Eu levo suas peças até o caixa. — Ofereceu-se a atendente, sorrindo simpática para Bethany.
— Tudo bem! — respondeu Bethany, dando as peças. A moça se deslocou até o caixa sem antes me mandar um olhar traiçoeiro — também conhecido como sensual para a maioria das pessoas. Ela quase me colocou em maus lençóis.
— O que houve? Você parece uma estátua. — quis saber Bethany, me olhando intrigada.
— Não houve nada, Bethany.
— Então para de fazer cosplay de manequim. — debochou, ainda desconfiada. Eu revirei os olhos internamente.
Fomos até o caixa. Tentei permanecer numa distância segura da atendente enquanto Bethany pagava. Ela me olhava discretamente e eu fingia não perceber isso.
Quando fui ajudar com as sacolas, a moça me segurou pelo braço. Eu a fitei atenta. Percebi um cartão entre seus dedos da outra mão.
— Eu não estava brincando. Isso pode te oferecer uma grande oportunidade. — murmurou, não se importando com a presença de Bethany ao meu lado e me entregando o cartão em seguida.
Era composto por um fundo prateado e havia três linhas escritas na cor preta.
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Senti uma vontade brusca de rir, mas tinha ótimo controle sobre isso.
— Dar isso não mudará minha opinião. — quis deixar claro. Ela não pareceu se intimidar.
— Não me importa se discorda. É uma sugestão. Aceitar ou não é critério seu. — respondeu sorrindo de maneira gentil.
Hoje realmente não está sendo fácil.
Encarei seu rosto irritante — e lindo, não há como negar — por alguns segundos e assenti, enfiando o cartão a contragosto em meu bolso detrás da calça. Sem dizer mais nada, caminhei até a saída da loja e segui meu rumo. Não esperei Bethany, mas sabia que estava no meu encalço, cheia de dúvidas.
Mas sabia que eu não responderia nenhuma delas.
XXX
— Você deveria comer um Big Mac. Sério. Você ia gostar. — comentou Bethany enquanto comia o seu lanche.
— Lanches são para degustar. Não almoçamos antes de vir para cá, Bethany. — respondi. A sua falta de noção de que estava destroçando seu estômago me intrigava. Bethany poderia ser só dois anos mais nova que eu, mas, mentalmente, parecia ter bem menos, às vezes.
— Mas uma vez ou outra não tem problema. — argumentou. Eu não respondi, permaneci comendo meu almoço atrasado. — O que aquela atendente e você estavam conversando?
— Nada que seja de seu interesse, Bethany. — cortei, tomando um gole de meu refrigerante — sim, hipocrisia da minha parte comentar sobre Bethany enquanto tomo um veneno, mas, que seja.
— Por que tem que ser tão grossa? Só estou perguntando.
— Você me dá brechas para ser.
— Posso ver o cartão que ela te deu? — insistiu, com a mão estendida.
Parei de comer e a encarei. Ela continuava com a mão estendida. Desviei o olhar, tentando não me estressar. Mas retirei o cartão do bolso e entreguei.
— É sério isso? — murmurou Bethany, mordendo os lábios. Era obvio que continha o riso.
— Faça o favor de jogá-lo no lixo quando formos embora.
— De jeito nenhum! A linha Cortês é ótima. Olha esse selo! É um cartão legítimo. — comentou empolgada, mostrando o tal selo que para mim não tinha importância alguma.
— Fique com ele, então. — respondi, dando de ombros, terminando meu prato e me levantando da cadeira.
— Ah, mas pra mim não vale de nada! Só aceitam pessoas maiores de idade pro teste.
— E onde está escrito isso?
— Atrás do cartão aqui, ué. — afirmou, me mostrando a parte detrás do dito cujo.
Desta vez prestei mais atenção. Havia várias notas ali. Também não aceitavam ninguém que morasse fora de Nova Iorque e nem pessoas com deficiência. Creio que não aceitariam Bethany de uma maneira ou outra, então.
— E a marca tem o meu sobrenome. Mais maravilhoso que isso? Não existe!
— Também tenho este sobrenome. Não quer dizer nada. — respondi, já sem paciência, pegando minha bandeja e caminhando até o lixo mais próximo da praça de alimentação.
— Mia Cortês?
— Isso. Deixe suas sacolas em qualquer lugar mesmo. Vivemos em um mundo pacífico em que ninguém rouba ninguém, não é, Bethany? — verbalizei ríspida após perceber que me acompanhou e deixou suas compras em cima da mesa à reveria.
— É bom termos o mesmo sobrenome. — comentou, sem se importar com o meu alerta enquanto caminhávamos de volta e pegávamos as sacolas.
— O que há de tão bom nisso?
— Posso dizer que sou sua irmã ou coisa parecida que ninguém vai estranhar. — respondeu dando de ombros.
Já era estranho tê-la como conhecida, pior seria como irmã ou ter realmente algum parentesco.
Continuamos a caminhar em silêncio até a saída do shopping e depois ao ponto de ônibus, entrando no primeiro que passou. Muitas linhas de transporte passavam próximas ao meu apartamento. E, finalmente...
Silêncio.
Era confortável quando Bethany dava uma pausa. Isso me acalmava. Acalmava mais do que ler ou desenhar. E tem sido, por mais que não difícil na plenitude do termo, desgastante ter alguém como ela ao lado.
Bethany parecia viver em um mundo onde a cada cinco minutos explodiam fogos de artificio. Elétrica. De vez em quando inconsciente do que diz ou faz.
Apesar disso, as pessoas grudavam facilmente ao seu redor. Ela tinha um carisma natural. Era como se hipnotizasse com seu jeito.
Mas isso não era o suficiente para mim. Não me sentia hipnotizada ou necessitada para tê-la próxima igual a maioria.
Eu só me importo com ela. É a única coisa que posso admitir. Contudo, não há algo mais forte que isso entre nós. Pelo menos para mim.
Um tempo sentada no banco do ônibus, senti a cabeça de Bethany encostar no meu ombro. Obvio que tal proximidade me incomodou, então fitei seu rosto. Mas ela estava dormindo. Podia perceber pela respiração tranquila e boca entreaberta
Quieta e calada.
Então não me importei.
XXX
n vo fazer nada amanha dps da aula
vms sair? x)
claro! pra onde? :3
n sei, qualquer lugar cm vc ta bom
minha flor ♥
*u* entao a gente decide amanha
okay? >
por mim ta otimo!
amor, vo dormir agr
to mt cansado
amo vc, bj
tbm amo vc, durma bem ♥
Minha vida está sendo definitivamente um sonho.
Posso sair, fazer o que eu quiser e tenho o melhor namorado da face da terra. Só pode ser um sonho!
Coloquei meu novo celular para carregar e deitei no sofá, abobalhada. Infelizmente ainda não tenho uma cama porque gastei com o celular. Mia achou errado da minha parte, mas para mim era uma emergência. Uma grande emergência.
Falando em Mia, estava sentada no chão da sala, perto da mesinha de centro, lendo alguma coisa. Acabei lembrando do que aconteceu no shopping mais cedo.
Imagina só, Mia, a modelo! Nem nos meus sonhos imaginaria isso. Aliás, era obvio que a atendente estava paquerando ela. Estava muito na cara.
Bem, estamos no século 21. Isso não era estranho para mim. Só que achei tudo super engraçado. Mia estava meio atônica, por mais que só eu pudesse perceber. Uma raridade, pois é sempre bem reservada. O que tornou tudo ainda mais interessante.
Acho que nunca vou abordar esse tipo de assunto com ela. Sabe: paqueras, paixões, essas coisas. Até porque, quando fui falar de Bryan, Mia fingiu ser surda. Sério. Ela me ignorou totalmente.
Mas, retomando... A atendente deu um cartão exclusivo da linha Cortês. Isso não é normal. Já li sobre esses cartões no site da agência. Mesmo sendo uma empresa nova no ramo, eles são exigentes. Você só ganha o cartão se aparentar realmente ter chance de entrar no negócio.
Só que talvez a atendente tenha dado o cartão pensando que impressionaria Mia para uma possível aproximação. É, amiga... Não funcionou mesmo.
Porém, e se deu porque realmente pensava que Mia tinha chances mesmo? Mas, sei lá, o cartão poderia ser falso também. Isso me deixou intrigada.
Analisando Mia... Ela não tem um cabelo ruim. É um liso natural de dar inveja, só que sem brilho. Provavelmente era virgem também; um castanho claro, nada demais.
Era alta; um metro e oitenta, por aí. Ser alta dava mérito também. Se bem que tenho a mesma altura e não acho isso impressionante por motivos óbvios.
Rosto anguloso. Traços fortes. E aquelas sobrancelhas mágicas — meu sonho de consumo, só que ela não precisa saber disso.
Certo, convenhamos: Mia era bonita sim. O seu jeito que não atraía... Ou atraía. Não sei bem dizer. Alguns garotos gostam dessa aura obscura e carranca de “posso te matar e não sentirei remorso com isso”.
O problema é que eu NÃO SEI. Ela não fala sobre essas coisas. O que me resta é imaginar mesmo.
— O que você quer? — perguntou Mia, do nada.
— Quê? Quer o quê? — questionei, confusa.
— Você está me encarando.
— Ahn? Não! Não tô, não. — Engoli um seco. A encarei de novo sem querer. Aff.
Ela me fitou por um momento, claramente confusa. Mas obvio, não demonstrando tanto isso. Voltou a olhar para o livro em cima da mesa, mas o fechou em seguida, me fitando novamente.
— Preciso conversar com você.
— Sério? — murmurei. Ok, estou surpresa. Muito surpresa.
— Sim. — Ela se levantou e guardou o livro no armarinho debaixo do rack. Depois, se aproximou da mesa de centro de novo, ergueu um papel e me entregou.
Peguei o papel de sua mão, sentindo-me confusa.
COLÉGIO DE SHEEPSHEAD
CERTIFICADO
O(a) diretor(a) do Colégio Estadual de Sheepshead, confere ao(à) MIA CORTÊS DELILAH MONTENEGRO, nascido(a) em 28 de janeiro de 1996, natural de Broocklyn/NY, o presente certificado por haver concluído o Ensino Médio no ano letivo de 2015.
— Você falsificou um diploma? — indaguei, perturbada.
— Tenho cara de quem perde tempo falsificando essas coisas, Bethany? — Ela me olhou com uma verdadeira carranca e retirou o certificado de minha mão. Estou completamente confusa agora.
— Mas como assim? O ano nem acabou ainda!
— Falei com o diretor. Fizemos um acordo. Eu tinha boas notas, e como sou maior...
— Poxa... Isso é... muito bom. De verdade. — admiti. Mas não entendi o que isso tinha a ver comigo. — Que trato?
— Ajudar em alguns eventos no colégio... Nada demais. — respondeu, desviando o olhar e sentando-se no sofá.
Eu ainda não compreendia o que isso tinha a ver comigo, mas... era bom ela estar compartilhando algo, de qualquer forma.
— E é por isso que quero conversar com você. — continuou, agora me fitando com intensidade.
— Certo... Do que se trata?
— Não tenho o suficiente para iniciar uma faculdade. Você acha... A agência... Poderia dar certo?
O tom de voz dela era de incerteza pura. É a primeira vez que a ouço falar assim. E isso me deixou mais incomodada ainda.
— Você realmente quer...? — quis constatar antes. Era como se estivesse me perguntando se podíamos pular da torre Eiffel de Paris. E sabia disso.
— Quero arriscar. Se eu não conseguir, terei que procurar algo de qualquer jeito. Preciso de opiniões. Você parece ter conhecimento nesta área.
— Mia, nesses tipos de negócios, normalmente só pessoas com bons contatos ou conhecidos que trabalham na área... Bem, é difícil quando você é muito de fora. — respondi, com sinceridade. Eu sabia um pouco sobre como o sistema funcionava. Era raro casos em que pessoas “normais” conseguiam alguma chance.
Só que o jeito que Mia me olhou... Céus.
— Mas não quer dizer que seja impossível. Você tem que impressionar eles de alguma forma. Eu só não sei qual. — acrescentei, dando-lhe esperanças.
— Como são essas pessoas?
— Elas são exigentes. Até arrogantes e ignorantes. São ricas. — pontuei, dando de ombros.
— O que você faria? — Ela fixou os olhos nos meus. Era muito repentino. Até seu tom de voz estava um pouco alterado. Mia estava levando aquilo a sério.
— Eu não sei, querida. Meu objetivo nunca foi esse quando o assunto é moda. — Realmente não era. Meu negócio era só com as roupas!
Ela apenas assentiu e suspirou lentamente.
— Posso pedir sua ajuda mais tarde? — perguntou Mia, me deixando mais surpresa que nunca.
— É claro que sim! No que precisar! — respondi, animada. Ela assentiu em concordância e levantou-se do sofá, indo em direção à cozinha. Aproveitei para dar uma segunda olhada no certificado.
— “Dílílá”... — pronunciei baixinho, lendo o papel. Era um nome bacana.
— “Dêláilá”. Não “Dílílá”. — ouvi Mia dizer.
— Acho que vou começar a chamar você assim! — Elevei um pouco a voz, pressionando os lábios para não rir. Ela com certeza não concordaria com isso.
— Por quê? — Mia retornou para sala com um pacote de cookies em mãos. Meus olhos brilharam com aquela visão magnifica. Ah, fome!
Mas não consegui ignorar o jeito que me olhou de novo.
Era um olhar inocente. Como uma criança querendo saber porque sua mãe escondeu os doces.
Era muito peculiar, de verdade.
— Só... achei o nome bonito. — respondi, ainda desconcertada.
— Quer que eu te chame de algo diferente também? — perguntou.
Ok, estou realmente desconcertada, surpresa, sem graça... Nem sei mais como descrever meu emocional nesse momento.
— Pode me chamar de Beth. Mas... só se quiser. — ressaltei. Não queria que se sentisse obrigada ou algo do tipo.
— Tudo bem. — respondeu, apenas.
Mas... que diabos?
XXX
Foi estranho ir à aula sem Mia. Até esqueci o caminho por um momento, mas consegui chegar sem me atrasar.
Algumas pessoas me perguntaram sobre ela. No geral, professores, empregados do colégio. Ela podia não se dar bem com os alunos, mas com o pessoal mais velho tinha uma popularidade notória.
Acho que nunca tive alguém maior de idade próximo igual tenho Mia agora. Estou curiosa para saber o que ela pretende fazer da vida.
Hoje de manhã, quando levantei, não vi sinal dela. Nem no quarto que, por algum milagre, tinha a porta aberta. Imagino que saiu com pressa.
Aliás, as paredes do quarto dela eram lindas — sim, bisbilhotei, obvio. Tinha desenhos abstratos em cores pastéis por todo canto. Acho que foi ela quem desenhou, na verdade. E eram incríveis. Aquilo sim, eu chamava de arte.
Só que, voltando ao fato de Mia ter saído com pressa... Talvez tenha ido até a agência. Fica perto de onde eu morava antes, inclusive. Daqui para lá não demora tanto, principalmente se for de trem ou metrô.
Quero que ela consiga algo no fim das contas, mas minha esperança é quase nula.
Porém, Mia é tão inteligente, independente e esperta, cara. Duvido que não encontre outra coisa para fazer sua faculdade. Aliás, não ofereceram uma bolsa para ela? Isso é muito estranho. Não cheguei a perguntar.
Honestamente, quero ajudar. Eu podia ajudar. Eu tenho uma conta bancária. Ah, vamos lá, né. Sou filha de duas pessoas ricas. Tinha a tão preciosa mesada sim, mesmo de valor exuberante e até desnecessário.
Mas sei que havendo algum saque, meus pais saberão. E então, saberão onde me encontrar. E, de qualquer jeito, não quero mais ser dependente do dinheiro deles. Felizmente, Mia conversou com o dono da lanchonete para que ambos de nossos salários fossem depositados na conta dela, então não precisei me preocupar quanto a isso.
Nessas horas, de verdade, só quero ajudá-la. Mia me ajudou, não pediu nada em troca e provou que não queria mesmo. É uma das coisas que mais admiro nela.
— Amor, você tá quieta hoje... — comentou Bryan, bebericando sua latinha de Coca-Cola. Estávamos no pátio, desfrutando do intervalo.
— Ah... Não é nada. Me dá um pouco? — pedi, me referindo ao refrigerante. Ele me deu a lata de bom grado.
— As leis da física não fazem sentido assim. Você quieta é estranho. — ponderou, se aproximando e passando o braço pela minha cintura.
— Para de besteira. — respondi, devolvendo a latinha e dando-lhe um beijo na bochecha.
— Não vi você com a Mia hoje na entrada. — cutucou ele com falsa indiferença. Eu sorri com aquilo.
— É... Ela se formou. — respondi, não sabendo se seria bom contar isso a ele, mas bem... é Bryan. Que mal tem?
— Se formou? — Ele me fitou sem entender. — Estamos em setembro ainda, sua doidinha. — Bryan chacoalhou levemente meus ombros ao dizer isso.
— Eu seeei. Mas é sério. Ela tem até certificado.
— Chantageou alguém ou falsificou?
— Até parece que Mia faria isso, Bryan.
— Certo, isso é mais estranho do que você estar quieta. — opinou, alisando seu lindo cabelo para trás, que voltou para frente um pouco bagunçado. Era muito charmoso quando fazia isso. — Mas é bom, acho. Então...
— É... Tô feliz por ela. — admiti.
— Mas algo te incomoda, eu sei. Só que vou parar de te perturbar antes que me expulse daqui. — Eu dei risada com seu comentário.
Espero que Mia dê seu melhor. De preferência, que seja ela mesma.
E é isso que me deixava mais preocupada ainda.
XXX
— Sua idade, por favor? — perguntou a atendente em tom seco.
— Dezoito. — respondi, dando uma olhada ao redor.
Aquele lugar era incrível. Definitivamente. Eu estava na recepção. Todas as paredes eram compostas por vidro, desfocado e grosso, dando visão ao jardim que parecia correr por toda a extensão do local lá fora. Havia uma parte somente para máquinas de café, refrigerantes e coisas do gênero, próxima ao balcão onde permaneciam as assistentes. Do outro lado, em frente a elas e um pouco mais afastado, poltronas confortáveis e modernas formavam um retângulo. No centro deste, havia um aquário em formato de mesa. O design era impecável.
Tudo ali parecia elegante e bem feito. Até as atendentes pareciam ter sido desenhadas, com seus coques alinhados no topo da cabeça e vestidos escuros discretos, mas sensuais. Pena que não atingiam seus humores.
Mas eu não esperava uma boa recepção. De alguma forma, sei que me desprezam. Olham-me de cima a baixo sempre.
Além de mim, havia algumas outras garotas se candidatando também. Todas receberam o tal do convite, que antes Bethany havia me informado sobre sua importância.
A atendente disse para que eu aguardasse, então caminhei do balcão até uma das poltronas mais próximas e me sentei, ainda analisando o ambiente. Pude sentir muito bem olhares penetrando minhas veias. Por mais que delicadas como anjos, essas moças arrancariam um fígado com as próprias mãos para alcançar seus objetivos, com certeza. E pouquíssimas pessoas percebiam isso.
Em dado momento, uma das assistentes informou que os testes começariam em dez minutos. Em instantes, muitas garotas se levantaram e saíram em direção à porta do banheiro feminino. Outras permaneceram sentadas, mas em sua maioria inspecionando as bolsas, retirando quites de maquiagem e começando a se produzir ali mesmo. Admito que fiquei impressionada. Elas eram ágeis.
Vestiam trajes bem excepcionais, aliás. Alguns tão excepcionais que chegavam a ser estranhos. Já eu, vestia uma simples calça jeans, camisa preta de manga comprida com botas desgastas da mesma cor.
Eu não tinha nada daquilo comigo. Essa... necessidade de “embelezamento”. Não me importava.
E eu também sabia que não passaria neste teste. Por que eu estava ali, afinal?
Não era para mim. Não fui moldada para isso. Meu cérebro se recusa a admitir que eu esteja ali neste exato momento.
Mas eu precisava daquele dinheiro.
E não admitiria sair dali sem tentar. Havia dito à Bethany que iria e até pedi suas dicas para isso. Seria ridículo e contraditório ir embora agora.
Por ordem alfabética foram chamadas as candidatas, pouco a pouco. Pelo que constatei, eu seria uma das últimas. Ótimo. Isso daria tempo para selecionarem as mais bonitas e falsas, assim podendo me descartar com mais facilidade.
— Mia Cortês? — Ouvi meu nome ser chamado.
Me levantei e andei em direção a assistente. Ela me olhou da cabeça aos pés, claro, e me deu um sorriso bem cínico. Depois sinalizou para segui-la.
Entramos em um corredor extenso. Era iluminado por uma luz LED azul, a qual fazia meus olhos irritarem, por mais que tivesse um aspecto bonito.
E, finalmente, o nervosismo me tomou. Eu não sabia no que consistiria o teste.
Fomos nos aproximando de uma entrada com duas portas grandes e prateadas. A moça empurrou uma das portas e indicou para que eu entrasse. Assim fiz.
Dei alguns passos para dentro e ouvi o baque da porta se fechando atrás de mim. Era um escritório, porém, em uma escala bem maior de espaço. Exagerado, moderno e lindo.
Havia uma mulher, aparentava ter no máximo trinta anos, sentada detrás de uma mesa larga de vidro. Ela me fitava com curiosidade.
Vestia um blazer cinza e a transparência da mesa indicava que usava uma saia de mesma cor e saltos altos brancos nos pés. Seu cabelo era loiro, estava solto e tinha ondas atraentes.
Tive a sensação já tê-la visto. Na verdade, me lembrava — muito — de Bethany. Mas Bethany não era a única loira do planeta, afinal.
De pé, à frente da mesa, havia um homem barbado de óculos com uma câmera fotográfica pendurada no pescoço. Deve ter, no máximo, vinte e cinco anos. Este vestia um jeans rasgado, camisa prateada e calçava botinas de cor creme. Tinha um corpo atlético e era igualmente atraente como a mulher. Entretanto, diferente dela, ele não foi discreto e me direcionou um olhar direto de espanto.
Dando uma olhadela rápida ao recinto outra vez, havia dois holofotes posicionados para uma parede, ou melhor, algo parecido com uma placa branca — não parecia fazer parte do escritório —, ao lado do rapaz.
— Mia Cortês Delilah Montenegro. — recitou a mulher, olhando-me de soslaio. — Eu sou Denise Cortês. Este é Ricchard Clover. — apontou para o rapaz. Ele assentiu com a cabeça para mim.
— Prazer em conhecê-los. — respondi, educada.
— Pode me contar um pouco sobre você e como veio parar aqui? — perguntou a tal Denise, fitando-me com intensidade. Creio que estava tentando em intimidar.
— Eu tenho dezoito anos. Moro em Sheepshead, no Brocklyn. Recentemente passei por uma das lojas Cortês e recebi o cartão. E cá estou. — respondi, prática.
— Certo. Como imaginou este teste?
— Não imaginei. – respondi com sinceridade total. Denise segurou meu olhar por alguns segundos. Mas desviou outra vez para o papel em cima da mesa.
— Sendo assim, vamos direto ao ponto. Por que acha que deve ser selecionada?
Esta pergunta me pegou desprevenida. Eu sequer acho que deveria ser selecionada.
E agora?
— Creio que não posso responder essa pergunta adequadamente. — comecei tentando formular uma resposta com a maior velocidade que podia. A mulher me olhou com o cenho franzido. — Não sei o que buscam por aqui. Um rosto bonito ou alguém de personalidade. Se for a primeira opção, não me encaixo. Se for a segunda opção, você será sábia o suficiente para me selecionar.
O rapaz olhou para trás e fitou Denise. Ela permaneceu me fitando. Ele parecia esperar uma resposta dela. E eu fiquei parada ali sem saber o que fazer.
— OK. Para cá, querida. — chamou o fotografo e sinalizou para que eu me deslocasse. Era à placa branca. Ele ligou uma das luzes quando me aproximei.
Já posicionada, olhei em direção à mesa de Denise. Ela não estava mais lá.
— Eu gosto de privacidade quando faço o meu trabalho. — comentou ele, percebendo que constatei a ausência da mulher. — Olhe diretamente para a câmera e faça o que achar melhor. Seja você.
O rapaz posicionou o aparelho à frente do próprio rosto. Eu apenas fitei o equipamento e continuei parada. Houve um disparo. Ele abaixou a câmera até o peito e pareceu visualizar o resultado. Em seguida, assentiu consigo mesmo.
Então, do nada, se deslocou até a mesa de Denise e arrastou a poltrona de rodinhas, pousando-a ao meu lado. Sinalizou para que eu me sentasse.
— Não olhe para a câmera desta vez. Fixe seus olhos em outro ponto. — demandou. Olhei à porta do escritório, imaginando se Denise aguardava do outro lado ou se foi dar um passeio.
Ouvi o disparo novamente. O tal Ricchard solicitou que eu me levantasse da cadeira para então sentar no chão. Solicitou também que eu abraçasse meus joelhos. Desta vez, até se aproximou e mexeu no meu cabelo antes de tirar outra foto.
A última vez que lembro de ter tirado alguma foto, foi quando precisei renovar minha carteira de identidade. Há uns 3 anos, se não me engano.
— Bem, terminamos. — anunciou, me ajudando a levantar. Aparentava estar animado, diferente de quando entrei no recinto. — Entrarão em contato com você em breve, selecionada ou não. Boa sorte.
— Obrigada. — Ele me deu espaço para caminhar em direção à porta e então me retirei.
Até que foi rápido.
Enquanto caminhava pelo corredor azul luminoso à recepção, recordei como a câmera posicionada em minha direção despertou uma sensação estranha.
Eu me senti diferente.
Acho que me senti... bonita. Pela primeira vez.
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