Obscuro
5 Capítulo 4 - Queimar
Notas iniciais
– Este será o seu quarto.
O cômodo simples e completo que me encara é estranho aos meus olhos. A tintura branca que descasca de leve, os ladrilhos avermelhados polidos artificialmente. Tudo parece exibir uma ilusão de limpeza, pois nada está realmente tão limpo no mundo humano. Aceno em sinal de agradecimento para o senhor West, com o qual acabei de trocar algumas palavras. Ele me alugará este quarto de modo temporário, enquanto eu fornecer meus serviços em um de seus estabelecimentos.
Com seus cabelos castanhos, indo em direção ao grisalho e seus olhos azuis penetrantes, ele não se parece nada com o seu filho. Jaden. Presumo que a mãe deve ter mais traços nele. Assim que West deixa o quarto e fecha a porta de um tom escuro, deixo o meu olhar correr pelo local e devorar cada detalhe.
Encontro uma outra porta que deve dar ao banheiro. Reviro os olhos. As acomodações humanas são realmente inúteis e a fraqueza que parece enublar minha mente apenas impede que eu forme qualquer pensamento positivo em relação a minha situação. O quarto está relativamente vazio, aguardando por pertences que possam preenche-lo. Sento-me sobre as cama coberta com lençóis brancos e pretos. A perfeição forjada de todos esses móveis me faz querer rir.
A casa de Jaden também é luxuosa. Pergunto-me por que ele ofereceu esse quarto para mim, uma fada que estava dormindo em um banco há pouco tempo atrás. Afasto os pensamentos e vou até o banheiro.
Abro as torneiras e água gelada escorre pelas minhas mãos. Quando pequena sempre quis ser uma fada da água. Ás vezes eu era confundida com uma, quando corria escondida pelos campos, por causa do meu cabelo. Mas não sou uma delas. Não sou pura o suficiente.
Encaro o reflexo perturbado que me encara em um objeto humano pendurado na parede. Os cachos azuis pensem por cima de meus ombros e recaem sobre minhas costas, embaraçados. Meus olhos apresentam marcas profundas de cansaço. Minha pele pálida parece ganhar um pouco de cor, o que sinaliza que não estou nada bem.
Me afasto dessa visão atordoante e volto a desabar sobre a cama. O cansaço me afoga nas profundezas de mim mesma, que pretende descansar, e antes que eu possa lutar a respeito, o sono parece tão tentador que deixo que ele venha me buscar. Ele vem.
Batidas na porta me arrancam do sono e me ergo alerta. Me encontraram? Porém, logo relaxo lembrando onde estou. Não podem me encontrar aqui, não irão conseguir me matar por enquanto. Sinto-me desconfortável por não reconhecer nada familiar neste lugar, porém pior do que isso é o estado em que minhas vestes se encontram.
Se eu tivesse magia neste mundo, poderia simplesmente conseguir novas vestes canalizando a intensidade da escuridão, mas como não tenho preciso andar desse jeito. Não compreendo como humanos vivem assim.
Paro de me preocupar com minhas roupas quando um pensamento sombrio me faz estremecer. Magia. É impossível ter magia no mundo humano, eles simplesmente somem. Porém eu fiz magia. Na loja da Wisa, eu senti como uma força se apossou se mim e derrubou tudo. Um calafrio cativa meu corpo e tento reprimir o medo que me invade. Não tenho magia. Minhas asas desapareceram. Não há como eu ter magia neste mundo. Eu não sou perigosa aqui.
Enquanto me reconforto com essas mentiras concentro-me nas batidas da porta e na voz que a atravessa.
– Dafir? – É a voz do Jaden.
Deixo o silêncio cumprir o seu papel. De nada adianta, já que Jaden adentra o cômodo mesmo assim.
– O que você quer? – indago, sentando-me sobre a cama, escondendo o horror da minha descoberta.
– Ah, só pensei em conversar com você um pouco. Meu pai precisa ter certeza de que está apta para servir de ajuda.
Reviro os olhos. Humanos tolos.
– Vamos logo com isso – digo e um sorriso, estranhamente diferente, surge em seu rosto. É um sorriso estranho. Nunca vi algo assim em outro rosto humano, talvez por não ter visto tantos humanos assim.
Jaden se aproxima e senta ao meu lado, nos lençóis brancos da cama.
– Certo, irei fazer algumas perguntas. – aceno, dando-lhe a entender que ele pode começar.
Apesar de me incomodar com isso, me controlo. Estar aqui é melhor do que ficar sem rumo. Na verdade continuo sem rumo, porém ainda é melhor ficar sem rumo num quarto arrumado, do que em cima de um banco da praça.
– Qual o seu nome completo?
Meu sangue gela e meu coração acelera. Fadas não devem dizer seu nome completo, pois isso dará domínio sobre si mesmo para quem souber.
– Dafir – penso um pouco e acrescento – Liang.
Jaden franze as sobrancelhas mas acena com a cabeça, prosseguindo.
– Me conte um pouco sobre você... Dafir Liang. – O sorriso que ele devolve, me faz desconfiar de que ele não acredita no meu sobrenome.
– Eu sou completamente normal. – digo.
Jaden ergue as sobrancelhas.
– É sério. Apenas estou sem habitat no momento. – completo, usando uma palavra bastante humana.
Não entendo o porquê, mas minha resposta faz Jaden gargalhar. Raiva aflora em meu peito e cerro meus olhos em sinal de ameaça. Qual a graça?
– O que foi? – indago firme.
– É que você... – começa ele, mas desiste ao identificar meu olhar – Esquece.
Depois de se recuperar, Jaden continua.
– Onde está sua família, Dafir? – Me pergunto o que isso tem a ver com o fato de eu estar sendo entrevistada para algum serviço estúpido.
– Longe. – respondo, torcendo para que seja o suficiente.
Jaden acena novamente coma cabeça, em sinal de compreensão.
– Minha mãe também. – tristeza rasteja para fora de suas palavras.
– Ah – fico surpresa – Onde ela está?
Um sorriso triste nasce em seus lábios e pode ser paranoia, mas uma faísca de raiva surge em seus olhos e desaparece.
– Ela desapareceu. – diz e se levanta.
Pretendo dizer um sinto muito, porém antes que as palavras considerem sair da minha boca, Jaden deixa do quarto. Pelas horas seguintes ninguém mais veio para me indagar nada e se por parte isso me causa alivio, por outro sinto que há algo de errado. Esfrego minhas mãos e resolvo tomar um banho. Deixo que a água flua e carregue consigo a dor e a frustração. Devo esquecer isso e apenas aproveitar. Tudo irá dar certo.
Repasso meus planos desesperados enquanto visto minhas vestes, mesmo que imundas. Eu queria encontrar o filho de Wisa para arrancar dele a resposta, de como ele conseguiu mudar a vida a qual ele estava destinada. Como fracassei resta apenas uma opção. É a mais desesperada e arriscada: Preciso matar o humano escolhido para me derrotar.
Como o encontrarei? Essa é apenas uma das milhares de indagações. Além disso não há garantia de que destruindo o ser que é responsável por trazer o bem, destruirei meu mal, porém o que mais posso fazer? Quero viver, não importa que consequências isso traga para o mundo.
A escuridão parece fortalecer-me quando anoitece, odeio isso. Apenas outro lembrete do que eu sou. Esqueço as preocupações e penso apenas no sono. Grito por ele, imploro para que venha me buscar.
Ele vem.
Como a superfície da água, lisa e tranquila. Iluminada pelo luar, alimentada pela escuridão. Sinto-me assim, acolhida pelo sono. Onde não preciso correr para viver. Apenas flutuo sem me preocupar em ser morta. O único lugar onde posso ter paz.
E então algo se atira contra a água, trazendo um distúrbio, destruindo a paz. Absorvendo desespero.
Com um grito desesperado abro os olhos em pânico e me debato desesperada. A dor quebrante se espalha na região de meu pescoço, onde algo é pressionado e meus braços estão presos sob algo. Não consigo formar palavras, tudo que consigo sentir é dor, tudo no que eu tento pensar é nublado. Minha garganta arde, mas não tanto quanto o meu pescoço, que queima como fogo. Minha visão fica turva. Não aguento mais. Estou em chamas por dentro.
A dor me incendeia.
– Tenho mais uma pergunta para você, Dafir – Uma voz familiar me causa um calafrio em meio ao fogo quando reconheço a voz – Como é ser uma fada nojenta?
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