Notas iniciais
Espero que estejam gostando. Capítulo grande hoje.

Não sei por quanto tempo eu fiquei imóvel olhando para o rastro invísivel que Santana havia deixado no chão ao sair, entretanto, estava ciente de que minha coordenação motora havia me abandonado.

PI PI

–Por Cristo!- saltei pra longe do carro quando ele apitou, alertando que havia sido destravado pelo dono.

–Me desculpe, senhorita Pierce. Não foi minha intenção assustá-la- Finn, o garoto mais alto da turma de formandos se desculpou quando mais próximo.

–Tudo bem, Finn. Até amanhã- sorri levemente para ele como sinal de que estava bem.

–Até amanhã, professora- acenei para ele, começando a andar de costas.

–Está perdida, Brittany?

–Céus, Sugar. Que susto dos infernos!- me virei bruscamente para ela, com a mão no peito- Tiraram o dia para tentar me matar de susto, credo.

–Relaxa aí, britânica chata- fez careta dando tapinhas de leve em meu ombro- O que foi que te afetou assim?- mordi o canto dos lábios no intuito de prender a vontade de dar um grito ao me lembrar dos sustos de ainda pouco.

–Nada, deixa isso pra lá.

–Oooook- disse demoradamente- E aí, quer carona?

~°~

Eu fui quase a viagem inteira de carro refletindo sobre meu dia na Memphs... Aquilo tinha que ser digerido de alguma forma.

–Sugar?

–E ela está viva! Uhuuu- ela brincou, levantando os braços em uma comemoração exagerada. Rolei os olhos por isso- Fala aí, moça pensadora.

–Você dá aula para último ano na Memphs?

–Dou sim. Artes, por que?

–Nada muito grande. Só uma aluna desse ano que me deixou intrigada.

–Santana Lopez?- a encarei surpresa.

–É ela sim, como adivinhou?

–Não se sinta tão lisonjeada por se intrigar a ela, amiga. Santana é um verdadeiro mistério para os professores daquela escola exagerada de velha. Ela é algo diferente para se lidar.

–Por que, ela tem algum problema?

–Ta aí que não. Ela é normalzinha. Pelo menos é o que seus pais e o psicólogo da família dela dizem. Ela só é quieta demais.

–Ela me assusta!- aquilo saiu sozinho, porém era a pura verdade. Santana era meio sombria, em minha singela opinião. Mas se bem que minha primeira aula foi hoje, então ainda era muito cedo para já ter uma dossiê formado do caráter ou do comportamento da garota.

–É normal, minha querida. Acho que por ser tão na dela e não sorrir muito, acaba que passa essa figura de “ASSUSTADORA"- engrossou a voz, imitando um monstro com as mãos para mim como se fossem garras. Ri pelo nariz- Mas na verdade, acho que ela só é mais um adolescente complexo. O senhor Schue conversa com ela de vez em quando. Pouco, mas conversa, e ele diz que não sabe da onde as pessoas tiram essas coisas sobre Santana Lopez. Nem mesmo eu a vejo assim. Acho ela até sexy.

–Sexy?- elevei uma sobrancelha, com um sorrisinho de canto.

–Oras, claro. Já olhou bem pra ela? Latina, corpo legal, bonita, com marra e coisa e tal... Se eu fosse aluna e um tiquinho lésbica, investiria.

–Deixe de brincadeira, Sugar. Por Deus, ela é uma criança- cruzei os braços levemente, voltando meu olhar para a rua.

–Sim, mas uma criança gostosa- acertei seu braço pela malícia- É brincadeira, sua chata. Eu respeito meus alunos, apesar de alguns ali que dão vontade de terminar de criar.

–Céus, você não existe- ela riu, fazendo uma dancinha estranha de sapeca- O negócio é que se ela fosse minha filha, eu com certeza a levaria em um analista.

–Se fosse minha filha, eu nem ligava. Isso é coisa da adolescência, loira. A menina não faz nada pra ninguém, entrega os trabalhos direitinho sem nem dizer um“ai". Deixa de neura- Sugar ligou o rádio, porém desligou na mesma hora que uma propaganda era anunciada para horário político- Odeio esses políticos. Vai ver Santana é assim porque o pai dela é um e dos podres.

–Meu pai trabalhava para ele até abrir seu próprio consultório de advocacia. Já o vi de perto e me foi bem simpático.

–Aquilo é um fingido. Já deu em cima de mim uma vez na reunião de pais e mestres. E detalhe: Na frente da mosca morta que é a mulher dele.

–Argh! Homens desse tipo são nauseantes- minha feição agora era de nojo gritante.

–Pois é... Mas eu sei bem de que tipo te agrada- Sugar parou no sinal vermelho e se virou a mim com cara de safada- Do tipo loiro, alto e forte, que te pegue pelos cabelos e a jogue na parede, chamando de lagartixa- ela gesticulava freneticamente- Ai, vem meu gostoso. Ui, mais forte... Bate, bate...

–Sugar!- a repreendi ruborizada pela conversa erótica e mais ainda por perceber que rapazes do outro carro assistiam tudo.

–Vem cá, gatinha, deixa eu te fazer gemer de verdade- um deles falou fazendo gestos obscenos com as mãos e a língua.

–Ah, desculpa, amorzinho. Mas se acha que pode pegar uma mulher como eu... — passou a mão sensualmente pelo corpo- Te aconselho a voltar para suas punhetinhas no aspirador de pó da mamãe para não se magoar.

–Uhhh, tomou na cara- os amigos dele zombaram em uma intensa vaia.

–Bye, gatinho- ela deixou um beijo para ele no ar e acelerou assim que o sinal abriu. Ela ria as torras enquanto eu levei a mão ao rosto, balançando a cabeça em desaprovação- O que foi?

–Você é maluca, Sugar.

–Eu? Vai me dizer que ele não mereceu?

–Sim, mas você foi chucra com o rapaz. Não se rebate certas coisas com homens daquele tipo. Vai que estivessem armados?

–Eu nem ligo- deu de ombros- Se elas falam, por que eu não?

–Tudo bem, mas olha pra frente- briguei quando ela desviou o olhar da estrada para alguma coisa pela janela.

–Ah, cala a boca, Brittany. Ó sua casa alí- apontou para a casa simples, mas aconchegante de minha mãe. Estacionou logo então- Pronto, está entregue.

–Agradeço pela carona, apesar de infinitas vezes quase me matar- ela fez que não dava importância com um enorme bico e um balançar de ombros- Tenha uma boa viagem até em casa.

–Valeu. E não se esquece da balada amanhã.

–Eu preciso mesmo ir?- choraminguei fazendo bico.

–Você DEVE ir- apontou pra mim como ameaça- Falhe comigo e eu posto aquela foto de você naquela festa do pijama do terceiro ano,que estava com uma calcinha das meninas super poderosas e uma blusa do Bob esponja, comendo brigadeiro direto da panela e com a boca toda suja.

–Você não faria isso!- exclamei de olhos arregalados. Como ela tirou aquela foto sem eu ver?

–Me desafie, senhorita- em uma risada diabólica ela deu partida no carro e sumiu de minha vista.

–SUGAR, SUA VADIA- gritei no meio da rua, o que acabou chamando a atenção de alguns vizinhos, que me encararam estranhamente- Uhmm... É assim que a gente se despede, hehe. “Tchau, sua vadia"- fui andando de fininho até entrar em casa como um foguete. Era vergonha demais para um dia só.

~°~

Ao entrar, senti o cheirinho bom de bolo vindo da cozinha e para lá fui. Contei sobre meu dia corrido para minha mãe enquanto saboreava uma fatia de seu bolo maravilhoso de abacaxi. Ela riu horrores quando eu contei sobre o quase esborrachamento no carro e se impressionou pela rapidez que minha aluna tinha me salvo. Descrevi Santana para ela e ganhei um conselho seu como antiga professora experiente: “Aprenda a conviver com pensamentos e até a falta deles de seus alunos. Jogue com algo que eles gostam, que vêm até você''. É um ótimo conselho, só espero que dê certo pra mim com meus alunos e principalmente com Santana, a que pensa demais.

Quando a noite chegou eu já estava caindo pros lados de cansaço. Ainda bem que não tinha muita coisa para corrigir e revisar, senão não teria ido dormir tão cedo para ter um descanso completo. Acordei no dia seguinte bem disposta. Passei por minha mãe sorridente, lhe dando um beijo demorado na bochecha e lhe acompanhei em um café tranquilo, regado a conversas animadas. Deu tempo de lhe ajudar com algumas coisas de casa, assim depois rumei para a Memphs e dali pra frente era só eu e minha literatura contra a ignorância daquelas cabeças tão jovens e bobas.

Tentei me concentrar a todos os alunos e não só em uma, porém isso não me impediu de hora ou outra perder o olhar na latina sentada no final da sala em sua expressão calma de sempre. Ela prestava atenção em tudo que eu falava, em minhas explicações, com uma postura séria de aluno que muitos professores invejariam em ter. E, apesar de eu querer que ela interagisse na aula mais que prestava atenção, deixei que ficasse à vontade para depois tentar uma abordagem mais direta. Aprendizagem completa é aquela em que aluno não só absorve conhecimento, mas sim que também repasse aos demais. Às vezes chegava a achar que ela apenas olhava pra frente e viajava, porém a cada exercício seu que eu recebia, percebi que a latina era calada, mas com muita desenvoltura em literatura. Se quiser seguir a carreira de escritora, teria futuro.

–... Escritores daquela época eram poucos valorizados e... — durante minha explicação um sinal vindo do auto-falante acima de mim soou, alertando que havia um comunicado da secretaria. Sinalizei para que os alunos fizessem silêncio e escutassem.“Santana Lopez, por favor, compareça a secretaria agora"

Todo mundo se voltou a ela como se perguntasse o motivo dela ser chamada.

–Pode ir, Santana. Você pega a matéria com seu irmão depois- falei para ela que apenas assentiu, guardando seu material. Levantou-se e saiu rapidamente da sala.

–Hey, cara. O que tua irmã aprontou?- Noah cutucou Lalo sentado a sua frente.

–Tenho certeza que nada. Santana é tranquila- ele respondeu ciente daquilo, sem parar de fazer suas anotações da matéria na lousa.

–Sei não, ela é toda estranha. Vai ver descobriram que ela é uma psicopata e a polícia bateu aqui atrás.

–Cala essa boca, imbecil. Santana não é assim- Lalo se levantou alterado, o que me fez ficar alerta.

–Algum problema aí atrás, rapazes?- perguntei analisando os dois se encarando no meio da sala. Lalo estava sério, já Noah exibia um sorriso zombeteiro para o outro.

–Não, professora. Me desculpe- Lalo disse dando uma última olhada feia para Puck, voltando para seu lugar.

–Tudo bem, como eu estava dizendo...

Retornei com a aula e o resto foi tranquilo. A quase briga de Lalo e Puck me deixou mais certa quanto a Noah... O rapaz ainda me daria dor de cabeça. Coisa boa de dar aula para adolescentes... Esses hormônios em descontrole.

Santana não retornou no decorrer da aula, o que de fato me preocupou. Será que se meteu mesmo em problemas como Puck havia comentado? Mais um chamado do auto-falante soou alto. Repeti o sinal para que os garotos ficassem quietos.

“Professores, liberem os alunos agora... "

–EHHHHH!- os alunos gritaram em euforia.

–Gente, silêncio! A mensagem ainda não acabou- os repreendi calmamente.

“... Acompanhem todos até o ginásio. A competição de natação foi adiantada para hoje, ás onze da manhã“.

–Caraca, mulher de biquini- Noah se alegrou, batendo um hi five com outro aluno. Uma verdadeira bagunça se instaurou ali, parece que competiam por quem falava mais alto.

–Hey, hey, controlem-se, por favor- pedi quase gritando. Eles foram se acalmando, porém ninguém voltou a sua cadeira- Vamos esperar cinco minutos para sair, ok? Organizado.

Depois dos cinco minutos, fui liberando eles calmamente, pedindo que tivessem cuidado ao sair. Marley passou por mim e a parei.

–Você sabe que competição é essa, Marley?

–Uma de natação que ocorre todo ano. Essa é entre os alunos daqui. Quem vencer irá representar a escola em uma competição de cidades, tanto homem quanto mulher.

–Nossa, que legal. Tem alguém daqui da sala que compete?- indaguei animada. Adorava competições escolares. Eu mesma competi em muitas.

–Só a Santana- fiquei surpresa.

–Santana compete?

–Sim, é uma das melhores. Por que a surpresa?

–Não sei, ela é tão calada.

–Acho ela legal- ela deu de ombros, ajeitando a mochila que caía dos ombros.

–Acha? Por que?

–Ela não julga ninguém. E é a única que me diz “oi" aqui- respondeu pensativa- Posso ir agora?

–Claro, nos vemos no ginásio- sorriu suavemente, sumindo pelo fluxo de alunos no corredor- É, e no final ela é uma boa moça e aqui estou eu achando a pobre estranha. Ehhh, Britttany!

Saí a passos de ferro até o ginásio, me maldizendo por ser tão impulsiva quanto a meus pensamentos. Eu sempre fui assim e piorou quando vi Santana pela primeira vez. Mas nada posso fazer se ela mexe com todo mundo. Antes que eu acabasse atropelando alguém pelo caminho, cheguei ao ginásio e esse estava lotado. Era um barulho horrível, e olha que ainda nem tinha começado a competição.

–BRITTANY! HEY, BARBIE!- escutei a voz de Sugar me gritar. Procurei ela por toda a arquibancada até encontrá-la enfurnada entre os alunos- Vem cá, guardei um lugar pra você- cheguei a ela, sentando-me ao seu lado- E aí?

–E aí o quê?- rebati de cenho franzido.

–Como “e aí o quê?". E o Sam?

–Está bem alí no lado da piscina, é só olhar- Sugar fez cara feia pra mim.

–Você sabe do que eu estou falando, ordinária.

–Não, não sei, Sugar Motta- cruzei os braços, olhando-a de maneira questionadora.

–Loiro filho da puta. Ele disse que ia falar com você.

–Não falei com ele hoje. O que você aprontou?

–Nada- deu de ombros freneticamente.

–Sugar- cobrei de forma ameaçadora.

–Nada, é sério- se encolheu em seu assento. Ela estava com cara de menina sapeca que aprontou alguma coisa.

–Se tiver aprontado algo, juro que coloco cola em sua cadeira.

–Já ouvi ameaças piores.

–SUGAR!

–Tudo bem, vou ficar quieta. Olha lá, os competidores já estão entrando- passei um bom tempo encarando Sugar com cara feia, mas desisti de saber alguma coisa depois que a competição começou.

Primeiro foram os rapazes. O vencedor foi o irmão caçula do Sam, Raphael. Eles era muito parecidos, porém Raphael era menor e mais magro. Sam era seu treinador e professor de educação física da escola.

De repente a platéia se ouriçou. Estavam animados para a próxima parte... A feminina. A partir daí ninguém ficou quieto, os rapazes mais ainda. Não demorou muito para Santana se mostrar perto da piscina. Sam dizia algo que ela apenas concordava suavemente. Ele então apertou de forma incentivadora os ombros dela e a guiou até seu lugar na hora do salto.

Ela usava uma toca azul na cabeça e o corpo estava envolto a um roupão também dessa cor com o símbolo de um tubarão branco, brasão da escola. Mergulhou as mãos nas águas da piscina como se testasse a temperatura. Sam a chamou e parecia que pediu a ela que tirasse o roupão. Quando assim o fez, tomou seu lugar na raia que lhe indicaram e a gritaria foi feia assim que as demais competidoras repetiram o gesto.

–Nossa, gente!- Sugar exclamou do meu lado, surpresa com algo e eu bem sabia com o quê- Minha filha, o tal do Ernesto Lopez fez um bom trabalho com aquela menina- eu nada disse, apenas parecia que tinha tomado um choque olhando para Santana. Bom, não é pecado se impressionar com o corpo perfeito dos outros e o dela, Deus, era tentador. Espera, eu disse tentador? Risca isso. Ela é uma criança, Brittany. Criança... De abdomên definido e de pele lisinha brilhante, pernas em um torneado sexy e... Tudo bem, pára, por favor, pára... Desvia o olhar. Quando fiz isso, dei de cara com Sugar me olhando com a sobrancelha arqueada- Está tudo bem, Brittany? Parece que viu uma assombração.

–E-Estou sim, só, uhm... Está calor aqui, não?- disse meio nervosa, retirando meu casaquinho amarelo.

–Não acho. Está até friozinho.

–Você só pode estar doente- peguei algo em minha bolsa para me abanar.

–Acho que é você quem está- sorriu largamente- Ah, já sei.

–O quê?

–O porque de estar assim toda nervosa e calorenta.

–Sabe?- indaguei temerosa. Meu Deus, estou dando tanto na cara assim? Não pode. Isso não pode acontecer. Não quero que achem que estou assim por causa de uma aluna, porque não estou e nunca posso estar. Eu sou ética e totalmente profissional desde sempre.

–Sei sim, sua safada- o tom foi grandemente malicioso- Viu o Sam gostosão e ficou aí toda ouriçada.

–Não, Sugar... Não é nada que está pensando... Espera, você disse Sam?

–Sim, e não é por ele que você está assim, meio afoita?- obrigada, Deus. Sugar ser maluca às vezes era bom.

–Ah, sim, pelo Sam... Claro, pishhh- o ar escapou de meus pulmões de forma ardida- Vamos voltar ao torneado, quer dizer, torneio?

–Okay- ela riu zombando de mim. Respirei fundo, tentando recobrar a sensatez de meus pensamentos. Ao voltar para as nadadoras, pude ver Santana suspirar profundamente, fazendo alguns movimentos de aquecimento. Será que ela estava nervosa por competir? Droga, fico nisso, de querer adivinhar o que passa na cabeça dela que acabo dessa forma, toda revirada.

–Em seus lugares- o locutor começou- Pode soltar- consentiu ao rapaz a dar o tiro de partida. As garotas mergulharam e a platéia se animou. Eram gritos de todos os tipos que quase me ensurdeceram. Não tirei meu olhar de Santana por um instante, ela parecia pertencer a água por tão leve ser o seu nadar. Tinham três em sua frente e agora seria a virada final.

–Vamos lá- murmurei em uma torcida silenciosa- Você consegue, garota.

–NADA, GAROTA. COLOQUE ESSE CORPO DIVINO PARA FUNCIONAR. AFOGA ESSAS GALINHAS, COCÓÓÓÓÓÓÓ- Sugar vibrou ao meu lado escandalosamente, quase me ensurdecendo. Ri muito das caretas que ela fazia, imitando uma galinha da maneira mais patética do universo. Depois de gritos e mais gritos, Santana disparou. Primeiro uma foi ultrapassada, depois a outra e por fim a última. Céus, nunca vi ninguém se mover tão rápido dentro d'água. Foi questão de segundos para Santana alcançar a vitória, levando a platéia a loucura- Ela conseguiu! Ehhhhhhhh- e mais histerias de Sugar ecoavam pelo ginásio. Ela estava conseguindo superar a platéia inteira em gritos. Mas não era nisso que minha cabeça se focava.

Santana era agora tirada da água por Sam, que a ergueu em um abraço alegremente. Quando a colocou no chão, pegou em sua mão e saiu pra comemorar com Raphael. Ao virar, notei seu semblante indiferente aos dos demais. Era como se nada tivesse acontecido para ela.

–Vamos dar os parabéns para a vencedora, Britt.

–Sugar, não... — tentei impedí-la, mas a maluca saiu correndo me arrastando consigo. Aquilo gostava de uma folia que nossa senhora. Avistou Santana e me puxou enquanto eu lutava para me soltar.

–Santana- gritou se aproximando. A latina já havia tirado a toca, estava agora só com seu top e short de natação. Deus, de perto era mais sexy ainda- Meus parabéns, garota. Nadou bem demais.

–Obrigada, professora- aceitou a mão de Sugar em um aperto amigável. Eu estava mais atrás relutando para me aproximar.

–Brittany!- Sugar me beliscou, me fazendo a encará-la feio. Fez um gesto com a cabeça para que eu dissesse algo, nos deixando sozinhas logo em seguida. Santana me olhava com uma sobrancelha arqueada.

–Uhm- limpei a garganta- Grande vitória, Santana. Foi merecida.

–Obrigada, senhorita Pierce- sorriu de canto, sem tirar aquele olhar que parecia mais uma intensa provocação- Preciso ir agora.

–Não vai ficar pra comemorar com os outros?- perguntei estranhando. Ela aparentava não ligar para a vitória que acabou de alcançar.

–Do meu jeito é mais gostoso- cerrou os olhos, em um sorriso que eu distingui um tanto malicioso e saiu acenando cordialmente pro pessoal da platéia que gritava seu nome. Tudo que vem dela parece provocação, mas por que? Seria apenas comigo?

~°~

A noite havia chegado rapidamente. Eu já tinha tomado um banho relaxante e agora me preparava para sair com Sugar. Espero que não me arrependa de ter aceitasse isso. Faz tempo que não saio então perdi meio que o jeito pra essas coisas. Mas tem uma coisinha a mais:

E agora, o que vestir?

Abri meu guarda-roupas e fiquei o encarando atrás de ideias para o que usar para a balada. Uma calça? Uma saia? Que cor? Céus, tinha esquecido o quão indecisa eu sou. Optei por um vestido até um pouquinho antes dos joelhos, no modo pretinho básico e uma maquiagem leve. Passei outra porção de tempo me encarando de frente ao espelho, me checando por inteiro.

–É, vai ser esse- decidi finalmente. Peguei minha bolsa e desci correndo as escadas quando ouvi a buzina do lado de fora- Mãe, já vou. Beijo, tchau.

–Tome cuidado, filha- ela disse da cozinha.

–Vou tomar. Fui- gritei da porta. Fui correndo toda desengonçada por causa dos saltos até o carro de Sugar.

–Ui, ta gostosa! Apertadinha, hein!- comentou quando entrei- Pronta pra dar muito hoje?

–Que conversa de dar é essa, menina?- indaguei assombrada.

–Dar uma dançada, oras. Credo, mente suja- soltou umas risadinhas sacanas dando logo partida no carro. Lhe acertei com um tapa na coxa pela brincadeira. Ela sabe como reajo a essas coisas- Simbooooora!- arrancou quase me fazendo dar com a testa no teto. Sugar ao volante era um perigo completo.

Chegamos minutos depois em uma boate com um grande letreiro que dizia Sexy&Hot. Sugar me agarrou pelo pulso e nos enfiou no meio das pessoas que aguardavam na fila por sua vez. Escutamos muitas reclamações, mas isso em nada a afetou, pois quando perto da porta ela me disse ser vip do lugar há anos. Constatei isso no momento que o segurança lhe abriu um enorme sorriso e nos deixou entrar.

–Nossa! Está bem cheio- eu disse assim que adentramos pelo salão.

–Então está perfeito. Bem quente- continuou a me arrastar por entre as pessoas- Vamos sentar aqui.

–Aqui é tão, hã, vermelho?- analisei o lugar enquanto me sentava- Lembra um bordel.

–Vermelho é a cor do pecado, amorzinho. Aqui pode acontecer de tudo.

–Prefiro que fique no “de nada" mesmo- ela riu.

–Medrosa. Pudor aqui não funciona, baby.

–Deus, meu pai me mataria se me visse aqui.

–Mas ele não está, então relaxe e curte- levei a mão ao rosto, rindo.

–Não sei por que, mas sinto que vou me ferrar te escutando.

–Se ferrar às vezes é bom- me fitou maliciosamente- É só achar a pessoa certa pra isso... E a sua está chegando ali.

–O que?- olhei para onde Sugar apontava com a cabeça e pude entender do que falava na arquibancada do colégio. Sam se aproximava da gente sorrindo grandiosamente ao me ver- Sugar! O que ele faz aqui?

–É sua seca de sexo indo embora, gatinha. Bye- me deixou ali com um sorriso infernal, passando por Sam para bater um hi five. Eu mereço. Encostei a testa na mesa, querendo morrer. Isso não daria certo.

–Hey, gatinha. Bom te ver.

–Bom te ver também, Sam- ele me beijou demorado na bochecha, sentando logo ao meu lado- Olha, eu não sei o que Sugar disse a você, mas...

–Hey, relaxa. São apenas dois amigos curtindo uma balada- tocou de forma tranquilizadora em minhas mãos- Precisamos nos divertir de vez em quando, não acha?

–Professores também são seres humanos.

–Apesar de não parecer, somos sim- concordei rindo com ele- Mas e aí, o que andou aprontando depois da formatura?

–Ihhh, isso é uma longa história.

–Sempre tenho tempo de sobra pra você- Sam repousou sua mão sobre a minha, me fitando galantemente. Pois é, essa foi direta.

–Ok- sorri desconcertada, retirando a mão por debaixo da dele, passando entre os fios de meu cabelo- Conto tudo a você, mas antes quero uma bebida.

Jogamos conversa fora por um tempo que não sei deduzir. Contei toda minha aventura desde que terminei o ensino médio e depois foi a vez dele de me contar a sua. Disse que até babá foi antes de se formar em educação física. Eu ri muito das histórias que ele me contou sobre as vezes que cuidou de seus primos e um deles, um de doze anos, pegou o carro dos pais e saiu. Sam tentou pará-lo, porém não conseguiu, teve que entrar pela janela depois de vários minutos pendurado com as pernas pra fora. Quando não havia mais o que falar, ele resolveu me chamar pra dançar. No começo fiquei hesitante, mas decidi aceitar, ele foi tão legal comigo esse tempo todo.Tocava uma música bem dançante da Rihanna, S&M. Sam olhou pra mim e riu. Belo momento pra se tocar uma música como essa.

–Você dança muito bem.

–O que?- gritei franzindo o cenho- Não deu pra escutar. A música está muito alta.

–Eu disse que você dança muito bem- ele repetiu falando agora a meu ouvido. Eu deveria ter me arrepiado por isso, como sempre acontece comigo, porém nada senti a não ser rubor.

–Obrigada. Você também- respondi no grito mesmo. Estava adorando dançar, faz tempo que eu não saía para isso. Quando eu enfim tinha me soltado pra música, ela mudou, dando lugar a uma lenta. Sério, tem alguém contra mim por aí. Fiz menção de ir me sentar, porém Sam me parou no mesmo instante.

–Espera. Dança essa comigo- me pediu com cara de cachorro pidão- Por favor?

–Tudo bem. Mais uma não mata- Sam sorriu intensamente, me puxando para perto de si. Ele me apertou contra seu peitoral malhado e passou a nos balançar conforme o ritmo da música. Aquilo até que me relaxaria, se não fosse pelo fato dele puxar meu queixo delicadamente e me beijar. Correspondi pelo susto, porém senti mãos me empurrarem pra longe dele.

–Solte ele, sua vadia.

–Kayla?- Sam se colocou entre ela e eu- O que faz aqui?

–Vim atrás de você, meu MARIDO- respondeu frisando bem a última palavra. Enquanto isso estava eu mais a frente me recuperando- Ele tem dona, viu?

–Quantas vezes eu vou ter que te dizer que acabou, Kayla? Vê se segue sua vida e deixa a minha em paz.

–Sam, amor. Eu te amo e...

Saí de lá antes mesmo que sobrasse mais pra mim. Diacho de vida mais doida! Procurei Sugar por todo lado, porém não a encontrei. Não estava mais pra clima de festa, queria mais que tudo no mundo agora minha cama querida, então mandei um sms para ela explicando minha partida. Saí a procura de um táxi, já era quase uma da manhã e eu daria aula daqui a pouco. Senhor, eu sabia que não era boa ideia ter vindo e agora estava assim, meio perdida por essas ruas de Nova Iorque. Passei por um beco um tanto escuro para alcançar um táxi do outro lado, porém um homem mal encarado apareceu no final. Parei bruscamente, assustada pela figura mais a frente, e ao regressar meus passos outro cara tampava agora a saída. Pronto, era só o que me faltava agora. Vou morrer, bem feito pra mim. Deveria ter ficado em casa.

–Pra onde a mocinha pensa que vai?

–Espero que pra bem longe. Com licença, por favor- tentei passar por mais distante possível dele, porém acabei encurralada pelos dois.

–Sinto muito, gatinha. Mas você não sai daqui sem nos dar o que tem na bolsa e como bônus, nos fazer uma alegria com esse corpinho gostoso- um disse psicoticamente enquanto o outro lambia os lábios de maneira grotesca, que me deu náuseas.

–Por favor, me deixem ir. Dou tudo que tenho a vocês, mas não me façam mal- eu suplicava, dando passos para trás e pra longe deles até que não sobrou mais espaço e dei com as costas em uma lixeira.

–Ah, mas vai dar sim... E vai dar gostoso- um deles me segurou rapidamente, me jogando contra a lixeira. Pisei em falso e acabei machucando o pé. O outro arrancou a minha bolsa de mim e passou a revirá-la atrás de alguma coisa de valor. O homem grotesco tentou me beijar, mas eu desviava como podia, tentando gritar por socorro. Ele tampou-me a boca com sua mão asquerosa, começando a beijar meu pescoço. Antes que eu desmaiasse de pavor e sem forças, escutamos um barulho mais atrás do segundo homem sendo lançado contra uns sacos de lixo. A pessoa que fez isso estava de costas e com um capuz preto cobrindo a cabeça, na verdade estava todo de preto- Quem é você?- o outro nada disse, apenas se aproximou. Agora eu não sabia de quem tinha mais medo, se era do que me agarrava ou do sinistramente encapuzado- Não se aproxime.

–Solte ela- hey, aquela voz não me era estranha!

–Se eu não soltar vai fazer o que?- desafiou apertando cada vez mais o meu braço.

–Me teste e saberá- tirou um canivete no bolso de sua jaqueta e se aproximou do amigo desacordado de meu agressor, colocando a arma na garganta dele- Será como ele fica com um sorrisinho no pescoço?

–Espera!- ele abriu os braços o bastante para que eu o acertasse com uma cotovelada e fugisse para o lado do encapuzado. Pesares por pesares, era ela que estava me protegendo. Espera... Ela?

–Santana?- murmurei estupefata ao vê-la.

–Pra trás de mim, loirinha- ela ordenou, se colocando a minha frente- Vamos sair tranquilamente e fingir que nada aconteceu, ok?- ele assentiu com uma cara nada boa.

–Pode levar. Cachorras sujas como ela eu encontro em qualquer lugar pra comer e de graça- Santana parou bruscamente seus passos, tirando o capuz para fitar melhor o cara.

–O que você disse?

–Que ela é uma cachorra que se come de graça?- o homem zombou, pegando nas partes íntimas- Faço ela gozar sem nem enfiar tudo isso aqui. Você iria gostar, loirinha. Na verdade as duas, que tal?

–Peça desculpas- a latina ordenou com um semblante nada agradável.

–Vamos embora, Santana. Eu não ligo para o que ele fala- peguei em seu braço para puxá-la, porém ela se saiu de mim rapidamente.

–Não, ele foi grosseiro com você. Agora peça desculpas- ela ordenou firme, encarando o homem sem ao menos piscar- Vamos, peça desculpas.

–Uhm...Só se ela me fizer um boquete bem gostoso- isso pareceu ser a gota d'água pra ela. Antes que eu fizesse algo, ela rumou até o homem asquerozo e o mesmo ria sem parar lhe afrontando. Tudo aconteceu muito rápido. Antes que ele se movesse, ela o acertou rapidamente com a sola do all star no peito, o que o fez bater com tudo na lixeira. Dei um pulinho pra trás de susto por tamanha violência, vendo-a agora segurá-lo pela camisa com uma mão e com a outra socar sua face inúmeras vezes. Ele tentou se soltar, porém ela apenas apoiou o joelho em seu peito e continuou com a sessão de socos. Me aflingi por aquilo. Como uma simples garota faz isso com um homem?

–Santana... — eu não sabia se era seguro me aproximar, mas mesmo assim o fiz- San-Santana, pare. Vai se machucar. O que seus pais vão dizer se...

–Ele foi mal educado- ela me interrompeu parando. Puxou o cara para se levantar com a ajuda dele mesmo- Agora peça desculpas a ela.

–Me... Me...

–PEÇA- gritou no ouvido dele.

–Me desculpe pelo o que eu disse e o que fiz.

–Tudo bem. Mas em nome de Deus, Santana, por favor, solte-o- ela deu uma última olhada ruim pra ele e o soltou.

–Espero não te ver mais, seu saco de lixo- chutou a bota do homem e eu a puxei antes que fizesse outra besteira. Nunca estive tão assustada em toda minha vida, chegava a tremer. Caminhamos em silêncio pelo beco. Eu mancava muito por causa da pancada.

–Ai, espera um instante- parei, me apoiando na parede com cara de dor.

–O que foi?

–Acho que torci o pé.

–Espera, deixe-me ver- dei um passo pra trás antes que ela me tocasse. Ainda estava assustada pela cena de ainda agora- Não tenha medo de mim. Eu nunca te machucaria.

–Não tenho medo de você, só...

–Me acha estranha como todos daquela escola- me cortou em seu semblante sério de sempre.

–Espera, não é assim.

–Sempre é assim- ela se agachou, puxando meu pé com delicadeza- As pessoas tendem a sentir repulsa e medo pelo o que é diferente- analisou com cuidado cada partizinha dali- Não torceu, foi só um mau jeito.

–Isso é bom. Ai- fui tentar andar, mas não consegui. Doía muito.

–Quer que eu deixe você em casa?- cruzou os braços, marrenta.

–Não, estou com uma amiga na boate Sexy&Hot.

–A que te deixou sozinha para ser estuprada em um beco escuro?- perguntou com um misto de amargura e ironia na voz- Como quiser- o que fazer agora? Não conseguia expulsar a hesitação de ir com ela e pelo fato de ser minha aluna e me encontrar em uma situação como essa, só piorava os fatos. Mas eu precisava sair dali e estava machucada sem conseguir andar direito.

–Tudo bem, eu vou com você- ela assentiu com seu sorriso torto que possuía tantos significados, mas neste, percebi que era de vitória- Vamos.

–Não vai conseguir andar com esse pé assim.

–E vou andar como, com as mãos?- Santana tombou a cabeça pro lado em um gesto até engraçadinho. Sem dizer nada, ela veio a minha direção e passou as mãos por debaixo de meus joelhos, me pegando no colo- O que está fazendo?

–Tenho certeza de que você não sabe andar com as mãos- tentei não sorrir, mas não teve jeito. Só que o mais engraçado era que ela continuava séria. Estava quase certa de que Santana não sabia rir. Envolvi seu pescoço para ter mais segurança e ela começou a andar comigo daquela forma. Não sei se era o frio ou o fato de que ela respirava perto de meu pescoço, mas quando chegamos aonde sua moto, eu estava em um estado desconhecido de arrepio. Santana me colocou com cuidado no chão, tirando sua jaqueta e me entregando- Toma, faz muito frio por aqui e de moto mais ainda- nem contestei, vestindo logo a jaqueta, pois estava congelando. De repente ela vai e saca fora sua blusa, ficando apenas em um top que era quase uma mini blusinha, mas bem apertadinho, evidenciando seus seios fartos. Como era mesmo a história do frio?- Está cheirando a lixo.

–Mas e o frio?

–Sou quente de nascença- oh Deus! Ela subiu na moto e deu partida, fazendo logo um gesto pra que eu subisse também.

–É seguro?

–Eu faço ser- mordi o canto dos lábios, com medo daquela morte com motor. Decidi subir logo, me agarrando toda tremendo nos braços morenos de Santana- Se segurar meus braços não vou poder pilotar.

–Estou com medo de cair- expus sem me soltar- Não sou fã de motos.

–Tudo bem. Então segura aqui- ela pegou minhas mãos e as colocou envolvendo a cintura. Deu pra sentir perfeitamente alguns gominhos de sua barriga definida contra a minha pele. Ela estava tão quente.

Eu nada consegui dizer. Estava frio, Santana estava quente, meu ser estava revirando, então era bom sair logo dali. Fui o caminho inteiro tremendo e agarrada a Santana com um medo absurdo de cair. A viagem foi até tranquila, ela pilotava bem e sem pressa. Chegamos em casa uns dez minutos depois. Tentei encerrar as coisas dali de minha porta, porém Santana com teimosia me pegou no colo e me deixou sentada no balcão da cozinha. Disse que se eu colocasse logo gelo no pé, ele amanheceria bem melhor. Pegou gelo na geladeira, fez uma bolsinha e colocou em meu pé sobre o balcão.

–Aonde aprendeu a lutar daquele jeito?- perguntei depois de um tempo em silêncio. Ela estava sentada em uma cadeira a minha frente, com seu jeito irritantemente tranquilo de sempre.

–Ter pai político custa isso da gente. Faço muay tai desde os oito anos.

–Você gosta?

–É preciso?- deu de ombros, cruzando as pernas.

–Claro que sim- ela franziu os lábios, indiferente a esse fato- Por quanto tempo tenho que deixar isso?- Santana levantou-se e veio até mim, tocando em meu pé.

–Até ficar dormente- senti levemente o toque de seu dedo contra minha pele. Ela apertou mais forte e fiz uma careta levemente dolorosa.

–Ainda dói um pouco.

–Deve passar logo- passou a deslizar o indicador por minha perna, parando no joelho. Senti um ardor estranho pairar sob seus toques- Você se ralou aqui também- alcançou um vidrinho de remédio do meu lado, emergiu um algodão no líquido e tocou levemente no lugar. Fiz uma ligeira careta de ardor e ela me olhou, demorado e profundamente. Foi abaixando aos poucos e passou a assoprar meu joelho machucado para aliviar, mas ainda sim não quebrou nossos olhares. Aquele jeito sombrio possuía uma alarmante forma para eu me afastar, mas, droga, eu sentia que aquilo só me puxava mais para o grande buraco negro que era a mente de Santana. Eu tinha vontade de gritar por tamanha aflição pelo o que aquela garota me causava... Era medo? Temor? Diabos, eu não sabia. E ela me olhando daquela forma, como um predador policia a presa, só me fez ter vontade de me desfragmentar no ar para manter distãncia de Santana, aquele ser que parecia tudo, menos humano.

–O que você é?- questionei mais pra mim do que pra ela. Ela entortou a cabeça para o lado, arqueando uma sobrancelha como se avaliasse a pergunta. Então se colocou ereta a minha frente, com a postura de um juíz. Eu estava sentada com as pernas estiradas no tampo da bancada, então com um simples passo de Santana, nós estaríamos bem perto. Santana apoiou as mãos afastadas na bancada e se inclinou para mim, nos deixando distantes por apenas uma seda de ar.

–Talvez o que você precisa- seu tom de voz era baixo e rouco, como se o que me contasse não pudesse espalhar no ar. Com isso meu corpo ganhou tensão, meu coração parecia querer atravessar as costas e o oxigênio, tão soberbo, se negou a se apresentar em meus pulmões.

–Como assim?- tentei ser o mais estável possível diante dela. Isso estava se tornando mais errado do que já era em minha cabeça.

–Não sou de responder com palavras- avançou alguns milímetros para meu rosto, mantendo-nos a olhares pareados. Meus olhos se inquietaram assim como todo meu ser... Era como se eu tivesse perdido o controle de tudo. Já suas orbes escuras estavam firmes e seguras nas minhas. Não podia deixar que isso continuasse.

–Não.

–Não o quê?- murmurou tão tranquilamente que me deixou tonta, pois também seu tom de voz era macio. Fechei os olhos, negando com a cabeça.

–Não se aproxime mais- ousei tocar seu ombro nu para afastá-la, porém ela apenas segurou minha mão e entrelaçou seus dedos aos meus.

–Tão branquinha!- sorriu de canto- É até um pecado te tocar... Parece tão pura.

–Por favor, isso não pode acontecer- puxei a mão que ela segurava, deslizando as pernas para aumentar a distância de nossos corpos- Você é minha aluna.

–Não estamos na escola, estamos?- disse como se fosse a coisa mais natural do mundo.

–Eu já disse que não... Não quero e nem posso- meu tom de voz foi duro agora. Ela sorriu de lado, como se debochasse de mim. Lentamente ela voltou a se aproximar e antes que eu fizesse algo, colocou-se entre minhas pernas, segurando meus braços para trás de mim. Tudo aquilo deveria me fazer gritar pedindo socorro, mas não, apenas me assustei, encarando-a de semblante trancado. Seu nariz tocou o meu levemente, escorregando por minha bochecha até chegar no pescoço e somente fungar forte ali, porém foi o bastante para que eu pesasse a respiração. Subiu até a orelha.

–Me afaste agora e nada mais farei com você- soltou minhas mãos e levantou as suas, me dando total liberdade. Ela ajeitou seu corpo para que nos encarássemos novamente, esperando alguma reação vinda de mim. Algo em minha mente gritou para que eu a empurrasse e corresse o quanto pudesse até estar a quilômetros daquela garota, porém só consegui abrir e fechar a boca várias vezes sem nada dizer. Santana me encarou cerrando os olhos como se me punisse por não ter reagido, mas a maneira sexy que ela empregou nesse gesto só me fez ficar pior- Eu esperava mais de você, professora.

–Não... — foi então que ela calou meu protesto com seus lábios fortemente contra os meus. Golpeei seus ombros várias vezes, mas de nada adiantou, logo porque eu fui a primeira a ceder ao beijo. Ela tinha os lábios tão macios e bons de se ter entre os meus. Senti seus dedos cravarem a minha cintura e a pressionar sem delicadeza, o que me fez gemer contra seus lábios, que logo se entreabriram para me atacar agora com sua língua quente. Eu gemi, e gemi mais ainda quando nossas línguas se envolveram em uma dança sensual que Santana ditava. Arranhei sua nuca no momento que ela me puxou tão forte que senti sua barriga tocar a minha, me gelando até na alma.

–Brittany? Filha, é você?- escutei minha mãe me chamar, descendo as escadas. Isso de alguma forma me acordou para a merda que estava fazendo com minha aluna. Deus, ela era minha aluna!

–Minha mãe- alertei a ela, que simplesmente me beijou novamente, só que dessa vez de forma breve. Santana me encarou profundamente, capturando meu lábio superior e o puxou forte com a ponta dos dentes, resultando em um gemido mais que involuntário de minha parte- Isso não deveria ter acontecido- disse ofegante. Ela suspirou.

–Mas aconteceu. E foi bom.

–É errado, eu já disse- ela se aproximou novamente- Não me toque mais.

–Relaxa- desviou para minha orelha, sussurrando- Só te tocarei novamente se me permitir, mas adianto... Não será tão inocente quanto foi agora- reaja, Brittany, afaste-a. Eu pedi para mim mesma com todas as forças que havia me sobrado.

–Por favor, vá embora- meu peito subia e descia, como se tivesse corrido uma maratona. Santana deu aquele sorriso de canto perverso e malicioso ao mesmo tempo, encostando sua testa na minha- Por que me deixa dessa forma?

–Desculpa- deslizou o indicador por meu maxilar- Mas isso acontece quando um anjo é tocado pelo o diabo- deixou um selinho em meu queixo e saiu pelo escuro da casa no instante que minha mãe entrou na cozinha, chegava a parecer coisa ensaiada.

–Brittany? Filha, o que foi?- preocupou-se ao me ver ofegante e vermelha sentada em seu balcão- Você está bem, filha?

–Não sei, mamãe- eu tinha o olhar perdido e assustado para o caminho que Santana tomou ao sair. Sentia ser queimada por dentro, mas não me incomodava. Era um fogo bom? Não, era o fogo do pecado, do desejo, da excitação... Oh, céus!- Mas acho que enlouqueci de vez.

Notas finais
Bom, começou as tretas e depois daqui podem esperar de tudo. O que acham dessa versão de Santana? Um grande beijo.