Obsessão
3 Recomeço
14 anos depois.
O centro de eventos estava todo pronto, a passarela montada e as mesas para o vernissage também estavam prontas. Era uma das noites mais importantes do ano. A empresa de Verônica havia fechado contrato com uma importantíssima grife francesa e era o primeiro desfile deles no Brasil e a empresa de Verônica havia sido a encarregada de toda organização e o marketing do evento, então grande parte do sucesso daquela noite seria creditado a ela, assim como o fracasso. Embora a empresa já tivesse renome e os três donos, Verônica, Fábio e Carolina, já tinham fama e prestígio, Verônica ficava nervosa em todos os eventos como se fosse o primeiro. Ela era tão profissional que ela cuidava que cada detalhe para que tudo fosse perfeito.
— e aí, muito aflita? — perguntou Carolina ao se aproximar de Verônica.
— claro né cunhada, esse é um dos maiores contratos que já assinamos na vida, nada pode dar errado – respondeu ela, que conferia a disposição das mesas pela milésima vez.
Fábio então chegou e cumprimentou a mulher com um beijo.
— meu amor, você já conferiu essas cadeiras duzentas vezes, pode ficar calma que está tudo certo, está todo mundo no lugar certo – disse ele para Verônica.
— eu sei amor, mas como dizia a minha professora na faculdade “é melhor pecar pelo excesso do que pela falta” — disse ela, e então retribuiu o beijo no marido – e o pessoal da portaria, tá tudo certo com a conferência das listas? — perguntou ela dirigindo-se a Carolina.
— sim, acabei de vir de lá e está tudo certo sim – respondeu Carolina.
— ótimo, então é só aguardar. E o estilista e as modelos?
— todos nos camarins – respondeu Fábio – tudo pronto, apenas esperando começar.
— ótimo, então agora é só aguardar, tudo tem que ser perfeito! — disse Verônica, ainda apreensiva.
— vai sair, afinal eles contrataram a melhor empresa desse país – disse Carolina e sorriu – vou mandar abrir a porta e começar a conferência do pessoal autorizado da imprensa para que eles entrem.
Então o evento começou. Em poucos minutos, estava lotado e a imprensa estava em polvorosa, eles adoravam Verônica. Ela era fotogênica, amiga de várias pessoas importantes e famosas do país e disputadíssima, então a movimentação de paparazzis no evento era imensa e toda pessoa famosa que cumprimentava Verônica, Carolina ou Fábio logo surgia um fotografo para registrar o momento.
Na manhã seguinte, o evento, que havia sido um sucesso completo, estava na capa de todas as colunas sociais e logo estaria em todas as revistas do país. Fábio chegou a cozinha e Verônica já estava acordada. A mesa já estava colocada, porém ela não estava comendo nada, ela apenas tomava uma xícara de café e lia o jornal.
— bom dia meu amor – disse Fábio, aproximando-se do rosto da mulher e dando-lhe um beijo.
— bom dia – respndeu ela apática, e Fábio notou.
— o que houve? — perguntou ele, preocupado.
— você lembra que dia é hoje? — perguntou ela aflita.
— desculpa meu amor, mas eu não lembro. Eu esqueci de alguma data? Aniversário de casamento eu sei que não é.
— é hoje que a Flávia sai da cadeia – disse ela, então os dois ficaram em silêncio. Fábio queria muito ter algo a dizer, porém não havia nada que pudesse dizer naquele momento.
Longe dali, Flávia abriu os olhos e olhou novamente, e pela última vez, para aquele teto cinza que ela havia visto nos últimos quatorze anos. Ela então sentou-se na cama e ficou ali sentada esperando a carcereira chegar.
— hoje é meu dia de sorte vadia, finalmente nunca mais vou precisar olhar pra essa tua cara feia – disse a carcereira ao abrir a cela.
— fico feliz também em sair daqui, finalmente Deus me deu a dádiva da liberdade – disse Flávia em resposta, com um sorriso no rosto.
— a que lindo, virou crente também? Com certeza é porque se arrependeu do crime né, não tem nada a ver com o fato de que se converter na cadeia diminui pena né — respondeu a carcereira, seca.
— Deus conhece meu coração e sabe que ele é puro, isso me basta – respondeu ela Flávia, calmamente.
— antes de você tiveram milhões com esse mesmo discursinho ridículo de redenção aí, ninguém vai nesse papinho, bom levanta logo daí e vamos embora que eu não quero mais ter que olhar pra tua cara.
Flávia então levantou-se e foi em direção a carcereira que colocou as algemas e a levou até a sala da diretoria, onde a diretora do presídio a esperava.
— boma dia – disse a mulher sentada do outro lado da mesa, a frente de Flávia – aqui estão seus pertences – disse ela ao pegar um embrulho marrom e entregar a Flávia.
— muitíssimo obrigada diretora, finalmente agora eu poderei reconstruir a minha vida e seguir em frente.
— de fato, segundo o juiz do seu caso, você pagou o que devia a sociedade, tem todo o direito do mundo de recomeçar, mas se você fizer alguma coisa errada, fique sabendo que estaremos aqui te esperando.
Flávia então sorriu, achando que a diretora estava fazendo um piada, porém ela não teve nenhum sorriso em retribuição. Depois de alguns minutos conversando, a diretora chamou a carcereira que conduziu Flávia até o vestiário para ela tirar as roupas do presídio e colocar a sua roupa e ela então foi guiada até o portão. Ela quase não acreditou quando o portão abriu-se em sua frente.
“Depois de todo esse tempo, finalmente é hora de dar a volta por cima” pensou Flávia então com um sorriso no rosto, ela começou a andar, tendo em uma das mãos uma sacola com seus pertences e na outra sua bíblia.
***
— Flávia de Souza? — perguntou a recepcionista.
— sou eu – disse Flávia, levantando-se.
— pode vir comigo, é sua vez – disse a recepcionista sorrindo.
As duas foram andando por um longo corredor até chegarem em uma sala onde havia uma mulher sentada. Era uma mulher que aparentava uma idade avançada, porém ela era muito bonita.
— olá, boa tarde – ela sorriu e então olhou a folha que havia sobre sua mesa e olhou para Flávia novamente – Flávia, é isso?
— sim, sou eu mesma – Flávia deu a mão para a mulher e sentou-se na cadeira.
— bom, eu me chamo Clarice e vou ser a sua madrinha aqui na ONG. Aqui na “Segunda Chance” nos oferecemos um quarto e ajudamos a arrumar emprego pessoas que já pagaram sua dívida com a sociedade. Você tem o direito de ficar no quarto até que consiga um emprego de carteira assinada, depois você tem que arrumar um lugar para morar e ceder a sua vaga, tudo bem?
— ótimo! A única coisa que eu preciso agora mesmo é um emprego pra poder reconstruir a minha vida.
— e você deu muita sorte Flávia, estou com um restaurante que precisa de novos funcionários e eles tem preferência por contratar mulheres. Pelo perfil deles, eu acho que você se encaixa perfeitamente – disse Clarice sorrindo – vou te passar o endereço e o quanto antes você for, maiores suas chances.
— eu vou hoje ainda – disse Flávia sorridente ao pegar o papel que Clarice havia escrito o endereço.
Flávia foi a entrevista e o gerente a contratou naquele mesmo dia para começar no dia seguinte. O restaurante era enorme e muito chique, o dono era um dos ajudantes da ONG Segunda Chance e dava muito suporte a ex-detentos e transsexuais.
***
Era dez horas da manhã em ponto quando Flávia chegou ao restaurante para começar em seu primeiro dia de trabalho, exatamente como havia combinado, ela então assumiu seu posto e ficou esperando que os clientes começassem a chegar para que ela pudesse atendê-los, eis que então chegou a primeira cliente.
A moça que ficava na recepção levou-a até uma mesa e então foi até Flávia.
— pode começar com aquela ali. Mulher sozinha ali na mesa sete – disse ela apontando para a mesa.
Flávia então foi até lá, ela queria começar logo a mostrar o quão pró-ativa poderia ser, mas assim que ela chegou na mesa ela levou um susto.
— bom dia, posso lhe mostrar o menu e a carta de vinhos? — perguntou ela sorridente, mas o sorriso logo sumiu de seu rosto.
— então é verdade, o demônio saiu mesmo do inferno? — disse Verônica.
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