Obsessive Love
2 Capitulo 1 - Sussurros
Notas iniciais

– Garota, como você pode ser tão imprestável, hein? Não consegue fazer nada direito. Sua existência é inútil, maldita! – Eu olho para baixo, para meus dedos enquanto lágrimas de amargor e raiva se formam em meus olhos. Minhas bochechas enrubescem com a vergonha por aquelas palavras terem sido ditas em alto e bom som para quem quer que estivesse na lanchonete escutasse, e não era preciso eu olhar em volta para ver que a atenção de todos ali presentes estava em mim. Eu mentalmente desejei que um buraco se abrisse no chão em baixo de meus pés e me engolisse, ou que um raio caísse na minha cabeça, mas nenhuma das opções aconteceu, e eu tive que me empurrar de volta para a realidade.
– Desculpe, tio. – Murmuro de volta, ainda com a cabeça baixa. Meu tio ri em desprezo.
– Qual é o problema com você? – Me avalia de cima a baixo. – É tão estabanada, não presta atenção no que faz, está sempre distraída. Você é retardada? Tem algum problema psicológico? Porque essa é a única razão para explicar esse seu comportamento patético. – O homem segue me humilhando enquanto eu passivamente o escuto sem poder fazer nada a respeito. Porque ele tinha que ser tão rude comigo? O que eu havia lhe feito de tão ruim para me odiar daquela forma? Eu não entendia, mas precisava encontrar respostas para esse seu comportamento tão agressivo. Talvez ele só seja assim porque nosso avô não o tenha amado como deveria. Devia ser isso.
Mesmo sabendo que suas atitudes eram erradas, eu procurei ser dócil para não deixa-lo irritado e constranger a mim ainda mais.
– Desculpe. O senhor realmente tem razão, eu tenho andado no mundo da lua e...
– Basta! – Ruge assustando-me. Eu pulo para trás e ergo a cabeça em sua direção. – Sua voz de gato no cio me dá dor de cabeça, e sua cara me dá nojo. Vá lavar o banheiro e assim que terminar leve o lixo para fora. Aproveite e fique lá, porque você sabe... – Aproxima seu rosto do meu e levanta meu queixo para que eu olhe em seus olhos. Seus lábios curvam-se em meio sorriso de escárnio. – Lugar de lixo é no lixo.
As lágrimas que eu tentei a todo custo segurar acabam se derramando e eu dou ao meu tio mais uma vez o prazer de me ver chorar. Eu corro para dentro da cozinha e praticamente me jogo em Thea. Ela me acolhe de bom agrado, afagando minhas costa.
– Um dia ainda mato ele! – Diz ela no topo da minha cabeça. – O dia que eu encontrar um lugar melhor para trabalhar, eu vou enfiar a minha bota de bico fino bem na bunda dele.
Eu rio um pouco, mas volto a chorar novamente. Exaustão me define muito bem. Isso tudo já virou rotina, na verdade. Não havia um só dia que Joseph, meu tio não me humilhasse na frente da clientela. Eu já deveria ter me acostumado, não sei porque ainda me deixo abater. Porque você é uma maldita idiota! – Meu subconsciente rosna para mim e eu concordo com ele. Se eu fosse um pouco mais forte, teria coragem para enfrenta-lo.
– Eu preciso ir lavar o banheiro. – Eu falo após um tempo nos braços da minha amiga. Thea é mais velha que eu. Tem vinte e oito anos, é morena de olhos verdes, alta e magra. Só trabalha para o meu tio porque tem que pagar seu aluguel, e o mercado de emprego está meio caótico, caso contrário ela jamais estaria aqui nessa bosta. Nos conhecemos quando ela veio entregar seu currículo, cerca de dois anos atrás, e desde o seu primeiro dia, ela odiou Joseph por sua fodida forma de me tratar. Thea, sem sombra de dúvida era uma das pessoas mais preciosas que eu tinha na minha vida.
– Não, você não precisa. Eu acabei de vir de lá e tá tudo impecável. Não se preocupe com o diabo. Ele acabou de ir para o inferno, quer dizer, seu escritório e provavelmente vai ficar lá até que a lanchonete feche, sendo assim, ele não vai saber se você foi até o banheiro ou não, uma vez que ele confia que você o obedece cegamente. – Thea rola os olhos e franze a boca. – Se eu fosse você já teria quebrado o pescoço dele.
Abaixo minha cabeça, sentindo-me idiota pelo que iria dizer.
– Ele é minha única família. Todos se foram e restou apenas ele.
– Luly. – Thea ergue meu queixo, fazendo-me fitar-lhe nos olhos. – Família não necessariamente tem que ser de sangue. Há laços fraternais que criamos com pessoas “estranhas” que valem muito mais que a porra que corre em nossas veias. Você não tem que aguentar mais isso. Eu sei que se preocupa com seu futuro e que só tá ao lado daquele miserável porque seus avós deixaram uma herança para você e que depende de Joseph para receber, mas não pode continuar se sujeitando a essa odiosa humilhação que ele faz todos os dias com você. Você pode procurar o advogado social e lhe contar sua situação. Tenho certeza que ele vai te ajudar. Eu só não aguento mais ver isso, Luly. Se eu que sou eu e estou de fora me sinto malditamente cansada, imagine você.
– Mas, Thea. – Meu tom ameaça sair desesperado. – Se eu deixa-lo não tenho para onde ir. O dinheiro que eu tenho no banco é para a faculdade, e veja que eu já vou começar atrasada. Eu não tenho como me sustentar ainda, como espera que eu simplesmente deixe tudo? Eu preciso daquele dinheiro, e não é porque eu sou interesseira, é porque eu simplesmente preciso mesmo. Não é tão fácil quanto parece. – Explico a ela, agora em prantos novamente.
Eu queria ter um futuro bom, por isso todo o dinheiro que eu conseguia ia para minha conta, e o dinheiro do testamento dos meus avós iria me ajudar bastante, digo, consideravelmente mesmo. Eu iria de péssimo para excelente, e se eu virasse a costa para isso – coisa que o meu amado tio tanto deseja – eu estaria perdendo uma bela oportunidade de vencer e mostrar a todos que eu não sou essa porcaria que Joseph tanto subjuga. Thea não entende que abandonar isso é dar adeus aos meus sonhos, sendo que é por eles que eu ainda luto todos os dias da minha vida. Eles são as minhas forças de cada manhã.
– Luly, é fácil sim. Deus! É a coisa mais fácil do mundo. Você precisa de instrução porque está bastante desorientada. Entenda que o seu tio não pode te impedir de receber algo que foi concedido somente e absolutamente a você, e pelo que me falou, pelo pouco que eu sei, não há restrições que a impeça de receber. Você já é maior de idade. Pelo amor de Deus! Seu tio não pode pegar na grana porque ela é sua. A única coisa que tem que fazer é pegar aquele documento, então... puff... Tudo estará terminado e você poderá seguir sua vida como sempre sonhou. Quanto ao lugar para morar, tem o meu apartamento. Não é grande, mas tem dois quartos. Eu quero você lá, eu quero te ajudar a se libertar desse tormento. – Ela pisca, mostrando olhos marejados brilhando com chamas de esperança. Meu estomago aperta e um lampejo de liberdade aquece minhas entranhas. – Você só precisa dizer sim.
Oh, meu Deus! Eu sinto minhas asas querendo se alongar para se preparar para o voo que vem a seguir, porém eu não posso ser irracional. Posso ter muito mais a perder do que ganhar.
– Amiga. – Eu acaricio o seu rosto. – Eu vou pensar com carinho, certo? Você sabe que eu não arrisco me jogar de um penhasco sem antes saber se minhas asas estão aptas a funcionar.
– Sempre pé no chão, né? – Thea sorri sem humor e eu retribuo da mesma forma. – Pense com carinho mesmo. Você sabe que eu só quero o teu bem. Sabe que a considero como minha irmã mais nova.
– Oh, Deus! – Eu silvo sentindo lágrimas novamente em meus olhos, mas desta vez elas são de gratidão e afeto. – Eu te amo, Thea. – Eu a puxo para mim num abraço de urso.
– Eu também te amo, Luly. Não esqueça. – Me aperta de forma protetora.
– Eu odeio ter que ser o “Estraga Clima”, mas tem um monte de pedidos prontos para ser entregues. – Dwane chia. Ele é o cozinheiro. Não somos amigos, porém ele se preocupa com o que meu tio faz comigo. Nossa proximidade só não é maior porque ele não permite. – E Thea, a menos que você queira ser o novo saco de pancadas do Sr. Chrifrudo, sugiro que vá logo servir as mesas.
Dwane não está falando diretamente comigo, mas mesmo assim concordo. Thea assente e me solta. Pega uma bandeja com quatro pratos feitos e a leva para a área das mesas. Eu não espero que ela volte, apenas limpo meus olhos e vou até os sacos de lixo. Quando faço menção a tirá-los dos latões, duas mãos agarram meus pulsos. Eu me assusto, mas logo o alivio me invade quando vejo que é Dwane.
– Ouça-me, Layne. Eu ouvi tudo que ocorreu lá fora e aqui dentro também. – Ele me puxa de modo que estamos frente a frente, suas mãos contornam os meus pulsos mantendo-me ali. Seus olhos estão nos meus e sua face reveste seriedade. – A ideia de Thea é boa. Procure um advogado e se aprofunde no seu caso. Isso é o certo a se fazer. Também acho que deveria ir morar com ela, lá você estaria longe de tudo isso. Eu poderia te chamar para morar comigo, mas a minha casa tá cheia de caras, então... sinto muito. – Ele parece verdadeiro e isso faz meu coração acelerar, e minha única vontade é de abraça-lo, contudo eu não sei se posso fazer isso, e por essa razão me contenho. – O que foi? – Pergunta confuso.
– Abraço? – Eu sugiro. Ele pisca, parecendo deslocado, mas assente e solta meus pulsos. Eu, meio hesitante dou um passo e minhas mãos entram por seus braços e vão para sua costa. Muito lentamente nosso corpo se encosta. Eu me sinto estranhamente acolhida e eu nem sei o porquê dessa sensação, já que eu e Dwane nunca fomos próximos. O máximo de nossa interação era um “Bom dia, tudo bem?”, “Boa Tarde, como vai?” e “Boa noite, fique com Deus”. É bom saber que mesmo que ele não demonstre, ele se importa comigo. – Obrigada.
– Certo, menina guerreira. Você sabe que não é lixo como o Sr Chifrudo falou. Ele é um lixo que não pode ser reciclado. E você, Layne... – Dwane está novamente olhando seriamente nos meus olhos. – Você é uma pedra preciosa que precisa ser lapidada. Não pense menos que isso nunca, ok? Ok, Layne? – Ele insiste.
Eu assinto, ainda em choque com o que ele acabara de me dizer. Em outras circunstâncias eu o beijaria, entretanto sei que Dwane só está sendo gentil. Ele nunca se envolveria com um trapo feito eu.
– Pre-Preciso pôr... o lixo para fora. – Agora eu sinto um pouco de necessidade de me afastar dele e ficar sozinha. Meu último pensamento me deixou desconfortável.
– Oh, sim. E eu preciso voltar a cozinhar. Tenha cuidado lá fora. – Ele me solta. Eu me volto para trás e pego as sacolas pretas – que embora estivessem cheias, estavam leves – e as levo para fora, saindo pela porta dos fundo. O caminho até os latões é curto e como está um pouco escuro, eu apresso o passo. Não quero ser vítima de um estuprador. Eu guardo o lixo e me viro para refazer meu trajeto, sobretudo tenha a sensação de que estou sendo observada. Eu paro quando sinto algo atrás de mim. Eu me viro e olho, mas não há nada. Novamente algo passa por minha costa, e eu sou rápida quando me viro, mais não é ninguém. Assustada, eu resolvo voltar rapidamente para a lanchonete. Eu corro até a porta e quando vou abri-la ouço perfeitamente alguém sussurrar em meu ouvido:
– Forte. Forte. Forte. Forte. – A palavra cria eco que reverbera pela minha mente. Eu quero entender o que é isso, mas o frio da noite me açoita, e eu obrigo-me a entrar para a cozinha. De repente é como se eu estivesse no Alasca e meus ossos reclamam com o frio. Um zumbido estranho no meu ouvido me tira da realidade. Respirações pesadas e lentas desnorteiam-me. Confusa, eu apenas fecho os olhos desejando que aquilo tudo acabe.
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