Oculta
26 Ato Aleatório
— Está estranho, Ricch. Sinto como se estivesse em um saco. — murmurei.
— Você e seu jeito cruel de comentar sobre roupas. Não sabe ser mais delicada, não? — reclamou Ricchard, fazendo cara feia enquanto ajeitava o saco. Digo, o vestido em meu corpo.
Haveria mais um dos eventos da Fashion Week hoje à noite. Cortês e eu seremos, novamente, meio que acompanhantes. Ela, divulgando sua marca e eu, exemplificando o que temos a oferecer.
Não é um trabalho difícil, admito. Só preciso segui-la onde quer que vá, cumprimentar pessoas que não conheço e ser educada. Fora isso, não exige de mais nada da minha parte.
Eu não entendia bem o porquê de tudo isso, para dizer a verdade. Wallace havia dito que eu era um ícone, mas eu não me via como tal. Não apreciava tanto o que aquelas pessoas pareciam apreciar. Estou fingindo coisas, no fim das contas... Mas era o meu trabalho, de qualquer forma.
— Desculpe. — pedi, dando um suspiro. — O que seria educado para dizer?
— Algo como: "Ricch, eu acho que esse vestido me deixa um pouquinho cheia. Não teria um modelo diferente?" — Ele parou e me analisou. — É, tem razão. Parece um saco. Vamos trocar.
— No fim acabarei dizendo o que pensa. — comentei, começando a tirar o vestido. — Aliás, posso opinar novamente?
Ricchard franziu o cenho com esse meu pronunciamento, mas também ajudando a tirar o vestido.
— Tem algo que queira vestir? Sabe que jeans e camisa não é a praia de uma festa de gala. — ressaltou com cautela, pendurando o vestido no cabide com certa dificuldade. Eu me encontrava seminua, mas não tinha vergonha de ficar assim na frente de Ricchard (não mais). Sempre me auxiliou no que vestir desde que entrei na empresa.
— Eu imagino que não. — concordei, tentando formular o que iria sugerir. — Até agora me mostrei só... ostensiva. Mas só isso não pode atrair a atenção necessária para o nosso objetivo.
— Vamos, mente brilhante. Pense. — murmurou Ricchard, me olhando com atenção. Quando eu tinha alguma ideia, ele dizia algo do gênero. Era o seu jeito para me incentivar.
— Ser cortês: ser fino e ter modos polidos. Mas a marca não cria só para pessoas com esses perfis. — comecei devaneando. — Deveríamos mostrar que podemos ser finos, mas discretos. Ter modos, mas também ter ousadia. Nossa marca é tudo e mais um pouco. Sinto que estamos seguindo um padrão para nos apresentar e isso está virando um incômodo. Não está preservando o ecletismo da Cortês.
— E ainda tem a audácia de dizer que não se interessa por moda. Eu realmente não te entendo, Delilah. — comentou Ricchard, dando uma risada curta. — OK. Faremos com que você brilhe discretamente hoje à noite. Mãos à obra!
XXX
— Nosso próximo alvo, Delilah. — murmurou Cortês, empolgada, enquanto Ricchard alisava seu vestido a cada cinco minutos. Eu diria que, na verdade, acariciava, já que se trata de um casal, mas é uma obsessão real dele. Se não fosse Denise presente, faria o mesmo em meu vestido.
E tornei a analisá-lo. Ricchard vestia um terno preto de gravata verde clara e calçava sapatos sociais bem engraxados. Era estranho visualizar uma pessoa que trabalha com moda vestindo coisas tão simples, por mais que bonitas.
Muita coisa cutucava a minha mente ao fitar Ricchard e Denise juntos. Demonstravam ser próximos, mas não próximos no quesito casal. Digamos que, próximos como eu e Wallace, basicamente. Colegas de trabalho, mas também amigos.
Porém, o que eu não conseguia compreender era o porquê. Eles são adultos, cuidam de suas próprias vidas. Não tem que se preocupar com aceitação e sei que sequer ligam para isso. Seria por causa da empresa? Mas não imagino um motivo concreto que a envolva.
O que impressiona é: disfarçam muito bem. E sei que é de longa data. Entretanto, admito não querer o mesmo com Bethany. Estou muito ansiosa para que assuma.
Porque não gosto de fingir.
Denise, como sempre, estava deslumbrante. Usava um vestido floral nas cores azul marinho e branco, dando-lhe um ar mais jovial — não que ela aparente ser velha, inclusive. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo — na verdade, dois rabos de cavalo. Um estava um pouco acima do outro, fazendo parecer que se trata de um só. Essa técnica dava mais volume aos cachos.
Às vezes, quando as pessoas veem Denise e eu juntas, tento adivinhar se a cogitam como a mais nova. Sempre tive a tendência de parecer mais velha do que aparento, então não seria surpreendente.
— Alvos? Seus termos têm inovado ultimamente, senhora Cortês. — comentei, bebericando o copo de suco de morango que tinha em mãos.
— Acho que estou passando muito tempo com você, Delilah. — caçoou ela, dando risada. Acenou então para a mulher que havia dito ser o “alvo”. Ela veio ao nosso encontro.
Como todos que vi nestes eventos, era linda, parecia brilhar, mesmo vestida tão casualmente. Camisa branca e leve, de botões, calça social e saltos altos, pretos. Seu cabelo era escuro e comprido, até a cintura. Tinha estatura mediana, olhos azuis chamativos e feição gentil.
Logo engatou em uma conversa com Denise, sentando-se em uma das cadeiras disponíveis na mesa. Eu não entendia bulhufas do que diziam, é claro, pois conversavam em francês.
Tentei aprender um pouco do idioma por comodidade, mas a prática da pronúncia ainda me é difícil. A velocidade em que conversavam era também complicada de acompanhar.
— Nathalie, este é Ricchard, meu fotógrafo. — apresentou Denise apontando para Ricchard, finalmente pausando o falatório francês.
— Plaisir. — [Prazer] cumprimentou Ricchard, sorrindo e oferecendo a mão para a moça apertar. Ela assim fez, com ânimo.
— E esta é Mia, minha modelo empreendedora. — continuou Denise, me sinalizando.
Empreendedora? É a primeira vez que cita esse termo ao se referir a mim. Sinto que é uma palavra forte. Algo para alguém que faz algo importante.
Com certeza não combina comigo.
Eu não disse nada, apenas sorri sem mostrar os dentes e ofereci minha mão. Percebi que Nathalie pareceu hesitar por um momento, mas depois apertou e sorriu.
— Prazer, cher. — [querida] pronunciou com o sotaque francês.
— Prazer, Nathalie. — respondi. Ela pareceu segurar minha mão por um tempo alongado, dando um largo sorriso.
Não conseguia imaginar um motivo para Nathalie ser o nosso “alvo”. Normalmente, quando Denise mencionava isso, referia-se sempre a pessoas um tanto velhas. Nathalie não aparentava ter mais de vinte e quatro anos.
Ambas continuaram a conversar em francês e Ricchard se inseriu na conversa também. Um pouco depois, mais pessoas se juntaram a nossa mesa. Ao todo, agora eram oito convidados.
Eu prossegui quieta, apenas observando. Ninguém falava inglês, por acaso? Mas não sou de conversar, de qualquer forma. Porém, sentia-me deslocada. Mais do que o normal.
Outras pessoas chegaram e não havia mais espaço livre na mesa. Então, Denise fez todos deslocarem de seus lugares aos recém-chegados conseguirem se acomodar. A tal Nathalie acabou próxima de mim. Sorria sem parar e parecia querer dizer algo diretamente para mim, mas desviava para Denise e dizia algo a ela em vez.
— Cher, não falaste francês? — Nathalie perguntou então, com o sotaque bem claro.
— Não, infelizmente.
— Que pena... Todos falam aqui. — comentou ela, ainda sorrindo. — Mas eu falo outras línguas.
— E fala quais outros idiomas? — perguntei, curiosa. Ela franziu um pouco o rosto. Achei que não me entendeu, então me aproximei mais e repeti: — Quais outros idiomas?
— Ah, oui! — Ela entendeu e riu. Lembrei que “oui” significa “sim” em francês. — Ahmm... Arabique, hébreu, espanhol, grego-
— Arabique? Hébreu? — Franzi o rosto, não entendendo. Ela deve ter dito em francês, provavelmente.
— Oui, oui... Arabique é árabe e hébreu é hebraico. Desculpe. — Ela deu de ombros um pouco encabulada.
— Hebraico? — Eu a fitei surpresa. Então, fiz uma tentativa na segunda língua que possuo domínio: — Ivrit? [Hebraico?]
— Ata medaber ivrit? — [Você fala hebraico?] perguntou ela, abrindo mais um largo sorriso.
— Ken. — [Sim] respondi sorrindo.
— Nehedar! — [Incrível] disse entusiasmada.
Nathalie começou a conversar avidamente comigo após. Claro, em hebraico. Disse ser raro encontrar alguém de fora que conhecesse tal idioma. Também explicou por que falava tantos idiomas: negocia com estrangeiros para a empresa que representa. Sua nacionalidade era mesmo francesa, inclusive.
Sinto que nunca falei tanto em hebraico. Eu gostava de praticar, mas, como ela mesma disse, é difícil achar pessoas que conheçam o idioma.
Denise tocou o braço de Nathalie, obtendo sua atenção. Estava com o cenho franzido e murmurou algo em francês para ela. Obviamente, eu não entendi nada. Nathalie respondeu. Algo em sua fala dizia "hébreu", como havia pronunciado no início do nosso diálogo. Imaginei que estivesse esclarecendo alguma coisa, já que Cortês me olhou bem surpresa em seguida.
— Eu não sabia que era bilíngue, Mia. — comentou Cortês com um ar claro de curiosidade. — Desde quando?
— Minha mãe me ensinou. — respondi, um pouco desconfortável por mencionar alguém que não existe mais em minha vida.
— Sua ima é...? — [mãe] começou Nathalie, franzindo o cenho e fechando os olhos. Percebi que fazia isso quando tentava lembrar uma palavra em outro idioma. — israelen-
Eu senti uma pontada no peito. Era algo quente pressionando, se espalhando. Deu-me uma tontura estranha e engoli em seco. Sem delongas, acabei pedindo licença e me retirando ao banheiro.
Que sensação... peculiar.
Ima.
Há quanto tempo não ouço essa palavra? Sinto-me tão mal. Sinto...
Sinto saudades.
Há quanto tempo não sinto isso? Realmente não sei.
É difícil. Meu pai está morto. Minha mãe é a única família que conheço, que pode estar viva.
Como pude lidar até agora? Acho que nem ao menos lidei.
Eu não pensei. Não pensei, pois não tinha por que pensar. Eu não tinha pessoas próximas, por quem sentisse empatia, que gostasse. E agora tenho. Pessoas conversam comigo sem se intimidar ou julgar.
Será essa a razão para que esses sentimentos viessem à tona?
Não sei se devo ficar feliz ou triste por isso. Talvez esperançosa?
A esperança de, talvez, vê-la novamente? Conhecê-la algum dia?
Sim, conhecer, pois não a conheço mais. Fez parte de minha vida por pouco tempo. E, mesmo assim, deixou uma cratera no meu interior.
Estou me sentindo realmente mal. Como faço para diminuir isso? Como faço para tirar essa dor do peito? Estas bolhas do estômago?
Como faço?
Senti o celular vibrar. Havia enfiado dentro do sutiã, por mais clichê que isso aparentasse, já que o meu vestido não dava privilégios como, por exemplo: ter bolsos.
Era uma ligação. Suspirei de alívio ao constatar o nome na identificação da tela.
— Oi, Beth. — falei ao pousar o aparelho na orelha e recostando a pia.
— Oi, oiii! — Ela respondeu animada. Sorri com isso. Fazia quase uma semana que eu estava fora e, até então, só havíamos conversado um pouco por mensagem. — Como está a minha garotinha?
— Sua garotinha? — Franzi o cenho. — Eu sou mais velha que você.
— Continua sendo minha garotinha. — respondeu rindo. — Como você tá, Delilah? Tudo bem com o pessoal?
— Está sim, todos bem. — respondi, indiferente.
— Hmmm. Algo aconteceu? — quis saber ela. Bethany conseguia identificar o meu humor com facilidade. Ainda não me acostumei com isso.
— Nada demais. — murmurei, dando de ombros. Sei que não me veria fazendo esse gesto, mas foi automático.
— Você não disse se tá tudo bem com você. — Ela murmurou baixo ao celular.
— Estou com saudades. — pronunciei em vez. Se dissesse que não estava bem, teria de explicar o porquê. Não gosto de falar essas coisas pessoalmente, que dirá por telefone.
— Eu também, meu amor. — respondeu com a voz meiga. — Quando é que vocês voltam?
— Se tudo der certo, voltaremos em uma semana. — murmurei, suspirando fundo. — Mas...
— Sim, amor. Eu entendi. — Bethany suspirou também. — Isso é cruel. Mas, bem... Fez alguma amizade? Conheceu pessoas importantes?
— Acho que sim. Mas a maioria só fala francês e eu não entendo nada. — desabafei, ouvindo-a gargalhar. — Porém, por incrível que pareça, conheci uma pessoa que fala hebraico.
— Hebraico? — estranhou Bethany. — Uau. Na França? Isso é bem estranho. Vocês conversaram? É algum tipo de empresário ou coisa assim?
— Não sei bem dizer, mas ela trabalha com negociações. Também fala grego, espanhol, árabe, russo...
— "Ela"? — questionou Bethany com um tom de voz estranho.
— Sim, ela. Nathalie. Na verdade, a conheci agora a pouco, praticamente. — comentei, dando de ombros novamente.
— Hm. Que bom. Divirta-se, okay? — aspirou ela, ainda em tom estranho.
— Isso não é um pedido justo... — falei, me fitando no espelho. Meu cabelo estava crescendo de novo, o que era incômodo. — já que você não está aqui.
— Não é minha culpa, ué. Tire satisfações com a sua chefe! — riu ela, voltando ao tom normal de voz. Em outra época, eu perguntaria o porquê disso, mas decidi remediar.
— Eu quero ir embora. Como pode dizer que franceses são irresistíveis? Não suporto mais o sotaque deles. — desabafei, impaciente. Bethany gargalhou. Eu não estava suportando mais, de verdade.
— Eu esqueci que, se tratando de você, tudo é bem diferente. — disse ainda rindo. — Acho o jeito de falar deles muito estranho também!
— Mas creio que não estou em uma boa posição para falar mal deles. Eu falo hebraico. — relembrei. Bethany não parava de rir.
— Eu gosto quando você fala em hebraico, oras. Você fica com um sotaque muito lindo. Dá vontade de... beijar suas cordas vocais. — Agora foi a minha vez de rir. — Aliás, quando é que vai me ensinar, hein? Pensa que esqueci, é?
— Lembre-se da próxima vez que nos vermos. — falei, me sentindo mais leve. Conversar com Bethany me fazia muito bem.
— Pode deixar. Isso se não nos distrairmos...
— Isso é bem provável, na verdade. Marque em um bloco de notas. — sugeri, ouvindo-a rir de novo. — Beth, eu tenho que desligar. Denise vai estranhar o meu sumiço.
— Ah, tudo bem... — murmurou amarga. — Lembra, né?
— Lembrar? Lembrar o quê? — questionei, sem entender.
— Que eu te amo. — declarou Bethany e pude sentir, de alguma forma, que ela sorria naquele exato momento.
— Seria uma grande falha se eu esquecesse, Beth. — murmurei, sorrindo. — Eu também te amo, querida. Mande mensagem mais tarde, está bem?
— Mando sim. Agora vai lá. Eu conheço minha mãe irritada, você não. — brincou. — Tchau, Delilah.
— Tchau, Beth. — me despedi, encerrando a ligação. Senti algo no peito novamente, mas não era ruim como antes. Era bom. Era ótimo.
Acho que era amor.
XXX
— E daí? Tá preocupada com isso? — questionava Jason, enquanto ligava o controle do XBOX. Eu o havia chamado para me fazer companhia e o infeliz traz o maldito console. Michael estava a caminho também.
— Ah, cara. Não tô preocupada. Só, tipo...
— Você tá com ciúmes, na verdade. — afirmou Jason, dando risada. — Abre o jogo, Beth. É seu irmãozinho aqui, pô.
— Eu não sei ligar esse troço, não. — murmurei, olhando apavorada para o XBOX.
— Eu não falei de abrir o... — começou ele, batendo na própria testa com uma das mãos. — Porra, Bethany.
— Ah. — murmurei, percebendo o que ele quis dizer. Como sou burra, misericórdia. — É que você tava ligando o troço e daí fala "abre o jogo". Aí não ajuda a interpretar, idiota.
— Você que é lerda demais. Eu, hein. — reclamou. Na TV, surge o logotipo da Rockstar Games, então pude constatar o que Jason pretendia jogar.
— GTA? Deixa eu jogar?? — pedi, empolgada.
— Eu vou passar umas missões primeiro, daí te passo. — respondeu Jason, mas, no fim, é simples: eu não iria jogar.
Neste meio tempo, ouvi batidas vindas da porta do apartamento.
— Entra! — berrei. Eu não costumava deixar a porta aberta, é claro, mas como o meu irmão mais velho chegaria em breve e eu estava com preguiça de levantar para atender... — E aí, Jackson. — cumprimentei enquanto ele tirava o casaco e o jogava em cima do braço do meu sofá. — Nossa. Cadê os modos?
— Desculpe. — pediu, bufando e alisando o cabelo curto. Eu estranhei.
— Michael. — chamei, tendo sua atenção outra vez. Quando o chamava pelo nome, era quando queria falar sério. — Aconteceu alguma coisa?
— Bem... — murmurou, sentando-se ao lado de Jason que não tirava os olhos da TV. Nem cumprimentou Michael. — Problemas de relacionamento.
— Ué. Hoje é dia, é? — Jason zombou e deu um sorriso travesso. — A Bethany tava comentando que seu relacionamento não tava às mil maravilhas também, não.
— Cala boca, Jay. — bufei e me voltei a Michael. — O que houve entre você e Johanna?
— Almocei com os pais dela hoje. — murmurou. Jason deu um pulo.
— Deeeeus me livre! Conhecer pais de namoradas é tipo filme terror.
— Jay, por que você não cala a boca por um minuto? — verbalizei, o olhando feio. — E aí?
— E aí que ela brigou comigo e até agora estou tentando entender por quê. — Michael desviou o olhar, dando um longo suspiro. — Eu quero pedir ela em casamento. Mas agora que ferrei tudo com os pais dela...
— Quê? — Eu e Jason berramos ao mesmo tempo.
— Eu sei que é cedo, mas... — Michael estava claramente envergonhado.
— Você tem pensado nisso há quanto tempo? — indaguei, ainda surpresa. Mas eu estava feliz. Muito feliz!
— Há alguns meses... Nós oficializamos faz pouco tempo, mas temos uma relação de quase três anos. Sim, com idas, voltas e tudo mais, mas assim-
— Michael, tô nem aí pra tempo. — cortei sua fala. — Só quero saber se tem certeza e se acha que ela pode aceitar!
— Eu pensei bastante e já me decidi. — Ele levantou as mãos para o alto. — Bethany, eu não vivo mais sem aquela garota. Você não tem ideia. Mas não tenho certeza se ela aceitaria...
— Não faça o pedido em público. — sugeriu Jason. Seu tom não parecia de brincadeira. — Converse com ela. Convença. Se pedir diretamente, ela só vai poder dizer sim ou não, e não um talvez ou sei lá... Tem que ser de um jeito que não a pressione.
— E você já pediu alguém em casamento por acaso, Jay? — quis saber eu, estranhando sua fala (mas não discordando).
— Já. — admitiu. Eu o olhava boquiaberta. Até Michael estava surpreso. — Foi de repente. Eu não tinha pensado direito. Ela não aceitou, é claro. Mal tínhamos um relacionamento. Mas depois pensei nas maneiras que poderia ter feito pra ter uma resposta melhor, ao menos.
— Bom, esse nem é o problema maior. Ela não fala comigo desde que saímos do restaurante. — desabafou Michael, alisando a testa.
— Eu acho que tá com raiva dos pais dela e descontou em você, Jackson. Por mais que eu não entenda o motivo, já que você não citou muita coisa... — comentei, pensativa.
— Eu não citei muita coisa porque não teve muita coisa, caramba. Agi da melhor maneira possível! Eu até vesti meu terno preferido!
— Você tem um terno preferido? Que coisa brega. — reclamou Jason, voltando a jogar.
— Ela tá em casa agora? — perguntei e caminhei para a cozinha.
— Não, nessa parte você tem que pegar a moto e correr até o carinha lá, depois tu pega a espingarda... — ouvi Michael dizer, provavelmente para Jason. Depois me seguiu. — Acho que sim. Que horas são? Oito?
— Já passou das dez, Jackson. — murmurei, dando uma risada curta. Circulei o balcão e abri a geladeira, pegando uma garrafa de vinho aberta e colocando em cima do balcão.
— Você não é de beber. — observou Michael, pegando a garrafa e despejando no copo que eu havia posto na mesa para mim. Folgado!
— Não fui eu que comprei. — murmurei, coçando a nuca.
— Hmmm... Essa marca é boa. — disse ele, tomando um gole. — Foi ela que comprou? Tem bom gosto.
— Ela gosta bastante de vinho. — falei, pegando outro copo para (tentar) me servir.
— Esse ar é estranho. Meio solitário. — murmurou Michael, rindo. — Por que não vai pra lá?
— Lá onde? — questionei, franzindo o cenho.
— Paris, ué. — Eu quase cuspi todo o líquido em cima de Michael. — Afinal, o que te impede, Bethany?
— Eu estudo, Jackson. Não dá pra simplesmente parar agora. — Ao me ouvir dizer isso, ele riu com gosto. Eu o fitei intrigada, não entendendo o que diabos havia graça.
— É que... — começou, tentando parar a risada. — Isso não faz seu estilo. Você nunca foi de se preocupar com essas coisas.
— As pessoas mudam, sabia? — rebati, mal-humorada, pegando a garrafa, meu copo e voltando para a sala.
— Ah, Bethy. Eu não falei por mal, você sabe. — tentou se desculpar, me seguindo outra vez. — Você não faria a mesma coisa, Jay?
— Eu faço o que nessa fase, Mike? Já tentei de tudo, cara. Sempre morro! Que saco! — resmungou Jason, ignorando totalmente o que Michael questionou, que revirou os olhos.
— Vai jogar Minecraft. É o único jogo que você sabe jogar mesmo. — murmurou Michael.
— Olha aqui, peste! Não ouse ofender o mundo do Steve!
— Tá, tá. — revirei os olhos aos dois. — Seguinte, por mim, eu iria mesmo. Mas minha mãe pediu que eu ficasse. — murmurei, me sentindo estranha ao comentar sobre o assunto.
— Ah, sua mãe. — Michael assentiu com a cabeça, entendendo. — E quem disse que ela precisa saber?
Agora olhei boquiaberta para Michael. Quase derrubei a garrafa de vinho. Jason até pausou o jogo para prestar atenção.
— Que ousadia! — exclamou Jason com cara de pasmo, dando uma batidinha na própria coxa. — Logo o Mike sugerindo que alguém quebre as regras! É hoje que chove!
— Cala a boca, Jay. — Michael fechou a cara.
— Jackson, é lógico que já pensei nisso. Mas é bem mais complicado do que você imagina...
— Bethany, sua namorada tá em Paris. Sozinha. E você tá aqui, com seus irmãos mais velhos tapados, claramente perdendo seu tempo. — afirmou ele, indignado. — Pelo amor de Deus, some logo! Vai ver aquela menina, criatura!
— Mas Michael, eu não tô desesperada! — berrei, sem paciência.
— Então você não a ama. — disse simplesmente. Quando eu ia rebater, ele arregalou os olhos. — Jesus. Eu tenho que ir.
Dito isso, correu em direção à porta do apartamento, a escancarou e saiu, sem mais nem menos. Eu fitei Jason com a maior cara confusa que eu tinha em minha coleção de faces. E ele, “preocupadíssimo”, deu de ombros e continuou a jogar.
— Ele tá apaixonado e amando. É mais problemático quando se sente os dois.
— Eu nunca pensei muito na diferença entre se apaixonar e amar. — murmurei, pensando alto.
— Deve ser porque nunca sentiu um dos dois. — respondeu Jason, distraído. — Você é nova, Beth. Isso não demora pra acontecer.
— Mas eu amo a Mia. — declarei com certeza absoluta.
— Se palavras bastassem, eu tinha conseguido meu diploma do Ensino Médio sem repetir de ano. E olha que eu e a diretora nos dávamos bem. — respondeu dando risada, ainda distraído. Eu o observei por um momento.
— Eu te conheço mesmo, Jason? — questionei, não necessariamente pedindo uma resposta. Ele me fitou, não se importando em pausar o jogo.
— Você conhece o Jay. E ele é um cara muito legal. — respondeu dando um sorriso amarelo.
De uma coisa tenho certeza: estarei em um caixão muito em breve. Mas espero ser enterrada em um cemitério de Paris, ao menos.
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