O Grande Baile de Máscaras transformou o salão de Tara em um labirinto de sedas, mistérios e identidades ocultas. Sob o disfarce de veludo negro e uma máscara de prata, Marcos observava a multidão, tentando ignorar a presença constante de uma figura em um vestido de seda azul-noturno que o seguia como uma sombra persistente.

​Anastácia, escondida sob uma máscara de rendas delicadas, não precisava de nomes para reconhecê-lo. O porte aristocrático, o cheiro de couro e especiarias do Sul, e a tensão que emanava dele eram bússolas para ela. Sem dizer uma palavra, ela se aproximou e segurou a mão dele, puxando-o para fora da luz dos candelabros, em direção aos corredores silenciosos que levavam à biblioteca real.

​No Santuário do Conhecimento

​A biblioteca estava mergulhada na penumbra, iluminada apenas pelas brasas moribundas da lareira. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada de ambos. Marcos fechou a porta pesada de carvalho, mantendo a distância.

​— Anastácia, chega de jogos — disse ele, a voz rouca e carregada de autoridade. — O baile é lá fora. Volte para o seu pai e para os pretendentes que ele escolheu.

​Em vez de responder, ela levou as mãos à nuca e desamarrou as fitas da máscara, deixando-a cair no chão de pedra com um som seco. Seu rosto, banhado pela luz alaranjada do fogo, revelava uma determinação febril. Com um movimento lento e deliberado, ela começou a desabotoar o corpete do vestido.

​— Anastácia, pare com isso agora! — Marcos ordenou, dando um passo à frente, mas seus pés pareciam presos ao chão.

​Ela não parou. O vestido escorregou pelos ombros, revelando a pele alva e a vulnerabilidade de uma mulher que estava apostando tudo.

​— Olhe para mim, Marcos — ela sussurrou, a voz trêmula, mas firme. — Esqueça os títulos. Esqueça o sangue que nos une por lei. Olhe para a mulher que você mesmo treinou, a mulher que conhece cada cicatriz da sua alma. Eu não quero um pretendente. Eu quero o homem que me ensinou a lutar.

​O Conflito e a Lâmina

​Marcos sentiu o mundo girar. O "Dever" gritava em sua mente, lembrando-o da promessa feita a Dominic, da gratidão a Luan e da honra que ele reconstruíra com tanto sacrifício. Mas o "Coração" pulsava diante dele, personificado na beleza proibida da sobrinha. Por um segundo, ele vacilou; seus olhos percorreram o contorno do rosto dela e o desejo quase o venceu.

​Contudo, a imagem de Silas — o pai biológico que destruíra vidas por impulsos egoístas — surgiu em sua memória como um espectro sombrio. Ele não seria como ele. Ele não trairia a confiança de Luan.

​Endurecendo as feições até que seu rosto parecesse esculpido em gelo, Marcos deu um passo atrás, desviando o olhar com desprezo fingido.

​— Cubra-se — ele disse, e sua voz saiu tão cortante quanto uma lâmina de aço. — Você não é uma guerreira agora, Anastácia. Você é apenas uma criança mimada tendo um surto de rebeldia porque não consegue o que quer.

​Anastácia congelou, o choque paralisando suas mãos.

​— Você acha que isso é amor? — Marcos continuou, rindo com um escárnio cruel que a atingiu como um tapa físico. — Isso é apenas o tédio de uma princesa que cresceu demais. Você me enoja ao pensar que eu jogaria minha honra e a paz deste reino no lixo por uma fantasia infantil. Eu sou o seu tio, o seu mentor e o Conde de Mônaco. Você é apenas um dever que eu cumpri.

​A Ruína do Sonho

​As palavras de Marcos foram cirúrgicas. Ele viu a luz nos olhos dela se apagar, sendo substituída por uma humilhação profunda e devastadora. Anastácia puxou o tecido do vestido contra o corpo, tremendo, as lágrimas começando a transbordar, mas ela se recusou a deixá-las cair na frente dele.

​— Saia — ele ordenou, virando-se de costas para a lareira, para que ela não visse o tremor em suas próprias mãos. — Saia e nunca mais ouse me olhar dessa forma. Se você contar a alguém sobre esta noite, eu mesmo farei questão de que você seja enviada para o convento mais distante do Sul.

​Sem dizer uma palavra, Anastácia recolheu sua máscara e correu para fora da biblioteca, o som de seus passos apressados ecoando como o fim de uma era.

​Marcos desmoronou em uma poltrona, cobrindo o rosto com as mãos. Ele vencera a batalha pelo dever, mas sentia que, ao humilhá-la para salvá-la de si mesma, acabara de matar a única coisa que o fazia se sentir verdadeiramente vivo.