​O banquete havia terminado, mas o peso daquela noite pairava sobre os aposentos reais como uma névoa densa. No quarto principal, Luan caminhava de um lado para o outro, o manto jogado sobre uma poltrona, enquanto Maya desfazia as tranças do cabelo diante do espelho. O silêncio do marido era ensurdecedor.

​— Você está vendo o mesmo que eu, Maya — disse Luan finalmente, parando diante da janela que dava para o pátio interno. — O modo como ele a olha. O modo como ela não consegue mais esconder.

​Maya suspirou, pousando a escova de prata. Ela se levantou e caminhou até o marido, pousando a mão em seu ombro. Ela conhecia Luan melhor do que ninguém; sabia que, por trás da autoridade do rei, batia o coração de um pai protetor e de um amigo que se sentia traído.

​— Eu vejo, Luan. Mas também vejo dois corações que tentaram lutar contra o impossível durante dez anos — respondeu Maya com suavidade. — Não tome uma decisão no calor da desconfiança. Marcos deu a vida por este reino. Anastácia é o seu sangue.

​— Ele é o tio dela, Maya! — Luan virou-se, a voz carregada de uma dor contida. — Eu confiei a ele a educação da minha filha. Eu o trouxe de volta para que ele encontrasse uma esposa e vivesse em paz, não para que ele...

​— Ele não é sangue dela, Luan — Maya o interrompeu gentilmente, lembrando-o da verdade que todos tentavam esquecer para manter a fachada de família. — Silas foi o progenitor, mas foi Dominic quem o criou. A lei diz uma coisa, mas o coração não lê pergaminhos reais. Se você agir com violência agora, perderá os dois.

​Luan fechou os olhos, a testa encostada no vidro frio.

— O que você sugere? Que eu simplesmente ignore que meu melhor amigo está apaixonado pela minha filha?

​— Sugiro que você seja o Rei que Dominic te ensinou a ser — disse Maya, aproximando-se mais. — Não os confronte com espada e fúria. Converse com Marcos. Deixe-o ver o peso do que está acontecendo. Se houver honra nele — e nós sabemos que há — ele mesmo terá que decidir o que sacrificar. Mas se você os proibir com tirania, eles fugirão, e Tara perderá o seu maior general e a sua futura rainha.

​Luan respirou fundo, sentindo o conselho da esposa acalmar o incêndio em seu peito. Maya tinha razão; a força bruta de nada serviria contra um sentimento que sobrevivera a uma década e a uma distância continental.

​— Eu vou falar com ele amanhã — decidiu Luan, a voz mais baixa. — Mas não como rei. Como o homem que lhe deu uma família quando ele não tinha nada.

​Enquanto isso, no corredor escuro, uma sombra se afastava da porta real. Anastácia ouvira o suficiente. Ela sabia que o tempo de esconder-se nas sombras havia terminado. O confronto final entre o dever e o coração não seria apenas dela e de Marcos, mas de toda a linhagem Mackenzie.