​A conversa com Luan no boticário não havia sido um confronto de gritos, mas algo muito pior: um duelo de silêncios e decepções. O Rei não o acusara formalmente, mas o olhar de Luan — carregado de uma tristeza profunda e da lembrança de anos de amizade — fora mais cortante do que qualquer lâmina. Marcos saíra de lá com a certeza de que sua permanência em Tara era uma faísca perigosa pronta para incendiar o legado dos Mackenzie.

​Ao cair da madrugada, enquanto o castelo mergulhava num sono inquieto, Marcos preparava sua partida. No silêncio das cavalariças, ele apertava as cilhas de seu garanhão negro, os movimentos mecânicos escondendo o tremor de suas mãos.

​— Fugindo novamente, Conde? — A voz de Anastácia cortou a escuridão, vinda das sombras de uma coluna de pedra.

​Marcos não parou o que estava fazendo. Sua mandíbula estava travada.

— Não é fuga, Anastácia. É devolução. Estou devolvendo a paz ao seu pai e a honra ao seu nome.

​— Você está sendo um covarde! — Ela avançou para a luz da lanterna, os olhos brilhando de raiva e lágrimas. — Depois daquela noite na caverna, depois de tudo o que admitiu... você vai simplesmente sumir como um fantasma?

​Marcos finalmente se virou. O rosto dele, sob a luz bruxulante, parecia dez anos mais velho.

— Eu olhei nos olhos do seu pai hoje. Eu vi o homem que me deu um teto quando eu era o filho de um monstro. Se eu ficar, eu destruo a família dele. Se eu ficar, eu transformo você no que Silas transformou Ester: um segredo vergonhoso. Eu não vou deixar que você seja o pecado de Tara.

​— Eu não me importo com o que eles dizem! — ela gritou baixinho, agarrando a frente da túnica dele. — Vá para Mônaco, então. Mas não me deixe aqui como uma boneca de porcelana esperando para ser casada com um estranho. Leve-me com você.

​— Eu não posso — ele sussurrou, segurando os pulsos dela com uma força dolorosa antes de soltá-los. — Se eu te levar, eu sou um sequestrador e um traidor. Se eu for sozinho, sou apenas um homem que voltou para o seu posto. Deixe-me salvar o pouco de alma que me resta, Anastácia.

​Ele montou no cavalo, o animal impaciente sob o clima tenso. Marcos olhou para ela uma última vez, o coração sangrando sob a armadura de gelo que ele forçara a reconstruir.

​— O tempo cura tudo, pequena fera — disse ele, usando o antigo apelido como uma despedida definitiva. — Um dia, você será uma grande rainha e agradecerá por eu ter partido esta noite.

​— Eu nunca vou te perdoar por isso, Marcos! — ela exclamou, vendo-o dar as esporas e galopar em direção aos portões laterais, que já haviam sido abertos por guardas leais a ele.

​Anastácia ficou parada no pátio vazio, o som dos cascos ecoando cada vez mais longe. Ela não chorou desta vez. A humilhação da biblioteca fora dor; esta partida era combustível.

​Lá do alto da torre, Dominic observava o vulto negro desaparecer na estrada. Ele sabia que Marcos achava que estava salvando a família, mas o Velho Leão também sabia que um amor como aquele não se apagava com distância — ele apenas se transformava em algo mais perigoso.