Obsessão ou amor Livro 3 Entre o dever e o coração
9 O Observador no Trono
O retorno a Tara foi marcado por uma calmaria estranha. A neve derretera nas passagens baixas, mas o ar entre Marcos e Anastácia permanecia denso, transformado por uma eletricidade que nenhum dos dois conseguia esconder totalmente. Eles cavalgavam com uma distância protocolar, mas a forma como os cavalos se aproximavam "acidentalmente" e o modo como Marcos a ajudava a desmontar — mantendo as mãos na cintura dela um segundo a mais do que o necessário — contavam uma história que o dever tentava calar.
Quando cruzaram os portões do palácio, o Rei Luan estava na sacada, observando. Ele vira o modo como Marcos olhara para trás para garantir que Anastácia estava segura; vira o leve toque de dedos quando eles subiram a escadaria.
O Jantar das Sombras
O banquete de recepção era para ser uma celebração pelo sucesso da missão na Fronteira Norte, mas para Luan, cada brinde parecia um teste de percepção. O Rei mantinha-se em silêncio, o queixo apoiado na mão, observando o banquete como um caçador observa o movimento das folhas.
Anastácia estava radiante. A frieza imperial de dias atrás fora substituída por um brilho suave e uma confiança que a tornava ainda mais perigosa. Ela não buscava o toque de Marcos de forma óbvia como antes, mas seus olhares eram conversas silenciosas.
Marcos, por sua vez, tentava manter a fachada de Conde. Ele falava sobre logística e fortificações com Luan, mas sua atenção estava fragmentada. Sempre que Anastácia levava a taça aos lábios ou ria de um comentário de Maya, o maxilar de Marcos travava.
Em um momento, sob a mesa, a mão de Anastácia roçou o joelho de Marcos. Foi um toque rápido, quase invisível, mas Luan notou a leve hesitação na fala de Marcos e o modo como ele subitamente apertou o cabo da faca.
— A viagem parece ter sido... esclarecedora — comentou Luan, sua voz cortando o burburinho do salão.
Marcos pigarreou, recuperando a compostura.
— Foi produtiva, Majestade. O Norte está estável.
— Fico feliz — disse Luan, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Especialmente porque percebo que a hostilidade entre vocês parece ter se dissipado. Anastácia, você parece ter aprendido muito com seu tio.
Anastácia sustentou o olhar do pai com uma serenidade que a surpreendeu.
— O Conde é um mestre paciente, pai. Ele me ensinou que, às vezes, o que parece ser um obstáculo é, na verdade, o caminho.
Luan não respondeu. Ele apenas tomou um longo gole de seu vinho, olhando de Marcos para Anastácia. Ele via a mão de Marcos tremer levemente ao pousar a taça. Como Rei, ele deveria estar satisfeito com a paz entre os dois. Como pai e amigo, um alarme silencioso rugia em seu peito.
Dominic, do outro lado da mesa, trocou um olhar carregado com Luan. O Velho Leão acenou quase imperceptivelmente, como se dissesse: O gelo rachou, e agora as águas vão correr.
O jantar terminou sem confrontos, mas o silêncio de Luan era o prenúncio de uma tempestade. Ele não precisava de confissões; ele vira o pecado refletido no brilho dos olhos da filha e na culpa mal disfarçada do homem que ele chamava de irmão.
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