Obsessive Love
3 Capitulo 2 - Atropelamento
Notas iniciais

– O que foi, Luly? — Thea rapidamente abre a porta e eu caio sobre seus braços. Dwane aparece por trás da minha amiga e se esquiva, passando por nós duas indo para fora. Eu me observo. Estou ofegante e meu coração está acelerado num ritmo de estouro de pipocas. Assustada, eu volto o olhar para trás, vendo Dwane fazer uma rápida varredura pelo local. — Luly? Pelo amor de Deus. Você tá gelada. O que aconteceu?
Eu continuo olhando para trás, meio em transe. O que diabos aconteceu comigo? O que era aquilo?
Meu corpo começa a ser chacoalhado e eu saio do meu torpor. Thea tem uma expressão de espanto e seus olhos estão deliberadamente arregalados.
– Luly? — Ela continua a me balançar.
– O que aconteceu? Layne? Layne? — É Dwane. Sua voz está alguns oitavos mais alta, mais grave e sobrecarregada de preocupação. — Layne?
– Ti-tinha alguém a-atrás de mim. — Eu mio após forçar minha garganta a funcionar. Eu sinto meu corpo tremer inteiramente e de repente é como se eu estivesse em queda livre. O meu estômago se agita e eu só tenho tempo para empurrar Thea para longe e virar-me sobre meus joelhos, onde eu regurgito tudo — ou o nada — que tenho na barriga. Alguém passa a mão em minha costa e segura o meu cabelo. Quando a crise de vômito passa, a minha cabeça dá um giro de 360° graus e eu caio para trás.
– Porra, Thea. Ela não tá bem. — Ouço Dwane ranger.
– Temos que levá-la ao hospital. — The rebate.
É nessa hora que eu sinto que devo burlar o meu PT nervoso e tomar as rédeas da situação.
– Eu tô bem. — Eu murmuro, sentindo minha boca amarga e minha cabeça pesada. — Eu só preciso de um copo com água.
– Você precisa é de um médico, garota! — Dwane chia. Eu mal posso reconhecer essa sua atitude. Está nervoso e irritado. O que é isso, hein?
– Eu tô bem, Dwane. Sério! — Eu tento tranquilizá-lo, mas a verdade é que eu estou péssima. Há um conflito de sensações ruins dentro de mim, e eu não posso simplesmente afastá-las. Era estranho porque era a primeira vez que eu sentia aquilo, tudo porque tinha quase certeza de ter ouvido alguém falar algo atrás de mim.
– É. Você tá bem sim, e o Brad Pitty tá me esperando lá em casa. — Thea bufa. Seu tom sarcástico me faz rir um pouco. — Acho que por hoje já deu, Luly. Seu turno acaba aqui.
Eu arregalo meus olhos para ela.
– Nem pensar. — Eu murmuro tentando me erguer. Dwane me puxa pelas mãos.
– Nem pensar digo eu para você. Eu não tô afim de vê-la morrer nessa pocilga. De jeito nenhum! Eu dou conta do trabalho aqui, e se algo apertar, eu chamo outra amiga minha para me ajudar. E não se preocupe com o Chifrudo. Daquele escritório ele só sai quando a lanchonete fechar. Eu te cubro aqui. Você vai pegar o meu carro e vai direto para o hospital, e depois de lá vai seguir para o meu apartamento. — Quando Thea percebeu que eu estava prestes a protestar, pôs um dedo em minha boca e seguiu com suas ordens. — Não tente me contrariar Senhorita Layne OCohone. Eu quero vê-la com saúde e ai de você se der um pio contra o que eu falei.
– Mas, Thea. Como você vai voltar para casa? — Pergunto igualmente preocupada. O lugar onde ela mora é um pouco distante da lanchonete e o percurso a pé até lá é bastante perigoso.
– Eu levo ela sem problema, Layne. — Dwane confirma.
– Gente, olha... Eu tô me sentindo melhor já. Não precisam se incomodar. De verdade, eu vou ficar... Eita! — Paro de falar ao ver as faces raivosas de The e a Dwane. Deus me livre, deu até medo.
Minha amiga foi até o armário e tirou de lá sua bolsa, entregando-me logo em seguida as chaves de seu carro e seu apartamento.
– Vá! — Ordena ela, cheia de autoridade.
– Mas...
– Agora, Layne! — Dwane me corta, rude. Engulo em seco. A preocupação deles comigo é tão bonita que dá até vontade de chorar.
– Tá bem. Tá bem. — Concordo e ando até o armário que minutos antes Thea mexera. Pego minha bolsinha e guardo lá as chaves do apartamento. — Obrigada por me cobrirem. Eu vou retribuir.
Neste momento escutamos a campainha para pedidos que fica no balcão.
– Não temos muito tempo. Eu vou lá anotar o pedido. Dwane vai te levar até o meu carro. — Thea me lança um olhar sério. — Eu amo você, querida. Nos encontramos mais tarde. Cuidado. — Dando-me um beijo na testa, ela se vai.
– Vamos lá, garota. Vão precisar de mim logo. — Eu concordo enquanto Dwane coloca uma mão em minha costa e começa a me conduzir pelo mesmo caminho que eu tinha feito minutos antes para levar o lixo. Sinto um novo calafrio no corpo e novamente parece que alguém está me observando. Olho para todos os lados, mas não vejo nada além de escuridão. A noite está fria e a rua, solitária, o que era bem estranho, sem contar o fato de que ainda era cedo. Em uma noite normal, carros estariam passando sem parar pela avenida.
Quando chegamos ao carro de Thea, o meu acompanhante remove a mão de mim, fazendo-me senti desprotegida e vulnerável. Eu não sabia o porquê daquilo, mas estava começando a ficar assustada. Dwane nunca tinha se mostrado próximo ou prestativo dessa forma, e isso me deixava um pouco desnorteada. Será que ele gosta de mim?
– Prontinho, menina guerreira. — Volto a realidade assim que escuto sua voz. Destravo o carro e entro nele. Dwane se debruça na janela, examinando-me. — Você vai ficar bem? Porque se não, eu vou até o chifrudo e digo que preciso sair.
– Não, que isso?! Eu vou ficar bem sim. — Sorrio, tentando tranquilizá-lo. O mal-estar não havia passado, eu ainda sentia minha cabeça doer com pontadas, e meu estômago revirava de um lado para o outro, entretanto a sensação de proteção que Dwane inconscientemente me transpassava estava minimizando todo o restante.
– Espero mesmo que fique bem. Amanhã quero te ver novinha em folha. — Então ele sorriu para mim pela primeira vez. Eu me senti no céu. Se antes eu havia estado cara a cara com o demônio que era meu tio, agora eu estava na frente de um anjo. E que anjo!!!!
– Obrigada. — Agradeço, sentindo meu coração se derreter e minhas bochechas esquentarem. Reunindo toda coragem que tenho, me inclino para a esquerda e beijo a face do cozinheiro. Surpreso novamente, Dwane pisca seguidas vezes. Eu rapidamente me afasto ao lembrar que minutos atrás eu havia vomitado. Que nojo de mim mesma!!! Será que ele sentiu o meu bafo? — Preciso ir. Cuida da Thea. Até amanhã. — Ainda meio atônito, Dwane se afasta. O pobre não esboça nenhuma reação, apenas fica lá parado até eu dá partida e sair dali.
Meu coração estava na boca pelo que eu havia acabado de fazer. Eu poderia lhe ter beijado nos lábios, mas eu acho que se eu tivesse feito isso, estragaria o nosso convívio diariamente, e eu não queria perdê-lo logo quando ele resolveu mostrar que se importava comigo. Aquilo era coisa de amigos, e tanto eu quanto ele deveríamos nos acostumar com esse tipo de contato íntimo. Mas quer saber? Foi até engraçado, tirando o fato de Dwane ter ficado surpreso.
Concentrando-me na estrada, eu resolvo esvaziar minha mente. Estava meio perturbada por achar ouvir coisas, e ainda me sentia um pouco mal, mas quanto mais rápido eu chegasse ao hospital, mais rápido a sensação ruim passaria. Pisando no acelerador, eu corri o quanto pude até o órgão de saúde.
...
Dirigir a noite era algo que eu particularmente não gostava de fazer por uma razão. Eu não enxergava direito, e minha visão só era boa para perto. Não que eu fosse cega e não enxergasse absolutamente nada, eu via sim, mas era um pouco embaçado. O que estava me deixando apreensiva mesmo era o fato de uma densa neblina está tomando a avenida, e se aquilo ficasse mais forte, eu não iria enxergar nada. Reduzo a velocidade e dou luz alta. Não quero atropelar ninguém e muito menos bater o carro da minha amiga.
De uma hora para outra, a neblina intensifica-se três vezes mais, transformando-se num nevoeiro horroroso.
– Ótimo. — Reviro os olhos. — Meu dia não pode ficar pior.
Então eu sinto um forte impacto na frente do carro, e é como se eu tivesse batido e passado por cima de algo. Merda!
É... pelo jeito poderia sim ficar pior.
Paro o carro, temerosa sobre ter atropelado um pobre animalzinho. Meu Deus! Se foi isso que aconteceu, não vou me perdoar nunca. Se ao menos eu enxergasse direito...
Ativo os piscas do carro para sinalizar que há um carro parado ali. Não quero causar mais problemas. Desço e bato a porta, então começo a caminhar para onde eu achava que o que eu bati estava. Assim como veio, o nevoeiro se foi, deixando apenas a neblina de antes, permitindo-me ver mais claramente algo estirado no meio do asfalto. Sinto um calafrio tenebroso e a sensação só aumenta cada vez que eu me aproximo mais do que quer que fosse aquilo no chão. Dou apenas mais três passos, então simplesmente travo. Meu Deus!!!
Não podia ser. Deus. Não!!!
Era um corpo. Meu pai. Era um maldito corpo de uma pessoa!!!!
Eu atropelei uma pessoa!
Que bosta eu tenho na cabeça?
Desesperada, forço meus pés a correr na direção da vítima. É um homem e parece estar desmaiado. Ajoelho-me diante de si, sem saber o que fazer. Devo tocá-lo? Num lapso, lembro que vi na Tv que não se deve mexer em vítimas de atropelamento. Minha única opção é ligar para a emergência, mesmo que eu seja presa depois. Eu prefiro ser trancafiada numa cela à ficar livre e fingir que nada aconteceu, negando ajuda àquele cara. O peso na minha consciência iria me matar. Corro de volta ao carro e pego minha bolsa em busca do celular, mas para a minha infelicidade, está fora de área.
– Mas que porra. Alguém aí em cima tem algo contra mim? — Eu vocifero para o céu, brigando com Deus... eu acho. E obtenho sua resposta porque um trovão imponente irrompe a noite quando um raio a ilumina rapidamente. Eu estremeço com aquele estrondo e meu corpo vibra de frio. Se ao menos eu tivesse mantido minha jaqueta...
Volto ao homem. Muito sutilmente, eu começo a tentar um contato com ele, mesmo que pareça inconsciente.
– Moço? — Eu digo, e coloco minhas mãos em seu peito rapidamente, removendo-as logo em seguida. Não obtenho resposta. Engulo em seco. Será que matei ele? — Moço? — Ele não responde. Sua palidez começa a me assustar e quando movo meus dedos por seu pescoço, sinto-o gélido. Meu coração aperta e eu acho que posso vomitar a qualquer momento. — Ouça bem, Deus. — Eu olho para cima. — Eu não acho que fiz nada contra Você ou algo que possa ter Lhe deixado irado. Sempre fui uma moça boa, fiz catequese e sou crismada, vou a missa sempre que posso e ajudo todo mundo que precisa. Será que Você pode me ajudar nisso? Eu não quero ter matado ele. Façamos uma troca então, tá legal? Ele vive, eu morro. Isso soa bom para você? Por favor, Deus. — Eu imploro, então olho para o corpo. Dou batidinhas leves na face do homem para ver se ele acorda. Estou ficando cada vez mais desesperada porque parece mesmo que este é o seu fim, e o meu também. Meu peito se enche de culpa. Nunca vou esquecer que matei uma pessoa. — Sou uma assassina! — Começo a chorar desesperada. Como as pessoas vão me olhar na rua? Eu sempre fui boa, e agora eu fiz isso. Ninguém mais vai querer se aproximar de mim. — Me desculpe. Me desculpe. Eu não queria ter te matado. Se eu tivesse uma escolha, eu iria em seu lugar. — Murmuro para o morto.
Me sentindo a pior pessoa do mundo, eu curvo-me sobre o chão e continuo chorando. Imagens de um futuro que eu idealizei desde meus 10 anos começam a passar na minha mente. Eu sonhava em me formar em psicologia e ter meu próprio consultório e conhecer um bom rapaz que me amasse por aquilo que eu era, então nós nos casaríamos e teríamos filhos, mas isso agora tornava-se uma visão distorcida, porque nunca iria acontecer. Quem iria querer uma assassina em sua vida? Lamento minha vida e minha maldita sorte até começar a ouvir gemidos. Viro-me para o cara.
Ele está mexendo os lábios e a cabeça.
Deus!!!
Ele não morreu!!!
Ainda...– Meu subconsciente zomba.
– Graças a Deus. Graças a Deus. — Eu começo a tocá-lo no peito, passando a mão para que ele possa respirar direito. — Moço? Moço? — Ele abre os olhos, meio desnorteado. Pisca várias vezes, então chia de dor. — Moço? — Seu olhar cai sobre mim e de alguma forma, eu sinto algo percorrendo meu corpo, eriçando todos os meus pelos. Sua íris castanha-esverdeada dilata duas vezes, então ele silva de dor novamente. — Moço, consegue me ouvir? — Ele assente com movimentos restritos. — Preciso lhe levar ao hospital, mas não irei conseguir carregá-lo até o meu carro. Você terá que fazer um esforço e tentar andar comigo até lá. — Eu digo para ele, sem saber se ele está me compreendendo.
– Me. Leve. Para... — Deixa um suspiro escapar. — Casa. — Pede, entre respirações pesadas.
– Não. Escute. Você foi atropelado, eu te atropelei e preciso corrigir o meu erro. O certo a se fazer é levá-lo direto para emergência. Você pode ter quebrado algo.
– Não. — Ele diz, então reunindo forças sabe-se lá de onde, se inclina sobre os cotovelos. — Me leve para casa. — Repete, mas eu não posso concordar.
– De jeito nenhum, você tem que...
De repente ele se senta como se nada tivesse lhe acontecido, vira-se para mim e põe a mão em minha nuca puxando-me na direção de seu rosto, de forma que ele me obriga a olhar em seus olhos.
– Escute, amor. Você vai esquecer que me atropelou. Por outro lado, vai lembrar que viu quando um carro que vinha em sua frente me bateu e saiu sem prestar socorro. E você, com toda a sua bondade está me ajudando.
De um modo estranho, suas pupilas dilataram-se lentamente enquanto seus olhos clareavam-se. E depois...
Pisco, indignada sobre o tinha acontecido. Um babaca em alta velocidade me ultrapassou e quando chegou um pouco mais para frente, bateu em cheio em um homem que atravessava a pista. E o desgraçado saiu sem prestar socorro. Sorte que eu estava aqui.
– Meu Deus. Tudo bem com você? — Eu digo para o homem que está sentado no chão, de cabeça baixa.
– Estou dolorido. — Responde ele.
– Se bateu muito? — Questiono preocupada. Ele parece sentir muita dor.
– Minhas costelas doem, mas vou ficar bem. Eu só tenho que ir para casa. — Ele tenta se levantar, e eu o ajudo, com receio que ele possa cair e se machucar ainda mais.
– Olha, eu acho melhor você ir para um hospital. Lá eles vão cuidar melhor de você. — Eu o olho, e ele me olha de volta.
– Não. Eu não acredito nessas coisas de médicos. Eu aprecio ervas que curam, e eu tenho um monte delas em casa. Eu só preciso ir. — Ele puxa algumas respirações antes de começar a andar. — Obrigado.
– Hey, espera. Você está a pé?
Ele para.
– Sim. Meu carro deu problema. Mas tudo bem, volto andando.
Eu rapidamente me enfio em sua frente.
– Tá brincando comigo né? Você acabou de ser atropelado por um doido varrido, está todo dolorido e pensa em voltar andando para casa, seja lá onde for. Nem fodendo que você vai fazer isso na minha frente. Eu te ajudo, é o mínimo que posso fazer. Posso te levar em sua casa.
– Não, eu não quero incomodar. — Ele une as sobrancelhas, e ele parece como alguém que foi abandonado. Meu coração aperta em aflição.
Franzo a boca e arqueio uma sobrancelha.
– Incomodar? Você não é incomodo algum, querido. Eu não te conheço, e você pode até ser um estuprador, ou um psicopata que mata loiras, mas no momento eu não estou ligando porque você precisa de ajuda e eu quero te ajudar. E se você ainda se negar, te enfio no meu carro a forças.
Ele olha para mim, então sorri. Suas linhas de expressão ao lado de seus lábios o deixam, de alguma forma, adorável. São parecidas com covinhas, mas são maiores. E movida por isso, eu meio que sorrio também. É impossível não sorrir para alguém que tem covinhas. E na verdade, ele nem parece ser uma pessoa má.
– Vai me enfiar contra vontade no seu carro? — Ele repete, divertido.
– Se você se negar, sim. — Dou de ombros.
– E se eu for um estuprador? — Ele questiona. Eu penso.
– Eu tenho uma faca em minha bolsa, e posso cortar o seu negócio se você aproxima-lo de mim. — Respondo como se isso fosse a coisa mais natural do mundo a se dizer a um estranho. Ele contém o sorriso que tenta aparecer em sua face.
– E se eu for um psicopata que mata loiras? — Indaga novamente. Até parece que ele não está machucado depois de sofrer um impacto contra um carro.
– Bem, então deixe-me contar um segredo. — Eu me aproximo dele, colocando a mão na boca como se realmente fosse lhe contar algo restrito. — Eu sou morena, e isto na minha cabeça é uma peruca porque eu estou disfarçada. O FBI está me caçando por matar caras que conheço em estradas vazias. Mas, shh. Não conta para ninguém. — Eu me afasto.
O homem não consegue segurar o riso que estoura em gargalhadas. Eu rio também, mas pensando que parece que ele nem está mais sentindo dor, visto que nem reclama.
– Então neste caso, senhorita, eu aceito de boa vontade a sua carona.
– Certo, vamos então. — Eu começo a caminhar para o carro e o homem me segue. Nos sentamos em nossos lugares, e eu dou partida. — Você ainda sente muita dor?
Ele me olha, então leva a mão para os lados de seu corpo e suspira.
– Estão doendo muito. — Diz ele, fazendo careta.
– Ainda pouco, quando ria, você não parecia sentir dor. — Eu meio que acuso. Ele pisca para mim.
– Você sabia que rir cura feridas? — Rebate.
– Pelo que eu sei, cura as feridas da alma. — Olho para frente. Ele, de alguma forma parece me distrair, e como hoje já aconteceu um acidente em que o imbecil displicente nem sequer se comoveu em ajudar, eu devo manter-me em guarda para não causar outro. Um só ferido já basta.
– Agora você viu com seus próprios olhos que cura a carne também. Você só tem que encontrar a pessoa certa para fazer isso. — Seu tom é baixo e rouco, quase que sensual. E quando ele termina, eu sinto meu corpo se arrepiar. Mas que porra é essa? — Hey, sabe. Me toquei de uma coisa agora. — Fala. Eu rapidamente o olho.
– O que?
– Eu entrei no carro de uma estranha e nem sequer sei o nome dela.
Pela visão periférica sinto que me observa, mas não o olho.
– É uma cortesia muito grande dizer seu nome antes de ouvir o da pessoa que está perguntando. — Rebato. Ele solta um risinho.
– Não quer me dizer seu nome? — Indaga, a voz novamente sensual.
– Preciso repetir a frase que falei segundos atrás? — Arqueio a sobrancelha em sua direção, com atrevimento. Ele morde os lábios enquanto sorri, e o bobo do meu coração dá um pulo no meu peito, porque ele agora simplesmente parece bonito. Até mais que Dwane.
– Me pegou nessa, hein, Loirinha?! — Eu rio. — Mas como sei que está louca para saber meu nome, farei mistério até que eu chegue em casa.
Dou de ombros.
– Ótimo. — Murmuro, tentando não deixar o meu maldito sorriso aparecer.
– Ótimo. — Ele repete.
Nos olhamos, e ele pisca o olho para mim. Lambo meus lábios secos e olho para frente. Esta vítima de atropelamento está se mostrando muito espertinha. Se eu fosse bonita como ele, até poderia pensar que ele estava flertando comigo. Mas homens como ele não se interessam por mulheres como eu. Ele deve apenas está tentando ser gentil e brincalhão com a pessoa que salvou sua vida.
– Loirinha, pegue a rua a esquerda. — Ele manda, eu faço. — Vai ser uma viagem um pouco longa. — Seu tom me deixa nervosa, mas há algo em si que não me deixa temê-lo. Acho que não fará mal nenhum a mim.
– Tudo bem. Pelos menos algo bom aconteceu para mim hoje. — Eu digo. Sinto seus olhos em mim.
– Como assim? — Ele parece confuso.
– Vivo num inferno de segunda a segunda, 24 horas por dia. Saber que hoje estou ajudando uma pessoa e que servi para isso me faz sentir... — Mordo os lábios. — Orgulhosa de mim mesma.
– Porque diz isso? — Ele rebate. Flashes de uma vida inteira de sofrimento aparecem em minha mente.
– Meu tio é o próprio diabo, Loirinho. Mas é uma história muito longa que você não vai querer ouvir. — O olho. Ele sorri de lado.
– Loirinho? — Pergunta.
– É a cor dos seus cabelos.
– Eles não são loiros. Se você olhar bem, vai perceber que é castanho claro.
– Loirinho é melhor. — Pisco para ele, que sorri.
– Então, Loirinha. Temos uma viagem longa, e tempo é o que mais temos agora. — Ele me incentiva a falar, e eu penso sobre isso. É a minha vida. Devo contar a um estranho atropelado? Porque não? Eu posso pedir sua opinião, e talvez só é essa vez que vamos nos ver. Desabafar com alguém me parece uma boa ideia no momento.
– Mmm, vamos lá então. Mas não me culpe por lhe entediar. E se você dormir, não limparei sua baba.
Ele solta outra gargalhada que faz parecer que está tudo bem com seu corpo.
– Vamos lá, amor. Abra seu coraçãozinho para mim.
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