Obsessão

5 O Crime de Beatriz


Notas iniciais
O texto a seguir retrata um episódio fictício de racismo com a intenção de promover uma reflexão sobre o tema que, infelizmente, ainda é muito presente no nossa sociedade. Jamais inserido com a intenção de ofender ninguém.

— eu posso saber o que a assassina do meu filho está fazendo na antessala do escritório da minha filha? — gritou Antenor ao bater a porta do escritório de Beatriz.

— calma pai, assassina não, você sabe que a responsável pela morte do Ricardo foi a Verônica, ela armou pra Flávia. Você acha mesmo que se ela fosse culpada eu daria emprego pra ela? Pelo amor de Deus!

— ela foi pega no flagra Beatriz, a única pessoa nesse país que acredita na inocência dela é você!

— não pai, ela não foi pega no flagra, quando a polícia chegou na casa, eles encontraram os três desmaiados sendo que o corpo do Ricardo estava próximo da Verônica. Eu li aquele processo umas mil vezes, eu não estou falando porque eu tenho implicância nem nada, só que ao meu ver, foi armado pra Flávia – argumentou Beatriz.

— e que motivos a Verônica teria pra matar o Ricardo Beatriz?

— não sei pai, talvez o seguro de vida que ela recebeu que tirou o pezinho dela da lama.

— Beatriz Grimaldi, já chega, como diretor dessa empresa e seu pai eu ordeno que você demita essa mulher imediatamente.

— pois bem senhor diretor Antenor Grimaldi, se você se interferir desse jeito no meu quadro de funcionários eu me demito junto. Se eu não tenho nem direito a escolher o meu quadro de funcionários, eu não tenho mais nada o que fazer aqui dentro.

— eu não acredito no que estou ouvindo, você está realmente me desafiando por causa dessa mulherzinha?

— não meu pai, eu estou apenas dizendo que se não posso escolher meu quadro de funcionários, eu não tenho mais nada o que fazer aqui.

— eu espero que você não se arrependa dessa decisão Beatriz – Antenor então virou-se e saiu.

Logo em seguida, Flávia entrou na sala de Beatriz.

— seu pai não me aceita aqui né? — disse ela, cabisbaixa.

— eu sabia, no momento em que te contratei que eu ia ter que enfrentar esse tipo de coisa, mas vale a pena sabe, se for pra fazer a coisa certa.

***

— ela o que? — perguntou Verônica, incrédula.

— sim, a Beatriz contratou a assassina do irmão dela pra ser secretária – respondeu Carolina – mas porque essa mulher te odeia tanto?

— sabe, ela nunca me aceitou. No dia em que o Ricardo nos apresentou ela já fou super hostil comigo e nunca me deu oportunidade de chegar a ela sabe – Verônica então fez uma pequena pausa, em seguida voltou a falar – ela nunca me falou nada mas eu acho que ela é racista. Todas as pessoas negras próximas a nós ela sempre tratou de forma hostil.

— oi? Você tá me dizendo que em pleno século XXI uma mulher influente e que tem acesso à informação como ela te odeia pela cor da sua pele? Eu simplesmente não creio nisso, que vontade de dar uns tapas na cara dessa mulher! — disse Carolina indignada.

— nem me fale, eu me seguro pra não dar uns tapas na cara dela tem anos, mas dessa vez ela vai me ouvir, a se vai – disse Verônica, ela então pegou a bolsa e foi em direção a porta – você cobre os meus compromissos hoje Carol?

— claro, vai lá.

Verônica então pegou seu celular e saiu da sala, ela então foi até a mesa de sua secretária.

— descubra pra mim onde a Beatriz Grimaldi, a editora da Tendência vai almoçar hoje – então ela pegou seu telefone e chamou seu motorista.

Era quase 13h quando Verônica chegou eu restaurante. Ela foi ao restaurante que ela ia praticamente todos os dias, então não foi difícil para a secretária de Verônica descobrir, então ela se aproximou da mesa onde Beatriz estava sentada.

— se importa se eu puxar uma cadeira? — disse Verônica.

— me importo sim, e muito– rebateu Beatriz.

— ótimo, se eu estiver incomodando, aí que eu faço questão de sentar mesmo – então ela puxou a cadeira.

— posso saber o que eu fiz pra merecer a duvidosa honra da sua companhia?

— jura que você não sabe?

— e vai dar escândalo aqui como fez no outro emprego da Flávia? — então Beatriz deu mais um gole em seu vinho.

— você realmente acredita na inocência dela Beatriz? Você, uma mulher que tem acessoa a informação, que acompanhou todo a investigação e o julgamento? — Verônica tentou argumentar.

— justamento por tudo isso que você acabou de mencionar que eu sei que a Flávia é inocente. Você realmente acha que se ela tivesse planejado toda essa trama diabólica que você conseguiu fazer parecer no tribunal ela não teria pensado também em fugir? Francamente, segundo o que o promotor alegou, vocês foram encontrados os três caídos no chão, sendo que o Ricardo estava com a cabeça no teu colo e a arma estava próxima a Flávia, que aliás, estava com a perna em chamas. Se ela fosse esse gênio psicopata que você alega, ela não teria pensado em um modo de como fugir?

— Beatriz, ela não fez isso com o intuito de fugir, ela deixou bem claro que ou o Ricardo ia embora com ela, os morreríamos os três, mas o plano dela falhou, pois quando ela teve a brilhante ideia de atear fogo na casa é óbvio que as chamar chamaram atenção!

— chega, eu não preciso dar explicações pra você sobre quem eu emprego ou deixo de empregar Verônica, você por favor de retire da minha mesa.

— me dá só um motivo pra eu ter matado o teu irmão, só um que seja razoável e eu me levanto e você nunca mais vai ver a minha cara.

— talvez os oitenta mil que você recebeu do seguro de vida dele – hostilizou Beatriz.

— o que? — Verônica ficou muito indignada com a acusação – eu nem sabia da existência desse seguro de vida, eu fiquei sabendo daquela porcaria um mês depois da morte do Ricardo quando o pessoal do banco me ligou. Ei fiquei um mês comendo o pão que o Diabo amassou sem um centavo no bolso, recém-viúva, tinha sobrevivido a um atentado e sofrido um aborto e tive que trabalhar por fora do escritório como diarista pra não passar fome, levei dois empregos, mas ao contrário de você que sempre recebeu tudo de mão beijada, eu nunca tive nem medo nem vergonha de trabalhar!

— como eu já disse antes, não preciso te dar satisfações e não vou ouvir sermão da boa moça trabalhadora.

— por que você não toma vergonha na cara e não admite que está fazendo isso só porque me odeia hein sua garotinha mimada? Você nunca me aceitou e agora me vem com essa teoria patética só porque precisa de um motivo pra ficar contra mim, mas acredite, você está ajudando a pessoa que deu um tiro no teu irmão e matou ele e o teu sobrinho. Você é tão burra e cega que nem sequer nota que está criando a cobra que vai te picar!

— escuta aqui garota, eu não vou ser ofendida por ninguém tá me ouvindo – atacou Beatriz — talvez eu nunca tenha te aceitado mesmo porque eu sempre fui a única pessoa que não caiu no teu charminho de quinta categoria. No momento em que você botou os pés dentro da minha casa eu sabia que você não era boa o suficiente pro meu irmão!

— a é – Verônica serrou os olhos encarrando Beatriz – e por que? Qual é o motivo verdadeiro hein?

— porque eu soube desde o início que você não é nada além de uma vigarista.

— estou sentindo que você não está falando tudo. Tá com medinho de expôr a sua verdadeira opinião, hein Beatriz?

— quer saber o por que? Você aguenta saber o por que? Então eu vou dizer, eu sempre soube que uma macaca igual a você nunca seria boa o bastante pra entrar na minha família, sua flagelada.

Verônica nunca havia ficado tão chocada em ouvir algo em toda sua vida. Ela nunca havia sido vítima de racismo de uma maneira tão clara e ofensiva.

— do que foi que você me chamou? — Verônica estava pasma.

— macaca, macaca imunda, flagelada – repetiu Beatriz, vagarosamente.

Verônica deu uma bofetada tão forte na cara de Beatriz que ela quase caiu da cadeira e toso o restaurante parou diante daquela cena. O metre foi em direção a mesa.

— está tudo bem senhoras, vocês precisam de ajuda? — disse ele assutado.

— racismo é crime inafiançável sua desgraçada – gritou Verônica, então ela dirigiu-se ao metre – chama a polícia, chama a polícia agora!

— tem mesmo necessidade disso, não podemos resolver conversando civilizadamente? — pergunto o metre assustado.

— não, não podemos não, com criminosas não existe civilidade! — disparou Verônica.

— eu ouvi tudo – levantou-se uma senhora que estava sentada em uma mesa ali próxima – essa moça tem toda a razão, ou você chama a polícia, ou chamo eu!

Beatriz estava com a mão no rosto onde ela havia levado o tapa, apenas quando ela ouviu o metre ordenar que chamasse a polícia ela deu-se conta da encrenca em que tinha se metido. Ela sabia que racismo era crime inafiançável e que ela se daria muito mal por causa do crime que acabara de cometer.