Obsessiva- O que te intriga... É o que te excita!
24 Enfim, eu sei?
Notas iniciais
Ainda chovia lá fora quando eu despertei novamente, pela madrugada. O calor confortável a meu lado da cama, indicava que um corpo latino aconchegante estava ainda em repouso ali, para minha alegria.
Seu rosto estava levemente inclinado para meu lado, os lábios entreabertos e um ressoar tranquilo do ar entrando e saindo de seus pulmões, a fazia quase piar que nem um pintinho novo. Um sorriso bobo escapou por entre meus lábios, ali, mirando cada detalhe daquele rosto de feições tão perfeitas e atraentes, agora, finalmente, se deixando vulnerável a mim, a meu toque.
Santana tinha desistido de ir embora depois de muita chantagem minha emocional. Depois do que eu passei lá fora, tantas coisas assustadoras, uma depois da outra, como uma brincadeira infernal de empilhar dominós, eu não tive coragem de ficar nessa casa sozinha. É hilário pensar no quanto a presença dela se tornou uma segurança e conforto para mim tão rapidamente. A Brittany de meses atrás não concordaria comigo com minhas atuais ações, porém, a de agora, não queria que ela saísse do meu lado. Por mais errado que isso pudesse parecer, eu precisava dela. E eu sequer saberia explicar porquê. Eu sou a adulta da situação, pelo amor de Shakespeare!
Ousei levar a mão até seu rosto delicado e marcado com expressões sérias até quando dormia a sono solto. Fechei os olhos esperando que ela me interceptasse no caminho, porém, tudo estava exatamente como segundos atrás e eu pude passear cuidadosamente com os dedos por suas feições. Santana é tão linda. Sua pele é tão macia, tão confortável, sequer parecia existir de tão perfeita.
Dedilhei por sua face, pela linha de seu maxilar, contornei por seus lábios cheios e convidativos, mordendo o canto dos meus para suprimir a vontade de tomá-los para mim e atrapalhar seu sono, porém me contive. Ela estava dormindo tão compenetrada que seria um crime perturbá-la.
Um trovão arrebentou lá fora, me fazendo contrair o corpo para mais perto do calor de Santana. Estava tão frio e ela estava disposta do meu lado usando nada no corpo além da coberta que eu joguei por cima dela, para poder pensar coerentemente. Santana tinha a mania de dormir sem roupa, alegando que lhe dava uma sensação angustiante de estar presa e já não bastava ter que passar o dia enrolada em panos apertados. Nunca entendi esse lado dela, porém não seria eu a reclamar já que eu tinha mais do seu calor me mantendo aquecida a noite inteira, sem precisar mexer com aquecedor.
Apesar do frio, minha garganta estava seca com um resquício incômodo de pó querendo me provocar a tossir. Podia ser efeito dos remédios que me entupiram no hospital, que eu tinha de tomar em casa, a sensação era terrível, como se minha garganta estivesse inflamando.
Com cuidado, empurrei o edredom que me cobria e sai silenciosamente no quarto, dando uma última checada em Santana. Ela não havia se movido nem um milímetro desde que eu adormeci a seu lado. Encostei a porta do quarto por segurança, receosa que por acaso minha mãe podia romper pela porta da frente e encontrar a latina repousando tranquilamente na minha cama, como se houvesse a possibilidade racional de eu explicar a adolescente lá.
Me arrastei até a escada, acendendo tudo que era luz que eu encontrava pelo caminho, me esgueirando pelas paredes, chegando cada milímetro dos cômodos na intensão de não ser pega desprevenida quando a próxima merda me alcançar, do nada. Era o que vinha acontecendo com uma frequência assustadora na minha vida desde que pus os pés nessa cidade de meu Deus.
Nunca mais reclamo que minha vida está parada. Sério! Agora eu só quero paz.
A geladeira estava a pouco metros a frente, toda enfeitada como uma árvore de natal graças a minha mãe e suas habilidades questionáveis de artesanato e decoração. Ela tinha a mania de tentar tudo que era tutorial que ela via pela internet, o que resultava da casa estar inteiramente cheia de decorações de crochê, tnt, papel colorido, fita e desespero. Até hoje eu tinha guardado um papai Noel de macarrão que ela me deu há uns 15 natais.
Com a mão prestes a tocar o puxador da geladeira, um baque surdo me fez parar com ela no ar. De olhos arregalados e o coração querendo sair pelos ouvidos, ali eu estanquei. Não ousei mexer mais um músculo, até meus pulmões pararam de receber oxigênio e eu já sentia a cabeça doer com a privação. Segundos angustiantes se passaram até meu mais novo animal de estimação, um gato gordo como um leitão entrar preguiçosamente na cozinha arrastando algo se debatendo na boca.
—Mas meu santo Shakespeare. Seu gato endiabrado. Solte já isso!- eu pude enfim me mexer, me atirando na direção da bola de boliche com bigodes afim de tomar o Mickey mouse de sua boca, porém ele sibilou pra mim, me fazendo recuar a mão, e sumiu nas carreiras por debaixo da mesa até atingir a porta de saída, pela entrada do cachorro que a gente não tinha há décadas- Que bichano malvado.
Suspirei aliviada, embora tivesse a sensação que mais alguns segundos eu teria soltado fluidos vergonhosos pelas calça. O bom de ter um gato em casa, é que todo barulho suspeito a gente poderia culpá-lo e não surtar com a possibilidade de ser um ladrão ou um fantasma te espreitando.
—Deus, acho que estou prestes a ficar maluca!- disse, rindo da minha própria idiotice- você está ficando paranóica, Brittany- peguei uma jarra de suco de laranja, um copo ao lado da geladeira e tomei o mais delicioso e longo gole refrescante, que aliviou de imediato a sensação de areia na garganta.
Um surto de frio atingiu minha espinha. A sensação de estar dentro da geladeira me assolou, foi como se o ar fosse congelando aos poucos, ao meu redor, formando um globo de vidro que começava a fechar aos poucos, ameaçando me trancar lá dentro. Um cheiro de excremento agrediu-me as narinas forçando passagem até causar um mal estar absurdo. Refletido no vidro do armário, eu pude de súbito vislumbrar um rosto desfigurado, com uma cara hedionda que imitava um palhaço bizarro e sorridente na minha direção.
Abafei um grito com as mãos e fechei forte os olhos.
—Isso não é real. Não é real. Você anda imaginando coisas demais, Brittany- me reprimi, levando as mãos a cada lateral da cabeça- Vai embora, por favor. Você não está aí.
Um som parecido com uma faca arrastando na vidraça fez minha alma se encolher dentro de mim. Joguei o corpo para o lado, próximo a pia. As portas bateram contra o batente com muita força. As luzes piscaram, senti o chão debaixo dos meus pés vibrarem como se um trem estivesse passando por perto.
—Para, por favor. Isso não pode estar acontecendo- gritei, em desespero.
Foi como ver aqueles rostos demoníacas na fumaça novamente, aquela sensação de morte se aproximando, tudo em mim se tornando cáustico e insuportável. Um bater de asas atravessou um canto a outro do espaço, como um mau agouro. Algo pesado se chocou contra o vidro, as tábuas rangeram lá fora violentamente. Um cachorro latiu ao longe.
—Ah não. De novo não.
Minhas pernas tremiam, senti uma presença tão próxima que meu corpo inteiro se arrepiou como um porco espinho. Era quente e perigoso, fazia o ar pesar tanto que podia facilidade cortar o ambiente com um faca cega Cansada de esperar o pior, me agarrei a maior coisa que encontrei pela frente, que seria um pau de macarrão e, mesmo de olhos fechados e com o medo me transformando num picolé loiro, eu usei de toda força que eu tinha para macetar a cabeça de quem quer que tivesse me seguindo novamente.
Uma mão agarrou a minha no último instante, e como se fosse uma boneca de trapos, juntos meus braços no alto da minha cabeça e me jogou contra geladeira com a delicadeza de um elefante. Ainda de olhos fechados, lutei. Usei das minhas pernas grandes como uma cenoura para golpear entre as pernas do infame a minha frente, só parei quando ouvi um gemido bem conhecido e então abri os olhos.
—Santana?- eu grunhi, exasperada- O que você faz aqui?
—Ouvi você gritar- ela discretamente fez careta e acariciou a virilha com certeza atingida com a mão livre- Está tudo bem?
—Eu não sei. Sinceramente. Aconteceu aquilo de novo. Acho que tem alguém lá fora, tentando entrar- vi nesse instante seu olhar ficar mais negro e perigoso- E estava com uma máscara horrível, de palhaço. Acho melhor chamar a polícia.
—Pro seu quarto, agora!
—O que? Mas eu...
—Me obedeça, senhorita.- ela me soltou e me puxou pelo braço na direção da escada- Não sai sem que eu mande.
—San...
Não pude dizer mais nada, com um piscar de um olhos Santana já havia sumido, uma porta bateu com força e eu me desandei a voltar correndo para o quarto, abandonando o frio que ela deixou para trás.
Minutos angustiantes se passaram, eu já estava atônita. O que aconteceu com Santana? Eu não deveria tê-la deixado ir sozinha daquela maneira, por que eu não chamei a polícia? Eu não quero passar por aquilo de novo. Eu não quero ter que questionar a minha sanidade novamente.
Um barulho chamou minha atenção, alguém estava na casa. O cheiro havia ido embora, assim como o frio absurdo que tomou a casa inteira. Eu não pude ficar ali, esperando o que quer que fosse me alcançar e tinha Santana lá fora. Ela podia estar precisando de mim.
Munida de medo, eu voltei a descer correndo pela escada, pulando de dois em dois degraus. Estava vazio. Silencioso. Era monstruoso a sensação de solidão que isso me trazia. Desviei de alguns bibelôs caídos pelo caminho e cheguei até a porta. Estava trancada por dentro. Mas como?
Dei a volta pela sala onde mamãe e eu assistíamos e tentei ver algo pela janela. A neblina já tinha tomado conta de tudo, inutilizando até às lâmpadas. Um calafrio deslizou por minha espinha, mas foi vorazmente afastado por mãos quentes me agarrando por trás e me jogando contra a parede, me pondo de frente e perdendo meu quadril com o seu, ali.
—Santana! Você me assustou.
—Está tudo bem, meu anjo. Estou aqui agora.
—Eu achei que você tinha se machucado, sei lá- briguei, socando de leve seu ombro.
—Eu não me machuco- ela me lançou um olhar suspeitosamente malicioso.
Eu estava só com sua blusa e de calcinha, o frio fez com que eu ficasse de farol acesso. Tampei meus seios com um braço. Ela riu alto. O que me assustou.
—Pare de me olhar assim. Tem alguma coisa muito ruim lá fora.
—Tem, mas ela não pode entrar aqui- Santana se chegou ainda mais contra meu corpo, conseguindo tirar todo meu ar só com aquele olha safado e cheio de desejo.
—Não pode entrar por que?
—Porque você é um anjo. É um território gentil. Monstros não gostam de gentileza- senti seus lábios grudarem contra meu pescoço alongado, me retrai contra a parede juntando forças para me soltar dela.
—Aquilo me assustou, Santana. Eu o vi, contra o vidro. Foi a mesma sensação infernal do ônibus escolar, do táxi, do sonho no hospital. O que é isso na minha cabeça? Por que eu fico vendo e sentindo essas coisas? Você me disse que ia responder as questões que eu tinha.
Santana se endireitou, tomando meu lugar contra a parede. Dobrou os braços em uma pose sisuda e ficou pensativa. Seus olhos haviam mudado de cor, estavam cintilantes e num lilás tão forte que parecia tinta injetada diretamente em suas orbes. Como isso é possível?
—Seus olhos... eles mudam de cor, as vezes. Como isso acontece?
Santana pareceu ter tomado um choque com a minha a pergunta.
—Espera. Você consegue ver a cor dos meus olhos? Além do castanho normal?
—Já vi algumas vezes variações, mas sempre achei que eu tivesse visto rápido, a luz e...
Tive que me segurar para não cair com a força do abraço que ela me deu.
—O que foi aquilo, Santana? Eu vi mesmo alguma coisa. Eu senti algo de muito ruim perto de mim. Eu não posso estar imaginando coisa e agora você está agindo de maneira esquisita.
—Eu só estou feliz. Não posso?
—Feliz por que?
—Você está me enxergando, anjo. Você está lembrando. Achei fosse demorar tanto ou talvez nem acontecer, mas você me viu.
—Santana...
—Eu tenho que te ensinar a fechar seus pensamentos, anjo. O quanto antes. Eu consigo sentir cada pensamento seu agora.
—Fechar meus pensamentos... Como assim?- encurtei as sobrancelhas, confusa.
—Está suscetível a eles. Tudo isso que você vê só existe dentro da sua cabeça. Se algum deles estivessem aqui, eu os rastrearia. Eles não se atreveriam a chegar tão perto de mim assim. Não de nós duas juntas. E eles não podem entrar aqui, anjo.
—E o que são eles, Santana... O que você quer tanto me afastar? Isso tudo está tão estranho.
—Demônios, anjo. A caixinha... – ela apontou para si mesma- A caixinha está se abrindo.
***
Caixinhas se abrindo ou não, Santana não quis me explicar mais depois daquilo. Ela se fez de idiota e deu um jeito de me dobrar com facilidade ontem e eu fiquei sem minhas respostas. Com pulgas atrás da orelha e sem dignidade. Eis por que:
Ela me tinha aonde bem queria, eu já estava sentindo o sofá contra minhas coxas e bastou um toque de Santana para que eu caísse sobre ele, com ela entre minhas pernas.
—Vai me dizer o que está acontecendo?
—Você está com medo de mim?- ela questionou com os olhos queimando em brasas, trepidando em vontades que eu nem ouso citar aqui.
—Queria dizer que sim, mas agora, eu não como explicar. Você me passa certa confiança bem esquisita- Santana soltou uma risadinha, pegando minhas mãos e levando até sua cintura, onde ela foi deslizando por suas curvas esculpidas até o cós da sua calça, me fazendo acariciar o meio de suas pernas. Eu gelei com a visão. Ela pegou meu queixo e me beijou vulgarmente nos lábios, tomando para si com propriedade- Que sensação é essa, Santana? Por que você falou em demônios?
—Acho que eu preciso relaxar você, anjo? Será que eu posso?
—Santana... veja só... Você não vai me dobrar de novo- eu não conseguia dizer mais nada depois disso. Até porque se eu abrisse a boca, os vizinhos iriam ter um showzinho de gemidos nada comportados, pois Santana com certa destreza destruiu outra calcinha minha sem sequer piscar, e seus lábios, bem, acho que não preciso dizer o resto.
Eu a contragosto dela me dirigi finalmente de volta a escola. Estava disposta a enfrentar o que fosse, o mais logo possível, inclusive o Puckerman. Pra minha sorte, ele não havia ido a aula. Na verdade, desde que eu fiquei ausente, Noah não pisou mais na escola e ninguém sabia de seu paradeiro. Alguns diziam que teria ido embora com uma senhora rica do qual ele limpava as piscinas.
Claro que não seria isso. Claro que tinha alguma coisa a ver com aquele surto onde Santana me salvou e eu seria muito ingênua de acreditar que isso ficaria apenas nisso. Fui devidamente realocada em minha turma, recebi uma saudosa menção de bem vinda de volta, o que muito me assombrou. Os pestinhas gostam de mim?
—O que um dia de ausência não faz?- brinquei e os ouvi rir- Eu vou até relevar a prova surpresa que eu daria hoje.
Ouvi muitos gritos de comemoração, urras e festa no fundo da sala. E tinha ela, sentada em sua cadeira de sempre, me olhando na distância de sempre com aquele sorriso arrogante que me matava por dentro de sempre. Mas tinha algo mais... Algo que eu sentia tão fundo no meu ser que era como se só me fizesse completa depois de enxergar. Embora eu estivesse com medo de tudo que estava acontecendo, de me parecer que muita coisa difícil pudesse acontecer.
Abri o notebook sobre a mesa e uma aba de pesquisa no Google saltou com imagens sugestivas e que me causaram arrepios, mas eu sabia que por ela Valeria a pena esperar para entender.
No topo da tela, eu sabia, tinha a resposta que eu precisava.
Santana era... Ou foi algum dia....
... Um anjo.
Eu estava perdidamente apaixonada por um anjo caído. Um demônio.
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