Obsessiva- O que te intriga... É o que te excita!
2 Certos toques causam acidentes
Notas iniciais
–E como você pôde perceber, Memphs continua intacta, apesar dos anos de batalhas aqui dentro- Will disse durante nosso passeio pelos corredores da grande escola. Já havía tomado o café que meu ex professor de literatura me ofereceu na entrada e agora vagávamos recordando meu passado escolar enquanto ainda não havia dado o horário dos professores e alunos se recolherem para suas devidas salas de aula- Foram poucas as mudanças que a escola sofreu. A maior delas foi a ampliação de nosso laboratório de química, ele estava precisando disso e de uma melhorada em todo em seu interior. Ainda tinha aquele aspecto de segunda guerra mundial.
–Acho que devemos agradecer isso ao Artie por ter explodido o laboratório em nosso segundo ano. Isso inspirou a melhoria... Ou devem ter ficado com medo do teto cair na cabeça dos alunos.
–Bem provável que não. Somos poucos os que se importam com essas crianças. Devem ter feito isso porque agora a escola é frequentada por alunos estrangeiros e filhos de figuras importantes do país e até mesmo fora. Não demora nada e eles transformam essa escola em privada apenas pros ''privilegiados''- fez aspas no ar, com uma pitada de amargura na voz.
–Tiveram sorte de ter sido você quem tomou a direção da escola- toquei em seu ombro amigavelmente- Se continuasse com o Figgins, aí sim isso aqui tudo iria abaixo. Já pensou se fosse a professora Minerva que tivesse conseguido o cargo? Deus, esses alunos estariam perdidos. Se houver mesmo um apocalipse algum dia, tenho certeza de que ela é um dos demônios enviados para a Terra- ele riu, balançando negativamente a cabeça.
–Ela ainda trabalha aqui, sabia?
–Oh, céus- fiz uma careta desgostosa- Essa mulher vai virar patrimônio histórico dessa escola. Ela tem o que, mil e duzentos anos?
–Não seja má... Acho que não chega nos quinhentos- nos olhamos em uma intensa gargalhada. O sinal soou como um grito histérico.
–Eu odiava esse sinal- comentei tapando os ouvidos.
–Também, mas em escola grande o sinal tem que ser escandaloso- concordei com ele e nos colocamos a andar, já podendo ver alguns alunos entrarem sem muita calma pelos corredores- Vou levar você até sua primeira sala de hoje. E, deixe-me ver- analisou alguns papéis que trazia consigo em uma pasta amarela- Vai pegar o último ano. A galerinha mais animada.
–Sei bem pra quê. Fase boa da vida.
–Que nunca volta- suspirei pensando na minha. Quando você pára para refletir sobre isso, parece que foi há centenas de anos- Por aqui, Brittany. Acho que os alunos já aguardam você na sala. Por incrível que pareça a maioria é bem pontual.
–Isso é bom. Cada minutinho deve ser aproveitado em aula. Atrasos me irritam.
–Um dos principais inimigos de um professor- disse ao parar em frente a uma porta que dava a uma sala de aula- Pois bem, chegamos. Quer que eu entre com você?
–Seria uma honra, mas sei que deve estar bem atarefado, senhor Schue. Não quero retardá-lo com seus afazeres.
–Primeiramente... Eu adoro esse apelido que vocês me deram. E depois, você nunca atrapalha.
–Velhos costumes nunca mudam- dei de ombros e ele sorriu- Mas estou bem, pode ir tranquilo. Só me prometa que eles não mordem, estou sem minha malinha de primeiros socorros.
–Relaxa, nossa enfermaria possui vacinas anti-rábicas- eu ri, apoiando a mão na maçaneta da porta- Boa sorte, pequena B.
–Obrigada. Talvez eu precise disso- pisquei pra ele brincalhona e em seguida adentrei a sala. Ao que me parecia, todos os alunos já estavam no local, espalhados por todas as partes como normalmente ficam na ausência (ou até mesmo na presença) de um professor. Conversavam alto e ao mesmo tempo que não dava para distinguir as vozes, em uma agitação de corpos que já estava me dando dor de cabeça. Não sei como ou por qual entidade da natureza, apenas uma aluna estava dispersa dos demais em sua algazarra.
Ela estava tranquilamente sentada a uma mesa no final da sala, próximo a janela. Os dedos das mãos estavam entrelaçados sobre a mesa enquanto a lateral de sua face repousava no vidro da janela. Parecia ter a atenção voltada a algo na rua, não sei bem direito, estava com os óculos da primeira vez que a vi chegar... Sim, era a ''garota intrigante", pode-se assim dizer. Estava tão neutra a tudo, como se ninguém estivesse na sala, apenas ela e seu universo. Vamos convir que não é um jeito muito típico de um adolescente agir... Pelo menos não um mentalmente saudável. Vamos, Brittany, há mais alunos pra você se atormentar querendo descobrir o que se passa em sua cabeça. Essa minha mania de querer desvendar as pessoas ainda me mataria. Coloquei meus materiais sobre a mesa para dar um fim logo a aquela algazarra e a meus pensamentos desenfreados sobre o que muitos descartariam. Pigarreei alto, chamando a atenção de todos para mim.
–Se todos já possuírem um lugar nessa sala, eu sugiro que se dirijam agora para eles, por favor- pedi educadamente, me colocando encostada na frente da mesa- Bom dia a todos. Me chamo Brittany S. Pierce e serei a nova professora de literatura de vocês.
–Bom dia- alguns disseram em coro.
–Eu pensei que a professora Minerva tomaria esse cargo, já que ela lecionava isso antes de se introduzir a história- um dos alunos perguntou. Era um garoto franzino, usava óculos de um grau elevado e vestia um suéter verde musgo. Típico nerd.
–Bom, acho que vocês tiveram sorte, já que fui eu a escolhida e não a professora Minerva e sua incrível expressão de intensa felicidade- eles riram por minha brincadeira. Minerva Slaviero, professora mais antiga da Memphs, conhecida por sua carranca rabungenta e por seu terrível mau humor. Se duvidar foi ela quem fez as pinturas nas cavernas por tão antiga na vida e no ramo de ensino- Mas se quiserem, peço uma dispensa e faço com que seja ela quem lhes dará literatura.
–Não diga isso nem de brincadeira, professora- um garoto enorme pediu aflito- Aquela mulher é a reencarnação do Darth Vaden.
–Tudo bem, meu caro. Não o farei por tamanho pedido mais que inspirador- a risada foi geral, até eu mesma ri de sua expressão agoniada. Por um breve momento fitei a garota quieta no fundo da sala. Ela continuava com o mesmo semblante, distante dos demais que prestavam atenção no que eu dizia- Okay, galerinha. Comecemos então nossa aula. Mas primeiro quero conhecer a todos. Preciso traçar bem cada um de vocês para me aperfeiçoar ao ambiente.
–Opa, traçar? Gostei, pode me traçar o quanto quiser, professora. Meu corpinho é todo seu- estava demorando aparecer um desse tipo. Aquele provavelmente era o babaca da turma, um garoto moreno forte, com um moicano bem feito na cabeça e um sorriso que dizia "só amadurecerei a cabeça quando meu pinto cair''. Alguns alunos soltaram risadinhas pelo comentário inoportuno.
–Como você se chama?
–Noah Puckerman- disse de peito inflado, como se orgulhasse grandemente de seu nome.
–Pois bem, Noah Puckerman- o imitei no engrandecimento do nome- Aconselho a você que mantenha comentários desses tipos em suas calças, já que perversão é algo que já lhe torrou a cabeça- ouviram-se vários "uhs'' que deixaram Noah sem graça- Gosto de manter uma convivência amigável com meus alunos, porém coisas desse tipo são descartadas em minhas aulas. Dou valor a quem cutua o respeito mútuo, então acho que isso vindo do rapaz foi uma mera excedência. Estou enganada, Noah?
–Não, professora. Foi apenas uma brincadeira inocente.
–Tudo bem- sorri em conforto- Excesso de testosterona, eu entendo- ele recolheu a cabeça e se aquietou em sua cadeira. Não gostava de ser dura ou rude com meus alunos, mas certas coisas não devem ser relevadas, principalmente com adolescentes e a forma que se expressam sem pudores. Podem me chamar de antiquada, mas gosto dos velhos e bons costumes de respeito ao próximo e boa postura sociável, mais ainda de rapazes que com o tempo só se tornaram nada mais que um símbolo grotesco de depravação. Pelo menos uma boa parte deles.
–Essa foi boa. Calou o Puck- pude escutar um aluno cochichando para o outro.
Senti ser observada pesadamente e até imaginava de onde vinha. A garota que mais parecia uma infinita questão do universo agora tinha voltado o olhar mim. Ela exibia no canto dos lábios o que deveria ser o princípio de um sorriso. Será que achava graça em ver o colega de sala ser repreendido? Ah, nisso ela prestava atenção, não é?- Bom, turma, agora que estamos conversados, vamos as apresentações.
Logo um por um foi levantando-se e se apresentando para mim. Pedi a eles antes que além de seu nome, me dissessem o que gostavam de fazer em seu tempo livre e que livros costumavam ler, os preferidos na verdade. Agora havia chegado a vez de um aluno que me chamou a atenção por um detalhe: Ele lembrava muito a garota da moto. Era uma semelhança inegável.
–Oi, me chamo Lauro Lopez, Lalo como os demais me chamam e assim prefiro. Dedico todo meu tempo livre para o futebol americano que é minha maior paixão, e quanto a livros... Não sou muito apegado a eles, dou preferência a minhas revistas de esportes. São bem mais interessantes.
–Bom, Lalo, acho linda sua paixão pelo esporte, mas um livro é um livro. Tente ler pelo menos um ou dois por mês. Irá se surpreender com o poder de uma boa leitura- ele sorriu pra mim, tinha um sorriso bonito que só acentuava mais sua beleza juvenil. Os olhos eram idêntico aos da garota no fundo, só que os dela transmitiam tanta coisa, que ao mesmo tempo nada diziam. Que confuso! Uma garota loira vestida com um uniforme de líderes de torcida foi a próxima a se apresentar.
–Sou Quinn Fabray. Além de dançar, gosto de cantar. Sou mais do tipo de baladas do que leitura. Sorry, professora- de maneira fresca ela jogou o cabelo pro lado e voltou a sentar-se. Santo Deus, eu teria um senhor trabalho com aquela turma. Minha cabeça estava a ponto de sacar do pescoço por tantos ''livros não são interessantes pra mim". Preferiam tudo menos abrir um livro pra ler. Apenas uma alma se salvou ali, o garoto nerd de nome Rory com um sotaque forte irlandês. Ele me relatou com paixão de seu amor pela leitura. Foi lindo todo esse seu engradecimento sobre literatura até seus colegas o encher de vaias. É, tenho muito trabalho pela frente.
–Obrigada, Quinn. Logo eu resolvo isso- soou como uma ameaça, mas era uma promessa de que eu mudaria aquela realidade de ignorância em achar que livros não servem para nada a não ser juntar poeira em estantes ou acertar nos maridos infiéis quando chegam bêbados e cheirando a piranha em casa de madrugada. Faltava apenas mais uma. Ela, a garota causadora do rebuliço de pensamentos inqueitos nessa simples professora de literatura. Os demais se mostraram interessados pelo o que ela diria... Será que elas os atordoava com essa tranquilidade toda também?- Agora só falta você. Se apresente, por favor. Mas antes, poderia retirar os óculos? Os olhos são os espelhos da alma. Gosto de poder ver as de meus alunos, então tire e me deixe ver a cor da sua- pedi de um jeito descontraído, porém ela apenas os retirou sem contestar- Vamos?
–Santana Lopez. Edgar Allan Poe- nem sequer se deu o trabalho de se levantar ou de nos encarar. Foi curta, mas mesmo assim deu pra notar a voz firme, mas tranquila.
–Poe, uma boa escolha. Ótimo autor- não foi surpresa alguma ela gostar de livros um tanto... Sombrios? Parecia mesmo alguém saído dos livros de Poe. Mas pelo menos gostava de ler- Me agrada que tenha um autor preferido, mas ainda não nos disse o que gosta de fazer.
–Voar- simples e curta.
–Tipo asa delta?
–Não- dessa vez e finalmente ela me encarou pra responder- Em pensamento. Gosto do silêncio- nem vou dizer o quão sinistro isso soou. E não foi apenas eu quem achou isso, a feição do restante da sala mostrou esse fato.
–Tudo bem. Muito obrigada, Santana- ela assentiu com um gesto de cabeça e voltou a sua posição reflexiva ou seja lá o que ela fazia naquela quietude toda-Agora sim, vamos dar início a nossa aula- anunciei indo até minha mesa para pegar alguns jornais que deixaram ali a meu pedido- Preciso agora que vocês se juntem em duplas para nosso primeiro exercício de hoje- muitos fizeram uma careta de insatisfação- Hey, relaxem. É algo leve. Só quero que encontrem alguma notícia interessante e escrevam brevemente sobre ela. Um bom autor sempre se atêm a um fato forte e puro para basear sua obra. Vamos lá, quero ver essas cabecinhas funcionando. Se precisarem de mim, estarei às ordens.
Distribui todos os jornais a eles e os acompanhei até quando já se sentiam à vontade para começar. Depois de um tempo, sentei em minha cadeira para policiá-los de longe, me sentindo satisfeita por todos parecerem interessados pela exploração. É assim que começa uma aula, baby. Sorri com minhas loucuras, procurando algo para me entreter enquanto eles não terminavam. Peguei um dos jornais e mergulhei nos fatos como uma boa leitora que sou, me deparando com cada coisa de assustar até meus antepassados. Nova Iorque é linda, é maravilhosa, mas em seu passado e presente era desnorteado por cada crime bárbaro. Deus nos proteja de uma realidade como essa.
Uma aluna veio a minha direção com o trabalho já pronto e impecável. Ela se chamava Marley Rose, uma garota branquinha e de olhos azuis assustados. Usava um óculos que mais parecia o de uma senhora de oitenta anos, mas aparentava ser uma boa aluna.
–Perfeito, Marley. Meus parabéns.
–Obrigada, senhorita Pierce- agradeceu timidamente, empurrando o óculos para o alto- Mais alguma coisa?
–Não, pode ir... Não, espera- ela retornou até mim- Posso perguntar algo a você?
–Pode sim.
–Conhece todos aqui?
–A maioria desde o jardim.
–Excelente!- Marley me olhou intrigada pela alegria sem sentido.
–Algo mais?
–Sim. O que sabe sobre os Lopez?- apontei singelamente com a cabeça para os dois latinos fazendo o exercício juntos no final da sala. Aquele sobrenome não me era estranho, nem aqueles dois.
–Os gêmeos?- eu bem que desconfiei. Eram gêmeos- Santana e Lalo Lopez. São filhos de Ernesto Lopez, aquele senador dos Estados Unidos dono da L&C. Um poderosão de Nova Iorque.
–Nossa!- eu sabia que os conhecia de algum lugar. Ernesto Lopez... Meu pai era advogado dele desde antes de meu nascimento. Um dos clientes mais importantes dele. Me lembro de ter visto os gêmeos quando ainda bebês em uma comemoração de um caso que meu pai havia ganhado para Ernesto há uma porção de tempos. Acho que por isso me intriguei tanto quando a vi, era a figura completa do pai. Mas o que me estranhava era o fato do pai deles ser tão rico e os filhos estudarem em escola pública.
–Professora?
–Ah, oi, Marley. Obrigada, já pode ir- ela apenas acenou com a cabeça e voltou a seu lugar. A vida me impressionando a cada dia. O horário já estava bem no fim quando os que faltavam entregar acabaram. O sinal soou em seu escândalo de sempre- Okay, coloquem os trabalhos sobre minha mesa e podem seguir para o intervalo- rapidamente eles saíram correndo porta a fora, ficando apenas Santana e eu. Ela organizava as coisas em sua mochila, jogando-a nas costas em um só alça em seguida para enfim sair da sala. Ao passar por minha mesa, me olhou de canto e saiu sem emitir som algum. Até seus passos eram leves- Eu hein!- saí fazendo careta da sala, rumando para almoçar com o restante de meus colegas professores. Tive uma ótima surpresa ao chegar na sala onde eles se juntavam para comerem.
–Ai, meu Deus... BRITT!
–Sugar?- ela veio correndo e quase me derrubou quando me alcançou em um abraço. Sugar Motta, uma grande amiga minha da época de escola. Fomos líderes de torcida da Memphs.
–Juro que não acreditei quando o senhor Schue nos disse que você daria aula aqui também- me guiou até uma mesa, indicando que eu sentasse na cadeira ao seu lado.
–Como ele mesmo dizia para gente "se você ver a necessidade, deve atendê-la".
–Grande mestre, o cachinhos dourados- concordei sorrindo- Fico feliz que tenha voltado para NY. Aqui não ficou a mesma coisa sem você.
–Eu sei. Era a sensação daqui.
–Eu bem me lembro, sua safada- me cutucou por debaixo da mesa, fazendo com que eu risse- Você sumiu.
–Papai me engoliu em Londres.
–O senhor Pierce precisa relaxar às vezes.
–Vai dizer isso a ele, até te mói pra pôr no pão- Sugar riu da careta grotesca que eu fiz.
–Hum, mas tenho que te dizer... Você está uma gata. Tem alguém aqui que deu um incrível sorriso quando soube que você vinha pra cá.
–Quem?
–Sam Evans- respondeu cantarolando em um sorriso malicioso. Sam era um garoto que eu havia me interessado na adolescência, porém acabei namorando Trent, amigo dele, pois o mesmo já tinha namorada na época. Deus, ele era tão lindo- Falando no diabo- ao olhar pra onde Sugar apontava, vi Sam entrar com todo seu jeito galante de sempre. O cabelo continuava naquele brilho dourado que só deixava mais lindos seus olhos claros. Deixei escapar um suspiro como se fosse adolescente novamente e o via entrar todo pomposo com sua jaqueta do time de futebol da escola. Eita, nostalgia!- Hey, pára de babar- ela me chutou, me tirando daquele transe de regresso a vidas passadas.
–Não estou babando, sua chata- chutei ela de volta, ouvindo uma intensa gargalhada caçoadora de sua parte.
–Sam... Hey, Sam- Sugar começou chamar a atenção do loiro com a mão levantada.
–O que você está fazendo, sua maluca?
–Chamando ele para que você babe em seu peitoral forte de perto- ela brincou, continuando a acenar para ele que logo viu. Eu queria abrir um buraco até o inferno por tamanha vergonha.
–Filha da...
–Um bom final de dia, senhoritas- ele disse cortando minha revolta.
–Bom dia, Sam- Sugar disse, olhando pra mim de um jeito sacana. Aquela vaca me paga.
–Não fala mais com os antigos colegas, Brittany?- Sam brincou, colocando-se do meu lado.
–Oi, Sam- não sei como, mas ele conseguiu me erguer e apertar seus braços em volta de mim em um abraço saudoso em fração de segundos.
–Nossa, você está mais linda do que eu me lembrava- recuei um passo, com certeza extremamente vermelha pelo elogio. Eu não havia mudado muita coisa desde que estudei aqui. Apenas meu cabelo que antes eu deixasse sempre mais curto havia crescido e ficou assim, achei melhor. Combinava mais comigo. Me lembro que no jardim de infância me chamavam de Barbie, pelo cabelo grande e loiro.
–Obrigada, Sam. Você também não mudou nada- ele sorriu, cruzando os braços.
–Fez falta, Britt. Que bom que está de volta.
–É bom estar de volta- nos olhamos por um instante, naquele silêncio constrangedor até Sugar pigarrear.
–Foi bom ver você. Nos vemos por aí. Tchau.
–Tchau- retribui o sorriso que ele me enviou antes de sair.
–Essa bundinha dele continua linda- Sugar comentou mantendo o olhar no traseiro de Sam até ele sumir de nossas visões. Rolei os olhos por isso- Percebeu o mesmo que eu?
–O que?
–Que ele ainda é amarradinho em você.
–Ah, pára- revirei os olhos novamente. Aonde um homem daqueles ainda estaria solteiro hoje em dia? Alto, forte, lindo e tudo mais- Ele nem deve estar solteiro, Sugar.
–Está e já faz um tempinho. Ele se divorciou da Kayla uns meses atrás.
–Kayla Soyer?
–A mesma- fiz uma careta de desaprovação- Eu sei. Também fiz essa cara quando ele me contou. Quem em sã conciência casaria com aquela tranqueira?
–Cada um tem seu gosto, minha cara- roubei uma maçã da bandeja dela e mordi um pedaço- E isso não se discute.
–Só amando mesmo pra ficar com aquela chata de galocha. ''Não tente, querida. Você nunca chegará a meus pés''- ela imitou Kayla de um jeito engraçado- Mas agora o caminho está livrinho pra você.
–Nem vem. Quero me concentrar em meu trabalho agora.
–Ah, sua chata. Ele quase te ofereceu o corpo com o olhar e você fica aí fazendo doce- dei de ombros, sei me importar com aquilo- Pelo menos vem em uma balada comigo para celebrar seu retorno, já que não quer o He-Man gostosão.
–Não sou muito de festas agora, Su.
–Mas você vai. E sem discussão. Faz anos que não nos vemos, sua desalmada. Vai lá, faz essa forcinha- ele fez bico. juntando as mãos- Por favor, quero minha amiga de volta.
–Ah, eu te odeio, Sugar- bufei vencida pela chantagem emocional. Mas eu devia isso pra ela... Na verdade, por esses anos todos só trabalhando, eu devia isso a mim também- Quando?
–Amanhã. Te pego às nove.
–No meio da semana?
–Mais emoção pro dia seguinte. Dar aula doidona, não sabe?
–Sugar- balancei a cabeça negativamente- Eu vou, mas sem excessos, ok?
–Como queira- ela aceitou dando de ombros. O sinal tocou- Agora vamos. O intervalo já acabou.
~°~
Na próxima sala foi até mais tranquilo que a outra. Os alunos eram simpáticos e apenas um me deu problema, pois se negou a ler um texto que eu havia pedido. Depois de muita conversa ele acabou lendo e até gostando do conteúdo. Adolescentes e suas complexidades. Como se eu nunca tivesse sido adolescente antes.
Quando as aulas acabaram, me despedi de meus colegas e me dirigi a saída para pegar um táxi. Havia um fluxo enorme de veículos de alunos e professores que mais pareciam um bando de formigas na hora do jantar. Ao passar entre dois carros que estavam estacionados, minha bolsa se enroscou ao retrovisor de um deles. Quando puxei para soltá-la e ela cedeu, me desequilibrei, indo de encontro a um carro que passava nesse instante. Eu me arrebentaria de forma certeira nele, porém senti duas mãos rodearem minha cintura e me puxarem com rapidez para trás, ao ponto de dar com as costas na lateral do veículo que havia enroscado a bolsa. Demorei a abrir os olhos pelo susto, tremendo como uma louca até sentir que havia uma pressão a mais a meu corpo. Depois de me acalmar mais, fui abrindo os olhos lentamente, me deparando com um par de orbes castanhas me fitando em avaliação a meu estado. Era ela e, senhor, tinha o corpo grudado ao meu como se fosse chumbado a ele. Só depois de um tempo, apenas em uma troca de olhares questionáveis, que voltei a mim, notando que estava agarrada a seus braços que, por céus, eram fortes e firmes, porém ainda com aquela delicadeza feminina.
–Tudo bem?
–Humm... Acho que sim- respondi em um fio de voz, tentando manter os batimentos cardíacos normais depois do susto. Ela foi me soltando aos poucos, dando agora o lugar ao metal gélido do carro a parte traseira de meu corpo.
–Seria um belo tombo- o tom foi distraído, mas seu semblante inóspito em nada havia mudado. Buscava uma compreensão mais clara daquela garota, mas só encontrava uma válvula fechada dentro dela que parecia não querer abrir. Um dia... Em apenas um dia, consegui achar alguém pra mexer com minha cabeça. Era alguém de aparência normal, mas, os céus concordariam, possuía uma alma gótica.
–Seria sim. Muito obrigada por me ajudar. Sou muito estabanada mesmo- ela sorriu de canto. Um sorriso charmoso com covinhas, até um pouco mais largo que o de antes na sala. Era também bem, hum, sexy. Santana, a garota enigmática, voltou a se aproximar de mim, o que me fez nem sei por que quase atravessar a lateral do carro e entrar nele pelo o tanto que me comprimi pra longe dela. Ela me encarou seriamente por alguns segundos e se abaixou, ficando por ali sem demora até se erguer lentamente com uma distância mínima de meu corpo, chegando a roçar levemente em mim e me encarar novamente. Senti até meu ser se revirar pelo olhar que ela me lançou. Era como se estudasse minhas expressões, meus movimentos, as reações... Sei lá, seus olhos me percorriam por completo. Segurou uma de minhas mãos e lá pendurou minha bolsa que havia caído no meu desastre de agora pouco.
–Mais cuidado da próxima vez, loirinha. Eu nem sempre estou por aqui- sorriu agora com um teor de ironia e foi saindo aos poucos até sumir de minha vista.
–Minha nossa senhora!- exclamei quase como um gemido, notando os pelos ouriçados de meus braços- Acho que morri- levei a mão peito, sentindo o coração pular feito um louco- Isso foi pelo acidente... Tem que ser pelo acidente ou vou enlouquecer.
Fale com o autor