Obsesso
39 38. Armadilha
Notas iniciais
Ela conferiu a fechadura pelo que Nagato contou ser a nona vez. Antes não percebera as compulsões que Konan adquirira após o estupro. Agora não conseguia parar de pensar nelas.
As janelas nunca abertas, as portas sempre trancadas, as várias vezes que ela checava os cômodos, como se tivesse medo de que mais alguém estivesse na sala. Era naquela noite que tudo aconteceria. Ele tinha planejado do início ao fim o que faria, e achava que acabaria tudo bem. Para si, ao menos.
— Konan, vamos dormir. Já tá tarde.
Ela negou com a cabeça.
— Deidara ficou de nos ligar quando tudo acabar. Eu quero esperar pela ligação.
A verdade era que ela não queria dormir. Não quando tinha aquela certeza absurda de que Kabuto ainda estava acordado, talvez fazendo com outra mulher o que fizera consigo. Chegou novamente a fechadura, querendo ter a certeza de que ele não conseguiria entrar ali.
Nagato pegou uma arma e caminhou até ela. Colocou o objeto nas mãos trêmulas da mulher, que o encarou com as sobrancelhas franzidas.
— O que qualquer um pode fazer contra você se tiver isso? Estão carregadas.
Konan sabia usar uma arma. Sabia muito bem. Sentiu o peso do metal em suas mãos e um alívio que ela nem mesmo sabia que ainda podia sentir a invadiu. Sorriu para Nagato e sentou-se no sofá. O ruivo caminhou até ela e acomodou-se ao seu lado. Agora precisavam esperar.
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Naruto não conseguia dormir. Seu celular vibrou, mas ele não quis atender. Era, provavelmente, Emi novamente. Desde que o vira na rua, a mulher decidira que seria interessante ligar para ele o tempo inteiro, como uma forma de tortura personalizada. Agora que seu pequeno J nem mesmo se lembrava dele, então a mulher queria retomar o contato?
Pegou o telefone apenas para ficar encarando a tela e sofrendo em silêncio. Arregalou os olhos, surpreso, ao ver o número de Sasuke. Atendeu sem demoras.
— O q…
— Porra, Naruto, por que demorou? Não importa, preciso de você aqui. Agora. Explodiram a outra casa.
— Estou a caminho.
Naruto não sabia se fora ele a desligar ou se Sasuke o fizera. Sabia apenas que ligava para um táxi e pegava sua carteira. Colocou um casaco grosso sobre seu pijama e correu até a frente da casa. Como prometera pagar o dobro se o taxista fosse rápido, o carro freou cantando pneus.
Naruto jogou-se para dentro do veículo.
— Pro Four Seasons. Se conseguir me deixar lá em menos de dez minutos, eu pago três vezes o valor da corrida.
Foi como dizer as palavras mágicas. Aquele taxista nunca mais dirigiria tão rápido quanto naquela noite.
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Sasuke acordou os sobrinhos e colocou casacos pesados sobre os pequenos. Era madrugada e estava frio na rua. Não sabia quanto tempo ainda tinha até a Akatsuki encontrá-lo, mas supunha que não demorariam muito.
Seu celular tocou. Atendeu sem ver quem ligava.
— Alô?
— Uchiha.
Sasuke não conhecia aquela voz.
— Quem é?
— Nagato. Você me conhece pelos arquivos do seu irmão.
O ódio que o moreno sentia era tão profundo que Sasuke queria poder estrangular aquele homem. Os dois pequenos sonolentos em nada ajudavam na apressada tarefa de ficarem prontos para evacuar.
— O que diabos você quer?!
— Uma equipe vai chegar aí em uns quinze minutos. Vão jogar explosivos pelas janelas e entrar por lá, então é uma boa ideia tentar escapar pela porta da frente. Na garagem haverá três em um carro, todos armados, esperando você. Ainda é sua melhor alternativa de fuga, mas tenha cuidado.
O Uchiha franziu o cenho, totalmente confuso. Quinze minutos? Então ainda havia tempo. Ajeitou as malas, sentindo o ombro machucado arder.
— Não acredito em você.
— Isso é com você. Eu fiz algo por você, então agora você faz algo pra mim. Preciso daqueles arquivos que você tem sobre os experimentos de Kabuto.
— O que isso pode ter a ver com você?
— Certamente não é da sua conta. Um favor por outro, Uchiha.
— Você me deu a localização tática de um time. Posso matá-los agora.
— Bom, problema deles. Kabuto não participa da ação real, então…
— Preocupado com ele?
— Não, mas sou eu quem vai matar aquele verme.
Sasuke abriu um leve sorriso de canto.
— Ele infectou uma mulher de quem você gosta, hm?
— Não importa.
— Se sairmos todos vivos daqui, os arquivos são seus.
— Já disse o que eu sabia. Mentira. O ruivo é canhoto.
— É melhor você não estar me engando.
— É melhor você não morrer. Preciso daqueles arquivos.
Sasuke desligou e ligou para a delegacia. Pediu reforços, todos em quem Neji pudesse pensar. Depois disso Naruto entrou correndo no quarto com uma touquinha nos cabelos e pijama debaixo do casacão.
Sasuke precisaria se lembrar daqueles trajes para zoar com ele depois. Naquele momento, ainda não era a hora.
— Temos cinco minutos.
O Uzumaki pegou Naoto e a mala branca. Daquela vez era ele a levar a caixa com os documentos. Chegaram às escadas e Naruto segurou a caixa com a mão e Naoto com a outra. A mala, chutou para baixo e rezou para que ela não abrisse. Não abriu. Sasuke fez o mesmo. Estavam chegando à garagem quando ouviram a explosão. Poeira caiu do teto e, por um segundo, Sasuke jurou que seriam todos soterrados. Não foram.
— Há uma equipe em algum carro.
— Em que carro vamos fugir?
— Comprei um.
Naruto não deveria mais ficar surpreso com aquelas coisas, porém ainda ficava. Um tiro atingiu um automóvel à direita deles e o alarme soou.
— Merda, nos viram.
Naruto franziu os lábios e escondeu o corpo do pequeno contra o seu. Esconderam-se, tentando descobrir de onde todos aqueles tiros vinham.
— O ruivo é canhoto – avisou Sasuke. – Mire no lado esquerdo do corpo dele.
Naruto assentiu com a cabeça, sem se preocupar em saber de onde o Uchiha poderia ter tirado aquela informação. Tentou mirar em algum de seus atacantes, porém nem mesmo conseguia saber de onde vinham os tiros. A adrenalina dominava seu corpo.
Correu e escondeu-se atrás de outro carro. Por pouco não foi atingido, mas não conseguiu assimilar o perigo. Naoto estava agarrado a si como um carrapato, o que tornava as coisas mais simples. O menino não proferia um som, nem mesmo mantinha a respiração alterada. Simplesmente agarrara-se ao Uzumaki e fechara os olhos.
— Está tudo bem. Eu to aqui, Nao. Nada de ruim vai acontecer.
O menino não respondeu, apenas apertou ainda mais os olhos e escondeu seu rosto. Estava apavorado, ainda mais do que estivera naquele dia da cozinha.
Naruto tinha uma melhor visão. Não sabia em quem atirava – estavam muito longe –, mas achou ter acertado um deles.
— Sasuke, vem.
Deu cobertura ao moreno enquanto este corria até seu lado. Quando estava a salvo também, o Uzumaki parou de atirar e percebeu que estava sem balas.
— Tem munição reserva?
Sasuke negou com a cabeça.
— Não aqui. Mas tenho outra arma.
O Uchiha estendeu um revólver ao Uzumaki, que sentiu o peso do armamento em sua mão antes de assentir com a cabeça.
— Cadê seu carro?
— Perto. Me dê cobertura.
Naruto assentiu e voltou a atirar. Sasuke correu sem titubear ou pensar que as balas estavam cada vez mais perto. Apertou a chave do carro e este abriu. Jogou-se para dentro dele e rezou para que a Akatsuki tivesse sido suficientemente burra para se esquecer de furar seus pneus. Eles, é claro, não o eram.
Naruto jogou-se ao seu lado no carro instantes depois.
— Acelera, Uchiha!
— Não tem como, eles furaram os pneus.
— PUTA QUE PARIU!
Sasuke abaixou-se pouco antes de o para-brisa explodir. Naruto também deitou no chão, mas o fez rápido demais e Naoto acabou batendo a cabeça.
— Desculpa, Nao. Aguenta aí.
— Tá doendo… – ele choramingou.
— Tá tudo bem.
O menino não soltou o loiro, mas sentiu sua cabeça latejar ainda mais do que deveria. Na frente, Sasuke tentara proteger Aya dos destroços, mas alguns cacos de vidro haviam caído sobre ela.
— Tio Sasuke, eu to sangrando…!
— Aya, não chora agora. Seja forte, ok? Depois eu tiro tudo isso.
— Mas…
— Vai ali pra baixo.
Mas Sasuke não percebeu que, embaixo, estava cheio de cacos de vidro. Era o local mais seguro para ela no momento, porém também era uma armadilha. A menina gritou, entretanto nenhum dos adultos lhe deu atenção.
— Naruto, precisamos de outro carro. Sabe fazer ligação direta?
— Sei.
O Uzumaki abriu a porta de supetão e jogou-se para fora. Balas caíam sobre ele e uma chegou a passar tão perto do braço de Naruto que deixou uma marca e arrancou sangue. O Uzumaki agradeceu por não ter sido mais do que aquilo. Naoto continuava apavorado, completamente paralisado em sua posição perto do tronco do loiro.
Pouco depois, Sasuke estava ao seu lado. Aya chorava baixinho contra a camiseta dele.
— Não sei que tipo de bala pode estraçalhar um para-brisa.
— Nos preocupamos com isso depois – Sasuke respondeu. – Precisamos de um carro.
Naruto olhou ao redor e apontou para uma camionete grande e azul. Parecia ser suficientemente forte para o que precisavam. Sasuke deu de ombros.
— Vamos.
Sasuke deu cobertura, e Naruto correu para dentro. Quando estava lá, removeu Naoto de seu peito e fê-lo se esconder no local em que, normalmente, o passageiro coloca os pés. Era um cantinho tão bom quanto outro. Debruçado na janela, retribuiu os tiros até Sasuke fechar a porta ao seu lado. Naruto desencapou os fios enquanto Sasuke lhe dava cobertura e, quando o carro ligou, pisou fundo e atropelou um dos atiradores – que ficara sem balas na pior hora possível –. A carroceria era acertada o tempo inteiro, o que não os tranquilizava em nada. Se o tanque de gasolina fosse acertado… BUUM!
Saíram da garagem e caíram na rua movimentada. Sabiam que o carro da Akatsuki estava logo atrás deles, por isso Naruto precisava ser rápido. Não conhecia muito bem as ruas de Boston, e Sasuke ficou a guiá-lo. Precisavam sair da cidade antes que os civis fossem pegos no meio daquela guerra.
Sasuke colocou Aya ao lado do irmão. A menina ainda chorava.
— Minha perna dói… dói muito!
— Aya, fica quietinha mais um pouco. Assim que a gente chegar num lugar seguro, eu olho, ok?
— Mas dói muito…
— Aguenta só mais um pouco.
A menina não parecia com vontade de fazer aquilo, porém não havia muita escolha. As malas haviam sido deixadas na garagem, assim como todas as cópias de papéis sobre o caso de Itachi. Bem, havia coisas mais importantes do que aquilo.
Conseguiram chegar a um local um pouquinho mais afastado, e o tiroteio recomeçou. Naruto abaixou a cabeça assim que o vidro traseiro foi atingido. Sasuke o imitou e arrumou sua arma. Debruçou-se pela janela e pôs-se a atirar. Em movimento era quase impossível mirar, mas tentava acertar os pneus alheios, assim como sabia que eles tentavam fazer consigo. Ao ver que não conseguiria, começou a mirar no motorista.
Quase foi atingido três vezes. Se acreditasse em Deus, diria que ele estava cuidando de si. O carro foi atingido, assim como as janelas e os vidros dianteiro e traseiro. Era um milagre Naruto não ter sido atingido também. O Uzumaki concentrava-se na direção e Sasuke em atirar.
Foi quando Sasuke recebeu uma mensagem. Mostrou-a a Naruto, que assentiu com a cabeça.
— Aya, Naoto, subam pro colo do tio Sasuke.
Os pequenos estavam apavorados para fazer qualquer coisa sozinhos. Sasuke puxou-os para cima e ficou de joelhos. Colocou os pequenos no banco e apoiou as mãos onde deveria estar sua cabeça. A bunda tocava no porta-luvas; Aya e Naoto estavam presos entre o banco e o corpo do tio.
— Ok, Naruto, é agora.
— Não ouse voar para fora desse carro – avisou o Uzumaki.
Sasuke puxou o cinto de segurança, mas este não passava por seu corpo na posição em que estava. Colocou-o ao redor dos sobrinhos e segurou-se com firmeza.
— Esperemos que esse airbag funcione direito.
Sasuke fechou os olhos e Naruto freou.
Ouviram os pneus cantando, tanto do seu carro quanto do outro. A batida não demorou a vir, e Sasuke sentiu as costas queimarem quando o Airbag o impediu de voar para longe. O peso do corpo do tio esmagou tanto Aya quando Naoto, que gritaram apavorados. Naruto bateu a cabeça contra o volante uma vez, mas não teve nem um ferimento grave.
Levaram alguns minutos para se recuperarem da batida.
— Aya? Naoto? – era Naruto.
Aya chorava, assim como o irmão.
— Tio Naru, tá doendo, tá doendo.
— Sou eu – disse Sasuke.
Ouvir a voz do Uchiha fez Naruto soltar a respiração. Sasuke estava bem. Ao menos, vivo.
O Uzumaki chutou a porta do carro – que emperrara – e conseguiu cambalear para fora. Sua cabeça doía e ele via tudo dobrado. Olhou para trás, mas a Akatsuki encontrava problemas parecidos com os seus. Havia tempo de ir socorrer Sasuke.
Fez a volta apoiando-se nos escombros e tentou abrir a porta do Uchiha, mas ela estava muito danificada.
— Sasuke, tenta chutar daí de dentro – gritou Naruto.
— Não consigo chutar nada nessa posição. Faz força.
Naruto fez. Talvez fosse a adrenalina, que o deixava mais forte, ou talvez a porta não estivesse assim tão emperrada. A parte traseira do carro era uma bagunça, e Naruto agradecia a Deus por a Akatsuki ter um motorista suficientemente bom para frear o suficiente para impedir o carro deles de virar. Se o outro estivesse um pouquinho mais veloz… Naruto não queria pensar naquilo.
Abriu a porta e percebeu Sasuke que ainda estava servindo de casulo. O moreno esmagava os pequenos, que provavelmente estavam machucados também. A testa de Aya sangrava, e Naoto parecia um pouco tonto.
— Quem sai primeiro?
— Aya – respondeu Sasuke.
Naruto passou suas mãos por debaixo do Uchiha, mas não conseguiu removê-la. Estava presa, assim como Sasuke e Naoto. Do outro lado, Naruto conseguia ouvir as vozes da Akatsuki. Eles haviam se soltado.
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