​O Grande Salão de Tara estava adornado para receber a delegação de Mênia. O Rei Luan, entusiasmado com a ideia de unir o Conde de Mônaco a uma das linhagens mais prósperas do Leste, não poupou despesas. A candidata da noite era a Lady Elara, uma mulher de beleza clássica, modos impecáveis e um dote que faria qualquer soberano sorrir.

​Marcos estava ao lado de Luan, vestindo seu traje de gala negro com detalhes em ouro. Sua expressão era a máscara perfeita de cortesia diplomática, mas seus olhos frequentemente buscavam a entrada do salão.

​Quando Anastácia apareceu, o burburinho cessou. Ela não usava as cores suaves que Maya sugerira; vestia um carmesim profundo, a cor do desafio. Ela caminhou até o grupo com uma elegância predatória, parando ao lado de Marcos.

​— Tio Marcos — ela disse, a voz doce como mel envenenado, enquanto passava a mão pelo braço dele de forma possessiva e natural. — Você parece tenso. Espero que a Lady Elara tenha paciência com o seu humor ranzinza de manhã.

​Luan riu, alheio à corrente elétrica que passava entre os dois.

— Ora, Anastácia, não assuste a moça antes do primeiro prato!

​O Jantar do Desastre

​Durante o banquete, Anastácia agiu com uma precisão cirúrgica. Ela se posicionou estrategicamente entre Marcos e a pretendente, dominando a conversa sob o pretexto de ser uma sobrinha "zelosa".

​— Você sabia, Lady Elara — comentou Anastácia, enquanto servia o vinho para Marcos antes mesmo que o criado o fizesse —, que o meu tio tem o hábito de acordar antes do sol para treinar? Ele é um homem de hábitos... solitários. Em Mônaco, dizem que ele prefere a companhia do silêncio às festas da corte.

​Marcos lançou-lhe um olhar de advertência, mas Anastácia apenas sorriu abertamente para ele, um sorriso que parecia dizer: Eu conheço você melhor do que ela jamais conhecerá.

​Sempre que Lady Elara tentava engajar Marcos em um assunto pessoal, Anastácia intervinha com uma lembrança de infância ou uma piada interna. Ela criava uma bolha de intimidade familiar que tornava qualquer tentativa de flerte da outra mulher parecer um intrusão grosseira.

​— Tio, lembra daquela vez na floresta? — ela perguntou, inclinando-se para ele, o ombro roçando no dele. — Você prometeu que nunca deixaria ninguém mudar as tradições de Tara. Casar-se com alguém que detesta o frio do Norte parece... uma contradição, não acha?

​Marcos sentia o calor da pele dela através da túnica. Ele sabia exatamente o que ela estava fazendo: marcando território sem dizer uma única palavra proibida. Aos olhos de Luan e Maya, ela era apenas a sobrinha dedicada que sentia falta do mentor. Mas para Marcos, cada toque "acidental" e cada olhar prolongado eram um teste para sua sanidade.

​Na Varanda das Sombras

​Após o jantar, que terminou com uma Lady Elara visivelmente desconfortável e um Rei Luan confuso, Marcos encontrou Anastácia na varanda. O luar iluminava as feições dela, tornando-a ainda mais parecida com a visão que o assombrava desde que voltara.

​— Você passou dos limites hoje — Marcos disse, a voz rouca, mantendo uma distância segura de dois metros. — Lady Elara partiu acreditando que eu sou um eremita insuportável.

​— Eu apenas disse a verdade, Tio — Anastácia respondeu, caminhando lentamente em direção a ele. Ela parou a centímetros, forçando-o a olhar para baixo. — Você é um homem difícil. E nenhuma daquelas mulheres que meu pai trouxer vai entender o que você sacrificou por esta família.

​— Anastácia... — ele começou, um aviso em sua voz.

​— O que foi? — ela perguntou, a voz suave e desafiadora. — Estou apenas cuidando do meu tio favorito. Ou será que o Conde de Mônaco está com medo de uma garota de vinte anos?

​Marcos cerrou os punhos. Eles estavam próximos como tio e sobrinha, sob o olhar de qualquer guarda que passasse, mas o silêncio entre eles rugia como uma tempestade. Ele via a mulher, ela via o homem, e ambos sabiam que a lista de Luan estava fadada ao fracasso enquanto Anastácia estivesse em Tara.