Obsession
16 Capítulo 15 - Transplant...
Notas iniciais
29 de Abril de 2013 – Miami
POV Ally
Seus olhos brilhavam envergonhadamente, no entanto, ele se mantinha sério, demonstrando uma determinação que eu só havia visto quando éramos adolescentes. Respiro fundo, sentindo uma leve tontura. Apoio-me em Austin e o mesmo me encara preocupado.
Eu não estava pronta para encará-lo. Era difícil lembrar de todos os momentos. Ainda doía e muito saber que o homem que eu achava que havia sido feito para mim nunca me amou de verdade. Eu não tinha dúvidas do meu amor por Austin, mas Gavin havia sido, por anos, uma parte de mim. Ele foi o primeiro homem que eu amei e que sempre esteve ao meu lado enquanto estávamos juntos. Não havia como negar que ele ainda continuava importante para mim.
– Você está ferida. – constata Gavin, olhando para o meu abdome. Abaixo meu olhar e percebo que os pontos haviam abertos. – Vou levá-la de volta para o quarto e cuidarei desse ferimento.
– Você não vai levá-la a lugar algum. Muito pelo contrário. Ficará bem longe dela. – fala Austin, colocando-se à minha frente.
– Austin. – repreendo, tentando controlar o rapaz. A última coisa que precisávamos era de mais uma confusão dentro daquele hospital.
– O que você quer aqui? Não acha que já a machucou o suficiente? – pergunta Austin, friamente. Com os olhos repletos de ódio, o loiro continua: — Por acaso se deu conta da burrada que fez e veio tentar recuperá-la?
Gavin o encara surpreso, enquanto observa Austin com atenção. De repente, o mesmo abaixa o olhar e passa a demonstrar o seu cansaço e exaustão. Eu o conhecia bem o bastante para saber que Gavin estava arrependido. Suspiro cansada. A minha cabeça estava doendo e a única coisa que eu queria era dormir e esquecer todos os problemas que estavam me assombrando.
– Você deve ser o namorado dela. – comenta Gavin, levantando a cabeça e dando um sorriso sincero. Surpreendo-me com suas palavras. — Fico feliz que tenha conseguido seguir em frente e ter alguém que a ame da maneira que você merece, Ally. Eu sei que você tem todos os motivos do mundo para me odiar, mas eu realmente sinto muito por tudo o que fiz e espero que possa ser feliz de verdade ao lado dele.
Austin e eu o olhamos surpresos. Desvio meu olhar para Cassidy e ela me lança um sorriso malicioso. Dallas apenas nos encarava curioso, tentando entender o que se passava naquele momento. Por mais que eu quisesse negar, o meu orgulho me impedia de contar a ele que eu não o odiava e, mesmo sendo algo insano, eu era grata a Gavin pelos anos em que vivi ao seu lado e por ter me proporcionado a chance de encontrar o homem que eu realmente amo.
– O que você quer, Gavin? – pergunto, ainda atordoada pela fala de meu ex-namorado.
– Por favor, Ally. – pede Gavin. – Vamos voltar para o seu quarto e lá conversaremos sobre um assunto importante. Eu prometo não tomar muito do seu tempo, mas há algo que você precisa saber.
– Gavin, você sabe que eu não gosto de enrolação. – digo, começando a me irritar pela demora por respostas.
– Por mais que esteja sendo difícil para mim, olhar para você depois de tudo o que eu fiz, eu não poderia esconder um assunto tão sério. – diz Gavin com a voz suave. Seus olhos brilhavam nervosamente. Percebo, então, que algo está errado.
Observo o loiro e noto que o mesmo trajava as roupas do hospital. Preocupo-me com o seu tom de voz. Não era a primeira vez que eu o via com aquele olhar. Como cardiologista, Gavin estava acostumado a dar notícias ruins da maneira mais calma e suave possível. Preocupo-me ainda mais.
– O que aconteceu, Gavin? – pergunto, temendo o pior, enquanto me aproximo dele. – Eu te conheço o suficiente para saber que você não está aqui como meu ex namorado e sim como médico.
– Pelo visto você encontrou minha paciente rebelde, Dr. Young. – diz Derek Shepherd, aproximando-se de nós e interrompendo nossa conversa. Seu olhar era sério e ele encarava o lugar em que eu apertava.
– Você está cuidando do caso de Ally, Dr. Shepherd? – pergunta Gavin, surpreso.
– Conhece a minha paciente? – pergunta o moreno, sorrindo um pouco surpreso.
– Claro. Ela é a mulher que eu havia dito a você. – conta Gavin, sorrindo discretamente, enquanto coloca as mãos no bolso. No entanto, não demora muito para que o rapaz assumisse uma postura mais séria. – Derek, eu estou preocupado com o ferimento dela. O corte se abriu, pelo visto, e eu não faço ideia da gravidade da situação dela.
– Não se preocupe. Não é nada grave, mas precisamos fechar o ferimento mais uma vez. – diz o médico, repreendendo-me levemente. – Que tal deixar de rebeldia e voltar para o quarto? – brinca o médico, com um sorriso sereno.
– Gavin... – começo, preocupada com o que ele tinha para me contar.
– Dr. Young. – fala uma enfermeira correndo em nossa direção. Assim que está de frente para o loiro, ela lança um olhar preocupante a Gavin. – Estão o solicitando no quarto 302. O paciente está reclamando de fortes dores de cabeça.
– Obrigado, Elisa. Meça a pressão do paciente e solicite os últimos exames neurológicos e cardíacos dele. – avisa o homem, sorrindo simpático para a enfermeira. A mulher assente e volta a andar rapidamente para o hospital. – Eu preciso resolver esse problema, Ally, mas passarei em seu quarto assim que terminar.
O homem apenas me lança um sorriso nervoso e acena para o colega de trabalho e segue na mesma direção que a enfermeira havia ido. Suspiro cansada e olho para o médico que me encarava curioso. Derek sorri compreensivo e estende o braço em minha direção.
– Vamos cuidar desse ferimento e assim que Gavin tiver tempo, ele irá visitá-la. – diz o homem, puxando-me delicadamente.
Ele coloca o braço em volta da minha cintura e calmamente me guia pelo hospital. Austin, Cassidy e Dallas passam a nos seguir, olhando preocupados para mim. Eu estava tão atordoada com os últimos acontecimentos que não percebo quando chegamos ao quarto.
Com cuidado, o médico me ajuda a deitar na cama e aperta um botão no controle próximo a minha cama, solicitando a presença de uma enfermeira e, em poucos instantes, uma mulher roliça e de olhos negros brilhantes entra no quarto, passando a encarar seriamente o médico.
– Está precisando de alguma coisa, Dr. Shepherd? – questiona a enfermeira.
– Traga os materiais e curativos necessários para poder fechar o ferimento da senhorita Dawson mais uma vez. – pede o homem, enquanto pega uma luva e a coloca, analisando o curativo em meu abdome.
– Um momento. – fala a mulher, retirando-se do quarto.
– Por que não se sentam? – diz Derek, sorrindo para meus amigos. Vendo a tensão estampada nos olhos de cada um, o médico dá uma leve risada e balança a cabeça, negando. – Não precisam ficar tão preocupados. A amiga de vocês está bem.
Os três lançam sorrisos amarelados para o médico e se sentam no sofá que havia próximo a janela do quarto. Enquanto Derek tirava o curativo que estava em mim, o celular de Dallas começa a tocar. O moreno pega o celular e, após dar um beijo na testa de Cassidy, sai do quarto.
A enfermeira reaparece com alguns materiais em cima de um carrinho e deixa próximo ao médico, em seguida, ela pega uma bandeja e coloca ao lado do homem. Dando um discreto sorriso, ela acena e volta a deixar o quarto.
– Você está bem, Ally? – pergunta Cassidy, preocupada.
Encaro a loira e suspiro, cansada, enquanto jogo a cabeça, levemente, para trás. Nem mesmo eu sabia o que estava sentindo. Eram tantas informações para processar que ainda estava difícil de acreditar que eu estive frente a frente com Gavin apenas um mês após ter sido abandonada no altar.
Viro-me para Austin e encontro seu olhar. O loiro estava sério e parecia preocupado. As lembranças de nossa discussão pareciam mais vivas do que nunca e era evidente a mágoa que existia entre nós naquele momento. Desvio o olhar para Cassidy e sorrio cansada.
– Eu não sei. – digo sincera. – É só... Tudo é tão complicado de entender.
– Entendo. – diz a loira, sorrindo compreensiva. Antes que ela me dissesse mais alguma coisa, o namorado da garota volta para o quarto e se senta ao seu lado. – Quem era? – questiona curiosa.
– Trish. – fala Dallas, enquanto guarda o celular. – Ela avisou que foi levar Dez para casa. O ruivo não estava muito bem e ela estava preocupada com ele. Parece que ele não quer comer nada e está se culpando pelo que aconteceu com a Ally.
– A culpa é dele mesmo. Dele e de Austin. – fala Cassidy, irritada. Ela lança um olhar furioso para Austin. – Se não fosse pela terrível mania de resolverem as coisas em socos e pontapés, Ally não estaria nesse hospital agora.
Austin suspira irritado e encolhe os ombros. A loira revira os olhos e Derek ri discretamente, parecendo se divertir com a discussão. Dallas coloca a mão no ombro de Cassidy e balança a cabeça negativamente, como se pedisse para que a namorada parasse.
– O que aconteceu não importa mais, afinal, não se pode mudar o passado. – digo, fechando os olhos ao sentir o médico recomeçar a costurar a pele novamente. Quando volto a abri-los, vejo Prince na porta do quarto e sorrio quando o homem abre a porta lentamente. – Prince!
– Oi Ally. Como você está? – questiona preocupado.
– Eu estou... Ai... – reclamo, sentindo Derek puxar a agulha com mais força.
– Desculpa. – fala o médico, sorrindo sem graça.
– Eu estou bem. – volto a responder Prince, dando uma leve risada.
– Eu estou vendo. – diz o moreno rindo e balançando a cabeça concordando. Ele se aproxima de mim e observa o médico trabalhando. – Você já não tinha fechado esse corte?
– Tinha, mas ela é teimosa demais para ficar quieta, mesmo estando machucada. – responde Cassidy, lançando um olhar feio para mim.
– Não me olha assim, Cassy. Eu não podia ficar parada, sabendo que uma grande amiga estava com ódio de mim. – digo, abaixando o olhar. Eu ainda estava me sentindo culpada pelo que havia ocorrido.
– Não seja boba. – fala a garota, levantando-se do sofá, vindo em minha direção. Ela possuía um sorriso carinhoso moldando os lábios. – Eu não estava com ódio de você. Talvez chateada, mas jamais eu a odiaria. – afirma, enquanto pegava a minha mão e a apertava com força. – Eu sinto muito por toda a confusão sem motivos.
– Não. Qualquer pessoa no seu lugar teria feito a mesma coisa. – digo e aperto a sua mão, sorrindo aliviada por saber que ela havia me perdoado.
– Alguém pode me explicar o que aconteceu? – pergunta Prince, confuso.
– Cassidy recuperou a memória. – anuncia Austin, levantando-se do sofá, junto com Dallas, e se colocando ao lado de Prince. – A nossa Cassy está de volta.
– Isso é sério? – questiona Prince, sorrindo, sem acreditar no que Austin dizia.
– E não é só isso. – fala Dallas, pegando na mão da loira. Cassidy se solta de mim e abraça o namorado com carinho. O moreno beija os lábios da loira, rapidamente, e se vira para Prince. – Nós estamos juntos novamente.
– Finalmente! – celebra Prince, sorrindo animado. – Ao menos uma notícia boa, após tantos problemas.
Sorrimos concordando. O mais velho abraça o casal e sussurra algumas palavras para eles, fazendo a loira soltar algumas lágrimas de felicidade. Dallas e Cassidy nunca haviam me parecido tão felizes como naquele momento.
– Prontinho, senhorita. – fala Derek, sorrindo, fazendo com que eu desviasse o olhar de meus amigos para ele. – Agora, por favor, fique quietinha para que os pontos não se abram novamente.
– Não se preocupe. Eu vou me comportar dessa vez. – garanto, rindo, enquanto o médico retirava a luva.
– Acho bom mesmo. – brinca o homem, jogando os materiais descartáveis fora. Ele se vira para meus amigos e os encara com seriedade. – Vocês poderão ficar aqui por mais dez minutos, após isso, uma enfermeira deve passar e pedir para que deixem a paciente descansar para recuperar as energias.
O médico deixa a sala e logo o silêncio passa a reina o ambiente. Desvio meu olhar da porta para os meus amigos, mas logo me arrependo ao encontrar os olhos de Austin.
– Eu já vou indo. Manu deve estar quase enlouquecendo sozinha com a Diana lá em casa, sem respostas e eu ainda tenho que informar a Kira e Elliot sobre o que aconteceu. – anuncia Prince, quebrando o silêncio da sala e sorrindo carinhosamente, enquanto caminha em minha direção. Assim que está de frente para mim, ele beija a minha testa e sorri. – Você deu um susto e tanto na gente, garota, mas é bom saber que você está bem.
– Obrigada por tudo, Prince. – agradeço, sorrindo.
– Descanse bastante e recupere-se o mais rápido possível. – fala Prince, dando uma piscadela.
O homem se despede de Cassidy, Dallas e Austin e sai do quarto. A loira não demora a vir para o meu lado e pega a minha mão, parecendo aliviada por ver que eu já estava bem melhor. Dallas passa o braço por cima dos ombros da namorada e sorri para mim.
– É tão bom vê-los juntos e felizes. – admito, sorrindo encantada para o casal, enquanto apertava a mão da loira.
– É maravilhoso estarmos juntos de novo. – fala Cassidy, sorrindo apaixonada, encostando a cabeça no ombro do namorado. De repente, a garota fica séria e pensativa, chamando a atenção de Dallas.
– O que foi Cassy? – pergunta o moreno, olhando preocupado para a garota.
Desvio meu olhar por alguns instantes e encontro os olhos de Austin nos encarando. Ele mantinha uma expressão neutra em seu rosto e seus olhos estavam distantes, pensativos. Era como se o loiro estivesse pensando na decisão mais importante de sua vida.
– Você... Você ainda vai viajar para a Dinamarca? – questiona Cassidy, fazendo com que eu voltasse minha atenção imediatamente para eles.
– Você vai para a Dinamarca? – pergunto, surpresa.
Dallas se separa da namorada e passa a nos encarar pensativo. Era visível a sua indecisão sobre o assunto. Austin levanta do pequeno sofá e se aproxima de nós, esperando a resposta do amigo. O moreno, por fim, suspira alto, parecendo cansado.
– Eu não sei. – confessa, olhando seriamente para a namorada. Ele pega suas mãos e suspira antes de continuar. – Ao mesmo tempo em que eu quero ir e aproveitar essa oportunidade única, eu não quero e nem posso ficar longe de você.
– Dinamarca? – repete Austin, surpreso. – Uau, isso é bem longe daqui.
– E por quanto tempo seria essa viagem, Dallas? – pergunto, recuperando-me do susto.
– Bem, na verdade só me deram as passagens de ida. – diz, dando um sorriso fraco para mim. – A empresa onde eu trabalho acabou de abrir filial em Copenhague e querem que eu seja o presidente executivo da Fortitudine Company.
Olho para Cassidy e vejo uma tristeza inigualável. Era como se um balde de água fria tivesse caído sobre a garota. Ela parecia prestes a chorar e eu não a culpava. Ela passou anos de sua vida sem se lembrar de seu passado e, de repente, quando finalmente os dois podem ficar juntos, uma oferta desse nível aparece para o moreno.
Era óbvio o desejo de Dallas de aceitar a proposta, no entanto, eu via a incerteza brilhar em seus olhos. Ele não a abandonaria, eu sabia disso, mas, provavelmente, Cassidy não permitiria que ele desistisse de seus sonhos por ela.
– Quando você vai? – murmura Cassidy, com a voz embargada, olhando para o chão.
– Eu ainda não decidi se eu vou. – fala Dallas, colocando a mão no rosto da namorada. – Não precisa ficar assim.
Ela levanta a cabeça e o encara com intensidade. Dallas parece um pouco surpreso, mas continua a acariciar a face de Cassidy. A garota fecha os olhos e balança a cabeça negativamente, como se não acreditasse nas palavras do namorado.
– Para quando está prevista a viagem? – pergunta a garota, abrindo os olhos novamente.
– Para depois do casamento de Kira e Elliot. – responde o rapaz, afastando-se de Cassidy. – Mas, eu tenho um mês para dá a resposta para eles.
– Isso significa que você vai embora em menos de dois meses. – fala Austin, passando a mão pelos cabelos. – É inacreditável como as coisas estão mudando rápido por aqui. – comenta, voltando a se sentar.
– Não ajam como se eu tivesse aceitado a proposta. – repreende Dallas.
– Você quer ir, Dallas. – afirma Cassidy, passando a se sentar ao meu lado e a apertar minha mão com intensidade, como se estivesse tentando encontrar forças para continuar firme com suas palavras. – Não pode desistir de seus sonhos. Você sempre quis uma oportunidade dessas e agora está hesitando.
– Eu não vou deixar você! – grita Dallas, com determinação.
O silêncio volta a se instalar. O clima estava incrivelmente tenso e parecia que qualquer coisa dita, naquele momento, seria idiotice. Suspiro, discretamente. Minha cabeça estava latejando e o sol já dava os seus primeiros sinais do amanhecer.
– Por que... Por que não deixam para discutir o assunto quando estiverem mais calmos? – proponho, cansada e preocupada com o estado de meus amigos. – Já passamos por muitas coisas de ontem para hoje. Ninguém aqui está com cabeça para uma discussão. Vão para casa e descansem.
– Ally tem razão. – concorda Austin, caminhando até Dallas. Ele coloca a mão no ombro do amigo e sorri compreensivo. – Ainda resta algum tempo até que você possa dizer a sua decisão para os seus chefes. Quando estiverem de cabeça fria, vocês podem conversar sobre essa proposta e chegar a um acordo.
Cassidy fecha os olhos e balança a cabeça, concordando. Ela se vira para mim e, aproveitando que eu estava sentada, encosta a cabeça no meu ombro. Encosto a minha cabeça na sua e aperto nossas mãos, tentando passar alguma tranquilidade a garota.
– Vá para casa e descansa. – sussurro para Cassidy. – Tudo vai se resolver.
– Espero que sim. – sussurra de volta. – Eu não vou aguentar perdê-lo novamente. – murmura, escondendo seu rosto no meu pescoço, tentando esconder o rosto, se esforçando para não chorar.
Olho para Dallas e ele conversava com Austin, desolado. Suspiro e acaricio o cabelo de minha amiga, tentando acalmá-la. Eu não sabia o que dizer e a minha dor de cabeça não me ajudava em nada a pensar em algo que pudesse ajudar.
Somos interrompidos por batidas na porta. Desvio o meu olhar da loira e encaro a porta, imaginando que pudesse ser a enfermeira, anunciando que o tempo havia acabado, mas surpreendo-me ao ver Gavin entrando no quarto.
O homem parecia exausto. Ele sorri para nós e coloca a mão nos bolsos do jaleco. Austin o encara com desconfiança e não parecia nenhum pouco feliz com a presença do médico. Cassidy levanta a cabeça e me olha preocupada.
– Espero não estar atrapalhando. – fala Gavin, sorrindo suavemente.
– Imagina. Nós já estávamos de saída. – responde Cassidy, simpática. Ela se vira para mim e sussurra: — Você vai ficar bem?
– Não precisa se preocupar. Vai para casa e descanse. Eu vou ficar bem. – respondo, sorrindo para a garota.
– Qualquer coisa me liga. – pede, enquanto se levanta. Ela beija minha testa e, assim que se afasta, olha para Dallas e Austin. — Vamos?
– Claro. – responde Dallas, aproximando-se de mim. Ele sorri e bagunça meu cabelo. – Fique bem. – fala e depois beija o topo da minha cabeça. – Voltamos à noite para te visitar.
– Estarei esperando. – digo, sorrindo para o casal.
Eles sorriem e dão as mãos. Passando pelo médico, eles deixam o quarto e fecham a porta. Encaro Austin, esperando que o rapaz fizesse o mesmo que Cassidy e Dallas, mas o olhar compenetrado e a postura rígida deixavam claro que ele estava decidido a não sair. Gavin parece notar o mesmo que eu e sorri, achando graça o comportamento do loiro.
– Austin, poderia nos deixar a sós? – questiono, cansada de esperar por uma atitude do rapaz.
– Deixar você sozinha com ele? – pergunta Austin, com ironia. – Não mesmo!
– O que? – digo, sem acreditar no que ele havia dito. – Você só pode estar brincando.
– Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. – afirma, seriamente. – Eu não vou sair desse quarto enquanto esse cara estiver aqui.
– Você não tem o direito de se meter desse jeito na minha vida! – falo, irritada. – Esse é um assunto meu e não seu!
– Ally, ele pode ficar. – fala Gavin, sorrindo compreensivo para mim. – O que eu tenho para falar, não vai ser segredo por muito tempo e acredito que você vai precisar do apoio do seu namorado.
– O que aconteceu, Gavin? – questiono, ignorando o “namorado”. Eu já não aguentava mais a minha curiosidade e preocupação.
Austin se aproxima e fica ao meu lado. Ele continua a encarar Gavin como se fosse um inimigo e eu quase revirei os olhos, perante a sua infantilidade. Com um suspiro, Gavin caminha até mim e me olha seriamente.
– Ally, seu pai me procurou recentemente. – começa Gavin, com cautela.
– Por quê? – questiono, preocupada.
– Eu havia acabado de me mudar para Miami, após receber uma proposta de emprego nesse hospital, quando ele apareceu, reclamando de dores no peito, cansaço excessivo e tosse frequente, além de outros sintomas. – a minha preocupação só aumenta. Meu pai raramente ia ao médico e se isso ocorreu era porque a situação já estava fora de controle. – Eu pedi alguns exames e um dia antes do resultado sair, ele teve um infarto.
– O que? – falo, surpresa e a ponto de chorar. Eu estava entrando em desespero. Ninguém havia me contado sobre isso. – Por que eu não fiquei sabendo disso?
– Seu pai insistiu para que ninguém fosse informado do ocorrido. Ele me disse que ninguém sabia que ele estava aqui e me pediu para manter sigilo. – fala Gavin, balançando a cabeça negativamente. – Eu tentei convencê-lo, mas nós conhecemos seu pai e a teimosia dele.
– Ele está bem, Gavin? – questiono, sentindo as lágrimas de aflição descerem. Sinto a mão de Austin sobre a minha. Aperto-a e respiro fundo, antes de encarar o médico.
– Eu estaria mentido se dissesse que seu pai está bem. – afirma, lançando-me um olhar inconsolável. Meu pai era como o segundo pai para Gavin, então eu não duvidava que ele estivesse sofrendo. – Os exames apontaram que Lester está com Insuficiência Cardíaca Aguda.
– O que é isso? – questiono, temendo o pior.
– A Insuficiência Cardíaca é a incapacidade do coração de bombear sangue. O caso do seu pai é um dos mais graves, mas só ocorre se o paciente já tiver tido algum problema cardíaco no passado. Após conversarmos, eu descobri que ele já teve um infarto há alguns anos atrás. – explica Gavin.
– Eu lembro da minha mãe ter me contado que ele sofreu algum problema no coração quando eu era criança, mas os médicos garantiram que com o uso dos medicamentos, ele nunca mais teria problemas. – digo, confusa.
– Provavelmente, Lester não obedeceu as ordens médicas. – fala Gavin, pegando um banco que havia próximo a minha cama e se sentando nele.
– E o que vai aconteceu agora? Onde está o meu pai? – pergunto, preocupada.
– A Insuficiência pode ser tratada com medicamentos em casos menos graves, mas, infelizmente, isso não aplica ao seu pai. No caso dele, teremos que realizar um transplante de coração urgente. – fala Gavin. Ele suspira cansado e apoia os cotovelos em seus joelhos, enquanto leva as mãos a boca. – Seu pai está internado aqui no hospital, aguardando o momento para realizar a cirurgia.
– Gavin, tem mais alguma coisa que você queira me falar? – questiono, vendo a aflição nos olhos do rapaz.
Ele me olha indeciso. Era como se buscasse as melhores palavras para me revelar a pior parte da história. Eu estava me assustando cada vez mais. Olho para Austin e o mesmo me encarava preocupado. Ele sorri compreensivo para mim e passa a encarar o médico.
– Ally, como médico, eu não deveria revelar isso a você, mas como amigo da família, eu prefiro deixá-la ciente da gravidade da situação do seu pai. – explica Gavin, encarando-me com intensidade. — Infelizmente, eu não sei dizer se seu pai resistiria durante uma cirurgia tão arriscada como essa, mesmo sendo a sua única saída.
Vendo a minha reação, Gavin vai até o outro lado do quarto e pega um pouco de água para mim. Ele me entrega e é só nesse momento que eu percebo o quanto minhas mãos tremiam. Eu não conseguia dizer nada. As lágrimas desciam com intensidade. Sinto os braços de Austin ao redor do meu corpo e eu o aperto ainda mais contra mim.
– Seu pai possui muitos problemas de saúde, como pressão alta e diabetes. A cirurgia exigiria muito do corpo dele e sem o controle de cada uma de suas doenças, os riscos comuns de uma operação de coração se dobram. – continua o médico. – Infelizmente, não temos muito tempo. Se não realizarmos o transplante, seu pai não resistirá.
Ouvir aquelas palavras de Gavin fizeram com que o medo aumentasse ainda mais, no entanto, eu era grata pelo rapaz me revelar a real situação do meu pai. Respiro fundo, tentando controlar o choro e manter a calma. Austin continuava a me abraçar, transmitindo o carinho que eu precisava naquele momento.
– Quando a cirurgia vai acontecer? – pergunto, após me acalmar um pouco.
– Em breve. – afirma, seriamente. Ele suspira um pouco e sorri fracamente. – Estamos aguardando a chegada de um novo coração que seja compatível com o organismo do seu pai. Enquanto isso, vamos torcer para que suas condições melhorem.
– Minha mãe já sabe disso? – questiono, preocupada.
– Ainda não. Como eu disse, seu pai não quer revelar a ninguém sobre o que está acontecendo. – fala Gavin, chateado, demonstrando não concordar com a decisão do homem. – Se eu não tivesse te encontrado aqui, não faço ideia quando você receberia notícias sobre o ocorrido com Lester.
– Obrigada, Gavin. – agradeço, olhando nos olhos do loiro de olhos claros.
– Não precisa agradecer. Eu não fiz mais que a minha obrigação, Ally. – responde o homem, sorrindo, pegando em minha mão e a apertando com carinho. – Eu prometo que farei o máximo de mim para salvá-lo.
– Eu sei. – concordo, fechando os olhos, tentando ignorar qualquer pensamento negativo sobre o futuro do meu pai. – Você é um dos melhores cardiologistas que eu conheço e sei que meu pai está em boas mãos.
Gavin olha para Austin e se afasta de mim, como se lembrasse de algo. Desvio meu olhar do médico para o loiro e vejo o olhar ameaçador que Austin lançava para Gavin. Afasto-me do rapaz e o repreendo com o olhar. Ele revira os olhos e cruza os braços, enquanto volta a encarar o médico.
– De qualquer forma, Ally, eu quero me desculpar, mais uma vez. – fala Gavin, chamando a minha atenção, enquanto olha para suas mãos. — Eu sei que o que eu fiz não tem perdão e que provavelmente você me odeie, mas não sabe o quanto eu me envergonho por isso.
– Eu não te odeio, Gavin. – admito, engolindo o meu orgulho. – Eu fiquei com muita raiva de você por um tempo, mas eu jamais te odiaria. – sorrio para o rapaz e ele me olha surpreso. – Eu só não entendo o porquê de você nunca ter me dito que... que... Enfim, você sabe. – digo sem graça.
– Que eu sou gay? – completa, sorrindo. – Eu não disse por medo, Ally.
– Medo de que? – questiono, sem entender. – Acha que eu não te entenderia?
– Não é isso. – fala, voltando a se sentar no banco ao meu lado. – Eu tinha medo de decepcionar a todos, assim como aconteceu. Eu tentei amar você como você me amava. Achei que se continuasse insistindo, a minha sexualidade mudaria, mas agora eu vejo o quanto eu fui ingênuo. – ele fecha os olhos e respira fundo. A dor evidente em sua voz fez meu coração se apertar. – Eu sinto muito. Eu não deveria ter me aproveitado dos seus sentimentos por mim, como eu fiz.
– O que aconteceu depois do casamento? – pergunto, preocupada.
Ele ri, balançando a cabeça. Eu via a tristeza em seus olhos como nunca tinha visto antes. Por fim, ele respira fundo, mais uma vez, e me olha com carinho.
– Meus pais não aceitaram muito bem a história, principalmente, meu pai. O homem deixou bem claro que eu deveria esquecer que eu tenho pai. A única pessoa que ainda fala comigo é Samy, que pelo visto, não ficou surpresa com a descoberta. De forma impressionante, eu virei da noite para o dia a desonra da família. – conta, com a expressão desolada. – Mas, já era de se esperar. No momento em que eu te vi subir no altar, eu disse para mim mesmo que a minha farsa tinha que ter um fim. Eu não poderia jamais continuar a enganar a todos e naquele instante eu me preparei para qualquer que fosse as consequências da minha decisão. – ele suspira mais uma vez. – Eu sinto muito por ter levado essa história tão longe.
Permaneço calada por um tempo, tentando digeri tudo o que Gavin disse. Por mais que minha mente dissesse que eu não deveria perdoá-lo, meu coração sabia que eu só conseguiria seguir em frente se colocasse um fim a tudo o que aconteceu.
– Gavin... – suspiro, tristemente. – Eu nem consigo imaginar o quanto você sofreu. Comigo, apesar dos pesares, eu ainda tive apoio de muitas pessoas, mas e você? Durante todo esse tempo, sendo ignorado pela família... Eu...eu sinto muito.
– Esse foi o meu castigo, Ally. – fala o rapaz, sorrindo. – Não se sinta mal. Por mais que esteja sendo difícil ficar longe da minha família, só por saber que você está bem, eu fico aliviado. Eu fui um idiota e acabei com a sua vida sem querer. Eu devia ter insistido mais para que você continuasse a trabalhar no restaurante e ter desistido do nosso namoro ainda no começo, afinal, eu te mantive presa naquele relacionamento fardado a sofrimento por anos. Você era a pessoa que mais merecia ser feliz e eu a privei disso. Eu sinto muito.
Sorrio e o puxo para um abraço. Gavin fica tenso por um tempo, mas assim que percebe a minha intenção, o rapaz corresponde com carinho. Por mais estranho que aquele momento estivesse sendo, era como se finalmente eu tivesse achado a paz. Todo aquele peso e culpa pelo passado foi se esvaindo aos poucos até que não sobrasse mais nada.
– Eu não poderia ter sido mais feliz do que fui nos quatro anos em que vivi ao seu lado, Gavin. – digo, ainda abraçada a ele. – Obrigada por ter continuado ao meu lado mesmo sofrendo em silêncio e ter dado o máximo de si para corresponder aos meus sentimentos com a mesma intensidade.
Nos separamos e sorrimos um para o outro. Apesar de não consegui tirar da cabeça a situação do meu pai, eu não poderia estar mais leve do que naquele momento. Gavin beija a minha testa e suspira aliviado. Ele se vira para Austin e o encara com seriedade.
– Ouça. – fala, caminhando até Austin. – Ally é uma mulher incrível. Ela é divertida, trabalhadora, amiga e amorosa, e por mais difícil que seja lidar com o temperamento meio louco dela, você nunca achará uma mulher como ela, por isso a valorize. Eu só peço que seja o homem que ela merece e a faça feliz como eu jamais poderia ter sido capaz de fazer.
Austin olha desconfiado para Gavin. Ele desvia o olhar do médico para mim, como se pensasse no que o homem havia dito. Meu coração batia forte, esperando pela resposta de Austin e quando ele sorriu foi como se o mundo tivesse parado.
– Não se preocupe. Eu a amo e darei tudo de mim para que ela possa ser feliz. – responde o loiro, apertando a mão de Gavin.
E antes que disséssemos qualquer coisa, a porta é aberta de uma vez, assustando-nos. De repente, uma enfermeira entra às pressas no quarto e encara o médico com aflição.
– Doutor, o paciente do quarto 105, Lester Dawson, precisa ser levado para a sala de cirurgia imediatamente. – informa a mulher.
– O que houve com ele, Anna? – pergunta Gavin, apreensivo.
– Ele acabou de ter uma parada cardíaca. Conseguimos reanimá-lo, mas os batimentos ainda estão fracos. – explica a mulher. – O coração que esperávamos já está a caminho. O Dr. Harris já o encaminhou para os procedimentos da cirurgia e solicita a presença do senhor, imediatamente.
Gavin não demora a correr para fora do quarto. Olho para Austin, sem reação. Eu estava sem chão e a única coisa que faço é chorar e me agarrar a Austin, temendo pelo que estava prestes a acontecer.
✻
Continua...
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