Oculta
27 Receio
— Então a gente passou pela torre e foi maaaaravilhoso! Ai, eu queria que você tivesse ido, mas ficaria de vela. — contava Wallace.
— Obrigada por me livrar disso. — O meu tom era irônico, mas realmente estava agradecida.
— Você e Beth andam se falando? — quis saber ele, esparramado no sofá enquanto comia um pote cheio de morangos com chocolate derramado por cima.
— Sim. — respondi, sentando-me na poltrona. Peguei o celular, desbloqueei a tela e verifiquei as mensagens. Não havia nenhuma nova de Bethany. Isso é desde ontem — mesmo eu tendo solicitado, quando me ligou, que enviasse uma mensagem mais tarde.
Eu e Wallace estávamos hospedados no mesmo apartamento. Por pedido dele mesmo, inclusive. Disse que não queria ficar solitário em um lugar como Paris. E, mesmo assim, já estava saindo com alguém que não era eu.
Aliás, mesmo sabendo que a ideia de permanecermos no mesmo lugar seria ruim, contando com o meu problema de insônia — que é obviamente mais complexo do que aparenta —, fiz seus gostos. O ponto benefício é: Wallace tem um sono extremamente pesado e nós, obviamente, não dormíamos no mesmo quarto.
Eu me sentia desgastada. Ricchard tem alertado sobre minhas olheiras estarem visíveis demais. Disse que haverá um momento em que não daria mais para disfarçar com maquiagem (e estava sendo irônico, pois daria sim, mas essa é a maneira que ele reflete estar preocupado). Mas só não tenho como ter um total bom sono. Muito menos depois de acostumar a dormir com a Bethany.
De alguma forma, ela acalmava as coisas, me mantinha relaxada a ponto de não conseguir ter os pesadelos. Uma vez ou outra, eu os tinha, mas Bethany estava ao lado para me fazer voltar a dormir. Mudar essa rotina de uma hora para outra me fez um mal terrível. Era por esse e outros motivos que eu gostaria realmente de voltar para casa.
Primeiro: sinto muita saudade. Nunca imaginei que usaria esse termo uma vez em minha vida, e agora uso e ainda o repito várias vezes.
Quero muito estar com Bethany.
— Denise deveria ter deixado ela vir. — comentou Wallace, distraído.
— Ela não deixou por causa dos estudos. É mãe dela, afinal. — murmurei, dando de ombros.
— Se conheço bem a história, mesmo tendo fugido, Bethany terminou os estudos. A mãe dela não pode confiar nela, não? — questionou ele, raciocinando. — Na verdade... A mãe dela confia nela mesmo?
— Eu não sei tudo sobre Bethany, Wall. — respondi, o olhando feio.
— Acho que não foi por causa dos estudos. — Ele deu de ombros. — Mas tudo bem, deixemos isso de lado... Vamos conversar sobre assuntos quentes!
— Ah, eu deixei meu sanduíche no micro-ondas. — lembrei, levantando-me e indo até a cozinha.
— Ô peste, não zoa comigo, não! — ouvi gritar e não resisti em sorrir. Não tinha posto nenhum sanduíche para esquentar. Foi mais para ignorá-lo mesmo. Mas aproveitei para tomar um pouco d'água, voltando para a sala em seguida. — Pensa que pode fugir?
— Não estou fugindo de nada. — murmurei, sentando-me outra vez na poltrona.
— Vai, me conta. Vocês já fizeram?
— Fizemos o quê, Wall? — resmunguei. Odiava sua curiosidade em nossa relação.
— O que duas pessoas fazem quando se gostam e são um casal, Mia? — perguntou com cara de tédio.
— Eu deixo você ser mais direto, se esse é o problema. — Franzi o cenho, não entendendo o reboliço.
— Senhor, dai-me paciência... — Ele fechou os olhos por um momento. — SEXO, Mia Delilah. Tô perguntando se vocês já transaram, caralho!
— Isso é pessoal. — respondi, desviando o olhar. Wallace começou a rir.
— Querida, tu não engana ninguém desse jeito. Rolou uma colação de velcro que eu seeeei. — comentou ele, me olhando com malícia. Eu franzi o cenho, não entendendo a sua expressão.
— O que diabos é "colar velcro", Wallace?
Wallace gargalhou como uma criança.
— Ah, meu pequeno embrião. Há tanta coisa sobre o mundo gay que você não sabe. — Ele meneou a cabeça. — Quer dizer, na verdade, sabe, né. Pelo menos o essencial, afinal, já teve relações íntimas.
— Mas eu não disse nada. — murmurei. Eu realmente queria sair desse assunto sem admitir nada, senão Wallace me perturbaria pelo resto dos dias.
— Vamos fazer um teste. Olhe nos meus olhos. — Ele se aproximou e parou agachado em minha frente.
Eu o encarei. Wallace me olhava pensativo, sem piscar. Até que, em um momento, pousou a mão na boca, me fitando surpreso.
— Perua, foi você que tomou a iniciativa? — questionou, mas pareceu mais afirmar, pois gargalhou com intensidade logo após. Eu franzi o rosto por inteiro, não o compreendendo.
— Como assim? Wallace, seja mais direto! — verbalizei, perdendo a paciência.
— Iniciativa do sexo, sua besta quadrada! — Eu o fitei de boca aberta. — Puta que pariu. Tô certo! Eu sabia! Sabia que tu não tinha vergonha pra essas coisas! Danaaaada!
— Para, Wallace. — Foi só o que consegui responder. Ele não parava de rir. Eu sentia o meu rosto quente.
— Me conta como foi! Quer dizer, não precisa contar tudo. — pediu, sorrindo de maneira meiga e cessando o riso. — Eu entendo dessas coisas. Não precisa ter vergonha, Miazinha.
Eu suspirei longamente. Não adianta, de alguma forma ou de outra, ele arrancaria isso de mim.
— Não é vergonha, Wall. Isso é pessoal.
— Meu amor, somos amigos ou não? — quis constatar Wallace. Eu apenas o encarei, sem dizer nada. Wallace continuou sorrindo, mas desviou o olhar. — Não entendo sua dificuldade pra se abrir. Se bem que, não é bem uma dificuldade... É como se você não quisesse. Como se tudo tivesse motivo pra dizer ou agir. É verdade, tudo tem um motivo, mas não quer dizer que eles sempre possam estar claros pra você.
— Por que está me dizendo isso? — questionei, sentindo-me tensa.
— Tá vendo? Você sempre quer um motivo. — comentou, dando risada. — Porque me importo com você. Se está se relacionando com alguém, quero que seja a pessoa mais feliz do mundo. Mas se vejo que pode se complicar, quero ajudar mesmo que você não peça.
Continuei o fitando sem dizer nada. Wallace levantou as mãos e deu de ombros, depois ficou de pé e começou a se afastar.
Eu me levantei então, o puxei pelo braço e o abracei. Não sei por que, não sei para que, mas achei que precisava fazer isso. Wallace pode ter seu jeito liberal, um pouco intrigante, mas a cada dia que passa, tenho mais e mais respeito por ele. E se importava comigo, me sinto realmente agradecida. E por mais que eu não perceba bem ou demonstre, me importava com ele também. E não era pouco.
— Ou eu sou velho demais ou você ainda é uma criança, Delilah. — riu Wallace, alisando minha cabeça com uma das mãos. Eu nunca percebi o quão alto ele era até agora. E muito corpulento.
— Obrigada, Wall. — agradeci um pouco acanhada, enquanto ele ainda acariciava o meu cabelo.
— Por nada, flor. — disse, me abraçando mais forte. — Agora pode contar o que rolou entre você e a Bethany, é obvio.
Eu me permiti rir. Esse era o Wallace Armand que eu conhecia.
XXX
— VOCÊ VAI O QUÊ!? — berrou Matheus ao telefone. Eu revirei os olhos, me apressando para chegar à fila.
— Sim, eu vou pra Paris. Pode anotar as coisas pra mim enquanto estou fora? Eu te pago. Acho que volto semana que vem...
— Mas, porra! Assim, do nada!? Você é doida de pedra, Bethany. Deus a tenha. — dizia ele, exasperado. — Eu anoto sim, querida. Não precisa pagar, não. Eu sempre anoto pra mim mesmo.
— Ai, você é muito lindo, Math! Sabe disso, não? Muito! E mande um beijo pra Agnes, tá? Tentei ligar no celular dela, mas tá fora de área...
— Ah, me diz uma novidade. Eu sou maravilhoso. — gabou-se, me fazendo rir. — Beth, são sete horas da manhã. Agnes não levanta essa hora nem fodendo. Ela deixa o celular desligado.
— Ah, agora tudo faz sentido. — comentei, ainda rindo, enquanto chegava a minha vez. — Eu vou indo aqui, Math. Se quiser, manda mensagem que respondo depois, tá?
— Beleza, gatinha. Boa viagem. Fala pra sua menininha que eu e a puta da Agnes mandamos um beijo! — Matheus fez um barulho de beijo na linha. Dei risada, lhe mandando um beijo também e encerrando a ligação.
Eu mal conseguia manter os olhos abertos. Estava com um sono miserável. Fazia muito tempo desde a última vez em que levantei tão cedo. O costume é uma droga.
Quanto tempo que não viajo? Nem lembrava de chegar mais cedo para fazer o check-in. Quase perdi o embarque por causa disso. Ainda comprei a passagem às pressas, li uns manuais mixurucas de viagens para lembrar de algumas coisas (é a primeira vez que viajo sozinha)... Acho que estou perdoada devido às circunstâncias.
Já dentro do avião, pus a minha bolsa no compartimento de cima da poltrona — a mala estava no bagageiro —. Era pequena, só contendo o meu celular, fones de ouvido, um livro, remédios e absorventes. Não estava em meus "dias escarlates", mas vai que me dá ansiedade demais, né.
A minha poltrona era ao lado da janela, então pude contemplar a grandiosidade daquela coisa. Porém, não olhei por muito tempo, pois dava um pouco de medo. E pensar que eu estava dentro daquele troço e que, em breve, ele estaria planando no céu... É surreal, apenas. Não importa quantas vezes eu vá nisso, sempre vou achar impressionante.
Uma das comissárias de bordo se posicionou no extremo do corredor e começou a passar as instruções. Eu prestei atenção, já que não lembrava de quase nada mesmo. Ela falou em inglês e em outra língua que não consegui identificar. Talvez francês, ou árabe... Sei lá.
Ajustei a poltrona pelo meio instruído enquanto um garoto, parecia ter treze ou catorze anos, sentou ao meu lado. Foi estranho. Normalmente, pessoas tão novas iam com os pais ou algo do tipo. Ou ele é bem mais velho do que aparenta.
Mas algo me fez prestar um pouco mais de atenção nele. Nada demais, na verdade. Ele estava de fones de ouvido, e a tela do celular mostrava a janela do aplicativo de música. Reconheci a capa de um de meus álbuns favoritos: Pure Heroine da Lorde.
— Que bom gosto, tenho que admitir. — Comentei sem querer querendo. O garoto tirou os fones e olhou para os lados. Eu sorri. Então ele captou que quem falou fui eu.
— Meus amigos dizem ser um pouco gay ouvir essas coisas. — comentou de bom humor. Tinha um sorriso muito fofo. Que lindinho!
— Concorda com eles? — quis saber eu, puxando conversa.
— Não, não. — Ele meneou a cabeça, rindo curto. — Eu sou gay, então não tem problema.
Acho que todo mundo dentro daquele avião deve ter ouvido a risada que eu dei após ouvir isso.
— Isso é bem ousado de se dizer para uma estranha. — comentei, pigarreando para parar de rir.
— É, né? É a primeira vez que faço isso. Eu me sinto muito bem agora. — murmurou, arregalando os olhos e assentindo consigo mesmo. Eu até perdi o sono.
Parece que terei uma boa companhia até Paris.
— É bom ser você mesmo, no fim das contas.
— Já tentou fazer isso, moça? — quis saber ele, me olhando com curiosidade.
— Acredite, eu... — murmurei, dando um suspiro. — tento fazer isso todos os dias.
XXX
— Tá atrasada, Mia! Caramba, não te acompanho uma vez pra se vestir e você se atrasa desse jeito? — reclamou Ricchard, me olhando feio. Wallace se aproximou, dando uma batidinha em seu ombro em consolo. Vestia seu ilustre terno totalmente branco, não lá muito discreto em comparação ao Richard, esse usando apenas um paletó azul em destaque ao resto da roupa preta.
Eu não usava vestido hoje, felizmente. Estava enjoada, sem dúvidas. Tentei dar o meu melhor, vestindo algo de acordo com o ambiente, que com certeza não era lá humilde. E, é claro, tive a ajuda de Wallace nesse processo.
Calçava saltos médios e pretos, vestia uma calça social leve da cor cinza chumbo, uma camisa de renda com mangas compridas verde florescente e o cabelo solto, sem mais detalhes. Wallace fez questão de me maquiar (nenhuma novidade por aqui) e, mesmo sem a minha aprovação, passou um batom de cor semelhante à camisa que eu usava. Ou seja, não me sentia nada discreta e, visando que era este o objetivo ao saber que Ricchard não me auxiliaria no vestuário essa noite, é claro que não obtive um resultado satisfatório no fim.
— Culpa minha. Conversamos demais. — comentou Wallace, sem deixar passar a chance de me enviar um olhar malicioso. Eu revirei os olhos e o ignorei, assim nos preparamos para entrar no estabelecimento.
Desta vez, veríamos um desfile. Não sei que tema seria apresentado, mas pode ser interessante, se comparado aos eventos que presenciamos durante a semana.
Logo nos encontramos com Denise. Ela usava um vestido carmim, um modelo que passava a sensação de leveza — liso e longo, e estava acompanhada do "alvo": Nathalie.
Wallace quase correu para cumprimentar a garota, já que não estava presente quando ela havia aparecido. Ricchard a cumprimentou em seguida e depois eu.
— Shalom, Nathalie. — [Olá] falei em hebraico enquanto oferecia a minha mão.
— Layla tov, Mia. — [Boa noite] cumprimentou Nathalie, sorrindo. Eu me permiti sorrir desta vez, já que a moça não demonstrou ser uma má pessoa, e Denise pediu para que eu fosse mais receptiva, de qualquer forma.
Nathalie soltou a minha mão ainda sorrindo alegremente. Hoje estava de vestido, um tomara-que-caia escuro, um tanto colado demais ao corpo — diria o tipo de peça que Ricchard me obrigaria a usar. Mas não ficou ruim nela. Também usava saltos, mas bem altos, fazendo-me até estranhar a sua altura quando fui cumprimentá-la. Não precisei abaixar a cabeça para fitar seu rosto como antes.
— Vamos, Delilah. Ainda temos que passar pelo tapete! — exclamou Denise, me puxando pelo braço. Eu franzi o rosto.
— Tapete? — questionei, tentando acompanhar seus passos. Ela esqueceu que estou usando saltos? Se bem que Denise também usava. A diferença era que eu não tinha prática alguma.
Mais à frente, ao passarmos por um corredor com aparentes agentes do evento e seguranças a postos ou indo de lá para cá, me deparei com um tapete extenso de cor vermelha posto ao chão. Onde estávamos antes, junto de Wallace e os outros, não havia muitas pessoas, e agora, eu ouvia tantos burburinhos que me senti incomodada.
Nos aproximamos mais. De um lado, jazia uma parede totalmente estampada com logotipos. Eu não consegui identificar de quem era por conta da distância — e porque também estava sem óculos. Do outro lado, divisórias barravam pessoas aglomeradas com câmeras e holofotes. Havia mais seguranças por ali também. Sinto já ter visto algo parecido na televisão, mas não faço a mínima ideia do que se trata.
— Eu ia te explicar direitinho, mas você chegou muito tarde. — começou Denise, ajeitando seu vestido. — Não olhe para as câmeras e nem pros holofotes, senão vai cerrar os olhos. Mantenha a postura reta e não sorria. Quanto ao resto, observe e imite.
Ao simplesmente jogar essas palavras na minha cara, Cortês se deslocou até o tapete. Logo, flashes dispararam; pessoas atrás das divisórias ficaram agitadas, observando-a e gritando coisas desconexas.
Ela andou até a metade do tapete para então se virar em direção às câmeras, colocando as mãos na cintura e mantendo uma postura elegante. Como uma enxurrada, muito mais flashes apareceram. Daí, caminhou ao fim do tapete e saiu da visão dos demais.
Neste momento, virou-se e me fitou, sinalizando para que fosse até ela. Eu respirei fundo.
Sinceramente, só não cometo um homicídio, pois, sabendo ou não, ela ainda era a minha sogra.
Aproximei-me do tapete e, com um frio na barriga, imitei o que Denise havia feito. Não sorrir seria fácil, já não faço isso com frequência. Andar com postura era uma prática normal, aprendi bem no começo da carreira e me acostumei.
Ao chegar ao meio do tapete, virei-me às câmeras. Agora entendi por que Denise disse para não olhar para elas. Eram tantos flashes que poderiam me cegar.
Fixei o olhar em um ponto acima dos aparelhos e, depois de alguns segundos parada ali, me desloquei ao fim do tapete, mas com um pouco de pressa. Sentia como se o meu coração fosse sair para fora do peito.
— Yaaay! Você pode tudo, garota. — parabenizou Wallace ao vir de encontro a mim e entrelaçou nossos braços. Não entendi ao que se referia, mas foi reconfortante tê-lo ao lado.
— Onde todos estão? — perguntei, não vendo nem Denise ou Ricchard por perto. Nathalie também não.
— Ah, já devem estar nos assentos reservados. Vamos pra lá rapidinho. Aliás... — Ele me fitou com mais atenção. — Você tá bem, Mia?
— Hãn? Sim, estou. — respondi, não entendendo sua preocupação. Sentia a garganta um pouco seca, então acabei tossindo.
— Hmmmm. — ronronou ele. Em seguida, bateu no ombro de um segurança próximo e sorriu. Ambos trocaram algumas palavras em francês, depois o moço se afastou, voltando com um copo d’água em mãos. Wallace o agradeceu ainda em francês, uma das poucas coisas que eu conseguia entender no idioma, e me ofereceu o copo.
— Cortês te sobrecarrega às vezes. — murmurou enquanto eu bebia.
— Foi minha culpa. Chegamos atrasados. — respondi, dando de ombros. — Vamos?
Wallace não disse nada, pegou o copo de volta, entregou a outro segurança, entrelaçou de novo nossos braços e me acompanhou.
Adentramos outro corredor, esse mais largo, de pouca iluminação, repleto de pessoas com roupas formais e mais seguranças em pontos aparentemente estratégicos. No fim, chegamos a um grande salão.
Tudo era claro demais, fazia os meus olhos ficarem irritados. Havia um palco na extremidade, uma passarela no centro e fileiras de poltronas contornando ao redor. Conseguimos encontrar a Cortês e companhia sentados bem próximos à passarela, já nos aproximando para sentar também.
Enquanto eles conversavam — claro, em francês, por conta de Nathalie, para variar —, permaneci observando o local. Estava bem decorado, mas sem exageros. A passarela era prateada, parecia brilhar com os reflexos dos holofotes. O palco, antes da passarela, não tinha nada em especial, mas estava apresentável. Um microfone permanecia posicionado no meio dele. A maioria das poltronas já estavam ocupadas, então imaginei que o desfile começaria em breve.
Ao sentir algo cutucar o meu ombro, me virei. Wallace me olhava com um sorriso descarado. Eu franzi o cenho estranhando o seu comportamento, até vê-lo entregar o meu celular. Havia pedido para que guardasse a mim, já que não havia trazido bolsa e não havia bolsos em minha vestimenta (novamente). A tela piscava com uma chamada para ser atendida; Bethany.
— Não seria bom atender aqui, certo? — ponderei.
— Atende, ué. Dependendo do que se trate, diz que não dá pra falar agora e pede pra mandar uma mensagem. — respondeu Wallace, dando de ombros e voltando a conversar com os outros.
Aceitei a chamada e pressionei o celular à orelha, tapando a outra com uma mão para abafar o som do exterior. O barulho dali não facilitaria.
— Querida, não é uma boa hora pra lig-
— Onde você tá? — perguntou Bethany, cortando a minha fala.
— O quê? — estranhei a sua pergunta e franzi o rosto. — Ainda estou em Paris. Especificamente em um desfile, no momento.
— Qual o endereço de onde você tá hospedada? — questionou. Agora entendi o objetivo de sua ligação, então fechei os olhos e respirei fundo.
— Bethany, você não vai fazer isso. Sabe que... — abaixei o tom de voz um pouco mais, mesmo sabendo que ninguém me ouviria com tanto barulho. — sua mãe ficaria muito brava.
— Certo. O problema é que eu já fiz. Vai dizer onde é ou vou ter que descobrir sozinha?
Eu fiquei muda. Não acredito.
Ela veio? Sozinha?
— Eu vou matar você, Bethany. — vociferei. Ultimamente, eu estava querendo matar várias pessoas.
— Isso não é coisa que se diga pra namorada. — comentou, mas eu sabia que queria rir. E, não sei por que, mas me senti leve, porém, ainda estava raiva. — Eu tô no aeroporto e não sei falar francês.
— Sinceramente, como consegue ser tão idiota? — O limite foi extrapolado. Eu estava irritada. Realmente. Tanto que Wallace se virou para mim, provavelmente estranhando o meu tom. — Nem se preparou para isso!
— Mia, só não mando você tomar naquele lugar porque sou eu que teria que fazer isso. — disse Bethany em tom grosso. — Endereço?
— Eu vou mandar uma mensagem. Tchau, Bethany. — Desliguei sem esperar sua resposta.
— Algo sério? — perguntou Wallace, curioso. Entretanto, sua atenção voltou ao palco, quando uma mulher se apresentou. O salão se tornou silencioso de imediato.
— Parece que teremos uma convidada em breve. — murmurei baixo próxima a Wallace. Ele me fitou boquiaberto, entendendo o que quis dizer.
— Olha, vou admitir. — murmurou em tom baixo também, dando um tapinha na minha coxa. — Sou fã número um da Bethany.
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