Oculta

16 Paciência


O que diabos aconteceu?

Eu estava perplexa, extasiada e meus punhos doíam. Ouvi Harris e Kiara miarem de algum canto do apartamento, mas isso só captou a minha atenção por um instante.

Por que foi embora? Estava brava? O que queria que eu fizesse?

Eu não entendi nada.

Aquilo foi incrível. Só de lembrar, eu começava a me excitar de novo.

Mas por quê? Por que fez isso? Tinha dito que se sentia mal com essas coisas.

Ela estava tão diferente. Autoritária, fria enquanto me... Você sabe. Isso deixou tudo tão carnal. Estou arrepiada.

Eu precisava retribuir. Nem que tenha que imobilizá-la também. E o que diabos foi aquilo? Parecia já ter praticado algum tipo de arte marcial para autodefesa. Wow.

Estou muito curiosa, meu Deus. Pude ter uma casquinha, mas sequer foi suficiente.

XXX

Minhas mãos tremiam.

Como pude?

Jurei que não faria aquilo com mais ninguém. Era errado. Mas...

Eu a queria tanto.

Imaginava como eram seus gemidos e poder finalmente apreciá-los foi tão... gratificante. Vê-la implorando para soltá-la foi igualmente gratificante.

Eu só não queria que me tocasse. Não sei o que aconteceria se lhe desse tal abertura. Tinha medo de... desmaiar de tanto nervosismo e deixá-la desesperada.

Não me aprecia ser tocada assim. Não mais.

Entretanto, o que adianta fazer um esforço tão grande para não a deixar tocar se, quando fala comigo, já parece estar me tocando?

Estou com raiva de mim mesma.

Não deveria ter deixado que prosseguisse. Não deveria.

Quando me beijou pela primeira vez, resisti em corresponder ao menos de início. E agora, elogia, sorri daquele jeito diferente e me toca sempre que tem oportunidade. Isso acaba comigo.

O jeito que me olha é um pedido para tirar sua roupa.

Por que tem que ser assim? Como pode ser tão... deliciosa? A minha vontade era de... Não, não. Eu não posso fazer isso também.

Eu tenho que me controlar.

Isso nunca aconteceu. Sempre tive controle sobre este tipo de coisa. Mas, tratando-se dela, me perco completamente. Não sei se é porque é uma mulher, mas talvez isso também me excite mais. Eu não sabia que poderia sentir uma atração tão grande por uma análoga.

E não nego ainda ansiar voltar ao seu apartamento e transar até o cansaço surgir. Eu queria acabar com ela. Satisfazê-la até dizer pare e eu negar, depois pedir que eu continue, continue, continue, continue, Delilah, continue...

Instiga-me até o jeito que pronuncia o meu nome.

Estou prestes a ter um colapso.

Não pense nela. Não pense nela.

Não pense em como seu corpo é macio e como quer beijar cada centímetro dele. Não pense em como ela fica quando está excitada. Ah, é linda quando está excitada. Eu quero ver de novo.

Não, não, não, você não pode.

Não pense em como sua boca é branda e como beija bem. É como se sua boca fosse feita só para eu beijar.

Desgraça. Não, não, não. Não!

Fitei minhas mãos. E pensar que uma delas fazia algo tão obsceno minutos atrás, agora tão inofensiva. Ainda havia aquele líquido viscoso entre meus dedos.

Não me tentei a lambê-los. E eu deveria achar nojento, mas não conseguia, pois já fiz coisas piores. Mas não tinha gosto de nada — infelizmente. Mas me conformei. A essência de Bethany não deveria ser tão facilmente coletada mesmo.

Meu fôlego parecia descontrolado (outra vez). Belisquei-me e fitei o abajur de meu quarto como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Eu precisava me distrair e assim acalmar.

O abajur era feito de madeira polida. Sua superfície enfeitada por flores que eu mesma desenhei. Quando ligado, os desenhos faziam sombras pelo meu quarto. E eu adorava este efeito.

Suspirei longamente, depois levantei e fui ao banheiro. Tomei um banho rápido e voltei ao quarto, vestindo um pijama e deitando-me novamente.

Limites. Foi o que impus e quebrarei.

Mas e se, na verdade, eu não tenha como controlar isso?

E se sequer for necessário?

XXX

Já era quase hora de ir à aula e nem sinal de Mia. Caramba, vou ter que alimentar a Kiara também. Não que eu não adore Kiara, mas não era a minha gata. Bem, podia ser, mas aí eu teria que comprar mais ração e um potinho novo. Então, Harris terá de dividir o seu hoje.

Pus a refeição e os dois se esbarraram para enfiar o focinho no recipiente e comer. A minha sorte é que estavam se dando bem. E mesmo visualizando tal cena fofa, bufei. Argh.

Por que não podia ter um celular? Se bem que, se tivesse, provável que não me atenderia.

Por que teve que sair daquele jeito? Poxa, não tinha necessidade.

Eu bati por toda a tarde na porta de seu apartamento e não consegui nenhuma resposta. Mas talvez estivesse no trabalho ou sei lá.

Bem, que seja. Minhas responsabilidades prosseguem de qualquer forma. Então, um pouco entediada, antes de sair a caminho da faculdade, mexi em minhas redes sociais pelo celular. Mas estranhei a quantidade de notificações do Facebook.

Ah, é. Hoje é o meu aniversário.

E super normal esquecer do próprio aniversário. Putz...

Eu estava tão submersa em Mia que nem lembrei.

XXX

As primeiras aulas foram um porre.

Eu tentava agir com naturalidade, mas minha cabeça estava recheada de Mia, Mia, Mia. O que essa garota colocou em mim? Feitiço? Era sufocante.

— Menina, se não fosse o face, eu não ia fazer ideia. — comentou Agnes, rindo. Eu ri também. A maioria só lembra de aniversariantes por lá mesmo. E conheço Agnes há pouco tempo. Está perdoada. — Vai fazer algo hoje?

— Na verdade, não sei. — disse antes de dar mais uma mordida em meu lanche. — O que se faz aos dezessete anos?

— Ai, que saudades dos meus dezessete. — murmurou Matheus, abanando com as mãos. — Foi a época que me assumi.

— Deu muito? — soltou Agnes. Eu ri alto. Meu Deus, ela é uma peste.

— Até que não. — respondeu Matheus, descarado. — Mas só sou passivo quando o cara é realmente um pitel, meu amor.

— Nós já não temos muita opção. — comentou Agnes, fingindo-se de deprimida.

— Oh, pobres garotas hétero. — lamentou ele, meneando a cabeça. — Mas colar um velcro de vez em quando não tem problema.

— Ah, não. É fora da minha zona de conforto. — respondeu Agnes, fazendo careta. — E você, Beth?

— Eu? — indaguei, engolindo um seco. Senti até meu rosto ficar quente. O que respondo? Nunca pensei em me assumir definitivamente.

Mas Agnes e Matheus não me fitavam mais, e sim algo detrás de mim. Entretanto, antes mesmo de virar, eu tinha a sensação de saber de quem se tratava.

Nos encaramos por um momento. E não foi uma boa ideia.

Porque lembrei daquilo. Ai, droga.

— Olá. — cumprimentou Mia, dando um pequeno aceno à Agnes e Matheus.

— Resolveu aparecer? — perguntei, direta. Ah, não pense que eu esqueci, querida.

— Sim. — respondeu indiferente, sentando-se ao meu lado. — Desculpe.

Eu fixei os olhos nos seus e fiquei assim por um momento. Depois desviei, pois lembrei que tenho educação e deveria apresentá-la aos meus amigos.

— Mia, esses são Agnes e Matheus. — indiquei com a mão, sorrindo meio cínica.

— Oi! — cumprimentou Matheus, empolgado. Ele se levantou e deu um beijo amigável na bochecha de Mia. Era típico dele, mas admito que senti um pouco de ciúme. Agnes a cumprimentou da mesma forma.

— Você cursa aqui? — perguntou Agnes, curiosa. Seus olhos não desviavam de Mia. Por Deus, garota. Você não acabou de dizer que não era sua zona de conforto!?

— Sim. — respondeu Mia, educada.

— A gente nunca te viu por aqui. — comentou Matheus, estranhando.

— Ela não cursa o mesmo que a gente. — expliquei, olhando de soslaio para Mia. Ela me olhava também e não liguei em demorar para desviar.

— Sério? Mas pera, velho. Eu te conheço de algum lugar. — comentou Agnes de repente, cerrando os olhos.

— Conhece? — questionou Mia, confusa.

— Não, digo, não de conhecer, mas de já ter te visto em algum lugar. — tentou se explicar ela. — Mat, lembra daquela revista?

— Eita, é mesmo! — exclamou Matheus, tapando a boca em seguida. — Você é a aquela garota da revista! Putz, bem que não me era estranha!

Captando tais constatações, fitei Mia para ver sua reação. Parecia surpresa — mesmo sendo só eu a perceber isso. Será a primeira vez que a reconheciam como modelo?

— Cara, você é modelo da Cortês! Fala sério! Sabe o quanto é sortuda!? — dizia Agnes, empolgada.

— Sei. — respondeu Mia em seu jeito mais Mia de ser, fazendo-me soltar uma risada sem querer.

— Ah, mas, por favor, né. Se não fosse, seria um desperdício. Você é muito gostosa. Desculpe, tive que dizer. — atirou Matheus em tom obvio. Eu o olhei perplexa. Agnes gargalhou.

— Não liga, ele fala assim mesmo. — Agnes tranquilizou.

— Não sei se me sinto confortável em agradecer. — Mia admitiu. O resto de nós gargalhou sem pudor com tal resposta. A sinceridade dela é maravilhosa.

— E ainda é puritana! Não creio. Beth, onde compro uma igual? Nunca te pedi nada. — suplicou Matheus, fazendo gracinha. Eu revirei os olhos.

— Achei essa aqui na sorte. — respondi rindo, dando um leve tapa na coxa de Mia. Eu fazia isso às vezes, não era nada demais, era só para indicar a pessoa, como apontar um dedo e tudo mais.

Só que não foi uma boa ideia fazer isso em Mia. Céus.

Maldita tensão sexual.

Não consegui nem puxar a minha mão de volta. Quer dizer, eu não queria puxar de volta. Mia permaneceu quieta, mas seu olhar pousava na mão que jazia em sua coxa.

— Meu! Aquela edição da semana passada foi BA-PHO! Eu amei cada peça. Aquela que você vestiu era maravilhosa também. Só que, tipo, você é bem mais comportada na real e isso é uma surpresa... — começou Agnes, falando pelos cotovelos.

Comportada? Oi?

Acabei de me dar conta que nunca vi nenhuma fotografia profissional de Mia. E, poxa, se curiosidade matasse...

— Não posso opinar sobre as roupas que visto para as fotos. Não vestiria nem metade se o caso.

— Você não gosta das roupas da Cortês!? — Agora Agnes a olhava indignada. — Como pode conviver com isso!?

— Não é que ela não gosta. — defendi, e sem querer acabei alisando a coxa de Mia. Não que eu não tenha gostado, mas sei que ela não gosta disso. Ou gosta? Nem tenho certeza depois de ontem. — A Delilah só não gosta de roupas que mostrem demais.

Não resisti, continuei a alisar. Subi até perto de seu quadril e desci, depois fiquei repetindo isso enquanto ouvia Agnes tagarelar sem parar sobre a Cortês e via Matheus discordar ou concordar ávido como ninguém.

De repente, Mia pousou a mão em cima da minha, me fazendo parar. Eu entristeci na hora. Deixa eu fazer isso só mais um pouquinho, Delilah.

Então ela continuou com a mão por cima da minha. Eu já não ouvia o que Agnes ou Matheus dizia. Acabei direcionando o olhar para Mia, que também me fitava. E estávamos meio próximas...

Subi... desci. Desci até um pouco depois do joelho e subi de novo. Pude perceber sua respiração pesada pelo movimento mais vagaroso do peito.

— Por que foi embora? — cochichei um pouco hesitante, só para que ela ouvisse.

— Preciso conversar com você. — respondeu no mesmo tom e parou com os movimentos. Mas entrelaçou nossos dedos. — Preciso conversar com você. — repetiu.

Eu assenti. Agora eu estava preocupada. O que foi desta vez?

Quando voltei a olhar para Agnes e Matheus, ambos nos fitavam com uma atenção exagerada.

Ô merda.

— Beth, você não vai mesmo fazer nada hoje? — questionou Matheus com seu olho de águia. Já deve ter catado a lança do que rola entre mim e Mia. Ô caralho!

— Tem que comemorar seu aniversário de alguma forma. Pelo amor, né. — disse Agnes, revirando os olhos.

— Seu aniversário? — murmurou Mia em tom questionador.

— É... É hoje. — murmurei, sem graça. Bom, eu nem ao menos lembrava dele mais cedo.

Ela estava pendendo a cabeça para o lado. Ai, Deus. Dai-me força para não a beijar...

Mas ela fez isso por mim.

Socorro.

Mia me beijou em público.

Ela me beijou em público.

— Espere na saída, OK? — sussurrou a milímetros do meu rosto. Em seguida, sem esperar uma resposta, levantou e saiu andando. Segui a sua silhueta de costas com os olhos e boca escancarados até que desaparecesse pela saída da praça de alimentação.

Voltei o meu olhar para a mesa. Não sei, mas senti uma súbita vontade de rir. Agnes e Matheus me fitavam mais escancarados que nunca.

— Amiga, temos MUITO o que conversar. — deixou claro Matheus, gargalhando. — E eu pensando que era enrustida, mas pelo jeito tá bem avançada!

— Ah, cala a boca, Mat. — esbravejei, mas escondi o rosto nas mãos. Ai, que vergonha, cara.

Não que eu tenha vergonha de Mia, mas era uma vergonha normal por beijar alguém assim — ainda mais na frente de amigos. Eu nunca fui de beijar em público. Muito menos uma mulher em público.

Mas eu estava tão fudidamente feliz. Meu coração batia a mil por segundo. Eu não acredito que fez isso. E como faz e age tão naturalmente?

Maldita caixinha de surpresas.

XXX

Quando passei pelo portão de saída da faculdade, vi Mia parada perto de seu carro preto azulado que, admito, não cheguei a reparar muito nas outras vezes, era bonito e discreto, combinava com o perfil de Mia.

Dei tchau para Matheus e Agnes que me direcionaram um olhar muito malicioso em contrapartida, mas ignorarei.

— Para onde quer ir? — perguntou Mia ao me aproximar. Eu fiquei surpresa. Iria me levar aonde quer que eu quisesse? Uau.

Ia abrindo a boca para responder, mas meu celular começou a tocar bem na hora. Mia indicou para que eu atendesse. Mexi na minha bolsa e tirei o aparelho de dentro, meio sem jeito.

Na identificação da chamada jazia “Mãe”. Bom, levando em conta que é uma pessoa bem ocupada, imaginei que ligaria um pouco tarde para me dar os parabéns.

— Oi, mãe. — falei ao atender.

— Oi, meu amor! Tem como dar uma passada aqui em casa pra eu te dar um parabéns digno, hein? — perguntou ela, animada.

— Oh, como você é fofa. — respondi, dando risada. E era mesmo. — Mas eu ia fazer uma coisa agora, mãe. Talvez eu passe mais tarde, pode ser?

— Vai me trocar pelos namoradinhos de novo, dona Thany? Você não muda mesmo!

— Ah, mãe. Menos, por favor. — revirei os olhos, mas ouvi sua risada do outro lado da linha. — Não estou com nenhum namoradinho. Estou com a Mia.

Ah, merda. Isso ficou meio estranho de falar para a minha mãe.

Olhei para Mia. Estava parada me observando com o olhar tranquilo e meio curioso.

— Com a Mia? Ai, que ótimo! Você pode passar pra ela? Rapidinho! — pediu Denise.

— Ahn... Tá, acho que sim. — respondi, incerta. Se contarmos com o fato de que Mia não tem celular, seria normal minha mãe aproveitar uma oportunidade para falar com ela. Mas, bem, a situação ainda era estranha. — Ela quer falar com você. — falei para Mia, que franziu o cenho. Entreguei o celular em seguida.

— Pode falar. — disse ao aproximar o aparelho do ouvido. Sua feição continuava indiferente. — Certo, mas isso não me é confortável. Não gosto dessas coisas, você sabe... Isso não funciona comigo, Denise... Agora reclama por não lhe chamar de Cortês?... Não, não, deixa ele... — murmurava, mas, depois desta fala, Mia bufou e respirou fundo. — Sim. Não. Sim. Sim, estou... OK, tudo bem... Entendi, entendi, acalme esses nervos... Não, Denise. Não vou querer. Você não quer falar com ela?... Está bem. Até mais.

Após, Mia me entregou o celular de volta. Verifiquei a tela e vi que a minha mãe encerrou a ligação. Que droga de conversa foi essa que não consegui distinguir nem um pouco o assunto?

— O que ela disse? — perguntei, confusa.

— Eu vou precisar passar na agência e, como você está comigo, ela pediu para te levar até lá. Digo, até a casa dela. — respondeu. Seu tom de voz soou estranho.

Ah, valeu, mãe. Estragou a minha noite. Por que eu não disse que estava com uns dos “namoradinhos”? Ou melhor, por que eu não disse que estava com a minha namorada? Se bem que, nem ao menos oficializamos isso. Se é que vamos oficializar.

— Você vai demorar? — perguntei, cabisbaixa.

— Talvez. — disse e desviou o olhar. Acho que até ela se sentiu mal por isso. — Tentarei não demorar. Pode ser?

Eu só assenti, meio derrotada. Mia abriu a porta do passageiro e indicou para que eu entrasse, já caminhando ao lado oposto e sentando-se no assento de motorista. Quando eu fechei a porta e coloquei os cintos, ela ligou o carro e fez a baliza enquanto programava o GPS.

— Desde quando você dirige? — questionei, puxando assunto. Até o clima parecia meio depressivo dentro do carro.

— Desde os treze anos. — respondeu, intermediando o olhar entre a rua e eu. — E você?

— Eu já pratiquei algumas vezes. — respondi, engolindo um seco. — Tenho um pouco de medo. Mas, das vezes que tentei, foi um desastre.

— Não se aprende de uma hora para outra, mas não é um bicho de sete cabeças. Posso lhe ensinar, se quiser. — ofereceu-se. Mia me ensinando a dirigir? Certamente é algo que eu não rejeitaria.

— Se for paciente pra ensinar alguém sem o menor senso de direção... — murmurei, dando uma risada curta.

— Sou paciente para muitas coisas. — respondeu. Seu tom era puro, mas não consegui não pensar em outras coisas.

— Sei em quais coisas você não consegue ser paciente. — comentei baixinho e comecei a assobiar para disfarçar.

— Eu ouvi isso, Bethany.

— A intenção era essa, Mia.

E ficamos em silêncio daí. Para ajudar no prolongamento de tensão no ar, nos deparamos com um congestionamento que não consegui imaginar de onde diabos surgiu. Praticamente, andávamos um palmo por minuto. Ótimo.

— Você é muito imprudente. — murmurou.

— E devo ser prudente com o quê? — questionei, arqueando uma sobrancelha.

— Você me faz ser imprudente. — Ela bufou. — Isso lhe torna imprudente. Não quero fazer aquilo com você de novo, Beth.

— O quê!? — berrei sem querer. Certo, agora estou desesperada. — Por que não? O que fiz de errado, Delilah? Só porque prometi que íamos devagar? Olha, desculpa. Sei que não foi legal quebrar isso, mas você também não é santa. Podia ter parado na hora. Eu não te forçaria.

— Não dá para simplesmente parar. — retrucou Mia, olhando nos meus olhos. — Tem uma parte de mim que não pode sentir essas coisas e você a cutuca sempre. Não consegui ignorar da última vez.

— E o que tem de tão ruim nisso!? — esbravejei. — Mia, qual o problema, afinal? Eu não vejo problema nenhum em fazer sexo com você. Meu Deus, eu não vejo problema mesmo. Você tá tornando tudo uma bola de neve. Então pergunto: por quê?

— Bethany, eu não faria sexo com você de outra forma, entende? Percebe onde estou tentando chegar? — tentou esclarecer.

— Espera aí. Tá dizendo que... se fossemos fazer de novo... — comecei a processar o que disse. — Seria daquele jeito? Eu não te tocaria? É isso que você quer dizer, Mia?

Ela não me respondeu. Agora estou querendo chorar.

Não, por favor.

— Mas... eu não aguentaria assim.

— É isso ou nada. — respondeu em tom cru.

— Eu não tô entendendo, Delilah. — indaguei, meneando a cabeça. — Você... Hoje, no intervalo... você me deixou te tocar. Qual a diferença?

— A diferença é que eu estava vestida.

Ah, fala sério. Não sei por que, mas comecei a rir depois de ouvi-la afirmar isso.

— O que é engraçado, Bethany? — questionou, franzindo o cenho.

— Você me quer. Eu sei que quer. — afirmei da maneira mais ousada que conseguia. Se é que nossa conversa já não estava infame antes.

— Não lembro de dizer o contrário. — assegurou, desviando o olhar só para virar a rua, finalmente nos tirando daquele bendito engarrafamento.

— Eu proponho um desafio, então. — murmurei e sorri comigo mesma. — Se, caso aja algum momento de nós... querermos... — Insinuei aleatoriamente com as mãos. — E você ceder, vai me contar tudo.

— Contar o quê?

— Sobre o que aconteceu com você. — respondi em um fio de voz. Mia não respondeu de imediato. Vi, de relance, suas mãos ficarem mais firmes no volante. Temi que fosse rejeitar a minha proposta.

— Não é uma boa ideia me desafiar, Bethany.

— Se te desafiar me fazer acabar como da última vez, então é uma ótima ideia. — respondi descaradamente.

— No fim é tudo sobre prazer, não é mesmo?

— Claro que não! — respondi, batendo as mãos nas coxas. Estou indignada. Como pode achar que só quero sexo!? — Se fosse só isso, eu não teria dito pra me soltar tantas vezes.

— Você está solta agora. — murmurou, sem me fitar.

Se isso foi uma sugestão... Eu não poderia fazer nada, pois Mia estacionou em frente ao portão da residência de minha mãe no mesmo instante. Mas algo tomou a minha atenção em seguida.

Nenhum segurança solicitou que nos identificássemos pelo interfone, protocolo normalmente seguido. O portão simplesmente se abriu para nós.

— Você vai pra agência, não vai? — questionei ao perceber que teria sido mais fácil se eu tivesse saído do carro antes, assim Mia não precisaria entrar e tomaria logo o seu rumo.

— Sim, mas Denise quer conversar comigo pessoalmente antes. — respondeu Mia. Estava um tanto distraída. Acho que não é uma boa ideia conversar enquanto dirige.

Mas logo saímos do veículo e subimos para o Hall de entrada. Não vi nenhum funcionário, aliás. Isso era super estranho. Sempre tinha alguém para recepcionar. Nem que fosse a Angela, e olha que ela era só cozinheira.

— Mãe? — chamei alto. Sem resposta. Caminhei ao corredor que dava acesso à enorme sala de estar. Olhei para trás para constatar se Mia vinha em meu encalço, e lá estava ela, silenciosa como um gato.

Mas eu não conseguia visualizar uma luz vinda da outra extremidade do corredor. Certo, isso era muito mais estranho. Não há porquê para apagar as luzes de cômodo algum nesta casa/mansão. Sempre havia pessoas por aqui. Minha mãe tinha vários domésticos. Sério. Estava tudo tão escuro que estremeci.

Tá, eu não gostava de escuro. E daí? Vai me processar?

Ao chegar ao cômodo, uma luz se acendeu de repente.

— SUUUUURPREEEEESAAAAAAAAA!

Levei um susto tão grande com o coro que quase cai. Se não fosse Mia me segurando por trás, eu teria pagado um grande mico. Logo ouvi risadas estridentes e vislumbrei os presentes no recinto.

Eu conhecia todos aqueles rostos. Amigos da antiga escola, amigos do curso, primos, tios, avós, meus irmãos. Até meus amigos de Sheepshead! Poxa, velho!

Uma loira saiu do meio daquela aglomeração de pessoas, ou seja, claramente, minha mãe, enquanto ria sem parar. Encarei seu rosto e só consegui menear a cabeça. Enganou direitinho. Mas, espera aí...

Foi a Mia que me trouxe.

— Você sabia, não sabia!? — acusei, virando-me para ela. Mia tinha a feição tranquila. É claro que sabia.

— Eu não sabia de nada. — defendeu-se, falhando cruelmente em mentir.

Eu cruzei os braços, fingindo estar zangada. Mas não consegui ficar assim por muito tempo. Meu sorriso estava tão largo que era capaz de rasgar o meu rosto! E isso não é uma coisa muito boa de pensar, aliás.

— Muito obrigada, Delilah. — agradeceu minha mãe à Mia. Ela assentiu apenas. Denise colocou as mãos em meus ombros e virou-me na sua direção.

Ela vestia algo simples (raridade). Vestido cinza liso, saltos altos pretos nos pés, mas obvio, naturalmente glamorosa.

— Parabéns, meu amor. — disse e me abraçou forte. Sorrindo como uma boba, também a abracei. — Muito sucesso, felicidade e que você continue sendo essa garota maravilhosa que é e que eu ainda possa ter muito orgulho de você, meu anjinho!

— Own! Obrigada, mãe! — agradeci, dando-lhe um abraço mais apertado ainda.

Após isso, todos vieram me parabenizar. Meus parentes, que eu não via há tempos, deram um abraço rápido e aquelas velhas falas: “Olha só o quanto você cresceu!”... Já meus amigos da antiga escola pularam em cima de mim, me abusaram de alguma forma para depois abraçar e dizer que estavam com saudade. Bem, admito que também estava.

Quando foi a vez de meus amigos da escola de Sheepshead, Clarissa, Christopher e Julian, quase gritei. Era tão bom revê-los! Não os via desde que voltei a Nova Iorque, então, colocamos o assunto em dia.

Clarissa está cursando Gastronomia, por mais estranho que seja, para mim, ter conhecimento disso, afinal, nunca vi tal interesse vindo dela. Mas, comida é vida!

Julian está fazendo um cursinho e quer fazer intercâmbio, pois não se vê fazendo faculdade no momento. Já Christopher ainda está no Ensino Médio, porém, em seu último ano. Bom, não é todo mundo que entra adiantado na escola. E eu tive meus malefícios.

— Meu Deus, estamos muito universitárias, nossa! — exclamou Clarissa, me fazendo gargalhar.

— Arrasar é a tendência, meu amor. — falei e fiz pose. Os três riram.

— A gente tava morrendo de saudades! Quase enfartei quando sua mãe ligou e disse sobre a festa! — comentava Julian, empolgado.

— Nossa, mas como a minha mãe achou o número de vocês? — perguntei, intrigada.

— Facebook! — ouvi alguém gritar. Deduzi que fosse a Denise. Que vergonha alheia.

— Suspeitei desde o princípio! — gritei de volta, rindo.

— Então, Beth, vamos conversar um pouquinho. — murmurou Julian e se aproximou, como se estivéssemos em uma conversa "totalmente" privada, depois fitou algo detrás de mim. — Quem é aquela gata que chegou com você? Porque, sinceramente, não pode ser a Mia.

Lá vem. Mais um para a lista de “pessoas que tenho que dar um fim porque acham a Mia bonita”. Anotado!

— Sim, é a Mia. E tire os olhos, por gentileza. — pedi, dando uma risada falsa.

— Ué, mas... — murmurou Julian, mas depois me olhou de boca aberta. — Não me diga que você- Beth, sua safada!

— O quê!? Eu não sou safada!

OK, eu era sim.

— Ué, não entendi. O que houve? — questionou Clarissa, confusa, intermediando o olhar de mim para Julian. — Espera. Ah. Meu. Deus. É sério!?

— Gente, tô perdido. O que tem entre a Mia e a... Opa, agora entendi. — disse Christopher, arregalando os olhos.

— Ah, por favor, gente. Não fiquem tão perturbados. — pedi, revirando os olhos. Espero que não sejam homofóbicos nem nada.

— Deus perdoa as gatinhas. A Beth não. — disse Julian, tirando sarro e gargalhando sem parar. — Putz. Não acredito. Mas dava pra imaginar que algo acontecia entre vocês. Vocês eram muito inseparáveis.

— Mas isso foi antes ou depois de Bryan? — questionou Christopher, mas levou uma boa cotovelada de Clarissa.

— Tá tudo bem, Clary. — murmurei, dando um meio sorriso. — Diferente de Bryan, nunca fui infiel nem nada, Chris. — respondi, mesmo nunca tendo tido tal conversa com nenhum dos três. Em um reflexo, olhei para trás e procurei por Mia. Ela estava perto da porta que dava à varanda, conversando com um moreno alto bem musculoso que não lembro de ter conhecido. — Mas é recente. E não é oficial, então não exagerem. Na verdade, nem ao menos me assumi, então... Mantenham entre nós, por favor.

— Minha boca é um túmulo. — assegurou Julian e assentiu num frenesi.

— Acho que fez uma boa escolha, Beth. Além de bonita, Mia não aparenta ser uma má pessoa. Espero que dê tudo certo entre vocês. — desejou Christopher. Ele tinha o jeito incrível de falar coisas maravilhosas nas horas certas. Acho que era um dom.

— Ah, Chrriiiss!!! Vem cá! — falei, dando-lhe um abraço sufocante. — Obrigada, fofuxo!

— Queridos, tem comida à reveria pra vocês na mesa. Fiquem à vontade. — Denise alertou ao chegar na roda, mas logo voltou a recepcionar os outros convidados, já que eu só queria saber de conversar com os meus amigos. Os três meio andaram e correram até uma mesa posta ali só ao evento, cheia de guloseimas e salgados para dar e vender. Eu ri enquanto via a cena.

A festa não era aquela coisa exagerada, é sim mais para não deixar o dia passar em branco mesmo. E adorei isso. Nunca fui muito de festas de aniversário. Minha última foi aos dez anos, acho. Até deixei passar a de quinze, mas só porque já não falava com a minha mãe na época. Senão, tenho certeza que Denise teria me obrigado a ter uma.

Girei o olhar pelo local novamente e encontrei Mia ainda conversando com o moreno alto que, com certeza, eu cogitaria pegar em outras eras. Mas só se não tivesse algo melhor, por exemplo: a própria Mia.

Eles estavam encostados em um balcão de bebidas. E estavam meio próximos. O que tanto conversavam, afinal? E por que tão próximos?

Meus ciúmes estavam descontrolados, eu sei. Mas, ao menos, não demonstrava isso corporalmente. Eu acho, na verdade.

— Bem que você podia apresentar a sua amiga, né, Beth. — ouvi alguém dizer. Revisei os olhos de imediato.

Era Jason, um de meus irmãos. Ele era um assanhado. Diferente de Michael, o mais velho de nós (ser a caçula é um saco, aliás), muito reservado, Jason vivia dando em cima das minhas amigas.

Porém, no geral, eu adorava Jason. Tínhamos o senso de humor parecido e éramos parecidos na aparência.

Ah, outra coisa: nunca gostei de me referir a eles como “meios-irmãos”. Convivi o suficiente para que este termo deixasse de ser válido.

— Das poucas das minhas amigas que ficaram com você, não durou nem duas semanas. É melhor nem tentar nada com Mia. Não gaste suas energias, Jay.

— Desculpe, mas sou irresistível. Aposto que consigo o número dela fácil, fácil. — declarou, dando uma piscadela para mim. Eu suspirei alto. Metido era o seu sobrenome, pena que não literalmente.

— Boa sorte. Ela nem tem celular.

— Quê? Como assim? Como uma pessoa viva, com um cérebro, um coração, jovem, linda, não tem um celular!? — indagou perplexo. Está aí algo que eu concordava plenamente. — Como conversam? Linha telefônica mental?

— Qual é a besteira da hora? — questionou Michael ao se aproximar com o seu ar intelectual.

Michael era bem diferente de mim e Jason, tanto em personalidade e aparência. Ele era bem mais alto — e olha que todos nós tínhamos uma estatura que ultrapassava o mediano. Cabelos pretos, olhos escuros e carranca muito parecida com a do nosso pai. E relembrar disso acabou me deixando amargurada.

Nem no meu aniversário quis falar comigo...

— Besteira nada. Só estava relembrando à Bethany o quanto sou charmoso.

— Oh, desculpe. Estou com a memória péssima ou tal fato jamais existiu? — questionei. Michael riu alto.

— Recalque bate e volta, querida. — respondeu Jason em sua péssima imitação de gay afeminado, porém, eu ri assim mesmo. — Sério, apresenta pra gente. Ela parece ser legal.

— Ela quem? — questionou Michael, perdido.

— Mia, a garota que me trouxe. E por que eu apresentaria pra vocês? Não tem lucro nisso.

— Lógico que tem. Ela vai conhecer pessoas maravilhosas. Você não quer que sua amiga conheça pessoas maravilhosas, Beth? — questionou Jason, fazendo manha. Eu revirei os olhos.

— Ela me conhece. — respondi e fiz a pose mais convencida possível, depois afastando-me de meus irmãos abestados e indo sorrateiramente até a Mia. Mas ela captou minha presença antes.

— Beth, venha aqui. — chamou ela. O moreno com quem conversava me fitou animado. — Este é Wallace.

— Oi, Beth! — cumprimentou ele, dando-me um beijo na bochecha, depois um abraço. — Feliz aniversário!

— Obrigada, querido! — agradeci, lhe abraçando de volta e depois sorrindo educada.

— Wall também trabalha na agência. — explicou Mia. Agora entendi porque se conheciam. — Ele ajudou um pouco sua mãe a arrumar a festa.

— Oh, sim. Muito obrigada, Wall!

— Poderia ter me dito alguma coisa. Eu teria ajudado. — reclamou Mia, tomando um gole de seu copo.

— De jeito nenhum! Você mente muito mal. Fica desviando o olhar toda hora, meu Deus. — apontou ele, revirando os olhos. — Me surpreende que Beth não tenha desconfiado de nada. Ou desconfiou?

— Bem, estranhei quando cheguei em casa. Mas no caminho não pensei em nada. — respondi, dando uma risada curta. Até porque, durante o caminho, Mia e eu estávamos tendo uma conversa para lá de interessante.

— Ufa! Mas me conta: de onde se conhecem? Eu encho o saco da Mia, mas ela nunca diz nada. — murmurou, chateado. Agora eu relaxei. Wallace não aparentava ter nenhum interesse em Mia, pelo jeito. Obrigada, universo.

— É uma longa história. — respondi, desviando o olhar para Mia. Ela prestava atenção em mim enquanto tomava seu copo. — Isso é álcool por acaso, mocinha?

— E se fosse? — questionou ela, se aproximando — e ficando perto demais — de mim para colocar o copo de volta no balcão.

— Mia só bebe suco e refrigerante. Isso até me irrita às vezes. — desabafou Wallace, dando risada. — Nunca a vi virar um copinho de nada mais forte.

— Ah, eu sei bem por quê. Dona Mia não tem lá muito controle sobre si quando bebe. — respondi, entretida. — Ainda tem seu arsenal de vinhos?

— Sempre terei. — respondeu ela sem se intimidar. — E não é descontrole. É só uma súbita vontade de continuar bebendo.

— Também se chama “descontrole”. — argumentou Wallace, gargalhando. — Eu pagaria muito pra ver você bêbada, sinceramente.

— Pois jamais verá.

— E se eu disser que Denise tem uma ótima coleção de vinhos? Como será o gosto, hein, Mia? Imagine beber um vinho do século dezenove. Hmmmm... — provoquei. Ela desviou o olhar.

— Então ela gosta muito de vinho? Obrigado pela informação, Beth. — agradeceu Wallace com malícia no olhar.

— Disponha! — respondi, tentando controlar a risada.

— Não deveria ter apresentado vocês. — murmurou Mia em arrependimento. Eu e Wallace gargalhamos.

Minha mãe, graças aos céus, felizmente tem um bom gosto para música — ou pode ter furtado a minha playlist do computador/celular — e ligou as caixas de som para animar um pouco o evento. Tocava “Gimme a Chance” de Azealia Banks. Eu comecei a remexer um pouco o corpo e a cantarolar enquanto conversava com Mia e Wallace.

Mas quando estava prestes a chegar a parte em que a letra da música era em espanhol, eu sabia que não conseguiria mais ficar ali. Estava com uma ideia em mente. Puxei Mia pelo braço — que levou um susto com o ato — e a arrastei para longe sem mais nem menos.

Fomos para a área da piscina. Felizmente, não havia ninguém lá e o som continuava audível. Ficamos atrás de umas samambaias. A batida latina iniciou e estava muito gostosa para dançar. Eu não sabia se Mia gostava daquele gênero de música, mas a faria gostar.

— Eu não vou dançar. — disse quando entrelacei sua mão na minha e me aproximei um pouco.

— Eu esperava um “eu não sei dançar”. Então sabe dançar? — provoquei.

— Não sei dançar. — respondeu, mas desviou o olhar.

— Wallace estava certo.

— Sobre o quê?

Eu ri, mas me aproximei de seu ouvido para responder. O cheiro dela era maravilhoso.

— Você desvia o olhar quando mente. — sussurrei e deixei um selinho em seu pescoço.

— Beth... — murmurou. Foi só um beijinho, poxa!

— Desculpa. — pedi, se bem que não estava minimamente arrependida. — Você não me deu um presente e eu não quero nada material. Como vai alegrar a aniversariante, Delilah?

— Você é bem insistente. — murmurou Mia. Mas num rápido movimento me girou, deixando-me de costas para ela. OK, levei um susto com isso. Depois senti seu rosto próximo à minha nuca.

Llévate el dinero, y ese bandoleiro

Leve o dinheiro, e esse bandido

Nada me hace falta, y yo a él no lo quiero

Nada me faz falta, e eu não o quero

Ela me girou de novo, então voltamos a ficar de frente uma para a outra. Em seguida, entrelaçou uma mão na minha, deixando a outra pousada em minha cintura.

Todo mi vida cambiado, estoy mejor cada dia

Toda minha vida mudou, estou a melhor a cada dia

Lamento informarte: no funciono la brujería!

Lamento informar: não funcionou a bruxaria!

Ela não desgrudava os olhos dos meus enquanto conduzia com um molejo viciante. Aquilo parecia coisa de profissional. Eu só estava conseguindo — ou, ao menos, tentando — acompanhar porque já tive aulas de dança.

Onde será que aprendeu a dançar tão bem?

Mira como baila, la nena, morena

Veja como dança, a gata, morena

Mira como baila, sin llanto, ni pena

Veja como dança, sem choro, nem pena

Nos separou e levantou para cima o braço que tinha sua mão entrelaçada à minha, assim meu braço também subiu, depois me girou deixando-me de costas para ela novamente.

Libre independiente, me dice la gente

Livre independente, me dizem as pessoas

Rebelde y caprichosa, pero eso es otra cosa

Rebelde e caprichosa, mas isso é outra coisa

Yo mucho pa’ ti, tú muy poco pa’ mí

Sou muito para você, você é muito pouco para mim

Ahora más que nunca, me siento feliz

Agora mais que nunca, me sinto feliz

Pousou sua cabeça em meu ombro, mas bem próxima ao meu rosto. E parecia bem. Sua respiração estava calma. Aparentemente, tudo sob seu controle.

E percebi que Mia parecia se sentir bem quando tinha consciência disso.

Actitud positiva, la regla de mi vida

Atitude positiva, a regra de minha vida

Si no me conviene, hacia mí no viene

Se não me convém, para mim não vem

Acho que quero te controlar também, Mia. Terei essa chance?

Será que terei?

En control me quede estoy a cargo de todo

Encontro-me no controle de tudo

Mi vida, mi suerte como dicen ache

Minha vida, minha sorte, como eles dizem

Mia me girou mais uma vez, mas agora trombou nossos corpos com intensidade. Não posso negar: eu estava claramente excitada. Até engoli um seco.

— Pode me deixar conduzir? — perguntei, enquanto fitava seus lindos olhos castanhos. Ela não respondeu.

A verdade é que, não importa sua resposta, eu nunca fui obediente.

Desvencilhei seus braços de mim e peguei uma de suas mãos. Entrelacei, pousando a outra livre em meu ombro. A minha mão livre foi para a sua cintura. Aproximei-me e fiquei bem perto de seu rosto. Ela não estava relutante e agradeci por isso.

Entretanto, pude sentir seu coração acelerado e respiração carregada. Sim, como suspeitei.

Ela gostava de ter controle.

— Eu só estou dançando com você. Apenas dançando com você. — sussurrei, tentando acalmá-la. Mia assentiu, mas quando tentei retomar a dança, já não tinha o mesmo ritmo de antes. A música já havia terminado e um POP atemporal começou a tocar. — Não costuma deixar que te conduzam, não é? — perguntei. Ela assentiu de novo. — Não falo só sobre dança, Mia.

Ela assentiu mais uma vez sem dizer nada. Eu suspirei.

— Você realmente gosta de mim, Mia?

— Gosto, Bethany.

— Então tem que se abrir comigo. Eu gosto de você. Muito. Mas numa relação, nada ajuda o fato de você não me contar nada. Se é que quer uma relação...

— Eu quero, Bethany...

— Eu sempre disse as coisas pra você. Até agora, deixei bem claro o que quero e o que sinto. Mas não vai dar certo se só uma de nós fazer isso. — argumentei, sentindo-me cabisbaixa.

— Bethany, as pessoas que já tentaram ficar comigo nem ao menos conseguiram chegar até o beijo.

Eu arregalei os olhos. Isso era uma grande revelação para mim. Nunca havíamos conversado sobre nada do tipo.

— E eu deixei claro. Deixei claro que as coisas não são fáceis para mim. Se quiser ficar comigo, seja paciente. Não me anima ter que lidar com isso. Você não merece.

— Já disse que se me contasse, as coisas se tornariam muito mais fáceis...

— Não vai, Beth. E eu não quero desenterrar essas coisas. Não me peça, por favor.

Eu a analisei e nunca vi aquela feição em seu rosto. Parecia... medo.

Puta que pariu.

O que desgraça aconteceu com você, Mia? Que tipo de merda aconteceu para ter tanto medo de dizer?

Quem foi responsável por isso? Quem foi responsável por tornar tão reclusa uma garota tão linda? Quem foi esse filho da puta?

Meu Deus, estou fula. Eu queria tanto saber.

Suspirei longamente para respondê-la. Paciência, Bethany.

Paciência.

— Certo. — respondi e abaixei a cabeça. Não dava para fitá-la daquele jeito.

Mas ela puxou o meu rosto de volta e me beijou. Não dá para adivinhar quando está prestes a me beijar. Só admito que isso faz o beijo melhor ainda.

Passou os braços por cima de meus ombros e eu usei os meus para circular a sua cintura. Foi um beijo calmo. Eu não queria acelerar nada. Era melhor assim. Era melhor para Mia.

Eu vou ser paciente. Sei que quando esses muros cederem ao seu redor, as coisas se tornarão muito mais incríveis, se é que é possível.

Pois ela me foi incrível desde o primeiro dia em que pousei os olhos nos seus.

Notas finais
Créditos à minha xuxu, Hirocchi, e seu amigo, Sergio, pela colaboração para conferir e corrigir os trechos da música em espanhol inserida neste capítulo. c: