Obscuro

3 Capítulo 2 - Escapar


Notas iniciais
Oi pessoal, aqui estou eu novamente. Boa Leitura! :) (O nome da ninfa se pronuncia Uaisa)

Minhas pernas latejam, enquanto sou iluminada pela luz do sol que paira ao amanhecer. Em Starlix o cansaço não representava problema. O que significaria afinal um mero sentimento? Porém nesse mundo tudo é diferente e ainda há o fator do esquecimento, a descrença dos humanos que arranca a cada instante uma quantidade da existência de qualquer criatura mágica, ainda mais uma que se encontra em meio a eles.

Perder quantidades do próprio ser pode deixar uma pessoa bem cansada por aqui. Ao menos ainda consigo andar, desviando constantemente do cheiro ácido de ferro que impregna minhas narinas e ardem como fogo. Ainda assim sentir a ardência e o cansaço tentando arrastar-me é melhor que morrer. Com esse pensamento cravado em minha mente continuo em busca de uma pessoa.

É uma lenda bem conhecida. Um jovem destinado, que mudou o seu destino. Uma bobagem. Mas admito que me agarro com força nessa história, acredito com todas as minhas forças em sua existência. É a minha esperança e não irei permitir que ela me escorra pelos meus dedos.

Claro que ele não é uma fada obscura e não estava destinado a algo tão terrível quanto eu, mas é a única opção que tenho. Ouvi falar que ele fora banido da estrela Elixar por mudar o que fora escolhido para o seu futuro.

Posso viver com isso.

Ao menos irei viver, se conseguir.

Não o conheço, nem sei onde encontra-lo, mas sei de uma pessoa que pode. Não sei se a história é real, mas ouço rumores sobre uma fada, refugiada no mundo humano, que seria a mãe dele.

E, felizmente, sei onde ela se esconde.

Continuo a caminhar, ignorando o sono e o cansaço que despencam sobre mim como pesos. Poucos humanos estão acordados a essa hora e sinto-me segura. Sei que essa segurança não passa de uma ilusão, uma tentativa de me tornar positiva, porém sou uma fada obscura. Não há nada de positivo em mim.

Preparo-me para virar uma esquina quando um impacto me lança contra o chão. Assim que caio, fecho os olhos e o pânico se arrasta em minha direção.

Eles me encontraram.

A vontade cortante de gritar e chorar parece tentador. Dessa vez não há como escapar. Eles irão me matar. Roubarão minha vida, para que possam sobreviver. Permaneço no chão, de olhos fechados e coração apertado. Espero que seja rápido.

– Você está bem? — Meu coração acelera de susto, quando escuto uma voz masculina nada anormal — Parece que viu um fantasma.

Abro os olhos e dou de cara com uma mão estendida em minha direção, ergo o olhar e o rosto de um garoto entra em meu campo de visão. Seu sorriso revela leve divertimento com minha reação. Um humano. Claro, qual outra criatura, não sendo parte da minha família, teria coragem para tocar-me?

Aceito a sua mão quente e macia que fica em contraste, perto da minha pele pálida. Assim que levanto evito olhar para aquele ser.

– Desculpe, não vi você — diz e coloca os aparelhos transmissores de sons de volta nas orelhas.

Quando finalmente o encaro, noto que o tom de sua pele é apenas levemente mais escuro que a minha palidez e seus olhos castanhos destacam-se, cobertos pelos cabelos ruivos que pairam sobre sua cabeça. Ele acena com a cabeça e se vai, entrando na massa de pessoas que começa a encher a rua. Balanço a cabeça como se tentasse recuperar-me de algum torpor e continuo o meu caminho, expulsando constantemente o garoto que me causou tanto susto da minha mente.

***

A porta se abre com um estrondo e revela-me um estabelecimento tranquilo, cercado de antiguidades esquisitas que nenhum humano em sã consciência compraria ou iria necessitar. Com passos calculados adentro o espaço, inalando o ar abafado que me cerca. O cheiro de poeira me invade e observo todo espaço em busca da criatura de estatura mediana e cabelos verdes.

Aproximo-me do balcão de madeira falsa à minha frente e aguardo, olhando para a porta a cada minuto, com medo de que possa ser descoberta e executada a qualquer momento.

– Wisa — Recordo-me o nome da tão comentada dríade — Wisa!

Passos entoam por trás de um corredor ocultado por um pano verde e espero nervosa, o coração martelando em meu peito. Quando a, aparente mulher-de-meia-idade-na-verdade-ser-mágico-ocultado, aparece sua expressão demonstra desprezo e surpresa. Ao mesmo tempo seu olhar se torna gelo e ela parece desejar perfurar-me com seus olhos.

– O que você faz aqui, Obscura? — diz, cerrando os olhos com clara desconfiança — Não há nada aqui para criaturas como você.

– Eu só quero saber uma coisa. — confesso, ainda assim seus lábios se contorcem em um sorriso de desdém.

– Não há nada que eu possa lhe contar, que você já não saiba — afirma de maneira afiada — Agora saia daqui antes que eu perca clientela por causa de uma fada cretina como você!

A raiva floresce até a superfície e bato com força no balcão.

– Eu não vou a lugar nenhum — grito — Irei ficar, até que você me diga o que quero saber!

A explosão custa bastante determinação da minha parte para convencer uma ninfa tão velha que com certeza, escolheu o mal por vontade própria na cerimônia que deve ter feito há séculos. Indago-me se a sua árvore se encontra além da cortina verde.

– Não devo-lhe nada. — responde Wisa um pouco mais insegura, desviando seus olhos castanhos para o chão e prendendo o cabelo verde atrás da orelha pontuda.

– Ah, mas você com certeza não quer que eu encontre a sua árvore e a incendeie. — ameaço, mirando-a com o olhar mais perigoso que encontro.

– Você é realmente fruto de toda a maldade que habita o mundo — dispara ofendida — O que quer saber?

– Eu sei que a história do seu filho é real — Na verdade não sei, mas tenho esperanças que se confirmam quando Wisa arregala os olhos — Quero que me diga, onde posso encontra-lo.

– Não. Você está louca — Depois do choque, um sorriso resplandece em sua face — Você quer imitar as atitudes dele? Assim destruirá Starlix.

Confusa, franzo a testa. O que ela quer dizer com isso. Como ela sabe de meus objetivos?

– Saiba que eu estive esperando por você.

Arregalo os olhos e mãos firmes agarram-me por trás, sufocando meu grito e impedindo-me de correr.

Medo e desespero correm pelas minha veias e tento inutilmente me soltar. Tento arranhar, morder, machucar o meu opressor de alguma forma. Então os olhos de Wisa me encaram com frieza, antes de ela erguer o olhar para seja lá quem estiver me segurando, e pronunciar as palavras que mais temi na vida.

– Mate ela.

Notas finais
Tenso, hein... Pois é, agora está na hora de vocês soltarem o verbo sobre o que acharam. Ou se tem algum palpite do que acontecerá ou de quem está a ponto de realizar o pesadelo da Dafir.