Obsesso
36 35. Um dia na piscina
Notas iniciais
Sasuke acordou antes ainda que Aya, por mais incrível que aquilo pudesse parecer. Bocejou e observou Naruto e a menina dormindo juntos. Era uma cena engraçada. O Uzumaki era espaçoso – como o próprio Sasuke já percebera –, e Aya parecia um macaquinho. Estava dormindo quase sobre Naruto. A cabeça ficara sobre o ombro dele – que dormia de costas –, e as pernas finas estava sobre o torso. Ele riu e deixou-os assim.
Não demorou muito para que Aya acordasse e, depois de ela acordar, ninguém mais conseguia dormia. Levantou-se e pulou sobre Naruto, querendo chamar a atenção dele. O Uzumaki pareceu levemente mal-humorado por um minuto, e então já estava brincando com ela de derrubá-la no sofá.
A barulheira não acordou Naoto, que apenas levantou quando Sasuke chamou.
— O que vocês querem fazer hoje? – o Uchiha perguntou.
— PISCINA! – gritou Aya.
— Tá frio, Aya.
— Eles têm piscina térmica aqui no hotel, não têm? – perguntou Naruto.
Sasuke sabia que tinham, mas realmente não queria passar o dia em um lugar lotado de pessoas fúteis e ignorantes. Além disso, detestava multidões. O cheiro de amontoados de pessoas o incomodava.
— Ok… – cedeu Sasuke.
Os pequenos pularam de animação e ansiedade. Naruto espreguiçou-se.
— Sasuke, eu não tenho roupa de banho – informou o Uzumaki.
— Eu também não. Trouxe algum calção, qualquer coisa assim?
Naruto começou a procurar em sua mochila. Logo Aya e Naoto faziam o mesmo.
— Eu não tenho biquíni! – reclamou a menina.
— Vai de calcinha – sugeriu Naruto.
Aya formou um “o” com os lábios.
— Mas não é biquíni!
— E ela não pode ir sem camiseta – protestou Sasuke.
Naruto encarou o moreno por vários segundos, tentando descobrir a piada por trás das palavras dele. Ao perceber que Sasuke falava sério, tentou não responder-lhe com a voz cheia de ironia.
— Ela tem cinco anos.
— E é uma garota. Não pode…
— Cinco anos.
— Isso não…
— Sasuke… cinco anos.
Sasuke suspirou.
— Eu sei qual é a idade dela. Mas…
— Deixe a menina viver um pouco! Aproveita enquanto pode, Aya-chan. Vai só de calcinha, ninguém vai ficar olhando.
Aya pareceu meio indecisa, mas acabou pegando uma calcinha da Hello Kitty. Antes de se trocar, porém, ficou esperando pela ordem do tio. Querendo ou não, era a decisão dele que valeria.
— Naruto… ela vai crescer pensando que pode sair nesses trajes!
Naruto suspirou.
— Não vai. Os dois vão se vestir ou não?
Os pequenos riram. Sasuke apenas negou com a cabeça, descrente, e pegou uma blusa para Aya.
— Vou levar isso também. Se você quiser se trocar, avisa, ok?
Ela assentiu com a cabeça. Sasuke não compreendia que crianças de cinco anos não tinham vergonha ou pudor. Eram corpos, nada além. Não haveria tensão sexual ou pensamentos pervertidos, apenas brincadeiras divertidas. Naruto sabia muito bem. Aya não era a primeira criança que cuidava. Afastou os pensamentos. Prometera nunca mais pensar naquilo.
— Ela não vai querer – cantarolou Naruto.
Naoto colocou apenas sua cueca. Os dois pareciam prontos para qualquer coisa. Sasuke riu. O menino estava com uma cueca do Batman. Pareciam tão… pequenos.
O Uchiha pediu algumas frutas para comerem antes de descerem à piscina e as crianças o obedeceram. Precisavam ficar meia hora sem entrar na água depois de comer, então aproveitaram o tempo para preparar tudo o que fossem precisar.
Sasuke ligou para a delegacia e ordenou que Gaara, Neji e Tenten viessem passar o dia com eles. A ideia de ficar ao ar livre era desagradável e perigosa; Sasuke não o faria sem reforços. Sai ficou, pela primeira vez, com o controle total do Inferno.
Pegou um revólver – Tauros, calibre .36 – e entregou-o a Naruto.
— Mantenha-a por perto.
O Uzumaki assentiu com a cabeça e colocou-a em seu casaco. Aya não viu a movimentação, porém os olhos negros de Naoto acompanhavam a tudo com muito cuidado. A arma causava-lhe arrepios e admiração, tudo ao mesmo tempo.
Os quatro seguiram ao elevador e foram até o andar da piscina. Naruto mantinha Aya bem presa à sua mão e com Naoto fazia o mesmo. Agora que estavam fora do quarto, expostos a quaisquer perigos, o Uzumaki começava a pensar que, talvez, aquela não tivesse sido uma boa ideia.
— Eu vou fazer um montão de amigos! – comentou Aya, levantando uma mão cheia para os dois adultos. – E todos eles vão brincar com eu.
Aquilo os deixou ainda mais desconfortáveis.
— Acho melhor ficar com a gente, Aya – começou Sasuke.
Naruto não se intrometeria naquilo; era conversa deles.
— Mas são crianças, tio Sasuke! Eu quero brincar com crianças!
— É perigoso.
— Mas são crianças…!
— Ok, mas não falem com nenhum adulto. Se algum deles se aproximar, vocês dois saem correndo ou apertam o botão, ok?
Naoto mexeu em seu relógio de pulso, brincando com ele.
— Mas e a água? – perguntou o menino.
— Não precisa tirar, ele não estraga.
Aya assentiu, e Naoto fez o mesmo. Ao chegarem à piscina, os olhos das crianças brilhavam. Vários outros hóspedes haviam decidido aproveitar a água quente para esquentar o corpo, e muitas crianças brincavam em uma piscina mais rasa.
— Qualquer coisa, gritem. Gaara, Tenten e Neji vão chegar daqui a pouco. Naruto e eu também ficaremos por perto.
Aya assentiu com a cabeça, contente, e deu um beijo na bochecha de Sasuke antes de sair puxando Naoto pelas mãos. Os olhos azuis de Naruto não deixavam de segui-los nem por um momento.
— Vamos entrar mais pra lá? Aí a gente consegue ficar de olho.
Sasuke assentiu com a cabeça e os dois foram para a borda da piscina adulta que lhes permitia observar as crianças. Entraram na água; Sasuke com camiseta e Naruto sem.
O Uzumaki não compreendia bem o que acontecera ao outro. Era como se, por algum motivo, estivessem retrocedendo. Os sorrisos maliciosos – aqueles que faziam todo o corpo de Naruto formigar – não eram mais emitidos, as frases estavam novamente monossilábicas e mesmo os olhos negros – que antes demonstravam vinte intensões diferentes – estavam inexpressivos.
— O que aconteceu? – perguntou por fim.
Sasuke nem ao menos respondeu. Simplesmente ergueu uma sobrancelha, perguntando do que diabos ele estava falando sem proferir uma única palavra.
— Isso. Você não fala mais direito.
— Falo sim.
Naruto ergueu as mãos, apontando para o ar entre eles como se as duas palavras voassem sobre ele.
— Até ontem você estava mais… comunicável.
“Intenso, sexy, malicioso”, pensou Naruto, mas não disse.
Sasuke soltou uma risada nasalada.
— Ah, isso é porque eu ainda não tentei te agarrar hoje, apesar de você ter se despido na minha frente?
“Sim”.
— Não. Só não consigo entender direito por que mudou de atitude tão rápido.
Naruto precisava admitir que adorava as provocações nem tão inocentes entre eles. Era divertido, sexy, e davam uma cor diferente aos seus dias tediosos. Aquele Sasuke frio e distante, porém, não era quem o Uzumaki queria.
— Não mudei. Só cansei da brincadeira.
Naruto franziu o cenho, confuso.
— Um dia, e você cansou?
— Eu sou assim. Uma vez e nunca mais me interesso.
O duplo sentido daquela frase ficou tão óbvio, mas não óbvio, que Naruto precisou rir. O Uzumaki apoiou-se na borda da piscina e ficou encarando o Uchiha, que ainda mantinha seu olhar em Naoto.
— Você não tá achando que eu tenho alguma teoria alucinante de que nós vamos namorar, casar e ficar velhinhos juntos, tá?
Sasuke voltou seus olhos a Naruto. Estavam frios, distantes, daquele jeito que o Uzumaki odiava.
— Não sei, Naruto. Você está?
Naruto riu.
— Por favor, eu não sou idiota.
Sasuke ergueu uma sobrancelha. A sombra de um sorriso apareceu nos lábios dele.
— Acho que podemos discordar disso.
Naruto mostrou-lhe a língua.
— Baka*.
Sasuke negou com a cabeça e desviou o olhar novamente.
— As brincadeiras estavam ficando interessantes demais. Se acontecesse qualquer coisa, eu te afastava do caso, e Aya e Naoto ficariam sem você. Não posso fazer isso agora.
Naruto analisou os fatos apresentados pelo Uchiha e mergulhou. Ao voltar à superfície, juntou-se ao Uchiha na vigília pelos pequenos.
— Eu não espero um relacionamento, ou qualquer coisa. Nem mesmo estava tão confiante em uma transa. Mas… eu gosto de te provocar. É divertido. Eu sei que você ama me provocar, porque parece que tem uma diversão oculta em tirar minha sanidade, mas…
— É divertido. Você fica excitado e tenta fingir que não está. Era mais engraçado ainda quando você não sabia que eu sou bi. Aquela noite no banheiro, com você repetindo “hétero”… foi muito engraçado.
Naruto fechou a expressão.
— Só se foi pra você. Pra mim não foi nada engraçado.
— Espinafre? Sério?
Naruto suspirou.
— Eu não tava conseguindo pensar direito.
Sasuke assentiu com a cabeça. Virou-se de lado para os sobrinhos e de frente para Naruto. Já vira a cabeleira castanha de Neji a alguns passos das crianças; elas estavam a salvo.
— Exatamente. Eu também não. Você é gostoso e sabe que é gostoso. Eu sou também, e sei disso.
Naruto negou com a cabeça, rindo.
— Exibido.
— É a verdade. Provavelmente teríamos uma noite muito boa de sexo se transássemos, mas eu não amo você. Acho que você sabe, mas só esclarecendo.
Naruto fez uma expressão de pseudotristeza.
— Você não me ama?! Como assim? Cachorro, mentiroso! Achei que vivíamos a mais linda das histórias de amor! Eu queria entregar a minha virgindade a você!
Sasuke riu da representação de Naruto, e logo o loiro também ria. Naruto ria mais do que Sasuke apenas porque o Uchiha não gostava de aparentar estar assim tão feliz em público.
— Cala a boca, Naruto. Só não quero complicações.
Naruto continuou rindo mais um pouco e depois molhou os cabelos com as mãos.
— Não estou complicando. Só não acho que você deva ficar sendo um chato comigo porque tem medo de que eu vá acabar me apaixonando por você. Deixa de ser pretensioso, Uchiha.
Sasuke abriu um sorriso de canto.
— Você sabe o que pretensioso significa?
— Vai te foder!
Naruto afogou de leve o Uchiha, agindo como uma criança. Assim que Sasuke voltou a superfície, lançou ao loiro seu olhar mais sombrio.
— Vai ter troco.
— Pode vir.
Uma sucessão de empurrões e afogamentos aconteceu. Naruto estava em desvantagem, pois evitava qualquer contato com o braço machucado de Sasuke, que se aproveitava disso para afogá-lo mais vezes.
–-//--//--//--//--//
— Aquele é o Sasuke?!
Tenten observava a cena com a boca quase no chão. Neji também estava curioso, mas não demonstrava tanto quanto a noiva. Aquele era um dia relativamente bom para eles. O fantasma de Lee não estava presente, e isso provavelmente era resultado do milagroso dia sem chuva.
Mas o Hyuuga não se animou muito. Sabia que, em breve, a depressão voltaria a dominar sua vida.
— É. Parece que está… eu diria “brincando”, mas não parece ser a palavra certa – respondeu Gaara.
Os três deveriam estar em lugares distintos, porém haviam decidido cuidar das crianças do mesmo ponto de observação. Já vasculharam o lugar mais de três vezes, e nem sinal da Akatsuki; acharam que não havia problema em se juntarem.
— Naruto está conseguindo fazer com que ele se solte assim? – perguntou novamente a morena.
Tenten sabia sobre Mukade – Neji contara a ela –, assim como também sabia sobre muitas das atrocidades que o moreno cometera. Vê-lo brincando daquela forma, tão despreocupado, quase não fazia sentido para ela.
— Naruto, Aya, Naoto. Um pouquinho de cada um, eu acho – respondeu Gaara. – Mas essa relação com Naruto me preocupa.
— Como assim?
— Acho que Sasuke vai conseguir estragar tudo.
Tenten voltou a observá-los, sem compreender de onde o amigo tirara aquilo. Neji acompanhou o olhar dela e percebeu o mesmo que Gaara.
— Eu também acho.
–-//--//--//--//--//--//
— Tio Sasukeee! – Aya apareceu correndo.
A calcinha da Hello Kitty estava molhada, assim como ela inteira, e a menina não parecia desconfortável por estar sem biquíni. Naruto quis esfregar o fato na cara de Sasuke, porém manteve-se calado.
— Fala.
— Vamos almoçar sorvete?
Os olhinhos negros brilharam em expectativa. Naruto até mesmo sentou-se na beirada da piscina e juntou seus olhos pidões aos dela.
— Sim, Sasuke! É uma ideia maravilhosa!
— É, tio, é sim – Naoto se juntou ao coro.
O Uchiha encarou as três crianças – Naruto não poderia ser definido de outra forma – e percebeu que perdera aquela batalha. Jamais poderia retirar a felicidade de Aya e Naoto, e Naruto estava mordendo o lábio inferior com expectativa, o que o tornava atraente demais para que Sasuke entrasse em um debate.
— Tá bom, mas só hoje!
— YES!**
Os três bateram as mãos e comemoraram juntos. Naruto colocou Aya em um ombro e Naoto em outro, e então começou a correr ao redor da piscina.
— Aah, eu vou pular na água…!
— NÃÃÃÃO! – eles gritavam juntos, rindo da brincadeira.
Sasuke saiu da piscina sentindo um incômodo grande no ombro. Deixou a dor de lado – já sentira piores – e sorriu de canto para a cena. Depois percebeu Gaara, Neji e Tenten em um canto. Caminhou até eles.
— Alguma coisa?
A expressão vazia novamente. Gaara a detestava.
— Nada, tudo tranquilo. Quem ganhou sua batalha contra Naruto?
Sasuke não respondeu, apenas lançou um olhar levemente irritado a Neji, que continuou com seu sorrisinho de canto.
— Querem comer algo?
— Não, obrigado. A gente se vira.
Sasuke assentiu com a cabeça e saiu sem quaisquer despedidas. Caminhou até Naruto, que já correra até o bar para comprar os tais sorvetes.
Normalmente o Uchiha tentaria fazer com que comessem algo “consistente”, porém passara quase toda a primeira semana alimentando-os com pizza e massa; não havia como um sorvete ser pior do que aquilo.
Depois do sorvete, Aya e Naoto queria voltar para a piscina, mas os adultos não deixaram.
— Pelo menos esperem por meia hora – ordenou Naruto.
As crianças emburraram, mas logo deixaram a birra de lado e ficaram com Naruto na cadeira de plástico. Sasuke sentou-se em outra cadeira, ao lado deles.
— Tio Naru, me ensina a nadar? – pediu Naoto.
Naruto sorriu e bagunçou os cabelos dele.
— Mas é claro que ensino. Você vai virar um peixinho, vai ver.
Naoto começou a rir.
— Eu não quero ser o Aquaman, só quero nadar.
— Ah, mas o Aquaman é legal!
— É nada – discordou Aya. – O Batman é legal.
Naoto pulou e colocou as mãos na cintura.
— EU SOU O BATMAN!
Pulou da cadeira, escondendo-se em sua capa invisível. Naruto riu. Aya logo pulou também. Ela tinha os braços esticados.
— EU SOU O SUPERMAN!
Ela saiu voando, correndo atrás de Naoto, que fugia dela.
— Batman é melhor!
— Superman é o mais incrível!
— Batman tem a batcaverna!
— Superman sabe voar!
Depois de quase quinze minutos de correria, com Naruto a observar fascinado a discussão – ele preferia o Superman –, os pequenos caíram sobre a cadeira, ao lado dele. Estavam exaustos.
— Eu posso ser o Superman mesmo sendo menina, né? – perguntou Aya.
— Você não pode ser o Superman porque não é alienígena – respondeu Sasuke.
Aya revirou os olhos.
— Não de verdade, tio Sasuke, de mentirinha!
— Então pode ser até o Coringa se quiser.
Ela armou sua expressão de indignação.
— Eu não quero ser o Coringa! Ele é mau.
Naruto bagunçou os cabelos dela.
— Quem quer aprender a nadar?
— EEU! – gritaram os pequenos ao mesmo tempo, estendo os braços para cima.
–-//--//--//--//--//
Subiram para o quarto enrolados em toalhas, todos tremendo de frio. A água quente da piscina e o ambiente climatizado fizera-os esquecer o quão fria era aquela época do ano. Mesmo que os corredores não estivessem à temperatura do lado exterior, ainda estava gelado.
Gaara seguia-os ao lado sem tremer. Não entrara na água e, consequentemente, não se molhara.
— Vamos direto pro banho, ok? – falou Naruto.
Os pequenos assentiram com a cabeça, tremendo. Naruto pegou Naoto no colo e Gaara fez o mesmo com Aya. A menina passou sua mão molhada no pescoço e nos cabelos do padrinho, e depois riu da expressão indignada que ele fez.
— Não faz isso! – reinou Gaara.
Aya mordeu o lábio inferior, travessa, e beijou a bochecha dele.
— Eu te amo, tio Gaara.
Gaara sentiu todas as suas defesas caírem depois daquilo. A menina apoiou a cabeça na curva do pescoço dele, molhando a camiseta seca com seus cabelos molhados, porém Gaara não se importou.
— Também te amo, Aya.
A menina sorriu e bocejou. Água deixava-a igualmente cansada e faminta.
Chegaram ao quarto. Sasuke pegou Aya do colo de Gaara e Naruto caminhou até a mala dos pequenos, pegando um pijama para cada. Aya parecia cansada demais para escolher o que fosse, e tinha os olhos fechados contra o peito do tio.
— Aya, não dorme ainda.
— Não to dormindo.
Sasuke sorriu e beijou o topo da cabeça dela. Aya sorriu, sentindo o abraço do pai com mais vontade. Remexeu-se, confortável, sentindo o cheirinho e o calor de Itachi.
— Senti saudade, papai…
Sasuke sentiu algo molhado atrás de seus olhos. Ninguém mais ouviu a declaração dela, e ele não quis acordá-la naquele momento. Aya sonhava, meio acordada, meio dormindo, com Itachi novamente. Ele também queria o irmão de volta, talvez ainda mais do que ela. Apertou o abraço, dando à sobrinha o conforto que ninguém poderia dar a si.
Caminharam em silêncio até o banheiro. Naoto não chegara a dormir nos braços de Naruto, mas estivera suficientemente próximo de fazê-lo para apenas se apoiar no loiro enquanto este o despia. Sasuke continuava sem acordar Aya.
— Sasuke…
— Só mais um minuto.
Naruto colocou Naoto na banheira, e os dois ficaram esperando o Uchiha se decidir. Sasuke balançou a garota de leve, removendo-a de seus sonhos doces.
Aya piscou, confusa, sem entender como fora parar nos braços de Sasuke. Estava com Itachi há segundos atrás e… três lágrimas escorreram por seu rosto ao perceber que nunca estivera com o pai. Sasuke as limpou e beijou novamente a cabeça dela.
— Está bem.
Aya assentiu com a cabeça. Nem Naruto e nem Naoto compreenderam o que aquilo significava, porém resolveram se calar. Aya também entrou no banho e, em poucos minutos, os dois estavam prontos. Sasuke levou-os para o lado de fora.
— Vão brincar com o tio Gaara.
Voltou a entrar no banheiro, encontrando-se apenas com Naruto. Talvez pudesse flertar com ele, porém não sentia aquela vontade insana de sempre. Naruto parecia estar como si.
— O que foi aquilo com Aya…?
Sasuke suspirou, virando-se de costas para que Naruto removesse seu curativo.
— Ela pensou que eu fosse Itachi. Estava sonhando com ele.
Naruto mais sentiu do que ouviu a tristeza na voz do Uchiha. Talvez fossem os remédios, talvez fosse a nova amizade descoberta, mas Sasuke sentia uma ânsia de compartilhar sua dor com o loiro. Respirou fundo e guardou essa vontade estranha bem no fundinho de seu ser. Naruto não precisava saber de nada.
— E como você está?
— Ok.
Naruto sabia que ele mentia. Não era pela voz – Sasuke não permitiria que sua voz vacilasse –, era algo que não podia ser visto ou ouvido. Seu instinto, simplesmente.
— Pode falar comigo.
— Terminou? Quero tomar um banho logo.
— Terminei.
Naruto saiu do banheiro e pegou a roupa que usaria depois que tomasse seu banho. Aya estava com a cabeça apoiada no peito de Gaara, mas ainda não dormira. Naoto já estava na cama, debaixo das cobertas, perdido no décimo sono.
— Tio Naru, você tá pronto?
— Não, meu bem, ainda preciso de um banho.
Naruto se aproximou de Gaara e Aya estendeu os braços para ele. O Uzumaki a pegou e deixou que a menina se acomodasse.
— Eu contei pro tio Gaara que você vai dormir comigo hoje de novo. Vai, né?
— Sempre que você quiser, little.
Aya sorriu e bocejou.
— Você tá com cheiro de piscina, tio.
Naruto começou a caminhar lentamente pelo quarto. O balanço aumentava o cansaço da garotinha.
— É?
— Uhum…
— Posso te contar uma historinha?
— Eu ainda não vou dormir… quero te esperar.
— Não precisa. Só quero te contar uma história.
Aya assentiu com a cabeça, sentindo os olhos pesarem mais a cada segundo. Gaara observou com uma ruga entre os olhos. Nem mesmo ele conseguira convencer Aya a dormir. A garota estava com fome e ele lhe dera algumas porcarias do frigobar, mas nem depois disso ela fechara os olhos. Estava determinada a esperar por Naruto. Observou a cena, com medo do que Sasuke faria à menina. Naoto era mais racional, compreenderia com mais facilidade a situação, mas Aya… ela amava Naruto. Ele percebia pela forma como ela ficava confortável com ele, pela maneira como falava dele.
Conheciam-se há pouco tempo, mas Aya sentia o mais puro amor pelo loiro. E, pelo modo como Naruto a ninava, ele também a amava. O Uzumaki ficou caminhando com ela pelo quarto mesmo depois de Aya já ter dormido. Simplesmente queria ficar pertinho dela. Gaara conhecia a sensação. Já fizera a Aya bebê dormir mais de uma vez, e ela sempre o fazia ficar daquele jeito também. Era como se algo nela impedisse quem a rodeava de soltá-la.
Rezou para que nada estivesse acontecendo entre Naruto e Sasuke. Não queria ter que separar o loiro de sua garotinha. Sasuke colocou a cabeça para fora do banheiro, indicando que precisava de ajuda para refazer o curativo. Antes que Naruto soltasse Aya, Gaara levantou.
— Eu vou.
Naruto sorriu agradecido e voltou a murmurar a estória de ninar que apenas ele ouvia. Aya dormia profundamente, embalada pelo cheiro de piscina e pela voz de que tanto gostava.
–-//--//--//--//--//
— Naruto – repetiu Gaara.
Sasuke suspirou.
— Já tivemos essa conversa, Gaara.
— Aya o ama.
Sasuke negou com a cabeça. Não, Aya não podia amá-lo.
— Não. Ela não pode.
Gaara refez o curativo de Sasuke. Os toques dele não deixavam o Uchiha com tesão ou com arrepios, pois eram apenas… toques. Não eram como os de Naruto, que carregavam mil intensões diferentes, todas disfarçadas.
— Ela ama. Eu sei, Sasuke. Eu vi.
O Uchiha sabia que Gaara não diria aquilo se não fosse verdade. Colocou sua camiseta e suspirou, irritado.
— Preciso afastá-los. Mesmo que Naruto e eu não tenhamos nada, eventualmente essa situação vai acabar e…
— Não pode. Não agora. Não pode fazer com que ela perca mais uma pessoa que ama.
— Talvez ela só ache que ama. Não o conhece há nem um mês, Gaara…
O Sabaku manteve seu olhar no do Uchiha.
— Crianças são assim, Aya em especial.
— Eu vou dar um jeito nisso.
— Não. Você vai deixar Naruto ser o que eles precisam que seja. E vai ficar longe daquele corpo.
“Já viu aquela bunda, Gaara?!”.
Sasuke assentiu com a cabeça, sabendo que era verdade.
— Não vou fazer nada idiota.
— Ok.
–-//--//--//--//--//
Sasuke saiu do banho e Naruto caminhou até o sofá-cama, intencionando colocá-la lá. Sasuke segurou o ombro do loiro para pará-lo.
— Não, coloque-a na cama com Naoto.
— Mas…
— Você não precisa dormir aqui hoje. Gaara vai te deixar em casa. Não precisa vir amanhã também, ok? Obrigado por ter ficado durante esses dias.
Naruto assentiu com a cabeça e colocou a menina deitada, com toda a delicadeza que possuía. Depois, cobriu-a. Observou que, quase como se fossem um imã, os gêmeos se aconchegaram na cama.
— Ok, vou só tomar um banho. Quando quer que eu volte?
— Pode ser na segunda. Assim você tem dois dias de descanso.
Naruto concordou e foi para seu banho. Estava mesmo com saudades de sua casa. Não que não gostasse de ficar com aquelas crianças, amava fazer isso, mas precisava de seu canto também. Sua casinha, seu lugar no mundo. Adorava ficar lá.
Tomou um banho rápido e logo seguiu com Gaara. O Sabaku parecia completamente indiferente à sua presença, porém acabou puxando conversa pouco antes de chegarem à casa do loiro.
— Naruto, eu preciso saber… você ama Aya? E Naoto?
O Uzumaki pensou naquilo. Não os conhecia há muito tempo, mas eram tão adoráveis…
— Eu não sei, eles são… eles são incríveis, não acha?
Gaara assentiu com a cabeça.
— Deixa eu reformular minha pergunta. Você levaria um tiro por eles?
— Sim.
A resposta foi imediata, sem titubeações ou receios. Gaara sabia. O Sabaku assentiu com a cabeça, tendo a certeza de que não poderia deixar Sasuke brincar com o loiro. Não com ele, pois Naruto era o único que poderia dar a seus afilhados o conforto que Gaara sabia que o tio biológicos deles não conseguia dar.
*Baka: idiota em japonês.
**Yes: sim em inglês.
Fale com o autor