Oculta

17 Desordem


— Lerêeeeee, leerêeee... Acooooorda, dorminhoca!

Acordei ao som desnecessário de Angela cantando, então fiz o favor às minhas orelhas e as tapei com o travesseiro.

— Adivinha o que fiz pro almoço? Sim, "almoço", porque já passam das duas da tarde, coração!

— Me deixa dormir, Ange. — resmunguei. Ainda dá para dormir até o horário da aula, tenho fé nisso.

— Não vai querer saber o que fiz pro almoooço? Começa com "S" e termina com "F"... — continuou a cantarolar, mas antes mesmo de dizer "F", eu já estava bem acordada.

— Strogonoff? — arrisquei, e tinha certeza de que meus olhos brilhavam.

— Não sei como tu não engorda. Só pensa em comida e não faz quase nada da vida... Até rima. — reclamou Angela, guardando algumas coisas nos armários do quarto. Mesmo que eu não more mais ali, Denise assegurou que o cômodo é definitivamente meu e que era para usá-lo sempre que precisasse.

A noite de ontem não foi tão longa porque foi uma festa no meio da semana, então tinha pessoas que trabalhariam no dia seguinte e tudo mais... Mas mesmo assim, não deixei de me esbaldar. Meus amigos me acompanharam nisso.

Porém, não lembro muito bem das coisas depois que comecei a beber. Minha mãe não ligava se eu bebesse, aliás. E como era meu aniversário, aí que não dava a mínima mesmo.

Tateei com a mão no criado mudo e peguei o meu celular — era automático fazer isso ao acordar. Entrei nas redes sociais e constatei que havia muitas, mas muitas notificações de... fotos publicadas.

Ai. Meu. Pâncreas.

Eu não lembro de tirar foto alguma. Muito menos postar.

Alguns amigos me marcaram em fotos. Conferi e até aí tudo bem, eu estava decente. Só que eu havia postado uma. Puta merda. Eu não lembro disso, cara.

Sentei-me de súbito na cama. Estou rezando para que não tenha saído nada fora do comum. Felizmente, foi apenas uma foto. Qualquer coisa, é só apagar, mesmo que quase todo mundo já tenha visto. Lido com as zoações depois.

Abri o link e analisei. Era uma foto de mim com Mia. Nossa.

Eu estava com um braço por cima de seu ombro, a puxando para perto e fazendo uma careta que até ficou legal. Mia não olhava para a câmera, mas sim de canto de olho para mim. Não aparentava estar desconfortável. E, bem... serei direta: olhava-me como se me contemplasse.

Tá. Nossa, Bethany. Mais metida que isso, só se houvesse duas de você. Mas é sério. Sabe aquele olhar que o parceiro dá quando o outro não está olhando? Exatamente isso.

E eu achei lindo.

É a nossa primeira foto juntas. Mesmo que eu cogite agora poder ter feito uma pose melhor ou... sei lá. Vou recortar e deixar só a Mia, com certeza fica dez vezes melhor.

Na legenda jazia: "Certas pessoas fazem uma fuga valer a pena". Eu ri sozinha ao ler. Todos sabiam o que havia acontecido comigo, é claro. Essa frase foi perfeita. Minha criatividade se eleva quando estou bêbada.

Certo, OK, até aí tudo bem também. Mas...

Cinco mil curtidas?

Cinco mil curtidas!?

Nunca cheguei a mais de cento e cinquenta curtidas.

O que está acontecendo?

E tinha muitos comentários. Muitos! Nossa.

"É a garota do comercial!!!"

"Eu procurei alguma foto dela e não achei nada. Queria ser a loira da foto. Pqp, que menina sortuda!"

"As duas são mt gostosas. Serah que essa loira eh modelo tbm? Olha, se n eh, deveria"

"Lindas demaaaais. Quem dera lá em casa!"

"Ainda tô na procura do instagram dessa morena na foto. Meu, ela é muito linda. Sério. Bethany, dá uma ajuda, gata!"

"Parecem lésbicas. Imagina as duas se beijando, putz! Daria um belo pornô!"

E esses são pequenos exemplos dos tipos de comentários que tenho para lidar.

Repito: O que está acontecendo?

Do que diabos estão falando? Que comercial? Quando foi que Mia virou essa febre? E agora virei alvo também. Vish.

Eu estava perplexa. Preciso conversar com ela. Tipo, agora.

Uma ligação começou a notificar na tela do celular, me distraindo. Era de um número desconhecido. Detesto atender números desconhecidos, mas vai que, né.

— Alô?

— Beth, preciso falar com você.

— Mia? — Eu disse surpresa ao reconhecer a voz. OK, aja coincidência, hein. Acabei de dizer que precisava falar com ela.

— Sim, sou eu. Querida, você mencionou algo sobre a minha profissão para alguém? Digo, alguém que não seja de seu ciclo de amigos? — questionou. Não pude deixar de amar seu tom ao me chamar de “querida”. Ai, Mia. Até por telefone fico caidinha por você.

— Não disse nada, não, amor. — respondi, mas cacei o notebook e o liguei. Vou acessar as redes sociais de novo só por precaução. Vi Angela sair do quarto sem dizer nada, me deixando à vontade. — Aconteceu algo?

— Eu fui à faculdade mais cedo para verificar alguns detalhes de um trabalho e várias pessoas me pararam. Fizeram perguntas invasivas sobre mim e meu trabalho. Eu os dispersei dizendo que estava com pressa, mas até pediram o meu telefone.

— Bom, eu... postei uma foto de nós no Facebook. — comentei, um pouco incerta. Espero que não fique brava com isso. — E muita gente viu, comentou, curtiu. É como se você fosse uma celebridade, Mia. Disseram algo sobre um comercial... E, sabe, você nunca me conta sobre o que anda fazendo no trabalho, sua chata.

— São tantas coisas... Não sei por onde começar para lhe contar. E eu não deveria ter aceitado participar do comercial.

— Sobre o que é o comercial? Eu nunca vi.

— É sobre uma nova edição da Cortês. Sua mãe implorou para que eu fizesse...

Ah, novidade. Acho que minha mãe anda abusando demais de Mia. Mas não entendo.

Por que Mia continua fazendo tudo o que Denise quer?

— Sabe que não precisa aceitar tudo o que a minha mãe pede. Você mesma disse que não seguiria carreira nesse ramo.

— Eu sei, mas não estou só neste ramo, Beth. Eu e sua mãe temos alguns acordos. Podemos conversar sobre isso mais tarde.

— Tá... — murmurei, bufando. — Ainda precisa falar comigo?

— Por que está brava?

— Não estou brava, osh.

OK, brava não. Só meio aborrecida.

— Pois parece. Está de ressaca, não está? Você bebeu muito ontem. Não deveria abusar tanto.

— Sim, estou... Ah, não resisti. Te enchi muito o saco?

— Não. Mas é melhor lhe alertar sobre algo. — murmurou. O som de fundo da linha pareceu se dissipar.

— O que foi agora, Mia? — questionei, confusa.

— Pare de me chamar de Mia. — resmungou com agressividade. O que deu nela? — Estou lhe chamando de Beth. Não gosto quando me chama de Mia. Se me chama assim, normalmente está brava com algo.

— Mas eu não estou brava com você, cacete!

— Está brava com algo.

— Desembucha, Delilah. Vai logo. — pedi, impaciente.

— Você não foi muito... comportada na noite passada.

— Bom, sei que não. Eu deveria estar bem louca. — falei, dando risada.

— É. A ponto de ficar beijando o meu rosto e querer me agarrar em frente aos seus entes boa parte do tempo.

Eu fiquei sem ar.

— Oh, Deus... — falei e engoli um seco. É certeza de que estou pálida. — Droga! E se desconfiarem? Meu Deus. Eu te beijei mesmo ou só foi no rosto?

— Você tentou, mas evitei. — tranquilizou ela, suspirando alto. — Isso não vai durar, Beth. Conte antes que descubram por outra pessoa.

— Não sei nem ao menos como fazer isso, Delilah! — desabafei. Meu coração batia a mil. — Espera, se eu me assumir... Você seria minha...?

— Namorada? Sim. Posso até vestir um terno e imitar o macho alfa, se quiser. É esse tipo de coisa que eles imaginam, não?

Eu gargalhei alto. Não acredito que ouvi isso vindo logo dela.

— Ah, é? Você vestiria um terno? Adoraria te ver com aqueles ternos femininos bem colados ao corpo, Delilah. — comentei. Isso foi uma mudança brusca de assunto, eu sei. Mas não resisti em provocar.

— Beth. — murmurou e ficou quieta.

— Ué. Você não disse nada sobre sexo por telefone. — argumentei, tentando controlar a risada.

— Eu acharia melhor você vestir o terno. — sugeriu. Opa. É isso mesmo que eu ouvi?

— Ah, é? — murmurei, me espreguiçando na cama com o celular colado à orelha. — E o que faria se me visse assim?

— Quer mesmo que eu diga? Levarei o que disse sobre sexo por telefone em consideração.

Ai. Meu. Senhor.

— Pode dizer. — respondi, ansiosa. Putz, estávamos longe, e eu me excitava só ouvindo a sua voz mesmo assim.

— Primeiro, tiraria seu blazer devagar. Depois, lhe vendaria com as mangas dele. — começou ela. Eu arregalei os olhos. Mia realmente vai falar essas coisas por telefone?

— Me vendar? — questionei, sentindo o meu corpo esquentar mais. Eu vou morrer.

— Sim. Assim você sentiria as sensações com mais intensidade.

— Mas você é linda. Eu não vou poder te ver se me vendar.

— Para que ver, se pode me sentir, Beth?

Eu não estou bem com isso, sério. Não estou bem.

— O que faço com você, Delilah? Você não vai vir pra cá pra que a gente possa fazer isso se eu pedir. — desabafei.

Isso está me deixando mal e faz, o que... dois, três dias?

Eu a tenho e ao mesmo tempo não a tenho. É frustrante. Deixa-me ansiosa. Ainda que eu tente compreender seu lado... Mas é difícil já que não me dirá nada.

Às vezes, eu penso: Será que não é nada demais, na verdade?

— Sabe o que acho? Que deveríamos conversar. Não sobre... Você sabe, quer dizer, não de imediato, mas... — continuei, me enrolando nas palavras. — Tem coisas que eu gostaria de saber sobre você. Agora me sinto próxima o suficiente pra questionar e sei que não vai ficar brava ou vai se afastar por causa disso. Quer dizer, eu espero que não...

— Eu nunca faria isso. — afirmou ela. Eu dei um sorriso fraco.

— Que bom. E poderíamos conversar sobre seu trabalho também, se quiser. Não que isso seja da minha conta... Eu me importarei com isso, caso ache necessário, Delilah. Não tenho direito de opinar na sua carreira nem nada, você sab-

— Eu me importo com a sua opinião. Irei ouvir se achar que estou fazendo algo errado, Beth.

— Você nunca faz nada de errado, Delilah. — rebati automaticamente. Mas sei bem que era verdade. Eu nunca a vi fazer nada fora das regras. Exceto sobre uma coisinha em específico — se é que me entendes. Porém, isso lá tem alguma regra, por acaso?

— Discordo.

— Não ligo se discorda, querida. — respondi, rindo. — Te vejo mais tarde?

— Sim. Você já almoçou? — questionou ela. Sua mania de querer saber sobre meu “bem-estar alimentício” não se dissipa, realmente.

— Nem tomei café. — respondi, sincera. De qualquer forma, eu adorava quando me mandava fazer alguma coisa. Isso é errado? Não sei dizer.

— Vá tomar café. Eu te vejo mais tarde.

— Que despedida seca, Delilah. — murmurei, querendo prolongar a conversa.

— O que quer que eu diga?

Eu pensei por um momento.

— Nada. — respondi, rindo. — Não sei.

— Estou triste por não ter a visto mais cedo. Eu gosto do seu rosto quando acorda. — comentou. Quê?

— Mas meu rosto parece uma bolacha quando acordo! — retruquei, franzindo o cenho.

— É uma bolacha muito linda. Tchau, Beth. — despediu-se. O som de sua voz foi tão... franco. Aquilo foi sincero e não tinha intenção alguma de me provocar.

Foi uma das coisas mais lindas que me disse.

— Tchau, Delilah. — Foi só o que consegui responder. E então, a linha cessou. E nunca me senti tão disposta após isso.

Mas ao voltar para o meu apartamento com Clemente após almoçar o Strogonoff de Angela, senti uma sensação estranha. Era como se as coisas estivessem em câmera lenta, sabe? Bizarro. Mas ignorei.

Talvez seja porque quero ver Mia o mais rápido possível. O mundo é assim. Quanto mais você quer, mais demorado será.

Cheguei, troquei-me e dei comida à Harris e Kiara. Sim, ela ainda estava lá. Tenho que avisar a Mia. Como esqueceu da própria gata? Só ela mesmo.

Fiquei desempacotando algumas coisas de decoração ao apartamento. Admito que estava enrolando para fazer isso. Porém, fiz tudo de maneira vagarosa. Ou era aquela sensação de novo?

Alguns momentos depois, sentia-me meio deprimida. E até um pouco solitária.

Engraçado que, há algumas horas, na minha festa surpresa de aniversário, eu me sentia a pessoa mais acompanhada do mundo. Mas, sem Mia, percebi o quão diferente era. Não sei se isso é bom, não sei se é ruim. É uma percepção forte.

Deu a hora de ir à aula. Já me encontrava vestida, então só peguei a minha bolsa e sai do apartamento, descendo ao térreo do prédio.

Meus ouvidos pareciam sensíveis. Fiquei incomodada quando uma moça de salto alto passou perto de mim com seus pés fazendo estrondos pelo chão. O som fez um eco gigante na minha cabeça. Cara, essa ressaca está horrível.

Continuei caminhando. A seguir um rapaz esbarrou em mim. Ele pediu desculpas e eu assenti sem dar muita atenção, pois o som de sua voz me trouxe aversão, então, prossegui caminhando, agora com um pouco de pressa.

Caramba, minha cabeça dói. Estou sentindo repulsa em sentir isso novamente. Digo, a percepção sobre Mia, não a dor de cabeça.

Da última vez, quebrei a cara feio.

Ela merece? Eu a mereço?

E se quebrar o meu coração? E se eu quebrar o dela? E se não formos feitas uma para outra? Somos muito opostas ainda.

Matutei ao passo que me aproximava da sede de Berckeley. O barulho aumentou.

Pessoas, muitas pessoas, conversando, conversando demais. Senti fortes pontadas de dor na cabeça neste momento.

Como Mia superaria? E se ela não encontrar outra pessoa?

Como eu superaria?

Eu sei o que estou sentindo. Mas não sei se ela sente o mesmo.

Minha mente está dando voltas. Estou ficando tonta.

Eu quero chorar. Não aguento mais.

— Beth?

Eu sentia a cabeça latejar, mas agora senti mãos quentes tocarem o meu rosto. Meus olhos focaram na silhueta.

Era a Mia. A Mia tão linda.

Eu não quero te fazer sofrer e não quero sofrer por você.

— Beth? O que está dizendo?

Quê? Eu não disse nada. Estou falando alto?

— Hã? — murmurei, balançando a cabeça.

— Está tudo bem? — Ela me olhou intrigada. Eu balancei a cabeça que pulsava forte ao escutar a sua voz. — Você está quente.

— Suas mãos são quentes. — murmurei, sem pensar muito. — São macias.

— Você está muito quente, Beth. — disse. Seu semblante parecia preocupado.

— Oi, amoreeesss! — Veio dizendo Matheus, todo alegre. Eu franzi o rosto. Sua voz pareceu esfaquear o meu cérebro. — Virou zumbi agora, peste?

— Jesus! Alguém saiu da cova! O que houve com você, Beth? Bagunçou muito na festa de ontem, né? — questionou Agnes. Ah, Deus. Calem a boca.

— Ela está com febre. — murmurou Mia. Senti as costas de sua mão em minha testa.

— Não... É só... — tentei dizer, mas senti as pernas vacilarem. Mia me segurou.

Acho que não era uma dor de cabeça comum. Eu estava mole. Meus ossos pareciam gelatina.

Apoiei minha cabeça no ombro de Mia. Sua garganta vibrou. Parecia dizer algo. Mas não consegui processar sua fala.

Ela passou um braço meu por cima de seu ombro e circulou minha cintura. Depois pareceu me carregar até seu carro. O som de fora era abafado dentro do veículo. Eu suspirei de satisfação ao constatar isso.

Mia entrou em seguida. Ajustou o meu banco, deixando-o mais inclinado. Eu respirava lentamente, um pouco ofegante. Não conseguia mexer músculo algum. Tudo parecia tão... lento.

— Beth. — ouvi me chamar. — Vamos ao hospital.

Tentei responder, mas só houve um murmuro desconexo.

Eu odiava hospitais. Tudo era tão limpo... e com cheiro de álcool.

Pessoas sofriam e ficavam doentes ali. Pessoas morriam ali. E tudo parecia tão... purificado. Branco. Branco devia ser a entrada do paraíso.

Eu queria dormir, mas Mia não deixava. Dizia para ficar acordada até chegarmos. E o jeito que me olhava quebrava o meu coração. Não me olhe assim, Mia. Eu não estou morrendo.

Eu não estou morrendo!

Em outro instante, Mia pareceu desligar o motor do carro e saiu. Depois, a porta ao meu lado se abriu.

Ela me pegou no colo. Tinha braços fortes. A sensação era boa. Mas não durou porque entramos naquele inferno.

Eu só vislumbrava luzes brilhantes presas ao teto pelos corredores. Minha cabeça doía demais, muito mais quando o barulho ao redor se instalou de novo. Tapem os meus ouvidos, por favor. Eu não quero ouvir ninguém.

Eu fui posta em uma cama. Logo senti algo gelado passando pelo meu braço e uma picada ardente no mesmo local. Meus olhos ficaram muito mais pesados.

Desculpe, Mia. Pelo menos já chegamos.

XXX

— Papai, eu vo ser igualzinha a mamãe um dia!

— Você já é, meu amor. Linda e esperta igual ela.

— Papai, você ama a mamãe? Eu amo a mamãe!

— Thany, sua anta. Falei pra comer direito!

— Mas papai, eu não quero comer!

— Acorda, Thany.

— Acordar? Eu já tô acordada, papai.

— Acorda, Beth.

Levantei de súbito, ofegante. Meu coração parecia querer sair do peito.

O que diabos...?

— Calma, Beth. — tranquilizou Mia, me empurrando com delicadeza de volta para a cama.

— Eu sabia que uma hora ia acabar assim. Vivo dizendo pra comer no horário certo, comer direito, mas nãaao... — ouvi minha mãe reclamar. Quase não a vi ali.

— Ela bebeu demais e não comeu nada ontem. De manhã, tomou muito café também. Não foi uma boa junção. Ela tem o organismo fraco. — comentou Mia. Se bem que não vai ajudar a controlar a fúria de Denise.

— Já é praticamente adulta e nem sabe se portar! E meu Deus, ir pra aula desse jeito? Eu só posso ter uma filha retardada mesmo!

— Denise. — Mia chamou. Seu tom de voz foi grave. Ela estava realmente chamando a atenção da minha mãe? — Acalme-se.

— E se você não estivesse lá, Delilah? Essa criatura tinha desmaiado no meio da aula! — esbravejou Denise. Caramba, em vez de preocupada, estava brava comigo? Eu não entendo as mães.

— Bom, eu estava. E não aconteceu nada. — argumentou Mia com tranquilidade. — Ela só precisa descansar. Eu cuido dela. Sei que tem coisas para fazer ainda, então não se preocupe.

— Mas não vou simplesmente ignorá-la. Ela não está bem e se precisa de mim-

— Ela está bem. Disseram que podia voltar para casa após acordar. Denise, confie em mim. Não há nada com o que se preocupar.

Minha mãe ficou em silêncio por um momento. Sim, Denise Cortês Raymond estava em silêncio em frente à uma discussão. Que tipo de confiança mútua é essa que tem com a Mia, afinal?

Denise me fitou e balançou a cabeça. Vestia seu uniforme padrão, social acinzentada. Provavelmente fazia algo importante quando Mia a notificou sobre a minha condição.

— Você só me traz dor de cabeça. — murmurou, se aproximando e dando-me um beijo na testa. — Cuide-se. Mia, me ligue se precisar de alguma coisa ou se ela der outra recaída.

— Vá cuidar de sua empresa, Denise. — respondeu Mia, de modo travesso. Denise a fitou e sorriu. Depois acenou se despedindo, saindo do quarto em seguida. — Vamos? — Vi Mia me oferecer a mão.

XXX

— Minha cabeça ainda dói um pouco. — murmurei, esfregando a têmpora. — Por que não ficamos no meu apartamento? Lá tem TV a cabo.

— E é exatamente o porquê de não estarmos lá. — respondeu Mia, fuçando nas gavetas de seu criado mudo. — Vê as paredes?

Eu passeei com o olhar pelo quarto. Eram diferentes mesmo. O único cômodo em que a textura das paredes era diferente. Parecia algo meio espumoso, macio. Eram várias plaquetas, lado a lado, compondo todo o recinto.

— Sim. São bonitas.

— Chama-se isolamento acústico. Nenhum som é emitido para fora ou para dentro. Levei isso em conta e achei melhor ficarmos aqui. Ao menos, definitivamente nenhum barulho vai incomodar sua cabeça.

— Uau. — murmurei, surpresa. — Você tinha isso no antigo apartamento também, não tinha?

— Tinha. — respondeu ela, desviando o olhar.

— Por quê? — questionei, intrigada.

— Eu não gosto de barulho.

Ah, você jamais escapará dessa, prezada Mia.

— Não gosta do barulho e...? — estimulei a continuar.

Ela não respondeu. Vestia uma blusa preta folgada com mangas compridas e calça de moletom cinza. Seu cabelo estava preso em um coque desordenado. E, como sempre, até vestida da forma mais simples possível, não deixava de ser atraente.

— Gostaria de apagar algo de sua mente para sempre? — questionou, do nada, voltando a me fitar. Nos encaramos por um momento.

— Acho que não... — murmurei, incerta. — Memórias são importantes, boas ou ruins. Elas nos moldam de alguma forma.

— Eu não teria essa personalidade se não tivesse essas memórias? — questionou o obvio. Eu assenti com a cabeça, dando de ombros. — Então acho que valeria a pena não as ter.

O silêncio no quarto era penetrante, como se estivéssemos em outra dimensão. Realmente não havia barulho algum. Eu podia ouvir minha própria respiração, e olha que estava normal.

O jeito que pronunciou aquilo... Ela queria falar mais. Mas como persuadi-la a prosseguir? Eu não sabia. Já tentei tantas vezes que me acostumei a falhar.

— Se não tivesse essa personalidade, então eu nunca teria me apaixonado por você.

Ela me fitou surpresa. E não foi um olhar sútil. Mia realmente arregalou os olhos.

— Se é corajosa o suficiente para isso, então também seria para ouvir a minha história?

— Eu... — murmurei e engoli um seco. Seu olhar estava tão profundo que fiquei desnorteada. — Sim. Eu seria, Delilah.