​O corredor que levava aos aposentos de Anastácia parecia ter quilômetros de extensão. Marcos caminhava com passos pesados, o som de suas botas ecoando no silêncio sepulcral do castelo. Atrás dele, em um ritmo mais calmo, mas igualmente tenso, vinham Luan, Michael, Catarina, Maya e o velho Dominic. Era o conselho de família mais dramático que Tara já vira.

​Marcos parou diante da porta de carvalho. Sua mão hesitou na maçaneta. Ele era um homem que já enfrentara exércitos, mas o pensamento de encarar a mulher que ele abandonara — e que agora carregava seu filho — o fazia tremer como um iniciante.

​— Entre, Marcos — disse a voz grave de Dominic, logo atrás. — O destino não espera por homens que hesitam.

​Marcos respirou fundo e empurrou a porta.

​O Reencontro no Quarto

​O quarto estava na penumbra. Anastácia estava sentada à janela, observando o mar cinzento. Ela não se virou de imediato. Estava envolta em um robe de seda grossa, as mãos repousando de forma protetora sobre o ventre ainda plano.

​— Eu disse que não queria ver ninguém, pai — disse ela, a voz sem vida.

​— Não é seu pai — sussurrou Marcos.

​Anastácia congelou. Ela girou a cadeira devagar, e o choque em seus olhos ao ver o estado deplorável de Marcos foi imediato. A fúria que ela cultivara por meses vacilou diante da visão daquele homem que parecia ter morrido por dentro.

​— Você... — ela começou, a voz falhando. — O que faz aqui? Veio terminar de me humilhar? Veio conferir se o "dever" foi cumprido com sucesso?

​Marcos deu um passo à frente e caiu de joelhos aos pés dela, sem se importar com a audiência que agora preenchia o batente da porta.

​— Eu não sabia, Anastácia — ele disse, as lágrimas finalmente transbordando. — Juro pela minha alma, eu não sabia. Eu fugi porque achei que era a única forma de te dar uma vida limpa. Mas eu estava morto em Mônaco. Eu morri no momento em que cruzei aqueles portões.

​Anastácia riu, um som amargo.

— E agora que sabe que há um herdeiro, você volta? É pelo sangue, Marcos? Ou é por mim?

​— É por tudo! — exclamou ele, segurando as mãos dela, que estavam gélidas. — Eu olhei para o abismo e vi que não há honra no mundo que valha a sua ausência. Se você me mandar embora agora, eu vou. Mas não me peça para fingir que não te amo mais do que a minha própria vida.

​O Confronto dos Soberanos

​Luan deu um passo para dentro do quarto, os braços cruzados, o rosto endurecido. Michael e Catarina ficaram ao seu lado, como mediadores de uma guerra civil familiar.

​— O amor é uma palavra fácil agora, Marcos — disse Luan, com a voz cortante. — Mas como explicaremos isso ao povo? Como explicaremos que o Conde de Mônaco, o tio da Princesa, é o pai do futuro herdeiro de Tara?

​Michael interveio, sua voz diplomática tentando acalmar os ânimos.

— Luan, em Mônaco, os segredos são moedas de troca. Aqui, eles podem ser veneno. Mas temos uma saída. O sangue de Silas não é o seu. Podemos anular o título de "tio" formalmente perante o conselho de anciãos, alegando a verdade que sempre soubemos: Marcos é um aliado de sangue, não um parente de linhagem direta.

​— E o casamento? — perguntou Maya, preocupada. — Anastácia está com dois meses. Não temos tempo para noivados longos.

​Catarina deu um passo à frente, sua presença imponente trazendo ordem ao caos.

— O casamento será em três dias. Uma cerimônia privada na capela da floresta, onde Silas foi derrotado e onde a nova era começou. Diremos ao povo que eles se apaixonaram em Mônaco, durante os anos de exílio, e que o noivado foi mantido em segredo por razões diplomáticas.

​O Veredito de Dominic

​Todos olharam para o patriarca. Dominic caminhou até o centro do quarto, apoiado em seu cajado. Ele olhou para Marcos, ainda de joelhos, e para Anastácia, que agora chorava silenciosamente enquanto segurava o rosto do homem que amava.

​— Silas trouxe a escuridão para esta família através da luxúria e do poder — disse Dominic, a voz ecoando como um julgamento divino. — Mas o que vejo aqui não é Silas. Vejo o erro de dois jovens que se amam e a teimosia de um pai que teme o julgamento dos outros.

​Dominic olhou diretamente para Luan.

— Você prefere um escândalo ou uma filha sem alma, Luan? Você prefere uma linhagem "pura" aos olhos dos homens ou uma criança que crescerá cercada pelo amor dos pais?

​Luan olhou para Anastácia. Viu a forma como ela olhava para Marcos — com uma mistura de mágoa e um perdão que estava começando a florescer. Ele suspirou, o peso da coroa parecendo um pouco mais leve.

​— Três dias — disse Luan, a voz final. — Marquem a cerimônia. Mas Marcos... se você a fizer chorar mais uma vez, não haverá Michael ou Dominic no mundo que me impeça de arrancar seu coração.

​Marcos levantou-se e, diante de todos, beijou a testa de Anastácia antes de se curvar diante de Luan.

— Eu já entreguei meu coração a ela há muito tempo, Majestade. Ele é dela para cuidar ou destruir.