O Rei Luan, embora focado nos tratados comerciais, não era cego. Ele percebia a eletricidade estática que carregava os corredores de Tara e o modo como a sua filha, antes vibrante, agora se movia com uma cortesia gélida que lembrava o próprio Marcos. Acreditando que o isolamento e o dever seriam o remédio para qualquer atrito familiar, ele tomou uma decisão drástica.

​— O posto avançado na Fronteira Norte está com problemas de gestão — anunciou Luan durante o desjejum, com uma autoridade que não admitia contestação. — Marcos, conheces a logística de Mônaco. Anastácia, precisas de aprender a governar longe do conforto do palácio. Partirão amanhã, apenas os dois e uma pequena escolta. É uma viagem de três dias através da Passagem das Sombras.

​A Viagem Silenciosa

​O caminho para o Norte era estreito, serpenteando por entre montanhas escarpadas e florestas densas. A escolta mantinha-se a uma distância respeitável, deixando Marcos e Anastácia lado a lado nos seus cavalos, envoltos num silêncio que gritava.

​Anastácia montava com a cabeça erguida, os olhos fixos na trilha, ignorando a presença do homem ao seu lado. Ela seguira o conselho de Dominic: a sua dor agora era uma armadura de aço.

​Marcos, por outro lado, sentia cada centímetro daquela proximidade forçada. O seu olhar fugia, contra a sua vontade, para o perfil decidido da sobrinha. A humilhação que ele lhe impusera na biblioteca era um peso morto no seu peito, mas ele mantinha a máscara de indiferença.

​O Abrigo na Caverna

​No segundo dia, uma tempestade de neve súbita e violenta, típica das montanhas de Tara, obrigou-os a procurar refúgio. A escolta ficou retida do outro lado de um pequeno desmoronamento, deixando Marcos e Anastácia isolados numa gruta natural, protegidos apenas pelas paredes de pedra e pelo calor de uma pequena fogueira que Marcos se apressou a acender.

​O frio era cortante. Anastácia tremia, mas mantinha-se afastada, sentada num canto escuro, abraçada aos próprios joelhos.

​— Vais congelar se ficares aí — disse Marcos, a voz rouca quebrando o silêncio de horas.

​— Prefiro o gelo à tua companhia, Conde — respondeu ela, sem sequer olhá-lo. A voz dela não tinha raiva, apenas uma vacuidade que o feriu mais do que qualquer grito.

​Marcos levantou-se e caminhou até ela. Sem pedir licença, retirou a sua pesada capa de pele de lobo e envolveu-a nos ombros dela. Anastácia tentou afastar-se, mas ele segurou-a pelos braços, forçando-a a encará-lo.

​— Anastácia, para — murmurou ele, a poucos centímetros do rosto dela. A luz do fogo dançava nas íris dele, revelando a fresta na armadura. — Eu fiz o que tinha de fazer. Eu protegi a tua honra.

​— Tu destruíste-me para salvar a tua consciência — sibilou ela, os olhos subitamente em chamas. — Tu olhaste para mim e disseste que eu te dava nojo. Como é que esperas que eu esqueça isso?

​— Eu menti! — o grito de Marcos ecoou pelas paredes da caverna, silenciando o vento lá fora. Ele soltou os braços dela, passando as mãos pelo rosto, exasperado. — Eu menti porque a verdade é pior, Anastácia. A verdade é que eu não consigo dormir sem ver o teu rosto. A verdade é que cada segundo que passo longe de ti é uma tortura, e cada segundo perto de ti é um pecado que me condena ao inferno.

​Anastácia parou de tremer, o coração a martelar contra as costelas. O Conde de Mônaco, o homem de gelo, estava ali, desarmado e a sangrar emocionalmente diante dela.

​— Disseste que eu era uma criança — sussurrou ela, levantando-se devagar, deixando a capa dele escorregar. — Diz-me agora, Marcos... olhas para mim e vês uma criança ou vês a mulher que te faz querer esquecer o mundo?

​Marcos deu um passo atrás, encostando-se à parede fria da gruta. O "Dever" e o "Coração" estavam finalmente em colisão direta, e a tempestade lá fora era pequena comparada à que rugia entre os dois.