Obsessão

4 A Procura Por Ajuda


— Ve… Verônica? — gaguejou Flávia.

— quando me mandarem a mensagem dizendo que você estava trabalhando aqui eu simplesmente não pude acreditar – Verônica então olhou em volta e olhou novamente para Flávia – ainda mais um lugar assim que aparenta ser tão elegante contrata uma gentinha baixo nível feito você.

— eu vou chamar outra pessoa para atendê-la, com licença – disse Flávia com a cabeça baixa.

— não, você fica sua desgraçada, faço questão de ser servida por você quer dizer, a menos claro que você vá sacar um revólver e me dar um tiro aqui mesmo, ou melhor, você vai queimar o restaurante comigo dentro? — Verônica tinha sangue nos olhos – me traga uma garrafa do vinho mais caro que você tiver.

— sim senhora, só um instante – Flávia seguiu rumo a adega com a cabeça baixa, pegou o vinho que Verônica pediu e voltou para a mesa.

— aqui está, hoje inclusive o especial do chefe é carne vermelha, que combina muito com o vinho tinto que a senhora escolheu… — Flávia estava falando quando foi interrompida.

— quer dizer que agora a piranha entende de vinho também? Fez algum cursinho na cadeia ou o que?

— por favor Verônica, me deixe fazer o meu trabalho, eu sei que você nunca vai me perdoar, mas eu sou evangélica agora e eu só quero seguir a minha vida em frente, eu sou um ser humano melhor agora.

— seguir sua vida? Sabe quem não conseguirá seguir em frente? O Ricardo e o meu filho que você matou antes mesmo dele nascer sua desgraçada, você é um ser humano melhor? Pois eu sou um muito pior e eu vou te dar uma amostra do que eu serei capaz de fazer se você se meter no meu caminho – Verônica então pegou a taça de vinho e jogou-a em seu colo.

— o que é isso Verônica, pra que isso?

— olha o que você fez sua maluca, chama o gerente, chama o gerente agora! — gritou Verônica.

Ao ouvir toda aquela movimentação e os gritos da cliente, a moça que ficava na portaria chamou o gerente que foi rapidamente até a mesa.

— está tudo bem? — perguntou ele ao chegar na mesa.

Antes que pudesse Flávia falar alguma coisa, Verônica começou a falar.

— essa incompetente dessa sua funcionária acabou de arruinar minha roupa, que aliás, custa uns oito meses do salário dela – disparou Verônica, então o gerente a reconheceu.

— sinto muitíssimo pelo infortúnio e garanto que não irá se repetir dona Verônica – ele então fez sinal para que Flávia saísse dali – eu vou chamar outra pessoa para terminar de atendê-la.

— não será necessário, ou você acha que eu tenho condições de continuar aqui? E vou lhe dar um conselho, enquanto essa daí continuar trabalhando aqui, eu farei com que a sua clientela caia, e muito.

Verônica levantou-se e jogou sobre a mesa o guardanapo que tinha em mãos, virou-se e saiu. O gerente ficou apavorado, pois ele sabia quem Verônica era e o barulho que ela poderia fazer, então ele chamou Flávia em seu escritório.

— infelizmente Flávia eu não tenho o que fazer, uma pessoa influente como ela pode fazer muito barulho, eu sinto muito mas eu vou ter que te dispensar. Eu vou te dar 50 reais pelos minutos que você ficou aqui e não vou cobrar nada pelo vinho que a Verônica não pagou, mas infelizmente como eu expliquei, eu preciso te dispensar.

— mas ela é tão influente assim?

— você está brincando? Verônica é casada com Fábio Albuquerque, os dois são donos de uma empresa de eventos imensa e de uma das empresas de marketing e propaganda do país.

— bom, infelizmente eu não posso bater de frente com alguém dessa importância né – ela fez uma expressão triste – obrigado pela oportunidade e espero do fundo do meu coração que Deus te abençoe, mas eu posso te pedir apenas um favor?

— claro, se estiver ao meu alcance.

— eu preciso procurar um endereço na internet – ela sorriu gentilmente.

Ele então emprestou o computador para que ela fizesse sua pesquisa. Ela pegou um papel e uma caneta, anotou um nome e um endereço, agradeceu novamente e saiu.

***

— eu não acredito que você foi até lá Verônica, você tem noção do perigo que foi isso? — disse Fábio, ele estava reprovando completamente o que a mulher havia feito.

— pois eu acho muito que bem feito e vamos ficar de olho, se ela não for demitida eu vou colocar todos os críticos gastronômicos dessa cidade pra acabar com o restaurante e eu vou lá e faço a mesma coisa que a Verônica – disse Carolina.

— e eu confesso que me segurei pois a minha real vontade era de pular na jugular dela e matar ela ali mesmo, não, vocês acreditam que ela teve a coragem de me dizer que virou evangélica e agora é uma pessoa melhor? Eu deveria ter metido a mão na cara dela.

— sim, um horror, é por causa de gente como essa hipócrita aí que os evangélicos sofrem tanto preconceito – completou Carolina.

— mas e vocês já pararam pra pensar que ela pode mesmo ter se arrependido? Talvez ela tenha mesmo conhecido Deus ele fez ela entender seus erros – tentou argumentar Fábio.

— você vai mesmo defender essa mulherzinha meu irmão?

— você acha mesmo que alguém que ateia fogo em uma casa com uma mulher grávida dentro depois de matar seu ex-amante com um tiro a queima roupa dentro pode se regenerar? Não, melhor, digamos que eu acredite que ela se regenerou, você acha mesmo que ela merece meu perdão sendo que a mulher grávida dentro da casa sou eu? — rebateu Verônica – pra essa mulher começar a pagar a dívida que ela tem comigo e com Deus, ela teria que, no mínimo, passar o resto da vida ou presa ou em um tratamento psiquiátrico. Alguém que faz o que ela fez tem algum problema seríssimo, seja psicológico ou seja de moral.

— desculpa meu amor, eu não queria te deixar mal, o que eu quero é que você me prometa que vai manter distância dessa mulher. Oque você acha de contratarmos um segurança pra você?

— não tem necessidade. Se ela se acha louca, eu vou mostrar pra ela o que é ser louca. Eu não sou mais aquela jovem deslumbrada de amor que ela quase matou, hoje eu sei me defender.

***

— com licença dona Beatriz – disse a empregada ao entrar na sala onde ela estava – tem uma moça aqui muito aflita para falar com você, ela disse que é uma questão de vida ou morte.

— caramba – disse Beatriz assustada – ela disse o nome?

— disse que se chama Flávia.

Beatriz na hora não ligou o nome ao fato e foi até o hall de entrada de sua casa onde estava Flávia a esperando, na hora em que ela viu, um flashback veio em sua cabeça, era Flávia, a mulher que havia passado 14 anos na cadeia pelo assassinato do irmão de Beatriz.

— Flávia, você saiu quando da cadeia? — perguntou ela espantada quando viu Flávia ali.

— faz dois dias – disse Flávia com um sorriso no rosto.

Beatriz como irmã de Ricardo, deveria odiar Flávia, porém não era o caso, ela acreditava que Flávia era inocente, então ela a abraçou.

— fico feliz de saber que você está bem – disse Beatriz sorrindo.

— na verdade eu não estou muito bem não – disse Flávia e deu um longo suspiro, em seguida, ela começou a chorar.

— o que houve? — perguntou Beatriz, preocupada – vamos até a sala conversar – ela então virou-se para a empregada – Maria, prepare um chá e nos traga na sala – quando as duas chegaram na sala, sentaram-se no sofá – o que houve, me conta.

— desculpa mesmo vir te chatear com essas coisas mas é que eu não tinha mais pra quem pedir ajuda Beatriz e eu sei que você é uma pessoa justa então eu estava desesperada, eu preciso de ajuda.

— mas claro Flávia, o que eu puder ajudar, e só me dizer!

— assim que eu saí da cadeia eu fui até um ONG que ajuda ex-detentos a arrumarem emprego e tinha conseguido um emprego em um restaurante, o problema é que a Verônica foi lá no meu primeiro dia e fez um escândalo e me fez perder o emprego.

— mas aquela infeliz não tem jeito mesmo, ela já acabou com a sua vida e ainda não te deixa em paz, mas é uma desgraçada mesmo. Bom, mas se esse é o problema, pode secar as suas lágrimas, você começa amanhã mesmo – disse Beatriz e deu um sorriso – eu vou te colocar como minha secretária na revista.

Beatriz era herdeira de um enorme conglomerado de editoras e ela trabalhava em uma das revistas, uma de moda a qual ela era a editora-chefe.

— Deus te abençoe Beatriz, você é um anjo que Deus colocou no meu caminho! — disse Flávia, trocando a expressão triste por um sorriso.