Obscuro
2 Capítulo 1 - Viver
Notas iniciais
As luzes ardentes desse mundo ainda refletem-se diante de meus olhos. Pessoas comuns e felizes caminham por entre as ruas vivas e movimentadas daquela cidadezinha ordinária. Raiva floresce em meu interior ao ver toda aquela felicidade, toda aquela liberdade que nunca terei. Não posso ter.
Caminho depressa, de cabeça baixa e coberta por vestes esquisitas de inverno, geralmente usadas por aqui. Nesse mundo estranho. As lágrimas que se acumulam em meus olhos permanecem frescas e perdida sigo a trilha rumo à incerteza, certificando-me a todo momento que eles não estão me seguindo.
Sou odiada por todos. Na verdade todos de minha espécie são. As fadas obscuras são frutos de uma maldição lançada, sem querer, por uma antiga rainha das fadas, muito tempo atrás. Apenas existimos para não destruir o equilíbrio, mas apenas a nossa existência já afeta a vida de todos à nossa volta. Claro que isso me intriga, porém não posso viver colocando a culpa na minha existência.
Acontece que eu sou a caçula da família. A única com 17 anos. Meus pais já foram mortos, depois de concluírem a cerimônia das luas e firmarem o mal para todo o resto limitado de sua vida, tiveram filhos que serviriam para a geração seguinte, o que os tornou inúteis. Dyx é o mais velho, característico pelo cabelo prateado e os olhos negros. Já passaram 15 anos desde sua cerimônia e ele está sendo forçado a ter um filho com Fayena, minha irmã. Não importa o quão estranho isso possa soar, mas apenas há uma família obscura que conseguiu a chance de viver e essa família necessita se reproduzir não importa com que meios, para manter o equilíbrio de Starlix. Para que a paz restante não se vá.
Listya e Jox possuem ambos 19 anos. Seus lados sombrios e inevitáveis já foram oficializados e em breve, serão pressionados a terem filhos para dar continuidade a nossa detestável espécie. Nós somos odiados por todos os outros, até aqueles que escolheram o mal por livre arbítrio. Eles nos culpam. Já que nós não temos escolha, sempre cederemos ao mal. Nos detestam pois fomos nós que os infestamos. Nós os destruímos. Ao menos é o que dizem.
Eu sou a última filha nascida. Última fada obscura criada, a mais recente. Logo, não mereço a vida. Devo morrer, estou fadada a isso, atada a esta injustiça desde que abri meus olhos pela primeira vez para um mundo que apenas me recebeu com ódio. Acontece que a família obscura nunca pode completar-se por inteiro. Caso se complete, a nossa existência se tornará ainda mais real. Em outras palavras, se eu completar a cerimônia e ser tomada pela escuridão infinita, sugarei todo o poder das rainhas e o transformarei em pura maldade, tornando Starlix e o mundo humano um completo caos que desabará em destruição.
Para evitar esse caos, a rainha antiga decretou que a fada obscura mais recente, que finaliza uma geração da família, deverá ser morta antes que tenha a chance de participar da cerimônia. Antes que complete 18 anos.
Eu devo ser morta.
Nem verei o meu sobrinho, que por sorte não será o último da próxima geração. A minha vida é um desperdício para todos eles. Ninguém se importa com o fato de que não terei a chance de viver. Infelizmente não há nada que possa mudar o meu destino terrível.
E naquele dia, antes de amanhecer, com o sol alegre desvencilhando-se da nossa presença, antes que batessem em minha porta para me matar, eu escapei. Eu fugi.
Deixei todos para trás. Não quero ser morta, não quero perder tudo que o futuro talvez tenha a me oferecer. Quero ser livre. Esse é o desejo mais ardente e profundo que tenho. Então corri. Aproveitei os últimos instantes em que possui asas e voei para longe. E assim que encontrei o caminho por entre as estrelas, adentrei. Ignorando todo o caos que eu causaria, toda a dor, todo o desespero que desabaria sobre Starlix com a minha sobrevivência, atravessei a porta que me levaria para um mundo melhor.
Um mundo onde tenho a esperança de conseguir a escolha de viver.
Penso que o que fiz se desenvolve realmente como uma loucura. É errado, mas não posso me dar o luxo de sentir culpa. Ainda não estou pronta para isso. Se for para eu me sentir miserável, que seja quando eu estiver a salvo.
Silenciosamente adentro uma esquina calma e escura que se estende por um beco. Caminho cada vez mais fundo e quando não há mais nada além de uma parede dura de concreto bloqueando o meu caminho, desabo no chão, frustrada. Estou sozinha. Completamente.
Enterro o rosto nos joelhos e tento encontrar algum pensamento claro em meio aos devaneios confusos de minha mente. Deve haver uma solução, minha existência não pode ter sida em vão. Precisa haver algo para reconfortar-me, para recolher minhas lamentações. E mesmo se não houver há outra coisa com a qual devo preocupar-me.
Deslizo uma mecha de meu cabelo azulado para trás da minha orelha pontuda. Em uma semana terei de passar pela cerimônia. Ainda que não me matem minha essência me fará escolher o lado negro. Seja da minha vontade ou não.
Não posso permitir isso. Não quero.
E com certeza irei impedir tudo isso de alguma forma.
Mas também não quero ser morta. Nem causar destruição.
Para todo mal há o bem, não é mesmo?
Sem um não pode haver o outro, e se um deixar de existir o outro também. Eis a solução tenebrosa que invade meu ser. O bem para o meu mal é o ser humano destinado a me deter.
Se eu deter o meu bem, talvez eu detenha o meu mal.
Ergo-me com o rosto ainda molhada e cerro os punhos de maneira determinada e sombria. Com passos calculados vou em direção a um lugar que talvez possa me ajudar.
Preciso matar o ser humano.
Preciso matar o meu bem, para deter o mal.
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